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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Ritmo da Cura

Uma das imagens que ficaram na minha cabeça no Congresso da Associação Brasileira de Sono foi uma Polissonografia de um paciente com um quadro ansioso grave, em que o Sono de Ondas Lentas foi quase completamente substituído por uma frequência muito alta. Traduzindo para o Português, o paciente dormia, mas seu Cérebro funcionava como acordado. Isso explica aquelas queixas das pessoas que aparentemente dormem a noite inteira e acordam dizendo que não dormiram absolutamente nada. Para seu Cérebro, foi como se estivessem acordadas quase o tempo todo.
A Psiquiatria acaba levando a fama de estar a serviço da Indústria Farmacêutica, enfiando remédios com ação no Sistema Nervoso Central em todo mundo que escorregar perto dos consultórios. As comadres hoje não trocam mais receitas de bolo, nem de perus de Natal, mas qual o melhor ansiolítico ou qual antidepressivo engorda ou não. Qual o psiquiatra é mais bacana e qual consultório é decorado pelos caras da moda. As salas de chat e os grupos de Facebook relatam as experiências com novos medicamentos. Viver sem um antidepressivo está completamente out. Como eu falei acima, os psiquiatras e a Indústria levam a fama, e fazem jus a ela até certo ponto. Mas estamos em um mundo em que Donald Trump é presidente dos Estados Unidos, todos os referendos pedidos democraticamente às populações deram resultados bizarros: a Inglaterra deixa a Comunidade Europeia, a Colômbia rejeita o acordo de paz com as Farc, premiês caem após as consultas. No Brasil, famílias de engalfinham nos grupos de WhatsApp por conta de Dilmas e Temers. Como já foi falado muitas vezes nesse blog, o mundo está fora de frequência, deixando todo mundo um pouco louco. A Civilização está inflamada e acelerada, e a Psiquiatria corre atrás do prejuízo. As pessoas estão cansadas, angustiadas, fora de prumo.
Aqui no Brasil a medida da insanidade coletiva foi representada pela morte estúpida de 71 pessoas no auge de suas vidas pela ação estúpida e irresponsável de um piloto e dono de empresa de aviões comerciais, a LaMia. Chamar a empresa de A Minha não era mesmo bom sinal. O avião espatifado na serra, há poucos quilômetros de Medelin foi um tapa na cara nossa, que vivemos brigando com o tempo e os relógios. Fazer rápido é melhor do que fazer bem. Os corpos espalhados na serra são a bofetada, pois todo mundo sentiu que poderia estar naquele avião.
A Medicina está timidamente estudando a Cronobiologia, para tentar o que as Medicinas orientais sabem há milênios, que é a necessidade de reencontrar os ritmos e as frequências da vida e da cura. Uma pista muito clara estava naquela polissonografia e seu ritmo frenético: a frequência perdida é das ondas alfa, as ondas lentas. Não é à toa que assistimos ao boom de cursos de Meditação, aulas de Yoga e Relaxamento. Tudo é uma busca coletiva pelo ritmo mais lento e harmônico, mais próximo da Natureza ou da vibração e ritmo intrínseco da vida. Um estado de Atenção Plena e Relaxada, que deixa o Cérebro com ondas mais lentas e o Coração com frequências mais simétricas e equilibradas. Se isso virar uma prática e uma pesquisa profunda, garanto que o consumo de psicotrópicos vai cair muito. Vejo todo dia nos meus consultórios que o trabalho com os ritmos internos e externos economiza muita medicação e encurta tratamentos. Buscar um ritmo diferente muda todo o jogo e salva vidas. Estamos caminhando para uma Medicina dos Ritmos e da Vida. Espero.

domingo, 3 de julho de 2016

Atenção Plena, e Relaxada

Nesses vinte e cinco anos de Psiquiatria que eu vivi, houve uma incrível multiplicação de alternativas terapêuticas para os quadros psiquiátricos. Nem dá para se comparar o que aconteceu em termos de medicamentos e estratégias para diminuição do sofrimento psíquico. Os tratamentos foram se tornando mais rápidos e direcionados, os sistemas de neurotransmissão mais compreendidos, chegando às portas da manipulação genética. Quando a Fluoxetina foi introduzida na Rede Pública nos anos 90, o argumento da Indústria Farmacêutica é que as pessoas ficariam cada vez mais felizes e portanto adoeceriam menos. A melhora da angústia do viver levaria à economia de recursos e diminuição de gastos com a Saúde. Como se sabe, não foi isso o que aconteceu. Os quadros depressivos se tornaram mais frequentes e mais graves, os índices de suicídios estão cada vez mais prevalentes e epidêmicos. “Surtar” virou um termo corriqueiro em nossa vida diária. Entendemos melhor as doenças e elas estão ficando mais frequentes e graves. Onde estamos errando e onde está nosso ponto cego?
Desde os anos 90, o trabalho pioneiro de John Kabat-Zinn vem adaptando para o Ocidente uma série de conceitos e métodos budistas para tranquilização da mente e redução de estresse. Agrupou isso em um nome, Mindfulness. Pode ser descrito como uma forma de criação de um observador interno, que assiste à nossa própria vida, observa calmamente os pensamentos em ebulição de forma ativa e não julgadora. Isso vai produzindo uma observação serena de nosso labirinto de pensamentos, medos e desejos que ficam dando espirais e piruetas dentro de nossas redes neurais.
Temos em nosso Cérebro um Sistema de Recompensa que é ativado e está relacionado com as Dependências de Drogas, por exemplo. Nosso mundo está inflamado por vários motivos, mas um deles deriva claramente da superestimulação dos sistemas de Recompensa. Vivemos uma espécie de novo moralismo, que é o Moralismo Hedônico. Tudo deve ser intenso, todos os sentidos devem ser estimulados, todos devem transar como astros pornô ou comer como candidatos do Masterchef. Todas as fotos nas redes sociais são de Revista Caras e todos devem ser, obrigatoriamente, hiperestimulados. As crianças estão deprimindo cada vez mais cedo, as mulheres estão enfartando como os homens e uma em cada três pessoas vai ter Câncer em sua vida. Obesidade, Diabetes, Câncer e Transtornos Psiquiátricos podem estar vindo do mesmo lugar, que é a fornalha de desejos e buscas de intensidade. Tudo é muito intenso e descansar pode significar perder alguma coisa. Já atendi mais de uma pessoa que não consegue dormir ou descansar por medo de perder alguma balada, ou postagem, ou prazer que pode estar se perdendo no sono.
Mindfulness, Yoga, Pilates, Tai chi, Psicoterapias, Relaxamento, podem ser uma reação contra o mundo inflamatório. Olhar de fora os pensamentos girando em pistas ovais é uma forma de reduzir e começar a organizar a correria e a ânsia permanente de estímulo. Inicialmente pode-se dizer que essa desaceleração provoca desconforto. Muita gente sai correndo na primeira aula, no final da primeira sessão. Desacelerar parece errado. A Inflamação provoca grandes abstinências. Os benefícios demoram a aparecer e todo mundo quer as coisas resolvidas numa clicada.
Estamos perto de uma Psiquiatria, ou, mais profundamente, de uma Medicina voltada para o Positivo e o Integrado. Talvez o mundo exploda primeiro, mas vamos correndo para desinflamá-lo. Com Atenção Plena, e Relaxada.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O Coração do Homem Bomba

Os textos desse blog frequentemente dirigem as suas várias estocadas para dois males correlatos de nossa modernidade (?): a Civilização Inflamatória e a Geração Autoestima, irmãs gêmeas na geração de doença e sofrimento. A Civilização Inflamatória se baseia na criação constante de fissuras e dependências: comer muito, beber até a embriaguez, consumir desenfreadamente. Tudo sofre dessa inflamação: a alimentação, as relações humanas, o envenenamento da natureza. Lembro de uma cena de "Wall Street: o Dinheiro Nunca Dorme", em que o jovem aspirante ao mercado financeiro pergunta ao seu chefe inescrupuloso: Qual o seu número? Qual a quantidade de dinheiro que finalmente vai deixá-lo saciado? Ou vai tirá-lo dessa roda viva? Mais. Essa é a resposta da Civilização Inflamatória: Mais. Mais dinheiro, mais poder, mais comida industrializada, mais estímulo, mais acúmulo de coisas, trecos, brinquedos para dar uma fugaz sensação de saciedade, que vai ser substituída pela busca do Mais. Quero Mais. As células respondem a essas mensagens. Acumulam gorduras, multiplicam-se, tornam-se indiferenciadas, os anticorpos se voltam contra elas. As Mentes inflamatórias criam as células inflamadas.
A geração autoestima tem também seus Egos insaciáveis. Egos siliconados e acelerados. Não interessam as capacidades de Ser, mas o que Parece. O teatro de Personas nas fotos fotoshopadas das redes sociais. Ninguém pode se frustrar. Toda Autoestima deve ser burilada e maquiada. As frustrações são punidas aos berros, imagina alguém interferir e arranhar a minha autoestima.
Engraçado como nas livrarias as prateleiras de Psicologia estão sendo tomadas pelos livros de Autoajuda: Livre-se de Seus Medos, O Seu Ser Magnificado, Essa sou Eu, Homens Gostam das Mulheres Poderosas. E por aí vai. Manuais para encontrar a Riqueza ou a Alma Gêmea. Salve-se quem puder: cuide de seus sonhos e corra dos vampiros de sua energia.
As pessoas vem ao consultório com medo de dependências: medo de ficar dependente dos medicamentos, do terapeuta, medo de não dormir mais sem remédio. Carregam cinco celulares, checam os e-mails, almoçam as bolachas da recepção e não conseguem silenciar os pensamentos, que dão infinitas voltas dentro de sua cabeça. Mas os remédios podem ser muito perigosos.
A Psiquiatria tenta acompanhar a Civilização Inflamatória com seus medicamentos. Medica demais, e mal. Todos estão acelerados, então explodem os diagnósticos de Bipolaridade e Deficit de Atenção e Hiperatividade. Não é por acaso que estes diagnósticos explodiram. Junto com os Transtornos de Sono. Tudo gira em torno da correria e das células inflamadas. Todos correm atrás de suas fissuras e dependências. Mas fazer terapia é coisa de maluco.
Os atentados terroristas do Estado Islâmico na França foram feitos por cidadãos franceses, recrutados pelos fundamentalistas. Fico pensando no tipo de desespero que move essas pessoas. O que elas estão querendo explodir? Para o que estão tentando chamar a Atenção? Nesse mundo em que todos cuidam do próprio prazer e do perfil no Face, essas pessoas vivem uma grande crise de nosso tempo, que é uma crise de Significado: o trabalho perdeu o significado, os políticos e os governos são esta piada, as próprias famílias se afundam nas telas dos smartphones. O líder fundamentalista nada de braçada no desespero e na exclusão. Oferece ao homem bomba significado, uma causa para viver e morrer por ela. Estou justificando os atos terroristas desses caras? Pelo amor de Deus... Estou tentando entender onde navegam esses recrutadores de jovens mártires. E posso dizer sem medo: eles navegam na Exclusão e na Indiferença. Essa é a nossa doença, que a Psiquiatria e a Psicologia devem arregaçar as suas mangas para tratar. É fácil plantar o ódio onde ninguém presta atenção ao Outro. O curador deve dar o seu olhar. A sua Atenção. E deve trabalhar as fissuras infinitas e os Egos vorazes. Está na hora de desacelerar e ter um Mundo Interno, para recuperar o Significado.

sábado, 18 de outubro de 2014

Medicação é Solução pra Mim?

Estava no Congresso de Psiquiatria em Brasília, assistindo uma aula sobre Depressão e Atividade Inflamatória, mas era antes, uma aula de como dar aula. A fala da mocinha da UNIFESP era calma e pausada, e tinha uma delicada musicalidade; cada slide terminava com uma pergunta que abria o próximo, tornando a aula toda encadeada e o interesse da plateia aceso, como se ela estivesse nos conduzindo pela mão para dentro do conhecimento. Há alguns anos atrás tive uma treta teórica com uma Pedagoga, quando disse que o processo de Aprendizagem\Ensino é basicamente um processo de sedução, de ser convidado para dentro do conhecimento como para uma dança, ou um passeio. Ela ficou muito brava, como se isso fosse uma trapaça ou pior, um desrespeito às suas décadas de estudo sobre o que é ensinar e aprender. A mocinha e sua aula eram uma demonstração cabal de minha tese. Uma delícia de aula, provavelmente amadurecida pelo uso. Um dado intrigante da mesma era justamente a estatística que, a despeito de todo investimento e dispormos de medicamentos e recursos inacreditáveis há vinte anos para o melhor tratamento da Depressão, sua prevalência continua aumentando, assim como as taxas de Suicídio nos países do Ocidente, muitos deles com todos esses recursos para tratar a doença mais relacionada com o suicídio, que são os quadros depressivos.
Já falei bastante nesse blog sobre a nossa Civilização Inflamatória e todas as suas consequências para nossa saúde e qualidade de vida. Alimentação Processada, cheia de gordura, açúcares e sódio, sedentarismo, privação de sono e estressores cada vez mais repetitivos e repetidos, tudo isso cria um organismo sempre preparado para ser atacado, o nosso. A aula da moça demonstrava que a Depressão, como as doenças mais mortíferas de nossa época, que são as Cardiovasculares e Oncológicas, tem uma relação direta com a atividade inflamatória elevada, ou seja, com a nossa vida inflamada. Ninguém consegue deter esta escalada, os médicos parecem garçons correndo atrás da bandeja depois que os copos de cristal já caíram no chão. Falar em Medicina Preventiva tem que passar, necessariamente, pelas causas de inflamação: mudança de hábitos alimentares, de hábitos de exercício físico, de hábitos de sono. Teclando isso eu me lembro de um programa na TV a Cabo em que um médico tentava explicar para a mãe de um menino obeso que ele precisava mudar radicalmente os seus hábitos e emagrecer, pois seus parâmetros clínicos estavam todos catastróficos. A mulher olhava para o médico com uma cara de “o que o senhor quer que eu faça?”. Calligaris descreveu a sensação, diante da doença mental, de enfrentar um dragão com um alfinete nas mãos. A sensação é essa mesmo. O médico pedindo para o garoto de alimentar melhor enquanto ele mastigava um pacote de batatinhas fritas.
As mídias bombardeiam os psiquiatras e seu uso de medicamentos, como se fosse um bando de mafiosos criando dependências e dependentes, a soldo do poder dos laboratórios muito interessados em criar doenças e mercado para os seus medicamentos. Tenho sempre a sensação que essa fúria midialógica está mal direcionada, atacando as consequências antes das causas dos fenômenos. Se o ser humano é constituído estruturalmente pela sensação de Falta e de Vazio, a própria Hipermídia promete a cura dessa falta através do Prazer e do Consumo. Estou louco para falar a um jornalista que venha atacar os medicamentos que a culpa da Depressão que estou tratando é dele, cujo site anuncia produtos de beleza ou carrões esporte que venham curar a nossa miséria. Mas não vou fugir à questão que a aula levantou, com grande propriedade: talvez esteja na hora de repensarmos todo o modelo de nosso atendimento. Tratar uma Depressão com a medicação adequada pode ser, apenas, um bom começo, de um processo mais profundo de transformação.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O Vencedor e as Batatas

Caetano Veloso, já num período de maturidade artística, fez uma incompreensível música sobre Alexandre, o Grande, o que não será objeto de análise desse blog. A música era muito ruim e não deve figurar nas antologias de sua impressionante obra. A parte que interessa a este post é uma passagem dessa música em que menciona que o mestre de Alexandre era o filósofo Aristóteles, “cuja cabeça até hoje sustenta o Ocidente”.
Tenho a impressão que a cabeça que sustenta o Ocidente e grande parte do mundo, em nossos dias, é de Charles Darwin. Estou lendo um livro que menciona que Darwin deu de presente uma cópia do seu - “Origem das Espécies”- para um tio, que recusou o mesmo de maneira pouco polida. A sua justificativa é que Darwin tinha abolido a ideia de um Universo ordenado e moral, colocando no trono da divindade o Acaso selvagem. Pois o velho tinha toda razão e nenhuma Razão, podemos assim dizer: desde então, a Física Quântica e a Ciência foram destruindo gradativamente a noção de que há alguma ordem em nosso mundo. Tudo é mutação aleatória de nossos genes, que nos torna mais ou menos aptos a perpetuar nosso Genoma. Vivemos então sob a metáfora do “Gene Egoísta”, isto é, a única moralidade possível é a sua capacidade de sobreviver e perpetuar o nosso material genético (ou perpetuar nossos “genes egoístas”). Prevalecer ou morrer, essa é a lei (lembro quando escrevo isso de Quincas Borba, personagem do incrível Machado de Assis: Ao vencedor, as batatas).
O mundo darwiniano nos legou, paradoxalmente, um mundo mais primitivo do ponto de vista do afeto. Presenciamos um mundo onde grupos, ideias, empresas, pessoas, vivem e morrem com a intenção de prevalecer, superar, eliminar os concorrentes pelos nichos de poder. O mundo está dominado por paleoprimatas que vivem correndo para conseguir as melhores fatias do bolo, ou, de preferência, deter os meios de produção de todos os seus ingredientes. Corremos, corremos com medo da falência, da fome ou, pior do que as alternativas anteriores, do esquecimento. O Inferno é o silêncio.
No seminário que fui, na semana passada, garimpei uma aula particularmente interessante, de uma geneticista que procurava pela diferença genética entre saúde e doença, quais genes “causariam” as doenças. Angelina Jolie à parte, não existem genes projetados pela Mãe Natureza com a finalidade específica de causar doenças. O que ela descobriu é que determinadas doenças tem uma característica em comum de causar problemas e erros de multiplicação e função celular. Doenças como a Hipertensão Arterial, diversos tipos de Câncer e o Diabetes estão associados a esse problema na função das células, o que, por sua vez, está associado à ativação de determinado grupo de genes. Isso, na modesta opinião do escriba desse blog, confirma a origem e o funcionamento comum de diversas doenças de base inflamatória, como as doenças cardiovasculares, neoplásicas, autoimunes e mesmo nas doenças psiquiátricas como as geradas pelo estresse físico e psíquico, como Ansiedade e Depressão. Tudo pode ter uma fonte comum.
Nosso mundo darwiniano glorifica os campeões do correcorre de genes e memes egoístas. Isso produz nas pessoas um estado de urgência e o estímulo aos afetos negativos, como o medo, a raiva, o ressentimento. A sensação de insegurança, o medo do futuro, a alimentação e o estilo de vida inflamatórios estão completamente associados às doenças que tentamos e não conseguimos curar. Já há evidências científicas que cultivar emoções e sentimentos positivos cause um impacto mais profundo em nossa saúde do que nossas emoções darwinistas de luta por territórios e transmissão de genes. O homem sobreviveu às diversas fases de sua acidentada evolução pela capacidade de estabelecer alianças e proteção mútua. A comunicação e a cooperação nos salvaram nessa jornada. Foi isso que nos salvou da Seleção Natural e aumentou a complexidade e a capacidade de nosso Cérebro: fazer amor, não a guerra.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Continuum

Já mencionei em outros posts, relativos à dificuldade de se criar uma visão orgânica, panorâmica, do que seja o adoecer humano, a história dos hindus cegos que tentavam descrever pela palpação, um elefante: um disse que o elefante era uma orelha gigante, outro disse que era uma rabo, uma tromba e assim por diante. Cada um seria capaz de defender seu ponto de vista (sem trocadilho) até a morte. A história é uma metáfora de nossa visão sempre parcial das coisas, a nossa cegueira é a nossa visão em túnel, ou a tentativa de explicar coisas complexas de uma maneira simplista. Sir Bernard Shaw, teatrólogo e pensador inglês, disse que para toda questão complexa há uma resposta simples... que está errada.
O último post traduziu uma visível irritação desse escriba com essas supersimplificações com ares de Ciência. A fonte de inspiração foi um Seminário em local bastante agradável, onde uma séria e bem intencionada colega desenvolvia os estudos sobre a Insônia, mal que afeta cada vez mais pessoas, ou, pelo menos, é muito mais vista e diagnosticada na medida que damos mais atenção a essa queixa. Quase a metade da população vai ter problemas com o sono em algum momento de sua vida. Essa colega em questão descreveu que a Insônia, antes vista como um sintoma, ou um complexo sintomatológico, geralmente ligada aos quadros ansiosos ou afetivos, hoje está ganhando vida própria e se emancipando, virando uma doença em si. Já temos institutos e especialistas voltados para o diagnóstico e tratamento dos Transtornos de Sono, sejam os que ocorrem durante o sono em si, sejam os que se manifestam durante o dia. Há problemas em iniciar, manter ou completar os ciclos de sono durante a noite, o que é secundário a várias doenças e causas orgânicas. Quem dorme mal vive menos, tem mais doenças crônicas como Hipertensão e Diabetes, sofre mais acidentes e prejuízo de capacidades intelectuais durante o dia. Ou seja, pela aula da moça, todos deveriam correr para uma Clínica de Sono e fazer uma Polissonografia.
A aula foi correta, bem fundamentada e baseada em evidências de pesquisa. O que me incomoda tem a ver com a história do elefante. Lá vamos ficar falando da tromba e vamos perder de vista o elefante. Não há dúvida que estudar e entender melhor o sono é lição de casa para todo psiquiatra ou neurologista que preza a sua clínica. Mas o que estamos recebendo são as vítimas de nossa civilização inflamatória. Existe um continuum, uma continuidade entre ansiedade, fadiga, depressão, aceleração, insônia, obesidade e todos os males que tentamos tratar, nem sempre com bons resultados. Na época de hipermídia, somos hiperestimulados o tempo todo a consumir, correr, buscar algo que nos falta e nem sabemos que falta. Esse é grande miolo de todas as questões, psicanalíticas, médicas, antropológicas: vivemos num mundo torturado pela sensação de falta e pela busca desesperada do alívio dessa falta. De um sapato novo a uma namorada nova, tudo, tudo virou um objeto de consumo. O consumo é rápido, pouco recompensador e aumenta a fome. A comida dos fast foods são sempre docinhas e gordurosas, para estimular justamente a satisfação rápida e a atraso da sensação de saciedade. Tudo com o objetivo de consumir-se mais, mais, mais.
A colega dizia que vivemos numa sociedade privada de sono. Não. Vivemos numa sociedade privada da sensação de saciedade. Temos uma alimentação inflamatória, um trânsito inflamatório, um sono inflamatório. O resto é consequência: os estressores geram a ansiedade, a ansiedade aumenta a ânsia de gratificação, a ânsia de gratificação gera o abuso de comida e substâncias, isso vai gerar o ganho de peso, a fadiga, a depressão, a insônia. É tudo um continuum.
O triste é que, se o leitor e a leitora forem procurar ajuda, vão receber exames para ver cada pedaço do elefante. E cada especialista vai dizer que a sua fração do elefante é a mais importante.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Profissão de Fé

Vivemos em uma época de excessos. A Consciência Coletiva nos empurra para isso, para depois vender os antídotos. As pessoas são estimuladas à Atenção Difusa. Prestamos atenção à tudo e à nada, ao mesmo tempo. Não podemos abrir uma página de computador sem recebermos dezenas de mensagens publicitárias e de Pop Ups saltando na tela.
Uma queixa frequente no consultório é que os medicamentos interferem com a Memória, deixando as pessoas mais dispersas e esquecidas. Reclamam disso enquanto conseguem relatar, com precisão, tudo o que aconteceu no período que antecedeu à consulta. Não são lapsos de Memória, mas de Atenção. Os medicamentos, diminuindo a ansiedade, interferem também na capacidade de Concentração, tornando-a ainda mais difusa; a piora da memória e os pequenos esquecimentos são apenas uma derivação desse mecanismo. O sintoma pode melhorar se a pessoa treinar uma Atenção Profunda. Seria isso possível?
A Medicina Chinesa diria que vivemos uma época de excesso de Yang, excesso da energia masculina ou do modo masculino de vermos o mundo. Jesus foi ao deserto e jejuou por 40 dias para encontrar o Caminho. Foi tentado pelo Demônio de três maneiras: primeiro pela fome, sugerindo que transformasse as pedras em pães; Jesus afirmou que poderia se alimentar diretamente da Energia. O Demônio ofereceu para o nazareno o poder sobre o mundo da matéria, todo o seu reino terrestre; Jesus respondeu que aquilo não era poder de verdade. Finalmente, o Inimigo propôs que ele se atirasse do penhasco que os anjos o salvariam; Jesus respondeu que não se deve colocar o Princípio Divino sob teste, nem dar ordens a ele, pois não O comandamos.
Os excessos de masculino nos colocam dentro dessas três tentações, o tempo todo. O domínio sobre a fome, através da alimentação industrializada, produzida em alta escala; o domínio sobre o Outro, através da escravização do consumo;finalmente, queremos dominar o princípio da criação através da manipulação do DNA.
Corremos atrás de consumo e de fetiches. Somos envolvidos na correria. Os cansados e exauridos terminam nos consultórios. Uma Medicina burra busca apenas remendar os feridos e devolvê-los à corrida cega. Uma Medicina mais profunda aproveita o pit stop para devolver ao paciente a sua capacidade de reflexão e de busca de sentido. O medicamento bem utilizado não busca a supressão pura e simples dos sintomas, mas a escuta do seu significado simbólico, como se a doença fosse uma mensagem dos Deuses que denunciam os excessos de Yang e de superfície.
Uma Medicina verdadeira é uma Medicina da Profundidade.

domingo, 17 de abril de 2011

Civilização Inflamatória II

No Congresso Brasileiro de Psiquiatria no ano passado eu assisti uma palestra bacana (adoro garimpar exposições legais em meio a um mundo de mesmice e de jabás de laboratórios que são a base de um congresso médico). O gaúcho bravo dizia que os medicamentos psiquiátricos tinham virado uma commoditie. Diagnósticos, tratamentos, estratégias terapêuticas, tudo regido pelo discurso e a lógica do mercado. Auch! Essa doeu.
Fui a um jantar em consideração a um amigo, era um evento do laboratório, eles fizeram os médicos assistirem aula até às 22:00 hs para poderem ir comer o churrasco. No meio da primeira aula eu saí, atravessei a rua e comi boas porções de camarão e chopp pagos com meu dinheiro ganho honestamente. A classe médica perdeu muito nas últimas décadas, a consulta virou um bem de consumo de baixo valor, já que o que interessa é ter acesso aos exames e às prescrições. Pelo menos podemos exigir que respeitem a nossa inteligência. Teve um congresso no sul que no meu crachá não estava nem escrito Médico, mas Prescritor. É assim que somos enxergados, como os donos das canetas e dos carimbos. Um Prescritor.
Apesar dos bilhões de dólares gastos com exames, pesquisas e procedimentos, as pessoas não estão mais saudáveis. Lembro de uma música de Renato Russo, que dizia que "Há tempos são os jovens que adoecem". Ontem foi enterrada uma filha de Roberto Carlos, o rei, fulminada por um infarto sem ter chegado perto dos cinquenta anos.
O Infarto do Miocárdio tem um componente inflamatório. Diversos tipos de Câncer também derivam da atividade inflamatória. Outro dia estava conversando com uma cliente que estava terminando o curso de Nutrição, procurando material para o seu TCC, como ela é portadora de Lúpus Eritematoso (doença autoimune, portanto, inflamatória), queria pesquisar sobre estratégias de lidar com a doença pela Nutrição. A sua orientadora não tinha nenhuma pista para lhe dar. Como não, cara pálida? Falei para ela do aumento vertiginoso das doenças inflamatórias da metade do século vinte para cá. O que mudou de forma tão importante de lá para cá que os remédios, procedimentos e protocolos médicos viraram um commoditie, mas há tempos são os jovens que adoecem? Antes de mais nada, talvez o maior triunfo da Medicina Ocidental, que foi o advento dos antibióticos e o controle das epidemias e endemias, pela ação preventiva, medidas de higiene e saneamento básico. A fome também foi sendo combatida. A população foi crescendo exponencialmente com essas medidas, gerando a necessidade de aumentar a produção de comida. A comida passou a ser cultivada com adubos não orgânicos, os animais criados sem espaço e pasto. Houve um aumento relativo da gordura Ômega 6 em nossa dieta em detrimento das gorduras essenciais Ômega 3. As quantidades de açúcar e farinha também forma crescendo progressivamente em nossa alimentação. Recentemente li um trabalho em que documentava que os bebês de mães jovens, viciadas em fast food e bolachas já nascem com um organismo propenso à obesidade, como se viesse ao mundo falando: "Vamos acumular que está faltando comida". É só olhar na rua e ver que a tendência epidêmica da obesidade já chegou por aqui. É óbvio que isso afeta a evolução de várias doenças, o Lúpus Eritematoso incluído. Quando acabei de falar a minha cliente me olhou com cara de "como estou ouvindo uma aula dessas no consultório de um psiquiatra?". Pois é. Podemos lançar mão de diversas fontes de conhecimento para ajudar os pacientes. Continuamos médicos, não apenas prescritores.

sábado, 16 de abril de 2011

Civilização Inflamatória

Vou aproveitar esses posts para organizar as idéias para a aula do evento anunciado no último texto. A minha aula vai ser fortemente baseada num autor que venho lendo há algum tempo, um psiquiatra francês, radicado no Estados Unidos, chamado David Servan-Schreiber. David era um pesquisador e neurocentista de destaque, com acesso aos primeiros aparelhos de Ressonância Funcional, os mesmos que provocaram um intenso avanço em nossa compreensão da maravilhosa máquina quântica chamada Cérebro. Em um dos procedimentos para iniciar a pesquisa, David entrou no aparelho para usar o seu Cérebro, no intuito de regular as imagens. Após um silêncio, pediram para repetí-las. Ele achou que o aparelho estivesse com problemas. Infelizmente, não era isso. O exame detectou um Tumor Cerebral que depois revelou-se maligno. Em poucos dias, o jovem e promissor pesquisador deixou o lugar dos médicos e experimentou o difícil lugar dos pacientes. O final da história é feliz, pois após longos tratamentos ele se recuperou e está bem, escrevendo livros que eu adoro ler. A sua carreira como pesquisador é que mudou completamente o foco. David pesquisou profundamente uma visão e uma estratégia mais ampla para enfrentar o Câncer. Descobriu que a Literatura Médica e os colegas estimulavam essa pesquisa com um sorriso amarelo no rosto. Médico acredita em remédios e bisturis. O resto são terapias "alternativas". O próprio nome já é pejorativo e traz um ar de charlatanismo. Que existe muita gente desesperada cuspindo farofa na encruzilhada ou sendo enterrada em rituais xamânicos na busca da cura, não tenho dúvidas. Mas os insights que David colheu em sua jornada de cura foram muito preciosos para serem ignorados.
O que é o Câncer? É um nome que descreve um processo de multiplicação irregular de células. As células cancerosas se multiplicam mais rápida e incorretamente do que as células normais. Rudolf Virchow, um grande médico alemão, observou em meados do século Dezenove a relação entre Câncer e Inflamação. Foi ignorado, como muitos autores de uma descoberta intuitiva. Um século e meio depois foi validado. Hoje é estabelecida a relação entre Inflamação e Câncer. Da mesma forma, muitos psiquiatras do século vinte estabeleceram relações entre Stress e Doença Oncológica. Não foram poucas as vezes em que eu ouvi e ouço um esgar de rancor dos colegas contra essa hipótese. Eles caçam as teorias dos psicanalistas como Torquemada caçava e incinerava as bruxas. Pois vejam só, os psicanalistas tinham razão num monte de coisas. Mágoa vira doença, sim, conflitos internos também. As feridas psíquicas tem conexão com falhas na resposta imune, consequentemente, se você acha que a gripe que pegou após uma prova difícil ou o fim de um namoro teve algo a ver com o stress, sim, teve. Stress, alimentação inadequada e industrializada, sedentarismo, aceleração psíquica e física, traumas e perdas, tudo isso está relacionado com nossa Civilização Inflamatória. Queremos mais, mais, mais. Mais comida, mais dinheiro, mais reconhecimento, mais atenção. Um imbecil matou doze crianças porque estava precisando de um pouco de atenção. Conseguiu, inclusive, está nas capas de jornais e bombando seus vídeos no Youtube.
David descobriu que a Meditação, os Exercícios, a Alimentação e a mudança de hábitos eram formas maravilhosas de reforçar as defesas naturais de seu organismo, levando-o a superar a sua doença por duas vezes. O seu médico observou, satisfeito, que a sua resposta aos medicamentos foi brilhante. Ele deve ter uma genética muito boa, pensou, enquanto tomava a sua Coca Diet e comia um donut, cheio de açúcar e de corantes.