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domingo, 8 de novembro de 2015

Voz do Self, Voz de Deus

O tema era “Psiquiatria e Espiritualidade”, no Congresso Brasileiro de Psiquiatria.(Parecem termos excludentes, mas não são). O convidado falava de um caso daqueles que tiram o sono dos psiquiatras. Uma paciente bipolar com várias internações e fases repetidas de depressão ou mania, que também passou por vários tratamentos, vários médicos, nada dava certo. Depois de muito tentar, ela passou a manifestar o desejo de morrer. Como em muitos casos de quadros clínicos de má resposta, ela estava cansada, quebrada por dentro, sem forças para lutar. O médico, como em muitas situações semelhantes, tentava contornar o grande horror dessas situações, que é a situação ficar sem saída e o paciente acabar de frente com risco de suicĩdio ou de internação, para evitar o pior. A cena que ele descreveu é daquelas que não se costuma descrever em público: a paciente começou a chorar, num profundo lamento. Ela se perguntava, entre soluços, “O que pode aliviar esses sofrimento, meu Deus?”. O palestrante sentiu-se estranhamente inspirado pelo tom bíblico dessa lamentação e perguntou, com o mesmo tom, “Para onde você se volta, em busca de conforto, em meio a esse sofrimento?”. Ele mesmo ficou surpreso com essas palavras que saíram de seus lábios. A paciente voltou-se para ele, diminuindo seus soluços, e confessou que sentia como que uma voz tranquilizadora, bem no fundo de si, dizendo que tudo iria ficar bem, para ela se tranquilizar que tudo iria se acalmar, inclusive o seu sofrimento. O médico perguntou de quem ela achava que era essa voz. Enxugando o rosto ela falou: “A voz parece de Deus”. “E você ouve isso há muito tempo?”. “Ouço há algum tempo, sim”. “E por que você nunca me falou sobre isso?”. Ela chegou a sorri: “Já me acham maluca sem eu contar sobre essa voz…”. O tratamento tomou outro rumo depois desse diálogo, já que o psiquiatra felizmente não achou que a tal da voz fosse uma alucinação. As oscilações clínicas melhoraram e a paciente finalmente assinou um contrato com seu médico de que não tentaria mais o suicídio (já havia tentado três vezes).
Um dado estatístico que esse ciclo de palestras trouxe é o dado que metade dos psiquiatras americanos não acredita em Deus ou em qualquer forma de transcendência à nossa vida material. Devem ser os mesmos que acreditam que a Mente é uma produção do Cérebro. Ou que a doença mental deriva de um pool de genes malfuncionantes. Posso lembrar de alguns colegas ateus que são excelentes médicos, bem como alguns crentes em Deus que são umas antas, mas a cena que o colega descreveu não ocorreria na sala de alguém que não acredita em nada fora do campo da matéria. Também duvidaria que uma bipolar, cicladora rápida, pudesse melhorar de sua doença através de uma voz interior acolhedora. A história seria motivo fácil de chacota.
Jung descreveu o aparecimento da forma redonda em sonhos e desenhos de pacientes vivendo grande tensão e sofrimento psíquico. Fez um paralelo com as mandalas orientais, que para ele representam a totalidade da Psique tentando se restaurar, em momentos de grande perigo. A Psique, seja ela fabricada pelo Cérebro ou pela Consciência corporal profunda, produz essas imagens e intuições procurando encontrar o equilíbrio perdido. A imagem da Mandala pode indicar essa situação dupla, de grande Perigo e de grande força regenerativa. Deve ser por isso que o ideograma chinês para Crise também representa Oportunidade.
Quem prestar atenção pode perceber esse fator de reação quase orgânica do corpo e da Psique em momentos de risco e desequilíbrio. Jung chamou essa estrutura reorganizadora de Self. A presença tranquilizadora que a paciente chamou da voz de Deus poderia ser essa função orgânica de busca de reequilíbrio. A “voz” do Self. Uma sabedoria celular dizendo para a moça que o seu sofrimento poderia ter fim. A pergunta intuitiva e inspirada do colega levou-a diretamente ao Centro da Psique, perdido no meio das oscilações de seu quadro clínico. A palavra que ele próprio usou quase sem querer, foi “para onde você se volta quando busca consolo no sofrimento?”, “Consolo”, ativou esse sistema autorganizador, que pertence ao organismo físico e psíquico, que os junguianos chamam de Psique. Procuramos tanto a cura nas moléculas, nas metilações e desmetilações dos genes que nos esquecemos que a Psique e o corpo querem se curar, querem encontrar o equilíbrio perdido. E que a hora da aflição pode ser a hora da mudança. Enquanto isso, os colegas assistiam outras aulas, o que salvou o palestrante da internação, como delirante.
Não preciso dizer que saí da conferência muito grato por ter estado lá.

sábado, 18 de outubro de 2014

Medicação é Solução pra Mim?

Estava no Congresso de Psiquiatria em Brasília, assistindo uma aula sobre Depressão e Atividade Inflamatória, mas era antes, uma aula de como dar aula. A fala da mocinha da UNIFESP era calma e pausada, e tinha uma delicada musicalidade; cada slide terminava com uma pergunta que abria o próximo, tornando a aula toda encadeada e o interesse da plateia aceso, como se ela estivesse nos conduzindo pela mão para dentro do conhecimento. Há alguns anos atrás tive uma treta teórica com uma Pedagoga, quando disse que o processo de Aprendizagem\Ensino é basicamente um processo de sedução, de ser convidado para dentro do conhecimento como para uma dança, ou um passeio. Ela ficou muito brava, como se isso fosse uma trapaça ou pior, um desrespeito às suas décadas de estudo sobre o que é ensinar e aprender. A mocinha e sua aula eram uma demonstração cabal de minha tese. Uma delícia de aula, provavelmente amadurecida pelo uso. Um dado intrigante da mesma era justamente a estatística que, a despeito de todo investimento e dispormos de medicamentos e recursos inacreditáveis há vinte anos para o melhor tratamento da Depressão, sua prevalência continua aumentando, assim como as taxas de Suicídio nos países do Ocidente, muitos deles com todos esses recursos para tratar a doença mais relacionada com o suicídio, que são os quadros depressivos.
Já falei bastante nesse blog sobre a nossa Civilização Inflamatória e todas as suas consequências para nossa saúde e qualidade de vida. Alimentação Processada, cheia de gordura, açúcares e sódio, sedentarismo, privação de sono e estressores cada vez mais repetitivos e repetidos, tudo isso cria um organismo sempre preparado para ser atacado, o nosso. A aula da moça demonstrava que a Depressão, como as doenças mais mortíferas de nossa época, que são as Cardiovasculares e Oncológicas, tem uma relação direta com a atividade inflamatória elevada, ou seja, com a nossa vida inflamada. Ninguém consegue deter esta escalada, os médicos parecem garçons correndo atrás da bandeja depois que os copos de cristal já caíram no chão. Falar em Medicina Preventiva tem que passar, necessariamente, pelas causas de inflamação: mudança de hábitos alimentares, de hábitos de exercício físico, de hábitos de sono. Teclando isso eu me lembro de um programa na TV a Cabo em que um médico tentava explicar para a mãe de um menino obeso que ele precisava mudar radicalmente os seus hábitos e emagrecer, pois seus parâmetros clínicos estavam todos catastróficos. A mulher olhava para o médico com uma cara de “o que o senhor quer que eu faça?”. Calligaris descreveu a sensação, diante da doença mental, de enfrentar um dragão com um alfinete nas mãos. A sensação é essa mesmo. O médico pedindo para o garoto de alimentar melhor enquanto ele mastigava um pacote de batatinhas fritas.
As mídias bombardeiam os psiquiatras e seu uso de medicamentos, como se fosse um bando de mafiosos criando dependências e dependentes, a soldo do poder dos laboratórios muito interessados em criar doenças e mercado para os seus medicamentos. Tenho sempre a sensação que essa fúria midialógica está mal direcionada, atacando as consequências antes das causas dos fenômenos. Se o ser humano é constituído estruturalmente pela sensação de Falta e de Vazio, a própria Hipermídia promete a cura dessa falta através do Prazer e do Consumo. Estou louco para falar a um jornalista que venha atacar os medicamentos que a culpa da Depressão que estou tratando é dele, cujo site anuncia produtos de beleza ou carrões esporte que venham curar a nossa miséria. Mas não vou fugir à questão que a aula levantou, com grande propriedade: talvez esteja na hora de repensarmos todo o modelo de nosso atendimento. Tratar uma Depressão com a medicação adequada pode ser, apenas, um bom começo, de um processo mais profundo de transformação.

domingo, 27 de outubro de 2013

O Sorriso do Self

Está aparecendo, de maneira tímida mas consistente, dentro do horizonte árido dos Congressos de Psiquiatria, uma tendência a incluir estudos sobre técnicas de Meditação como formas de tratamento dos quadros e doenças psiquiátricas. As evidências da literatura estão se avolumando e os congressos, financiados e mantidos em grande parte pela Indústria Farmacêutica, acusam suavemente essas evidências na parte final das aulas.Falamos dos medicamentos e ah, a propósito, Meditação do tipo Mindfullness também ajuda os pacientes. Assim como quem não quer nada.
Do ponto de vista puramente concreto, podemos localizar com margem de erro pequena que parar durante menos de meia hora pelo menos duas vezes ao dia para prestar atenção na respiração e silenciar nossos aflitos diálogos interiores já produz, em si, uma melhora, usando a droga mais eficaz e barata para melhorar o metabolismo e o funcionamento de nossas células nervosas: o Oxigênio. Uma respiração mais profunda, consciente e usando mais o Diafragma e menos a musculatura das costelas já produz, em si, melhora na produção de neurotransmissores e endorfinas, como uma boa corrida ou alguns minutos numa sauna. Os alvéolos se abrem, a troca gasosa se otimiza e o Cérebro recebe uma cota generosa de Oxigênio, além da sensação de calma e plenitude que acompanha essa “droga” e a respiração profunda. Um neurocientista também observaria que as áreas do Subcortex desenhadas para processar o medo, que estão sempre ativadas em nossa vida moderna, seja quando necessário seja quando não necessário, são subitamente bombardeadas pela mensagem e a imagem de tranquilidade e Não Medo. Algumas meditações sugerem a imagem de um sorriso percorrendo os órgãos e as nossas emoções. Podemos observar nas imagens e esculturas orientais que representam a expressão impassível e o sorriso quase imperceptível dos yogues e meditadores. A expressão de paz impassível é perturbadora para quem vive em nosso ritmo, ou disritmo.
Jung descreveu entre as suas estruturas inconscientes o Arquétipo do Self. Nossas traduções brasileiras chamam o Self de Si Mesmo. A tradução não parece grande coisa. Self não parece a tradução de algo em si, mas do reflexo do próprio Ser que se esconde de nosso Ego medroso. Self é o reflexo do mundo ou da divindade que habita de um jeito profundo nosso Ser Psíquico. Por isso que eu chamo o Self de Self, não de Si Mesmo. Self é o nosso centro, ou o Velho Sábio que aparece em nossos sonhos apontando o caminho.
Imagino que os estados mais profundos de Meditação permitem à nossa Psique o descolamento dos pensamentos, preocupações e ruminações infinitas de nossa Mente Pequena, amplificando, em cada Inspiração/Expiração os limites de nosso Ser. Vamos chegando perto, roçando, lambendo a Mente Grande que está lá, mas não a alcançamos.
Isso dificilmente vai aparecer na tela de uma Ressonância Magnética, então, tecnicamente, não existe.

sábado, 26 de outubro de 2013

DNA e Psique

Há poucos meses tive um post deste blog traduzido e colocado em uma rede junguiana pela Luciana. Como o assunto era sobre Neurociência, veio um gringo me espinafrar que eu era mais um pseudo junguiano me vendendo para a Ciência Materialista. Adorei o ataque e o respondi em outra postagem, mas o debate acabou por ali. Ontem fui assistir um curso aqui no Congresso Brasileiro, em Curitiba, e me senti exatamente como o gringo que havia me espinafrado. Havia um proeminente e simpático psiquiatra junguiano que falaria sobre Psicoterapia e Ativação/Desativação de populações genéticas através do trabalho analítico. Que tema legal. O curso foi bacana e bem avaliado pelo aluno que vos escreve essas mal tecladas linhas. Mas o último da espécie, o último dos moicanos junguianos, além de mim, é claro, levou uma sapatada na minha avaliação. Não que isso vá fazer grande diferença.
Vou desenvolver a minha crítica em algumas postagens, para não ficar a coisa no terreno da birra. É muito difícil fazer uma transposição de Jung para a Ciência Empírica. O livro mais concreto que ele escreveu, “Tipos Psicológicos”, serve até hoje de base para testagens e avaliações de capacidades e limitações do perfil de funcionários, na Psicologia Organizacional, avaliados por escalas como MBTI. Esse foi um livro transposto para a nossa vida diária. Nem todos os conceitos do velho são assim.
Arquétipos são um conceito incorporado na Cultura, assim como termos como Complexos, Extrovertido, Introvertido e assim por diante. O meu colega fez um paralelo entre os Arquétipos e o nosso DNA. Jung também fez uma aproximação, como se os Arquétipos fossem uma espécie de Genoma Psíquico. A ideia do Pai, da Mãe, do Herói, da Divindade Benéfica e a Diabólica, tudo isso se repete em todas as culturas e mitologias. O colega afirmou que os tais arquétipos são representados pelos nossos genes. Errado, cara pálida. Errado. Arquétipos são a Ideia que vai ativar essa ou aquela população genética. Quando no meio de um processo terapêutico, uma esposa infeliz, oprimida por um marido dominador e narcisista, resolve enfrentá-lo e mudar a sua vida, está desativando as populações genéticas do Medo e da Submissão Aprendida para ativar as redes neurais de Indignação e Confronto, que ainda assim serão carregadas de medo. O Arquétipo não está no gene, como o que vai determinar a cor dos olhos. O Arquétipo é um campo informacional que pode ou não ser ativado por nossos campos psíquicos. Ele está muito mais próximos dos campos morfogenéticos de Rupert Sheldrake do que dos microscópios e das pipetas. Eles influenciam na expressão dos genes, não são o DNA nem os RNAs mensageiros.
Conheço bem essa aventura de tentar aproximar Carl Jung da Ciência Biológica. A gente fica frequentemente perdido no meio do caminho, mesmo. Mas vamos continuar tentando, nós os moicanos aqui no Congresso.

domingo, 14 de outubro de 2012

Sobre Pastores e Ovelhas

Há um trecho do Novo Testamento, se não me engano antes do milagre da multiplicação dos pães, em que Jesus olha para a multidão e fica tomado pela compaixão, pois pareciam ovelhas sem um pastor. É uma passagem muito bonita e emocionante. Várias vezes Ele se enterneceu com o sofrimento, sobretudo aquele causado pela ignorância e pela dificuldade de achar um caminho que as pessoas tinham há vinte e um séculos. Não que tenha melhorado muito nesse período de tempo, a sensação de não ter um norte continua permeando a experiência humana.
Não sou Jesus, mas acho que tive uma sensação parecida com ele diante da multidão faminta. Estava acompanhando a última mesa redonda do Congresso Brasileiro ontem, justamente uma que abordava a Doença de Pânico. O programa falava em vários aspectos dessa doença que parece moderna mas já era descrita nos tempos de Hipócrates. As aulas foram boas, mas um pouco decepcionantes pelos esquemas interpretativos um pouco antigos da tal Neurobiologia. Vou exemplificar para não parecer, apenas, uma crítica rabugenta. Um esquema mostrava um estímulo que pode desencadear uma crise de Pânico, por exemplo, um lugar muito quente, abafado. As áreas vinculadas ao medo ao nosso Cérebro Emocional interpretam mal essa experiência, gerando preocupação. Essa preocupação vira medo, o medo entra em looping e esse looping leva à crise de Pânico. Errado. A maior parte das crises passam por estímulos que nem são percebidos conscientemente. Um lugar fechado, um engarrafamento, um aumento de frequência cardíaca, algo que nem vai ser interpretado pelo nosso Cérebro Consciente. Vai direto para as áreas do medo, sem que o paciente o perceba. A crise já aparece, de pronto, como um raio adrenalínico atravessando o corpo. O medo vem depois, assim como o looping de preocupação, que faz a crise se espalhar. O esquema do cara era antigo, mas a tentativa era bem intencionada de entender os sintomas. Como o colega estava de passagem marcada, anteciparam as perguntas. Foi aí que ocorreu a cena.
Um colega que é psiquiatra no interior do Brasil, pegou o microfone e fez uma pergunta constrangedora. Contou que tinha um paciente esquizofrênico que estava se isolando progressivamente, recusando qualquer tipo de ajuda. Ele perguntou, singelamente, se a mesa tinha alguma sugestão para o caso. O colega que estava dando aula sobre os sintomas de Pânico, notem. Nada a ver com o pergunta. Ficou num misto de constrangimento e uma irritação discreta. Poderia ter dito que aquilo era uma aula sobre outro assunto, mas acabou frisando que os dados sobre o caso estavam muito resumidos, mas acabou sugerindo uma conduta com antidepressivos e neurolépticos atípicos. Para quem não sabe o que significam esses palavrões, não se preocupe. O fato é que foi uma pergunta sem noção, fora de hora e de lugar e a resposta foi ainda pior. Um esquizo que está se isolando e recusando qualquer tipo de ajuda precisa de investimento humano. A família precisa ser orientada, alguma figura que o paciente respeita ou, na pior das hipóteses, uma intervenção institucional, como um hospital dia ou uma internação, podem ajudar a romper o cerco criado pela doença. Remédios de 200 reais a caixa não seriam a ajuda que médico e paciente precisavam. Mas o colega recolheu-se em sua desesperança e a aula seguiu. Pareciam ovelhas sem pastor.
A Psiquiatria se ressente, como toda a Medicina, de uma visão mais ampla, menos fragmentada, dos casos. O que parece o óbvio para alguns é quase intangível para outros. O colega em sua simplicidade humana e teórica deve ter ficado com aquela dúvida durante todo o Congresso e resolveu externá-la lá exatamente por ser a sua última chance. Fico imaginando-o perdido entre aquele mar de esquemas e teorias, sem entender o básico do que é um paciente esquizo. Deu vontade de comprar uma Kombi e sair pelo país adentro, espalhando Psiquiatria. Recolhendo as ovelhas.

sábado, 13 de outubro de 2012

Sequestro Virtual

Para quem não leu o último post, estou aqui em Natal, indo para o Congresso Brasileiro de Psiquiatria pela Via Costeira, o que significa estar sempre com a visão tomada pelo mar. E pensar que há 3 anos o Congresso foi em São Paulo. Ninguém conseguia chegar nas primeiras aulas por conta do trânsito na Marginal. Esta cidade é que é lugar para se fazer congresso e as pessoas, pasmem, estão indo para as atividades! Isso é que é gostar de Psiquiatria.
Houve uma mesa redonda com um tema cheio de pais preocupados: a Dependência de Internet. A aula começou com a citação de um moleque de treze anos, paciente do expositor: “Estar conectado é estar vivo”. O moleque pode ser adicto de redes sociais, mas é bom frasista. O meu filho comprou um jogo para jogar online, com o singelo título de Diablo III. Pois só esse jogo online já matou três. Suicídio? Não. A morte online se dá por privação de sono, desidratação e mal epilético, provavelmente. Um casal coreano foi preso por deixar seu bebê morrer literalmente de fome, porque estavam ocupados demais com seu bebê virtual. O que se estava discutindo é a função aditiva, ou geradora de abuso, do mundo virtual.
O mercado de games é mais poderoso do que o cinema. A última versão do FIFA está batendo todos os recordes de vendas. Assistindo à exposição eu me lembro de uma briga numa reunião no Instituto de Psiquiatria. O neurologista falava dos Reward Systems (Sistemas de Recompensa), as vias neurais que comandam o prazer, como um fator importante na geração de dependências. O psiquiatra se escandalizou, dizendo que aquilo era uma redução grosseira, que não estávamos falando de ratos, mas de gente. Lamento dizer que o neurologista tinha razão. E a indústria do videogame tem perfeita noção do sistema de alternância de punição/recompensa que vai deixando as pessoas de diversas idade vidradas diante das telas de LCD. Os mecanismos que tornam os adolescentes um público mais vulnerável dependem das características de seu Cérebro. Durante esse período, essas vias de recompensa ficam menos sensíveis à Dopamina. Isso determina aquela mudança no humor em que aquela criança que adorava tudo e vibrava diante das novidades passa a achar tudo um saco. O famoso tédio dos adolescentes deriva dessa mudança.
Outra mudança nessa fase é o aumento das áreas que geram os impulsos. A área do Cérebro que contém esses impulsos, o Córtex Pré Frontal, ainda não está amadurecida.É uma mistura explosiva de impulsividade e falta de contenção, temperadas pela dificuldade de avaliar as consequências, já que há uma dificuldade de acreditar que vai haver consequências. Os jogos online criam um sistema de alta concentração e recompensa, aumentando a atividade da Dopamina no Cérebro Emocional e a secreção de hormônios como a Adrenalina e o Cortisol. Um mundo muito mais atraente e excitante que nossa mundo real, tão tedioso.
Os quadros de Abuso e Dependência de Internet ou do mundo virtual não vão diminuir nos próximos anos, muito pelo contrário. Se eu tivesse uma visão marketeira de meu ofício, abriria um grupo de pesquisa e atendimento desse público. Somos uma geração de pais vivendo em um mundo mais complexo, onde as ameaças virtuais são tão graves quando as reais. O trabalho nessa travessia é de maturar a capacidade de conter os impulsos, limitar o tempo no mundo virtual e viver com os pés fincados no real. Fácil, não?

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Bullying

Pois estou aqui, num chalé com o pé literalmente na areia, em Natal, ouvindo o mar. Direto no Congresso Brasileiro de Psiquiatria. Pasmem, apesar do local descrito, estou indo para o Congresso, e vou ser um repórter nesse blog sobre os temas mais interessantes. O título desse post já é uma dica sobre o tema de hoje.
Estamos na cidade onde existe um dos mais avançados institutos do Cérebro nesse país, chefiados pelo médico com maiores chances de receber o primeiro prêmio Nobel para um brasileiro. Quantos colegas do Instituto do Cérebro foram convidados a palestrar no glorioso e trigésimo Congresso Brasileiro de Psiquiatria, organizado pela ABP (Associação Psiquiátrica Brasileira)? Se alguém chutou nenhum, ganhou o prêmio.
Apesar de estar pasmo com esse fato, que demonstra que sai diretoria, entra diretoria e as panelinhas não se desmancham, ainda há vida inteligente no Congresso.
Tatina Moya, jovem pesquisadora paulista, radicada no Rio de Janeiro, fez um relato sobre o atendimento de pessoas envolvidas em Bullying. Lembrei de um texto clássico de Freud sobre violência, chamado "Uma Criança Está Sendo Espancada". Nesse ensaio impressionante, Freud descreve que, numa cena de violência, temos três posições de identificação: alguns se identificam com o Agressor, outros com a Vítima, finalmente outros ficam numa posição neutra, a do Observador. Esse texto já tem quase um século e ainda descreve, com admirável simplicidade, o que acontece com as vítimas de abusos em sua vida: alguns repetem as agressões e passam a ser pessoas violentas e abusivas, outras permanecem na posição de vítimas e procuram inconscientemente por relacionamentos onde recebam maus tratos e a grande maioria acaba anestesiada diante da TV ou da violência, sem esboçar reação. Ou, pior, algumas pessoas na posição de autoridade repetem a apatia do Observador.
Não sei se Tatiana leu ou teve contato com o texto de Freud. Ele anda muito fora de moda nesses tempos de Psiquiatria Biológica. Mas a parte magistral de sua apresentação foi justamente ter abordado as três pontas desse triângulo. Todo processo de bullying tem esses participantes. O Perpetrador, normalmente o menino mais velho, mais popular ou naturalmente inclinado à violência; a Vítima, a criança mais tímida, gordinha ou com alguma diferença visível para os valentões; e, talvez, a pior parte do triângulo, que somos nós, observadores impassíveis. Tatiana colocou, com propriedade, que muitas escolas ou pais entendem que isso é uma fase natural, que vai passar quando os anjinhos crescerem. Estudos de suicídio mostram que muitas pessoas podem tentar contra a sua vida décadas depois de sofrer assédios e exposição ao ridículo entre seus pares. As marcas são profundas e duráveis. Outro dado de pesquisa impressionante é que o risco de depressão e suicídio é importante tanto entre as Vítimas quanto entre os Perpetradores. Há um risco maior para os garotos que ficam nas duas posições, passando de vítimas a agressores. Quanto maior e mais constante a experiência com a violência e o abuso, maior o risco psiquiátrico e maior o risco de suicídio no futuro.
Outra pesquisadora descreveu, com emoção, que foi votar nessa última eleição numa escola onde havia um cartaz que dizia: "Vamos expulsar o Bullying dessa escola". Ela conversou com o diretor, que descreveu uma política de elaboração e diálogo com todos os participantes do Bullying. Diante da violência, todos são vítimas. Mas nada é pior do que cruzar os braços.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Obesidade, Doença Inflamatória?

A Medicina, como qualquer ciência, é cheia de enigmas. A Tecnologia nos trouxe muito em termos de compreensão dos processos e formas de intervir nas doenças. A Medicina tradicional Alopática, da qual faço parte e trabalho, coleciona sucessos em todos os campos. Fracassamos redondamente com uma série de outras, como a epidemia de Obesidade.
Assistimos desde a metade do século passado a explosão de doenças inflamatórias. Uma inflamação dentro da cavidade de uma artéria é um exemplo. Se essa artéria for uma Coronária, levando sangue para o Coração, ou uma Carótida, levando sangue para o Sistema Nervoso, essa inflamação pode causar muita confusão um dia desses.
A atividade inflamatória é uma defesa de nosso organismo contra todo tipo de ataque, desde uma pancada a uma pneumonia. Nas últimas décadas a nossa alimentação foi ficando cada vez mais dependente de processos industriais, subtraindo nutrientes essenciais perdidos no processamento de alimentos e refinamento. Esses processos aumentam a nossa resposta inflamatória. Os reatores nucleares de Fukushima me lembram tristemente a nossa civilização inflamatória. Muita pressa, muito calor gerado, falhas no processo de resfriamento. Nossa atividade inflamatória pode estar assim, e nem imaginamos.
Já está muito claro há décadas que o açúcar refinado, a farinha branca existente em pães e bolachas em muito contribuem para levar uma mensagem falsa ao Cérebro, que é: "Está faltando comida". Lembro de minhas aulas de Nutrição, no segundo ano de faculdade, das fotos de bebês severamente desnutridos e obesos, em regiões onde as mães dispunham de muita farinha e poucos vegetais e carnes para alimentá-los. A atual epidemia de Sobrepeso e Obesidade pode ter muito a ver com isso. Muita comida processada e reprocessada, muita farinha, açúcar e poucos vegetais.
Aqui em nossa clínica estamos contando já há algum tempo com uma Nutricionista na equipe. Sempre que eu encaminho alguém para ela, vejo a expressão de desalento no rosto da pessoa que já tentou vários e exaustivos regimes, sempre terminando cpm a recuperação do peso perdido, muitas vezes com lucro. O pior é que normalmente a pessoa incorpora o senso comum que transforma a pessoa portadora dessa doença em criminosa. "Eu não tenho força de vontade". "Eu sei o que preciso fazer, a hora em que eu estiver pronta, vou fazer", ou, como um gordinho famoso falou: "O problema é a minha Tireóide".
Há algumas semanas temos feito reuniões para conjugar o trabalho da Nutrição, da Psicologia e da Psiquiatria para decifrar esse enigma: como ensinar as pessoas a aumentar a sua consciência alimentar, como modificar gradativamente os padrões alimentares e transformar o emagrecimento em uma paixão, em vez de uma tortura. Será que conseguiremos? Os resultados iniciais são bons. Mas não é essa a minha pergunta. A minha pergunta é como alguém pode montar um serviço de atenção ao Sobrepeso e Obesidade que não tenha sempre uma equipe dessas atuando.

sábado, 6 de novembro de 2010

Transfusão de Serenidade

O termo do título é de autoria de um teólogo e psicoterapeuta de quem eu gosto muito, Jean Yves Leloup. Ele a descreve em um momento particularmente dramático, quando estava à beira do leito de um paciente terminal, que sentia a proximidade da morte e se angustiava profundamente com o momento da passagem. Jean Yves descreve em um livro sobre os Terapeutas do Deserto que o paciente vai se acalmando na medida que o terapeuta faz uma transfusão de serenidade, tocando psiquicamente a alma turbada pelo vazio, até que o paciente começa a descrever uma paz interior, ausente de medo.
Lembrei desse trecho na apresntação de Flávio Kechanski, já citada na última postagem, no Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em Fortaleza. Para quem não me conhece, sou psiquiatra e psicoterapeuta de orientação junguiana. No congresso não há portanto nenhuma palestra que eu não sofra uma alfinetada. Entro na apresentação da Sociedade de Psicoterapia e o palestrante fala de um caso onde a paciente tinha um quadro depressivo que respondia mal aos psiquiatras biológicos desalmados, interessados em diagnosticá-la e entupí-la de medicamentos, sem perceber que a paciente estava presa numa simbiose familiar, os pais inteiramente dependentes dela, por isso os remédios não faziam efeito. O terapeuta atento e arguto começa a trabalhar na simbiose, a paciente melhora da depressão. O terapeuta mantém os medicamentos estabilizadores do humor, mas fala disso com um tom de quase displicência. Na outra sala, outro colega descreve como seu paciente estava perdido na selva de psicoterapeutas inoperantes e autorreferentes, até finalmente ser salvo pela medicação potente e heróica que seu psiquiatra introduziu, dando finalmente ao paciente a estabilidade de humor que necessitava. Percebe, caro leitor? É pancada de cá, pancada de lá.
Há alguns anos a Folha de domingo fez uma matéria de capa: Dr Freud ou Dr Prozac? A resposta é muito simples: Dr Freud E Dr Prozac. Todas as evidências mostram há muitos anos a eficácia maior do trabalho combinado, mas os xiitas de lado a lado continuam trocando suas farpas, suas acusações.
Na palestra de Flávio Kechanski, ele rechaçou com elegância a eficácia das terapias de base analítica em pacientes dependentes de crack nas fases iniciais de tratamento. Isso faz todo o sentido, pois o foco inicial é a desintoxicação e recontrução gradativa de uma psique despedaçada por uma das drogas mais potentes à disposição dos dependentes, o crack. Flávio destacou também a importância do uso de tratamentos baseados em evidências no tratamento desses casos graves. A psicoterapia de base analítica, subentende-se, baseia-se em sistemas teóricos nem sempre baseados em evidências. Podemos discutir isso em outra ocasião, mas também posso aceitar a colocação. Só que durante a sua apresentação, que, o leitor pode notar, gostei muito, Flávio descreveu uma enfermeira de sua equipe que consegue reverter quadros de agitação psicomotora jogando cartas com o paciente, até que ele consiga novamente centrar-se. Aí o raciocínio vai todo para as cucuias, para não usar outro termo. A enfermeira tranquilizando um paciente agitado apenas na base do carteado não está usando uma Terapia Cognitiva baseada em evidências. Está fazendo, isso sim, uma transfusão de serenidade, como fazem os bons psicoterapeutas. Seja por transmissão eletromagnética de afeto, seja por informação não local, seja pelo mecanismo metafísico pouco baseado em evidências e muito em vidências que caracteriza uma boa relação terapêutica.
Coloco isso apenas para abrirmos mais o leque de possibilidades quando um ser humano se debruça sobre o sofrimento de outro ser para tentar ajudar, tentar transfundir a serenidade que pode mesmo faltar para si. Se vai se usar mais ou menos a técnica, seja ou não a técnica baseada em evidências, o fato é que as transmissões não locais de alma para alma ampliam muito a nossa capacidade de ajuda. E de entendimento.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

I Miss the Drama

Uma coisa que é um tanto tradicional nas mesas e convescotes de um Congresso de Psiquiatria (isto deve acontecer nos outros também) é aquela ar blasé de todos os colegas sempre dizendo que foi tudo uma porcaria. Uma coisa do tipo: eu já sabia de tudo, não me trouxe nenhuma novidade. Bem, queridos colegas, depois que inventaram a Internet, não há como termos grandes revelações e lançamentos nos Congressos. Não é o Salão do Automóvel, onde lançamos remédios ou tratamentos de última geração. O chique mesmo é achar tudo uma bosta. Eu prefiro caçar coisas boas. Como sou um psiquiatra generalista, que trata de adolescentes até queridos velhinhos, acabo me interessando por um monte de assuntos diferentes, enquanto os colegas vão lá, apresentam o seu trabalho, atualizam as fofocas e vão para a praia.
Uma apresentação emocionante foi de um colega do Sul, Flávio Kechanski (espero que a grafia esteja correta) que fez uma apresentação do tipo "Como Eu Trato", no caso, como ele trata o usuário de Crack. A novidade foi a platéia, de quase 700 pessoas. Isto significa que, após décadas, o crack está chegando à classe média e aos consultórios, daí o grande interesse. Nesta apresentação havia duas novidades, pelo menos para mim. Todo mundo sabe, uma dificuldade que todo dependente químico tem é a hora da retirada da substância. No caso da cocaína, o day after é particularmente difícil, com a sensação do Crash (o som da palavra em Inglês já mostra o barulho das coisas desabando). Flávio mostrou um trabalho com resultados robustos de uma terapia de troca por medicamento estimulantes, como os usados para Sonolência Diurna. Na hora do Crash, ou da Fissura, esses medicamentos estimulantes diminuem os sintomas de retirada e dão mais gás para o paciente passar por esse vale da sombras. Isso tem implicações importantes. Uma coisa que a maioria dos dependentes, os dependentes de relacionamentos inclusive, é a sensação pervasiva de vazio, de falta de sentido que favorece a fissura, a busca incessante de algo que traga a sensação de se estar centrado, ou de que as coisas fazem algum sentido. Isso é uma coisa que nos constitue como humanos. A sensação maior ou menor de vazio, de ânsia, de busca por algo que nos aplaque, que nos traga sentido. No caso dos dependentes, essa ânsia está no miolo de todas as dificuldades de tratamento e recuperação. A sensação de que a Realidade é de um vazio opressivo que necessita de escape, de dissociação para que a dor não aumente demais. Achar um medicamento que diminua essa sensação abre muitas possibilidades de ajuda. Outro trabalho com dependentes de cocaína mostrava o Cérebro de um Dependente quando se falava no uso da substância. As áreas do Cérebro relacionadas aos pensamentos e aos desejos se acendiam como uma árvore de Natal. Como uma criança esperando pela festa,ou na fila da Montanha Russa. Foi como enxergar dentro do Cérebro os circuitos da fisssura, o que se acende quando desejamos desesperadamente algo. Muito viemos escrevendo sobre as Obsessões Amorosas neste blog, sobre os pensamentos circulares e as compulsões de busca do objeto desse amor. Será a dependência amorosa um tipo de cocaína? Ou pior: será que a compulsão de Busca\Frustração\Luto não é uma repetição compulsiva que busca a repetição da dor? No filme "O Casamento de Rachel", a história gira em torno da irmã dependente química que sai da internação para passar o final de semana no casamento de sua irmã, Rachel. Além de toda roupa suja que vai ser lavada nessa família, há uma cena em que Kimi, a irmã problema, vai até uma reunião de AA, e um dos caras fala que sente falta de uma coisa das bebedeiras: o drama. "Sinto falta do drama", dizia, das emoções que vem à tona nas bebedeiras, nos vômitos de ódio e rancor que sempre aparecem, além de dor e arrependimento depois. Será que uma das coisas que alimentam o ciclo de frustração e compulsão amorosa não é o Drama, não é chance de sofrer muito, chorar muito e sentir acolhimento (ou endorfinas) após a decepção?
Como o leitor pode ver, sempre tem coisas muito boas a se pescar em um Congresso.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

De Fortaleza, com amor

O título é uma paráfrase de um título de filme que eu adoro. Do título, o filme eu não vi. Estou em Fortaleza na vigésima oitava edição do Congresso Brasileiro de Psiquiatria. Hoje dei sorte e assisti a boas mesas e debates. Por aqui todo mundo é Dilma, como já sabíamos que era. O chofer de taxi que me trouxe falou que o Lula iria dar as diretrizes para ela. Pensei nisso durante uma aula que eu entrei por engano, quando uma colega demonstrava a dificuldade de processamento auditivo de crianças vítimas de violência doméstica. Será que o Bolsa Família, originalmente um programa de incentivo à aderência escolar, transformado pelo governo Lula em programa de renda mínima e curral eleitoral, não vai ser um programa de estímulo à natalidade, aumentando a mesma nas camadas da população menos habilitadas a fazê-lo? Do que eu estou falando? Estou correlacionando pobreza, miséria e violência doméstica, que vão gerar crianças com várias e importantes dificuldades emocionais e intelectuais? Sim, é exatamente disso que estou falando. Ou melhor, os estudos sobre famílias disfuncionais falaram. Existem famílias disfuncionais fora das favelas e dos bolsões de pobreza? Claro que sim. Diariamente recebemos da mídia reportagens sobre Suzanes, Nardonis e outras monstruosidades construídas dentro dos lares, enquanto nosso Congresso (o Nacional, não o de Psiquiatria) tenta aprovar leis que proíbem as palmadas. Palmada no bumbum não pode, mas as crianças que chegam com politraumas nos hospitais de periferia não tem a proteção da lei.
Eu não compartilho do horror que a classe média costuma dedicar ao Lula e sua entourage. Tenho temores muito mais profundos, que na verdade todo o projeto petista seja catastrófico para construir um bem estar social num país que começa a ter força nas pernas. Tenho medo do simplismo que acredita que dar esmolas é um projeto factível para o país crescer e cuidar bem de suas crianças.