Alguns Domingos é bem difícil cavar uma pauta para esse Blog, e aí me acorrem fantasias terríveis, como depois de seiscentos posts está mais do que na hora de parar com isso e decretar no mínimo uma pausa para essas postagens. Ou acabar com elas e começar outra coisa. Um blog que seja um blog, por exemplo, com um texto curto e dois parágrafos, no máximo três. Os textos saem longos, parecem uma coluna ou um ensaio, agora que vivemos o fim da mídia impressa e a inoperância dos ensaios. O meu mau humor vai melhorando quando o tema começa a aparecer, gradualmente, até começar a tomar forma.
Dessa vez fui atrás dos vídeos da Monja Cohen, que responde às questões que as pessoas lhe enviam. Numa delas ela fala sobre Aquietar a Mente. No vídeo, ela menciona uma coisa muito curiosa, que, ao adentrar um silêncio cada vez mais profundo com a prática do zazen, (uma meditação zen budista que é a sua formação), ela começa a distinguir sons específicos que derivam desse silêncio. Como se o mergulho nessas camadas mais profundas de vazio trouxessem uma sonoridade própria. Uma outra experiência sensorial.
O silêncio não é nada popular em nossa cultura. Eu moro num condomínio fechado, e, como tal, muita gente vem fazer churrasco por aqui, em busca de alguma tranquilidade. Estranhamente, essa tranquilidade é invadida por aparelhos de som com os mais variados gostos musicais. De rock anos 70 e 80 até pagodes ou, ai meu Deus, esse sertanejo cheio de ai ais e ui uis que teima em não sair da moda. Assim você mata o papai, grita o cantor no som perto da piscina. Mata mesmo. De desgosto. Pronto. Estou ficando rabugento de novo.
Aquietar a mente significa desprender a atenção do som e dos pensamentos, rabugentos ou não. Apaziguar o incômodo e a estrutura “Se...Então” que existe dentro de todos os pensamentos. “Se” o churrasco acabar e o som for desligado, “Então” estarei em condições de apaziguar os pensamentos. Se o vizinho parar de gritar “é Campeão!” para o Corinthians, então vou poder aquietar meus pensamentos.
A Mente não consegue apaziguar a si própria. Tentar parar os pensamentos acabam tornando-os mais circulares e mais insistentes. Aquietar a Mente tem para mim um especial apelo, porque significar usar o Sentimento de Quietude por sobre o blá blá blá do Pensamento, que insiste em classificar, rotular, analisar e, por vezes, se exasperar por mais uma música pseudo sertaneja bombando nas caixas de som do vizinho.
O aquietar da Mente inclui parar de brigar com os sons e deixar que eles se propaguem, sem interferência ou resistência. No Novo Testamento, Jesus descreve exatamente isso quando manda oferecer a outra face após uma bofetada, ou dar a capa se já levaram a túnica. Sempre achei, e ainda acho, que essa fosse o manifesto de uma das atitudes humanas mais difíceis de desenvolver, que é o Não Revide. Somos condicionados a sempre revidar, sempre tentar dar um empurrão de volta em quem está incomodando. Um líder magrelo, banguela e seminú derrubou o Império Britânico com o Não Revide, o Mahatma Gandhi. Donald Trump silenciou a sua queda vertiginosa de popularidade bombardeando a Síria após uso de armas químicas pelo inacreditável Bashar Al – Assad. O revide gerou a sensação de segurança, deu ao Cabeça de Laquê uma aura de macheza. O Olho por Olho faz mais sucesso que o Não Revide.
Dar a outra face talvez seja a descrição para esse aquietar da Monkey Mind, nossa Mente de Macaco pulando de galho em galho e de susto em susto para uma sensação mais ampla de espaço e de oxigenação. Não é à toa que as técnicas meditativas se apoiem tanto na respiração, na percepção de entrada mais ampla de ar nos Pulmões, que é exatamente o contrário da respiração curta da Mente de Macaco, sempre à espreita de riscos ou de ataques que podem vir do nada, como um islamita amarrado numa bomba para vingar o ataque de Trump.
Aquietar a Mente, ou Dar a Outra Face, significa uma abertura para o devir, para o que vem pela frente, que pode ser um passarinho cantando ou o som do churrascão aqui do lado, ao som de “Vai Corinthians!” (Aliás, uma dúvida cruel: como o time mais popular do estado pode ter um nome tão difícil de pronunciar pela maior parte de sua torcida?). Viu? A Mente continua pulando de galho em galho. Vamos voltar para aquietá-la. O melhor instrumento para isso é o Coração.
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domingo, 7 de maio de 2017
domingo, 15 de janeiro de 2017
Fé Cega, Faca Amolada
No último Congresso Brasileiro de Psiquiatria entrei no final de uma Mesa Redonda que abordava o tema Psiquiatria e Espiritualidade, ou Religião, ou algo assim. Cheguei a tempo de ouvir uma palestra muito bonita de um colega que conciliava a sua fé Cristã com o trabalho clínico. Falou muito sobre uma atitude realmente humilde de um médico diante do paciente e do que sabemos e não podemos saber. Mencionou que frequentemente orava antes ou durante seus atendimentos. Foi mais do que uma exposição, foi um testemunho, nessa época que esse tema nunca é discutido a sério nos bastiões da Ciência. Jung era filho de um pastor protestante e pode-se dizer que uma boa parte de sua obra foi consagrada a responder a uma crise de fé que fez sucumbir a vida daquele modesto pastor, seu pai. Para Jung, a Psique Cristã era uma coisa viva, uma prática e uma simbologia que devia ser trazida e compreendida por nossa Psique Ocidental moderna. Falar disso em um Congresso não seria assunto proibido para um junguiano. A aula foi aplaudida e passaram a palavra à plateia. Um rapaz pediu a palavra e deu ali o seu testemunho, sobre um grupo que estudava os benefícios da Meditação Mindfulness na prática terapêutica. Aí começou a ficar engraçado. O tal do psiquiatra cristão acabou dando uma alfinetada no gordinho do Mindfulness, chegando a mencionar que a mística cristã tinha ótimos exemplos de práticas contemplativas e meditativas, e que ele via com certa estranheza esse modismo de meditações e mantras orientais invadindo as terapias cognitivas. O outro começou a defender a sua técnica e a plateia ficou vendo os dois monopolizando o debate, até que a senhora que tinha falado de Espiritismo chamou a atenção do gordinho, que estaria tomando todo o espaço do debate, e que outras pessoas também mereceriam fazer perguntas. Ele, calmamente, se calou, antes que terminasse em cadeiradas ou em alguma Cruzada aquela troca de farpas. A tal da senhora e o arauto da humildade cristã foram indelicados com o rapaz, que por sua vez parecia querer um lugar na mesa. Ou seja, a coisa descambou. Mas por que esse escriba achou a situação engraçada? Espírito de porco? Vontade de ver o circo pegando fogo? Claro, sem dúvida. Mas havia outra questão que Jung discutiria ali: a questão da Sombra.
Quando montamos o consultório, tive vontade de chamar a clínica de Acolhimento. Logo desisti da ideia, porque chamar o lugar de Acolhimento jogaria o Abandono para o Inconsciente do lugar. Diz o ditado popular que de boa intenção o Inferno está cheio. Nelson Rodrigues gostava desses paradoxos, sempre achando que por trás de um puritano sempre havia um devasso. É o mesmo mecanismo que faz uma pessoa em regime cair em tentação e ter ataques de comilança que nunca teria se não estivesse em regime. Toda intenção consciente pode evocar uma reação sombria em contrário. Toda pulsão reprimida pode voltar como sintoma ou como doença. O colega falava de humildade diante do Mistério e do paciente, mas se irritou com a técnica meditativa derivada do Budismo. Para piorar, fez uma leitura da técnica a partir de suas crenças e chamou o trabalho (bastante referendado por estudos e evidências científicas) de uma espécie de modismo. Lá se foi a humildade cristã por água abaixo. O gordinho por sua vez parecia mais afim de falar do que de ouvir.
Fui tomar um café, pensando que a Meditação, sendo ela cristã, budista, muçulmana, judaica, yogue, ou de qualquer origem, tem resultados comprovados na pacificação de grandes doenças do nosso tempo: os pensamentos reverberantes, as tentativas de controle de tudo e de todos, o estado de violência psíquica que se espalha em nosso cotidiano e consultórios. Não deve ter havido época de maior estresse psíquico na história humana. Tem lugar para o Mindfulness e para a Meditação Cristã em nossa vida. O importante é praticar. Mas não acho que os dois debatedores deram as mãos depois da palestra.
Dia-bolon significa Aquele que Separa. Humildade é saber que ele habita dentro de nossas boas intenções.
Quando montamos o consultório, tive vontade de chamar a clínica de Acolhimento. Logo desisti da ideia, porque chamar o lugar de Acolhimento jogaria o Abandono para o Inconsciente do lugar. Diz o ditado popular que de boa intenção o Inferno está cheio. Nelson Rodrigues gostava desses paradoxos, sempre achando que por trás de um puritano sempre havia um devasso. É o mesmo mecanismo que faz uma pessoa em regime cair em tentação e ter ataques de comilança que nunca teria se não estivesse em regime. Toda intenção consciente pode evocar uma reação sombria em contrário. Toda pulsão reprimida pode voltar como sintoma ou como doença. O colega falava de humildade diante do Mistério e do paciente, mas se irritou com a técnica meditativa derivada do Budismo. Para piorar, fez uma leitura da técnica a partir de suas crenças e chamou o trabalho (bastante referendado por estudos e evidências científicas) de uma espécie de modismo. Lá se foi a humildade cristã por água abaixo. O gordinho por sua vez parecia mais afim de falar do que de ouvir.
Fui tomar um café, pensando que a Meditação, sendo ela cristã, budista, muçulmana, judaica, yogue, ou de qualquer origem, tem resultados comprovados na pacificação de grandes doenças do nosso tempo: os pensamentos reverberantes, as tentativas de controle de tudo e de todos, o estado de violência psíquica que se espalha em nosso cotidiano e consultórios. Não deve ter havido época de maior estresse psíquico na história humana. Tem lugar para o Mindfulness e para a Meditação Cristã em nossa vida. O importante é praticar. Mas não acho que os dois debatedores deram as mãos depois da palestra.
Dia-bolon significa Aquele que Separa. Humildade é saber que ele habita dentro de nossas boas intenções.
domingo, 22 de março de 2015
O Silêncio é que Cura
Normalmente os dados da Literatura Médica são muito favoráveis ao uso da Meditação como forma de melhora em várias doenças, da Hipertensão Arterial aos Quadros Depressivos e a Ansiedade. Dados robustos mostram que a Meditação atua bem e traz melhoras nas doenças e uma sensação mensurável de bem estar aos seus praticantes. Quando eu sugiro aos pacientes alguma forma de Meditação, eles costumam me olhar com uma expressão entre curiosa e aflita. Ou a ideia vai parar naquela lista de coisas que sabemos que deveríamos fazer, mas não vamos fazer nunca, como perder peso, parar de comer carne ou começar a treinar para a São Silvestre deste ano, e a conversa para por ali, ou a pessoa confessa que não se enxerga parada meia hora em posição de lótus entoando mantras. Aquilo parece muito esquisito e pertencente a tradições de alguns carequinhas sorridentes do Tibet. Não é coisa de gente séria.
Os professores de Meditação, pelo menos os sérios, também não dão mole, na medida que não admitem serem didáticos ou proporem uma finalidade para a prática meditativa. No mais das vezes, mandam sentar lá e fazer. Não querem interferir na experiência do freguês, nem impor a sua própria visão ao aluno. Pratique, pratique, pratique. Para que? Sei lá para que. Pratique. Vai melhorar. Vai melhorar o que? Um monte de coisas. Mas vai melhorar o que eu quero que melhore? Não faço ideia. Fácil vender esse pacote? Facílimo.
Estava lendo um capítulo de um belo livro sobre Neuroplasticidade. Gosto muito do autor por motivos bastantes narcísicos: ele é desses raros colegas que gostam de aproximar Neurociência, Psiquiatria e Psicoterapia, veja só. Pensei que seria tombado pelo Ibama, ele também será. Ele escreve sobre um paciente que relatava um sentimento muito profundo e antigo de apatia, de falta de gosto na vida. O seu casamento tinha acabado, ele chegava à fase madura de sua vida sem saber amar ou se entregar para uma mulher e tudo parecia caminhar para o pior. O terapeuta, de forma destemida, resolveu atender o caso. O paciente trazia em seus sonhos, uma cena repetida, em que sentia uma sensação profunda, desesperadora, de perda e de necessidade de procurar pelo que fora perdido. Freud, em uma de suas intuições geniais, mencionou que esse tipo de sonho repetitivo, com cenas que trazem sensações vagas e terríveis de medo e tristeza, geralmente se referem a traumas muito antigos e não trabalhados na vida do sonhador, ou sonhadora. Durante essa análise, surgiu uma história impressionante: a mãe do paciente havia morrido sessenta anos antes, no parto de sua irmã caçula. Depois de algum tempo, o pai não deu conta de cuidar de sete filhos e o repassou para outros parentes. Aos três ou quatro anos, ele perdeu absolutamente tudo em sua vida. As sensações que apareceram em seus sonhos traduziam esses sentimentos muito antigos de perda e de “cadê todo mundo?”. É razoável de se propor que algo de seus problemas com vínculos afetivos surgiram dessa perda inicial.
O ambiente protegido da análise, o dedilhar delicado dos sentimentos, ajudaram na elaboração dessas dores antigas. Os efeitos não demoraram: o paciente experimentou melhora em suas relações pessoais, se engajou em novos projetos e arrumou uma namorada. Descobriu nessa nova relação um sentimento completamente novo: pela primeira vez teve ciúmes e temeu perder uma mulher. Ou, pelo menos, teve pela primeira vez consciência desses sentimentos estranhamente humanos.
Quando eu li esse texto, tive um estalo; é exatamente neste ponto que terapia e meditação se aproximam: na sensação de recuperação desse ambiente protegido que tivemos, ou deveríamos ter tido, em nossa primeira infância. A sensação de que tudo está bem e que tem alguém olhando. Nem que esse alguém seja o próprio meditador.
Uma paciente me pede muitas vezes para quebrar o silêncio da sessão e falar alguma coisa. Eu respondo que é o Silêncio que cura.
Os professores de Meditação, pelo menos os sérios, também não dão mole, na medida que não admitem serem didáticos ou proporem uma finalidade para a prática meditativa. No mais das vezes, mandam sentar lá e fazer. Não querem interferir na experiência do freguês, nem impor a sua própria visão ao aluno. Pratique, pratique, pratique. Para que? Sei lá para que. Pratique. Vai melhorar. Vai melhorar o que? Um monte de coisas. Mas vai melhorar o que eu quero que melhore? Não faço ideia. Fácil vender esse pacote? Facílimo.
Estava lendo um capítulo de um belo livro sobre Neuroplasticidade. Gosto muito do autor por motivos bastantes narcísicos: ele é desses raros colegas que gostam de aproximar Neurociência, Psiquiatria e Psicoterapia, veja só. Pensei que seria tombado pelo Ibama, ele também será. Ele escreve sobre um paciente que relatava um sentimento muito profundo e antigo de apatia, de falta de gosto na vida. O seu casamento tinha acabado, ele chegava à fase madura de sua vida sem saber amar ou se entregar para uma mulher e tudo parecia caminhar para o pior. O terapeuta, de forma destemida, resolveu atender o caso. O paciente trazia em seus sonhos, uma cena repetida, em que sentia uma sensação profunda, desesperadora, de perda e de necessidade de procurar pelo que fora perdido. Freud, em uma de suas intuições geniais, mencionou que esse tipo de sonho repetitivo, com cenas que trazem sensações vagas e terríveis de medo e tristeza, geralmente se referem a traumas muito antigos e não trabalhados na vida do sonhador, ou sonhadora. Durante essa análise, surgiu uma história impressionante: a mãe do paciente havia morrido sessenta anos antes, no parto de sua irmã caçula. Depois de algum tempo, o pai não deu conta de cuidar de sete filhos e o repassou para outros parentes. Aos três ou quatro anos, ele perdeu absolutamente tudo em sua vida. As sensações que apareceram em seus sonhos traduziam esses sentimentos muito antigos de perda e de “cadê todo mundo?”. É razoável de se propor que algo de seus problemas com vínculos afetivos surgiram dessa perda inicial.
O ambiente protegido da análise, o dedilhar delicado dos sentimentos, ajudaram na elaboração dessas dores antigas. Os efeitos não demoraram: o paciente experimentou melhora em suas relações pessoais, se engajou em novos projetos e arrumou uma namorada. Descobriu nessa nova relação um sentimento completamente novo: pela primeira vez teve ciúmes e temeu perder uma mulher. Ou, pelo menos, teve pela primeira vez consciência desses sentimentos estranhamente humanos.
Quando eu li esse texto, tive um estalo; é exatamente neste ponto que terapia e meditação se aproximam: na sensação de recuperação desse ambiente protegido que tivemos, ou deveríamos ter tido, em nossa primeira infância. A sensação de que tudo está bem e que tem alguém olhando. Nem que esse alguém seja o próprio meditador.
Uma paciente me pede muitas vezes para quebrar o silêncio da sessão e falar alguma coisa. Eu respondo que é o Silêncio que cura.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Jornada ao Centro de Si
Posso me candidatar facilmente a garoto propaganda do Netflix. Adoro sobretudo ter acesso a filmes e documentários que não se acha em qualquer lugar, já que eu sou uma perfeita negação em ficar baixando filmes e séries da internet. Vi um documentário desses que ninguém vê, uma produção caseira chamada “The Dhamma Brothers”, em tradução livre, “Os Irmãos do Dharma”. Esse trabalho documenta um programa de Meditação Vipasana aplicado por dez dias a prisioneiros de alta periculosidade de uma prisão no Alabama. Os estados do Sul dos EUA não se caracterizam por tratar os prisioneiros com muita consideração, pode-se assim dizer. O psicólogo do complexo, meio cansado de nada conseguir fazer para ajudar aqueles presos, conseguiu propor e viabilizar esse trabalho. Cerca de quinze presos passaram dez dias fazendo a meditação Vipasana, assistindo palestras confinadas a um espaço no ginásio sem poder trocar nenhuma palavra com os colegas, respeitando o Nobre Silêncio. O estranho é que eles conseguiram esses voluntários que, mais estranho ainda, realmente se empenharam em cumprir o programa, sem nenhuma tentativa de matar os instrutores.
Durante a aplicação do trabalho em que o Silêncio era o principal e invisível personagem, os presos experimentaram a sensação de estar numa “prisão dentro da prisão”, como alguns descreveram. Não havia como fugir do confronto, para alguns, terrível, do que viria de seu mergulho interior: os instrutores chamavam isso de Período de Tempestade, em que a imersão na meditação e no silêncio traria imagens, pensamentos, lembranças perturbadoras que não poderiam ser verbalizadas nem compartilhadas. Um dos presos descreveu a imagem de sua filha de quatro anos, morta num acidente banal em um brinquedo de parquinho. O outro lembrou da cena do crime que o mandou para aquela prisão. O outro começou a chorar copiosamente, num lugar em que chorar na frente dos outros não é exatamente boa política.
Nos últimos posts acabei debatendo a natureza do Mal e a sua possibilidade de abordagem pela Ciência Médica, quais são os limites do que pode ou não ser tratado. Pois esse filme veio responder a algumas dessas questões, e outras também. Alguns daqueles presos puderam contemplar, com alguma perplexidade, o absurdo do ato criminoso que haviam cometido há décadas, mas do qual não podiam fugir ou retroceder. Não se reconheciam no moleque que havia feito aquilo. Tudo isso aparecia naquelas horas de silêncio e de olhar interior. O documentário seguiu os presos por um período após o trabalho: eles estavam nitidamente transformados, para estranheza dos colegas.
O que me emocionou como médico e terapeuta foi a confluência entre esse processo vivido na meditação e a psicoterapia profunda, tão atacada nas últimas décadas. Jung disse uma vez que ninguém vai ao Paraíso sem passar pelo Inferno. Talvez estivesse citando a “Divina Comédia”, onde Dante Alighieri desce às profundezas do inferno e sobe até o Paraíso procurando por sua amada Beatrice. Os cognitivistas e programadores neurolinguísticos acham que esse mergulho não é necessário: basta reprogramar as falsas crenças e afetos e poderemos atingir o Paraíso da Saúde Mental e Inteligência Emocional. Os “Irmãos do Dharma” desmentem essa afirmação. A entrega ao Grande Silêncio e a Introvisão trouxeram a tempestade e a bonança para os presos. Os monstros apareceram, foram vistos e observados, até perderem a força. O que ficou em seu lugar foi uma Paz profunda, que resistiu à volta dos presos ao seu ambiente de reclusão e violência.
As Psicoterapias Profundas procuram por esses monstros e olham em suas caras, para que percam a sua força. Nem sempre esse processo vai até o seu final, nem sempre os resultados são os desejados, mas talvez seja um dos últimos lugares onde as pessoas podem silenciar e olhar para o seu mundo interno, num mundo de violência e exterioridade. Ela tem muito a aprender com aqueles instrutores que terminaram o seminário abraçando os homens que a sociedade quer esquecer.
Durante a aplicação do trabalho em que o Silêncio era o principal e invisível personagem, os presos experimentaram a sensação de estar numa “prisão dentro da prisão”, como alguns descreveram. Não havia como fugir do confronto, para alguns, terrível, do que viria de seu mergulho interior: os instrutores chamavam isso de Período de Tempestade, em que a imersão na meditação e no silêncio traria imagens, pensamentos, lembranças perturbadoras que não poderiam ser verbalizadas nem compartilhadas. Um dos presos descreveu a imagem de sua filha de quatro anos, morta num acidente banal em um brinquedo de parquinho. O outro lembrou da cena do crime que o mandou para aquela prisão. O outro começou a chorar copiosamente, num lugar em que chorar na frente dos outros não é exatamente boa política.
Nos últimos posts acabei debatendo a natureza do Mal e a sua possibilidade de abordagem pela Ciência Médica, quais são os limites do que pode ou não ser tratado. Pois esse filme veio responder a algumas dessas questões, e outras também. Alguns daqueles presos puderam contemplar, com alguma perplexidade, o absurdo do ato criminoso que haviam cometido há décadas, mas do qual não podiam fugir ou retroceder. Não se reconheciam no moleque que havia feito aquilo. Tudo isso aparecia naquelas horas de silêncio e de olhar interior. O documentário seguiu os presos por um período após o trabalho: eles estavam nitidamente transformados, para estranheza dos colegas.
O que me emocionou como médico e terapeuta foi a confluência entre esse processo vivido na meditação e a psicoterapia profunda, tão atacada nas últimas décadas. Jung disse uma vez que ninguém vai ao Paraíso sem passar pelo Inferno. Talvez estivesse citando a “Divina Comédia”, onde Dante Alighieri desce às profundezas do inferno e sobe até o Paraíso procurando por sua amada Beatrice. Os cognitivistas e programadores neurolinguísticos acham que esse mergulho não é necessário: basta reprogramar as falsas crenças e afetos e poderemos atingir o Paraíso da Saúde Mental e Inteligência Emocional. Os “Irmãos do Dharma” desmentem essa afirmação. A entrega ao Grande Silêncio e a Introvisão trouxeram a tempestade e a bonança para os presos. Os monstros apareceram, foram vistos e observados, até perderem a força. O que ficou em seu lugar foi uma Paz profunda, que resistiu à volta dos presos ao seu ambiente de reclusão e violência.
As Psicoterapias Profundas procuram por esses monstros e olham em suas caras, para que percam a sua força. Nem sempre esse processo vai até o seu final, nem sempre os resultados são os desejados, mas talvez seja um dos últimos lugares onde as pessoas podem silenciar e olhar para o seu mundo interno, num mundo de violência e exterioridade. Ela tem muito a aprender com aqueles instrutores que terminaram o seminário abraçando os homens que a sociedade quer esquecer.
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Run, Baby, Run
Na semana passada dei uma entrevista para uma jornalista amiga, sobre a associação entre Meditação e Exercício Físico. Se ela não fosse amiga e não conhecesse o meu trabalho, nunca teria topado esta pauta, já que não conheço nenhum monge maratonista nem muito menos um queniano que se concentre em posição de lótus antes de ganhar mais uma São Silvestre. O fato é que na minha prática clínica as duas práticas são sempre estimuladas, ainda que não concomitantes: há ótimas e consistentes evidências de benefícios dos exercícios físicos e das técnicas de meditação para os quadros psiquiátricos e praticamente todas as condições clínicas conhecidas encontram benefício nessas práticas. É barato e, quase sempre, seguro. Mesmo assim, é pequena a porcentagem de pacientes que desenvolvem novos hábitos, como fazer corridas ou caminhadas regulares. Fazer meditação e entoar mantras também não parece animar muita gente. Fazer exercícios e meditar, antes e depois, parece uma combinação ainda mais improvável. Mas posso imaginar que muitos atletas de alto nível consigam atingir, antes, durante e depois de suas provas, algo parecido com o estado meditativo de alguns monges taoistas ou budistas.
Gosto sempre de ler sobre histórias da carreira do Pelé, maior gênio que já calçou um par de chuteiras. Quem houve o cidadão Edson Arantes do Nascimento e sua incrível capacidade de falar m... não imagina o que ele era capaz de fazer dentro de um campo de futebol. Reza a lenda que, antes de entrar em campo, o negão, digo, o afrodescendentão, ficava num canto do vestiário, com uma toalha no rosto, deitado em silêncio profundo. Quando acabava esse exercício, que durava menos de meia hora, ele estava preparado para entrar em campo e arrebentar com o jogo. Gostaria muito de entrevistá-lo (Pelé, não Edson) para perguntar sobre esse ritual. Tenho quase certeza que ele desenvolveu a capacidade de entrar em estado de relaxamento e concentração profunda, como uma pessoa treinada consegue após alguns minutos de meditação. Nesse estado, há uma concentração relaxada, permitindo um raciocínio bem mais rápido e uma sintonia fina com os tempos de um jogo: o tempo da bola, do zagueiro adversário, da chegada do companheiro por trás do campo visual. Um estado de prontidão imediata e de raciocínio concomitante, como se pudesse pensar em três ou quatro alternativas do que fazer enquanto a bola viaja em sua direção.
Será que um maratonista consegue atingir esse estado de consciência? Já foi descrito mais de uma vez o “Runner’s High”,ou o barato dos corredores, atribuídos à liberação de neurotransmissores e endorfinas. Nunca corri o suficiente para atingir esse estado de euforia, ou de mente expandida e nem sei se isso é um mito, mas acredito que a sensação exista. Não só exista, como pode ser atingida através dessa concentração profunda em que o corredor não corre, mas é corrido; o corpo, a mente e a corrida são uma coisa só.
Talvez os estudos mais maneiros de se fazer na minha área seriam a dos benefícios da aplicação dos diferentes tipos de Atenção/Concentração em nosso dia a dia, na vida diária ou correndo na pista. Alguns meditadores fazem isso todo dia, com a prática que chamam de Atenção Simples ou de Mente Plena (Mindfullness). Veja como uma pequena ideia de pauta pode levar a nossa reflexão para longe...
Gosto sempre de ler sobre histórias da carreira do Pelé, maior gênio que já calçou um par de chuteiras. Quem houve o cidadão Edson Arantes do Nascimento e sua incrível capacidade de falar m... não imagina o que ele era capaz de fazer dentro de um campo de futebol. Reza a lenda que, antes de entrar em campo, o negão, digo, o afrodescendentão, ficava num canto do vestiário, com uma toalha no rosto, deitado em silêncio profundo. Quando acabava esse exercício, que durava menos de meia hora, ele estava preparado para entrar em campo e arrebentar com o jogo. Gostaria muito de entrevistá-lo (Pelé, não Edson) para perguntar sobre esse ritual. Tenho quase certeza que ele desenvolveu a capacidade de entrar em estado de relaxamento e concentração profunda, como uma pessoa treinada consegue após alguns minutos de meditação. Nesse estado, há uma concentração relaxada, permitindo um raciocínio bem mais rápido e uma sintonia fina com os tempos de um jogo: o tempo da bola, do zagueiro adversário, da chegada do companheiro por trás do campo visual. Um estado de prontidão imediata e de raciocínio concomitante, como se pudesse pensar em três ou quatro alternativas do que fazer enquanto a bola viaja em sua direção.
Será que um maratonista consegue atingir esse estado de consciência? Já foi descrito mais de uma vez o “Runner’s High”,ou o barato dos corredores, atribuídos à liberação de neurotransmissores e endorfinas. Nunca corri o suficiente para atingir esse estado de euforia, ou de mente expandida e nem sei se isso é um mito, mas acredito que a sensação exista. Não só exista, como pode ser atingida através dessa concentração profunda em que o corredor não corre, mas é corrido; o corpo, a mente e a corrida são uma coisa só.
Talvez os estudos mais maneiros de se fazer na minha área seriam a dos benefícios da aplicação dos diferentes tipos de Atenção/Concentração em nosso dia a dia, na vida diária ou correndo na pista. Alguns meditadores fazem isso todo dia, com a prática que chamam de Atenção Simples ou de Mente Plena (Mindfullness). Veja como uma pequena ideia de pauta pode levar a nossa reflexão para longe...
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Mente Plena
No último Congresso comprei um livro sobre Terapia Cognitiva e Mindfullness. Até agora tem sido uma decepção, já que tem mais Terapia Cognitiva do que Mindfullness, o verdadeiro motivo da compra.
Midfullness é uma forma de Meditação que exercita a mente presente e a atenção plena, duas coisas muito caras a esse escriba que vos tecla. Muito dos quadros psiquiátricos derivam de nossa capacidade, relativamente nova em termos evolutivos, de prever e antecipar o futuro. Isso permite que o Cérebro Racional inunde nosso Subcórtex, ou o Cérebro Emocional, com cenários possíveis de medo e ameaças. Até o comercial de seguros nos avisa que a vida moderna nos apresenta situações de risco, da moto tirando fina de nossa lateral a doenças, violência, acidentes e todo tipo de pesadelo que torna nosso radar algo sempre ativado, mesmo quando deveria estar desativado. Um dos efeitos colaterais desse estado é nosso estado de mente que a Psiquiatria chama de “Ansiedade Antecipatória”, isto é, um estado de atenção permanente às ameaças que podem vir do futuro. Na verdade, nem é um estado de atenção, mas de permanente desatenção. Temos basicamente dois tipos de Atenção Voluntária: uma Difusa, outra Focal. A Difusa é uma espécie de radar 360 graus, sempre detectando ameaças que podem ocorrer no ambiente. É um bom tipo de Atenção para se ter num campo com predadores escondidos ou numa patrulha no Afeganistão. Em nosso dia a dia, é uma atenção constantemente ativada pelo excesso de estímulos. É a atenção ativada pelo funcionário ao seu lado, respondendo um e-mail, ouvindo música no MP3, atualizando seu aplicativo do celular para encontrar garotas e curtindo uma foto no Instagram. Tudo ao mesmo tempo, com qualidade proporcional. A Atenção Focal está meio fora de moda, mas pode ser observada em uma criança completamente absorta em uma tarefa, como acabar de pintar uma figura; ou observe um gato à espreita de um pássaro no jardim: esses são exemplos quase perfeitos de Mindfullness. Uma Atenção Plena, absoluta à uma coisa só, com todo o seu Ser. Nada acontece à sua volta, nada invade o Pensamento. Só há o objeto da Atenção no meio do campo perceptual e nada mais à sua volta.
Mindfullness é estar inteiro no que vemos e fazemos. A tarefa mais difícil para atingi-la é cessar o infindável diálogo interior e a torrente de pensamentos que fica inundando nossa mente, o tempo todo, criando cenários sobre como deveria ser o futuro, o que gostaríamos de ter, as tarefas do dia seguinte, encontrar o amor verdadeiro e o pior, procurar por alguém que finalmente nos dê Atenção. A mesma Atenção que desperdiçamos no meio de várias mídias e vários pensamentos sobre o Futuro.
A forma mais desenvolvida e de fácil transmissão de Mente Plena, ou Cheia, o que seriam formas de tradução de Mindfullness seria o treino de Presença, de inteireza em tudo o que se faz. Pretendo estar presente nesse blog e na tarefa de desenvolvê-lo. A Atenção Plena é a continuidade desse estado de presença. Nos vivemos na era dos recalls, o que significa que muita gente comete erros terríveis fazendo as coisas sem a Atenção necessária, fruto da atenção excessivamente difusa ou diluída na displicência. Atenção plena é um artigo em falta e eu garanto que é uma grande vantagem competitiva, seja para quem quer ser bem sucedido na profissão ou na busca de um grande amor. Todo mundo quer atenção, mas pouca gente é capaz de oferecê-la em intensidade, para si e para o Outro.
Midfullness é uma forma de Meditação que exercita a mente presente e a atenção plena, duas coisas muito caras a esse escriba que vos tecla. Muito dos quadros psiquiátricos derivam de nossa capacidade, relativamente nova em termos evolutivos, de prever e antecipar o futuro. Isso permite que o Cérebro Racional inunde nosso Subcórtex, ou o Cérebro Emocional, com cenários possíveis de medo e ameaças. Até o comercial de seguros nos avisa que a vida moderna nos apresenta situações de risco, da moto tirando fina de nossa lateral a doenças, violência, acidentes e todo tipo de pesadelo que torna nosso radar algo sempre ativado, mesmo quando deveria estar desativado. Um dos efeitos colaterais desse estado é nosso estado de mente que a Psiquiatria chama de “Ansiedade Antecipatória”, isto é, um estado de atenção permanente às ameaças que podem vir do futuro. Na verdade, nem é um estado de atenção, mas de permanente desatenção. Temos basicamente dois tipos de Atenção Voluntária: uma Difusa, outra Focal. A Difusa é uma espécie de radar 360 graus, sempre detectando ameaças que podem ocorrer no ambiente. É um bom tipo de Atenção para se ter num campo com predadores escondidos ou numa patrulha no Afeganistão. Em nosso dia a dia, é uma atenção constantemente ativada pelo excesso de estímulos. É a atenção ativada pelo funcionário ao seu lado, respondendo um e-mail, ouvindo música no MP3, atualizando seu aplicativo do celular para encontrar garotas e curtindo uma foto no Instagram. Tudo ao mesmo tempo, com qualidade proporcional. A Atenção Focal está meio fora de moda, mas pode ser observada em uma criança completamente absorta em uma tarefa, como acabar de pintar uma figura; ou observe um gato à espreita de um pássaro no jardim: esses são exemplos quase perfeitos de Mindfullness. Uma Atenção Plena, absoluta à uma coisa só, com todo o seu Ser. Nada acontece à sua volta, nada invade o Pensamento. Só há o objeto da Atenção no meio do campo perceptual e nada mais à sua volta.
Mindfullness é estar inteiro no que vemos e fazemos. A tarefa mais difícil para atingi-la é cessar o infindável diálogo interior e a torrente de pensamentos que fica inundando nossa mente, o tempo todo, criando cenários sobre como deveria ser o futuro, o que gostaríamos de ter, as tarefas do dia seguinte, encontrar o amor verdadeiro e o pior, procurar por alguém que finalmente nos dê Atenção. A mesma Atenção que desperdiçamos no meio de várias mídias e vários pensamentos sobre o Futuro.
A forma mais desenvolvida e de fácil transmissão de Mente Plena, ou Cheia, o que seriam formas de tradução de Mindfullness seria o treino de Presença, de inteireza em tudo o que se faz. Pretendo estar presente nesse blog e na tarefa de desenvolvê-lo. A Atenção Plena é a continuidade desse estado de presença. Nos vivemos na era dos recalls, o que significa que muita gente comete erros terríveis fazendo as coisas sem a Atenção necessária, fruto da atenção excessivamente difusa ou diluída na displicência. Atenção plena é um artigo em falta e eu garanto que é uma grande vantagem competitiva, seja para quem quer ser bem sucedido na profissão ou na busca de um grande amor. Todo mundo quer atenção, mas pouca gente é capaz de oferecê-la em intensidade, para si e para o Outro.
domingo, 27 de outubro de 2013
O Sorriso do Self
Está aparecendo, de maneira tímida mas consistente, dentro do horizonte árido dos Congressos de Psiquiatria, uma tendência a incluir estudos sobre técnicas de Meditação como formas de tratamento dos quadros e doenças psiquiátricas. As evidências da literatura estão se avolumando e os congressos, financiados e mantidos em grande parte pela Indústria Farmacêutica, acusam suavemente essas evidências na parte final das aulas.Falamos dos medicamentos e ah, a propósito, Meditação do tipo Mindfullness também ajuda os pacientes. Assim como quem não quer nada.
Do ponto de vista puramente concreto, podemos localizar com margem de erro pequena que parar durante menos de meia hora pelo menos duas vezes ao dia para prestar atenção na respiração e silenciar nossos aflitos diálogos interiores já produz, em si, uma melhora, usando a droga mais eficaz e barata para melhorar o metabolismo e o funcionamento de nossas células nervosas: o Oxigênio. Uma respiração mais profunda, consciente e usando mais o Diafragma e menos a musculatura das costelas já produz, em si, melhora na produção de neurotransmissores e endorfinas, como uma boa corrida ou alguns minutos numa sauna. Os alvéolos se abrem, a troca gasosa se otimiza e o Cérebro recebe uma cota generosa de Oxigênio, além da sensação de calma e plenitude que acompanha essa “droga” e a respiração profunda. Um neurocientista também observaria que as áreas do Subcortex desenhadas para processar o medo, que estão sempre ativadas em nossa vida moderna, seja quando necessário seja quando não necessário, são subitamente bombardeadas pela mensagem e a imagem de tranquilidade e Não Medo. Algumas meditações sugerem a imagem de um sorriso percorrendo os órgãos e as nossas emoções. Podemos observar nas imagens e esculturas orientais que representam a expressão impassível e o sorriso quase imperceptível dos yogues e meditadores. A expressão de paz impassível é perturbadora para quem vive em nosso ritmo, ou disritmo.
Jung descreveu entre as suas estruturas inconscientes o Arquétipo do Self. Nossas traduções brasileiras chamam o Self de Si Mesmo. A tradução não parece grande coisa. Self não parece a tradução de algo em si, mas do reflexo do próprio Ser que se esconde de nosso Ego medroso. Self é o reflexo do mundo ou da divindade que habita de um jeito profundo nosso Ser Psíquico. Por isso que eu chamo o Self de Self, não de Si Mesmo. Self é o nosso centro, ou o Velho Sábio que aparece em nossos sonhos apontando o caminho.
Imagino que os estados mais profundos de Meditação permitem à nossa Psique o descolamento dos pensamentos, preocupações e ruminações infinitas de nossa Mente Pequena, amplificando, em cada Inspiração/Expiração os limites de nosso Ser. Vamos chegando perto, roçando, lambendo a Mente Grande que está lá, mas não a alcançamos.
Isso dificilmente vai aparecer na tela de uma Ressonância Magnética, então, tecnicamente, não existe.
Do ponto de vista puramente concreto, podemos localizar com margem de erro pequena que parar durante menos de meia hora pelo menos duas vezes ao dia para prestar atenção na respiração e silenciar nossos aflitos diálogos interiores já produz, em si, uma melhora, usando a droga mais eficaz e barata para melhorar o metabolismo e o funcionamento de nossas células nervosas: o Oxigênio. Uma respiração mais profunda, consciente e usando mais o Diafragma e menos a musculatura das costelas já produz, em si, melhora na produção de neurotransmissores e endorfinas, como uma boa corrida ou alguns minutos numa sauna. Os alvéolos se abrem, a troca gasosa se otimiza e o Cérebro recebe uma cota generosa de Oxigênio, além da sensação de calma e plenitude que acompanha essa “droga” e a respiração profunda. Um neurocientista também observaria que as áreas do Subcortex desenhadas para processar o medo, que estão sempre ativadas em nossa vida moderna, seja quando necessário seja quando não necessário, são subitamente bombardeadas pela mensagem e a imagem de tranquilidade e Não Medo. Algumas meditações sugerem a imagem de um sorriso percorrendo os órgãos e as nossas emoções. Podemos observar nas imagens e esculturas orientais que representam a expressão impassível e o sorriso quase imperceptível dos yogues e meditadores. A expressão de paz impassível é perturbadora para quem vive em nosso ritmo, ou disritmo.
Jung descreveu entre as suas estruturas inconscientes o Arquétipo do Self. Nossas traduções brasileiras chamam o Self de Si Mesmo. A tradução não parece grande coisa. Self não parece a tradução de algo em si, mas do reflexo do próprio Ser que se esconde de nosso Ego medroso. Self é o reflexo do mundo ou da divindade que habita de um jeito profundo nosso Ser Psíquico. Por isso que eu chamo o Self de Self, não de Si Mesmo. Self é o nosso centro, ou o Velho Sábio que aparece em nossos sonhos apontando o caminho.
Imagino que os estados mais profundos de Meditação permitem à nossa Psique o descolamento dos pensamentos, preocupações e ruminações infinitas de nossa Mente Pequena, amplificando, em cada Inspiração/Expiração os limites de nosso Ser. Vamos chegando perto, roçando, lambendo a Mente Grande que está lá, mas não a alcançamos.
Isso dificilmente vai aparecer na tela de uma Ressonância Magnética, então, tecnicamente, não existe.
sábado, 24 de agosto de 2013
O Quilão
Quem me conhece sabe que sou grande apreciador de Restaurantes Por Quilo. Tenho a impressão, influenciado pela Medicina Chinesa( que eu sapeio de vez em quando), que nos buffets por quilo podemos construir um equilíbrio entre cores e sabores, bem ao gosto da Medicina Taoísta. Salgado, Doce, Amargo, Apimentado e Azedo são tipos de estímulo que nossa língua percebe em diferentes regiões gustativas. Nossa alimentação ocidental tem uma grande ênfase no Salgado e no Doce. O resto entra como tempero ou como bebida, mas passamos do Salgado da refeição para o Doce da sobremesa. Excessos de doces e farináceos estão na base de nossa atual epidemia de Obesidade, mas esse é outro assunto. Os restaurantes por quilo tem espaços para saladas, legumes e pratos quentes. Dá para equilibrar gostos, cores e grupos alimentares, o que favorece a saciedade. Para quem duvida, eu proponho um teste bem simples: quando bater aquela fome fora de hora, tente atingir a saciedade comendo só doces, ou, em outro momento, faça um lanche com equilíbrio de sabores. Nos meus consultórios eu faço pequenos lanches, nessas horas, com grãos, como amêndoas e nozes, chocolates amargos com alto teor de cacau, maçãs azedas ou damascos, além de um chá forte ou picante. Os gostos estão aí: o salgado dos grãos, o picante no chá, doce e amargo no chocolate escuro, o azedo na fruta. Tenho a impressão que o Cérebro recebe uma informação sensorial mais rica e entende que não vai faltar comida. Isso desliga o alarme da fome. O doce, pelo contrário, parece estimular o Cérebro a querer mais, mais, mais. Quem já devorou caixas de bombons e teve que encarar a ressaca moral do dia seguinte sabe do que estou falando.
A parte ruim dos restaurantes por quilo são as filas, sobretudo, alguns tipos que ficam na fila. Eu costumo imaginar que uma forma de Danação ou Purgatório, para este pecador aqui, seria uma eternidade na fila do Restaurante por Quilo. Os tipos mais difíceis são, sem dúvida, os obsessivos. Olham, observam, pegam cada folhinha de alface com uma incrível e meticulosa precisão. Os membros mais gordinhos de nossa pequena confraria parecem demorar calculando os pontos da refeição, suas calorias e estratégias alimentares. Tenho uma paciente que diz que salada deve engordar muito, pois os pratos cheios de vegetais e saladas estão geralmente nas mãos dos gorduchinhos. Outra galera que retarda a fila são os funcionários querendo esticar o almoço. Tudo eles fazem de maneira lenta, inclusive montar seus pratos. Esses eu ultrapasso, dou trancos, piso nos sapatos. Tem paciente me esperando e a pessoa pode revisar doze bifes para poder escolher um deles. Gosto mais dos “caminhoneiros” sem culpa, que fazem pratos imensos sem considerar que estão num restaurante por quilo, não no PFão da esquina. Esses derrubam batatas de suas pirâmides e colocam Estrogonofe de Camarão encima do Arroz, Feijão e Farofa. Nenhum prurido gastronômico. Existem as magrinhas que fazem pratos que são critério para diagnóstico de Anorexia. As gordinhas sexy, que fazem um prato balanceado e depois devoram o pudim de leite da sobremesa e ainda batem um picolé na fila do pagamento.
Continuando a metáfora da Danação Eterna, a fila do pagamento é outra via de expiação de pecados. Fico enternecido com as velhinhas e velhinhos que adoram puxar papos com o Caixa. Enternecido e enlouquecido, de acordo com o número de pacientes que me aguardam no consultório. Prefiro pesadores e caixas mau humorados, que não olham nos seus olhos e fazem a sua função rapidamente. Não que isso intimide as velhinhas, que perguntam da família toda e podem fazer um tratado sobre as variações de temperatura e clima. Nesta fila, reclama-se do calor, do frio, da chuva e da secura. Desesperador é quando o caixa se anima e pode passar uns três minutos narrando as peripécias de ter sido pego, em pleno Domingo, por uma frente fria anunciada em todas as mídias. Impressionante, ele exclama diante do olhar admirado de vários tiozinhos. E a fila... Empaca .
Gosto muito de ler sobre os benefícios das meditações, e posso observá-los nas filas de restaurante por quilo. Inspirar, expirar. Longamente. Senão posso, num acesso de loucura, correr para o Mac Donald’s ao lado, onde também há filas, mas as duas em uma, pagamento e formação do prato. Respira que a fila está acabando. Nessa hora, dá pau na maquininha de vale refeição e o Caixa não sabe o que fazer. A velhinha comenta que o tempo está para virar. Eu tomo uma inspiração profunda.
A parte ruim dos restaurantes por quilo são as filas, sobretudo, alguns tipos que ficam na fila. Eu costumo imaginar que uma forma de Danação ou Purgatório, para este pecador aqui, seria uma eternidade na fila do Restaurante por Quilo. Os tipos mais difíceis são, sem dúvida, os obsessivos. Olham, observam, pegam cada folhinha de alface com uma incrível e meticulosa precisão. Os membros mais gordinhos de nossa pequena confraria parecem demorar calculando os pontos da refeição, suas calorias e estratégias alimentares. Tenho uma paciente que diz que salada deve engordar muito, pois os pratos cheios de vegetais e saladas estão geralmente nas mãos dos gorduchinhos. Outra galera que retarda a fila são os funcionários querendo esticar o almoço. Tudo eles fazem de maneira lenta, inclusive montar seus pratos. Esses eu ultrapasso, dou trancos, piso nos sapatos. Tem paciente me esperando e a pessoa pode revisar doze bifes para poder escolher um deles. Gosto mais dos “caminhoneiros” sem culpa, que fazem pratos imensos sem considerar que estão num restaurante por quilo, não no PFão da esquina. Esses derrubam batatas de suas pirâmides e colocam Estrogonofe de Camarão encima do Arroz, Feijão e Farofa. Nenhum prurido gastronômico. Existem as magrinhas que fazem pratos que são critério para diagnóstico de Anorexia. As gordinhas sexy, que fazem um prato balanceado e depois devoram o pudim de leite da sobremesa e ainda batem um picolé na fila do pagamento.
Continuando a metáfora da Danação Eterna, a fila do pagamento é outra via de expiação de pecados. Fico enternecido com as velhinhas e velhinhos que adoram puxar papos com o Caixa. Enternecido e enlouquecido, de acordo com o número de pacientes que me aguardam no consultório. Prefiro pesadores e caixas mau humorados, que não olham nos seus olhos e fazem a sua função rapidamente. Não que isso intimide as velhinhas, que perguntam da família toda e podem fazer um tratado sobre as variações de temperatura e clima. Nesta fila, reclama-se do calor, do frio, da chuva e da secura. Desesperador é quando o caixa se anima e pode passar uns três minutos narrando as peripécias de ter sido pego, em pleno Domingo, por uma frente fria anunciada em todas as mídias. Impressionante, ele exclama diante do olhar admirado de vários tiozinhos. E a fila... Empaca .
Gosto muito de ler sobre os benefícios das meditações, e posso observá-los nas filas de restaurante por quilo. Inspirar, expirar. Longamente. Senão posso, num acesso de loucura, correr para o Mac Donald’s ao lado, onde também há filas, mas as duas em uma, pagamento e formação do prato. Respira que a fila está acabando. Nessa hora, dá pau na maquininha de vale refeição e o Caixa não sabe o que fazer. A velhinha comenta que o tempo está para virar. Eu tomo uma inspiração profunda.
domingo, 7 de julho de 2013
Mindfulness
Acabei de ler, bem no meio de minhas férias, um estudo sobre Meditação e seus efeitos na Depressão. Esta técnica é chamada de Mindfulness, o que em tradução livre significa uma mente plena, enchendo o ambiente mental de uma pessoa. Parece um programa de índio, mas não. Ou talvez seja, se os índios forem bons meditadores.
Assisti certa vez uma entrevista do Dalai Lama em sua segunda passagem pelo Brasil e o repórter perguntou onde ele arranjava energia para ter uma agenda tão sobrecarregada, quase impossível. Ele respondeu com aquele ar sempre risonho que era movido por um senso muito profundo de Propósito, uma sensação de que ele realmente pode ajudar a mudar o mundo. É claro que eu não sou o Dalai Lama, salvo alguma visita de alguns carequinhas igualmente risonhos que batam naquela porta e digam que descobriram, com algum atraso, que eu sou a reencarnação de algum Lama, ou Rimpoche, ou coisa que o valha. Quem sabe até a reencarnação de algum faxineiro do templo, tudo bem, meu trabalho tem muito de faxina mesmo. O que eu posso dizer é que mesmo não sendo o Dalai Lama, tenho essa benção que é essa coceira do Propósito, essa inquietude de tentar entender mais, curar mais, contrabandear mais conhecimento para as pessoas numa sociedade que o excesso de informação está gerando a falta de informação. Finalmente, acho que descobri a mesma coisa que os Lamas já haviam descoberto há milênios: o trabalho de aquietar a Mente e a Meditação podem realmente ajudar a melhorar as pessoas e o mundo em que elas vivem.
Quem acompanha esse blog é testemunha dessa busca de respostas e de criação de Consciência. Mas quem lê essas mal tecladas linhas também deve se perguntar como fazer essa tal de Meditação. Alguém já pode ter tentado e desistido desanimado com aqueles mantras e aquelas posições de lótus que piorou a sua dor nas costas. Para os ansiosos chega a ser muito desconfortável sentar e contar a respiração, ou tentar cessar os pensamentos. O respeito infinito que os orientais tem pela experiência e o aprendizado individual torna essas técnicas pouco didáticas e pouco compreensíveis ao grande público. Então vamos lá: a meditação consiste numa infinidade de técnicas para aquietar a mente e pacificar nossos pensamentos circulares e obsessivos. Na medida em que as ondas cerebrais vão se lentificando, os neurônios disparam numa frequência mais próxima e harmoniosa. Isso pode se conseguir durante uma boa caminhada, ouvindo uma música no quarto ou fazendo uma atividade relaxante com a máxima concentração, sem que essa concentração demande nenhum esforço. O sujeito meditante vai conseguindo resultados cada vez melhores com a repetição dos procedimentos, gerando uma mente que se encontra na tranquilidade diante de situações de maior ou menor estresse.
Para iniciantes, eu sugiro duas práticas de cinco minutos, no começo e no final do dia. Conte as inspirações e expirações até dez. Preste atenção no ritmo de entrada e saída do ar de seus Pulmões como se você fosse um observador externo. Permita que o ar entre e saia de suas vias aéreas da forma mais consciente possível. Depois envie mensagens, ou imagens para esses Cérebro relaxado e concentrado ao mesmo tempo: imagens de um dia bom, com bom aproveitamento de seu tempo, alimentação consciente e boa produtividade. Sorria para seus medos e alterações de humor. Faça isso duas vezes por dia e observe como vai ficar o dia em que você lembra ou esquece de fazer o seu pequeno período de Meditação. Não precisa ser um Lama, ou um guru indiano para começar.
Aplicar essas técnicas à minha prática clínica é um dos propósitos para os próximos anos. Cada um pode aplicar a técnica para encontrar, ou aprimorar os seus propósitos nessa vida.
Assisti certa vez uma entrevista do Dalai Lama em sua segunda passagem pelo Brasil e o repórter perguntou onde ele arranjava energia para ter uma agenda tão sobrecarregada, quase impossível. Ele respondeu com aquele ar sempre risonho que era movido por um senso muito profundo de Propósito, uma sensação de que ele realmente pode ajudar a mudar o mundo. É claro que eu não sou o Dalai Lama, salvo alguma visita de alguns carequinhas igualmente risonhos que batam naquela porta e digam que descobriram, com algum atraso, que eu sou a reencarnação de algum Lama, ou Rimpoche, ou coisa que o valha. Quem sabe até a reencarnação de algum faxineiro do templo, tudo bem, meu trabalho tem muito de faxina mesmo. O que eu posso dizer é que mesmo não sendo o Dalai Lama, tenho essa benção que é essa coceira do Propósito, essa inquietude de tentar entender mais, curar mais, contrabandear mais conhecimento para as pessoas numa sociedade que o excesso de informação está gerando a falta de informação. Finalmente, acho que descobri a mesma coisa que os Lamas já haviam descoberto há milênios: o trabalho de aquietar a Mente e a Meditação podem realmente ajudar a melhorar as pessoas e o mundo em que elas vivem.
Quem acompanha esse blog é testemunha dessa busca de respostas e de criação de Consciência. Mas quem lê essas mal tecladas linhas também deve se perguntar como fazer essa tal de Meditação. Alguém já pode ter tentado e desistido desanimado com aqueles mantras e aquelas posições de lótus que piorou a sua dor nas costas. Para os ansiosos chega a ser muito desconfortável sentar e contar a respiração, ou tentar cessar os pensamentos. O respeito infinito que os orientais tem pela experiência e o aprendizado individual torna essas técnicas pouco didáticas e pouco compreensíveis ao grande público. Então vamos lá: a meditação consiste numa infinidade de técnicas para aquietar a mente e pacificar nossos pensamentos circulares e obsessivos. Na medida em que as ondas cerebrais vão se lentificando, os neurônios disparam numa frequência mais próxima e harmoniosa. Isso pode se conseguir durante uma boa caminhada, ouvindo uma música no quarto ou fazendo uma atividade relaxante com a máxima concentração, sem que essa concentração demande nenhum esforço. O sujeito meditante vai conseguindo resultados cada vez melhores com a repetição dos procedimentos, gerando uma mente que se encontra na tranquilidade diante de situações de maior ou menor estresse.
Para iniciantes, eu sugiro duas práticas de cinco minutos, no começo e no final do dia. Conte as inspirações e expirações até dez. Preste atenção no ritmo de entrada e saída do ar de seus Pulmões como se você fosse um observador externo. Permita que o ar entre e saia de suas vias aéreas da forma mais consciente possível. Depois envie mensagens, ou imagens para esses Cérebro relaxado e concentrado ao mesmo tempo: imagens de um dia bom, com bom aproveitamento de seu tempo, alimentação consciente e boa produtividade. Sorria para seus medos e alterações de humor. Faça isso duas vezes por dia e observe como vai ficar o dia em que você lembra ou esquece de fazer o seu pequeno período de Meditação. Não precisa ser um Lama, ou um guru indiano para começar.
Aplicar essas técnicas à minha prática clínica é um dos propósitos para os próximos anos. Cada um pode aplicar a técnica para encontrar, ou aprimorar os seus propósitos nessa vida.
domingo, 28 de abril de 2013
O Homem mais Feliz do Mundo
Quando o Dalai Lama interessou-se pela Neurociência, particularmente pela ação da Meditação no Cérebro Humano, ele foi buscar nos monges tibetanos uma cobaia perfeita. Matthiew Ricard era um francês que após concluir seu doutorado no Instituto Pasteur, resolveu largar tudo e se dedicar a ser um monge tibetano. Depois de décadas de prática meditativa, ele seria o cara para o estudo, uma vez que entendia tanto o mecanismo da Meditação como o Método Científico, uma espécie de religião materialista do Ocidente.
Descobriu-se que esse homem tinha uma ativação impressionante das Áreas Pré Frontais esquerdas, quando o assunto era felicidade, prazer, compaixão. Era uma ativação até oito vezes mais intensa do que os controles que entraram no estudo. Logo o monge francês ganhou o apelido, dado pela imprensa, de “O Homem mais Feliz do Mundo”. Para um homem que praticou a renúncia em toda a sua vida, foi um apelido e uma publicidade meio incômodos, mas tudo bem. Estava documentado que o trabalho que fizera em todas as horas solitárias de meditação realmente modificava as redes neurais e a função dos neurônios. O que hoje parece óbvio demorou muito tempo para ser referendado pelo Método Científico: a nossa Mente interfere e modifica o Cérebro. Escrevi sobre isso no post do último Domingo. Podemos alimentar o Bom ou o Mau Cão que habita o nosso Cérebro. A Mente é treinada evolutivamente para a hostilidade, o pessimismo, o medo, a pressa. Qualquer editor de tablóide sabe que um crime bizarro vende muito mais jornal do que uma cura de uma pessoa que abandonou os seus pensamentos de ódio. O treinamento meditativo diminui a violência e transforma a vida de presos perigosos e violentos, outro fato documentado em estudos.
Impressionante o depoimento da mãe da dentista queimada viva em seu consultório porque não tinha dinheiro na conta para dar a seus sequestradores. Ela disse que esses quase meninos que perpetraram essa barbárie, se presos, só vão aprimorar a sua capacidade de praticar atos criminosos. O nosso sistema prisional não consegue, na maior parte dos casos, recuperar ninguém, mas antes consolidar essas pessoas como seres isolados e apartados da sociedade e contra ela eles vão se voltar, como anticorpos que se voltam contra as suas próprias células.
Somos uma nação eminentemente cristã, mas é mentira que não podemos ter familiaridade com alguma prática meditativa. Há alguns anos eu fazia umas sessões de meditação, feitas por um monge argentino (pode-se dizer que eu já gostava de um argentino antes da eleição do Papa Francisco), e ele pedia para a gente vislumbrar o Buda da Compaixão. Para mim, o Buda da Compaixão é o Sagrado Coração de Maria, ou é Jesus pendendo na cruz, pedindo perdão pelos que “não sabem o que fazem”. Não preciso buscar nenhuma outra imagem. Rezar um terço é praticar a Mente Presente. A meditação é o trabalho de se voltar para o Aqui/Agora da mudança de nossas redes neurais de medo, de hostilidade, de autodecepção. Não é preciso ser budista, nem mesmo ter qualquer crença religiosa para fazê-lo. Aliás, quem não tem nenhuma crença metafísica, isso é, da existência de qualquer coisa fora do seu reino material, pode acreditar no Método onipresente, o Método Científico, que comprova a boa ação dessa quietude em nossas redes neurais.
A felicidade não é um objetivo, mas antes, um efeito colateral. Nossa mente objetiva e finalista se perde na busca da tal da Felicidade, que se afasta sempre que tentamos agarrá-la. Essa é uma causa da distância entre os meditadores e a Civilização Ocidental: tudo aqui tem que ter um uso, uma utilidade. O nome dessa filosofia é Utilitarismo. Por essa forma de ver o mundo, rezar um terço pode ter o efeito de ativar essas áreas Pré Frontais de Alegria, ou apaziguar as Áreas Subcorticais do Medo. Isso normalmente deixa desconfortáveis os praticantes.
A Felicidade é um subproduto da prática amorosa, não um objetivo a ser alcançado. Como eu citei no texto de Jorge Luis Borges (vide o último post de 2012 ou o primeiro de 2013), “Felizes os felizes”.
Descobriu-se que esse homem tinha uma ativação impressionante das Áreas Pré Frontais esquerdas, quando o assunto era felicidade, prazer, compaixão. Era uma ativação até oito vezes mais intensa do que os controles que entraram no estudo. Logo o monge francês ganhou o apelido, dado pela imprensa, de “O Homem mais Feliz do Mundo”. Para um homem que praticou a renúncia em toda a sua vida, foi um apelido e uma publicidade meio incômodos, mas tudo bem. Estava documentado que o trabalho que fizera em todas as horas solitárias de meditação realmente modificava as redes neurais e a função dos neurônios. O que hoje parece óbvio demorou muito tempo para ser referendado pelo Método Científico: a nossa Mente interfere e modifica o Cérebro. Escrevi sobre isso no post do último Domingo. Podemos alimentar o Bom ou o Mau Cão que habita o nosso Cérebro. A Mente é treinada evolutivamente para a hostilidade, o pessimismo, o medo, a pressa. Qualquer editor de tablóide sabe que um crime bizarro vende muito mais jornal do que uma cura de uma pessoa que abandonou os seus pensamentos de ódio. O treinamento meditativo diminui a violência e transforma a vida de presos perigosos e violentos, outro fato documentado em estudos.
Impressionante o depoimento da mãe da dentista queimada viva em seu consultório porque não tinha dinheiro na conta para dar a seus sequestradores. Ela disse que esses quase meninos que perpetraram essa barbárie, se presos, só vão aprimorar a sua capacidade de praticar atos criminosos. O nosso sistema prisional não consegue, na maior parte dos casos, recuperar ninguém, mas antes consolidar essas pessoas como seres isolados e apartados da sociedade e contra ela eles vão se voltar, como anticorpos que se voltam contra as suas próprias células.
Somos uma nação eminentemente cristã, mas é mentira que não podemos ter familiaridade com alguma prática meditativa. Há alguns anos eu fazia umas sessões de meditação, feitas por um monge argentino (pode-se dizer que eu já gostava de um argentino antes da eleição do Papa Francisco), e ele pedia para a gente vislumbrar o Buda da Compaixão. Para mim, o Buda da Compaixão é o Sagrado Coração de Maria, ou é Jesus pendendo na cruz, pedindo perdão pelos que “não sabem o que fazem”. Não preciso buscar nenhuma outra imagem. Rezar um terço é praticar a Mente Presente. A meditação é o trabalho de se voltar para o Aqui/Agora da mudança de nossas redes neurais de medo, de hostilidade, de autodecepção. Não é preciso ser budista, nem mesmo ter qualquer crença religiosa para fazê-lo. Aliás, quem não tem nenhuma crença metafísica, isso é, da existência de qualquer coisa fora do seu reino material, pode acreditar no Método onipresente, o Método Científico, que comprova a boa ação dessa quietude em nossas redes neurais.
A felicidade não é um objetivo, mas antes, um efeito colateral. Nossa mente objetiva e finalista se perde na busca da tal da Felicidade, que se afasta sempre que tentamos agarrá-la. Essa é uma causa da distância entre os meditadores e a Civilização Ocidental: tudo aqui tem que ter um uso, uma utilidade. O nome dessa filosofia é Utilitarismo. Por essa forma de ver o mundo, rezar um terço pode ter o efeito de ativar essas áreas Pré Frontais de Alegria, ou apaziguar as Áreas Subcorticais do Medo. Isso normalmente deixa desconfortáveis os praticantes.
A Felicidade é um subproduto da prática amorosa, não um objetivo a ser alcançado. Como eu citei no texto de Jorge Luis Borges (vide o último post de 2012 ou o primeiro de 2013), “Felizes os felizes”.
sábado, 22 de setembro de 2012
Meditação e Finalidades
Foi a partir do final do século XIX e início do XX que a influência da cultura oriental passou a se mais documentada, sobretudo essa estranha (para nós, ocidentais) prática de ficar sentado, na posição de lótus, esvaziando a mente de pensamentos por horas a fio. Uma atividade chamada Meditação. Qual a finalidade disso? Essa pergunta já é um grande X da questão entre as duas culturas: um pensamento finalista, ou intencionalista e o outro que procura, o tempo todo, afastar a mente das amarras da intenção.
Há uma cena no belíssimo filme “Sete Anos no Tibet” em que Brad Pitt faz um papel de um alpinista alemão famoso, que se esconde no Tibet durante a Segunda Guerra para não ficar prisioneiro das forças inglesas, demonstra as suas habilidades de escalada para uma jovem tibetana. Ele está com uma queda por ela e a disputa com um amigo, que também está preso lá pelo mesmo motivo que ele. Lá vai o cara todo pimpão tentando demonstrar que o gostosão lá é ele, olha como eu escalo o morro, olha como manejo as cordas, sou atlético, etc, etc. A moça olha para ele de forma neutra e responde que aquele tipo de demonstração só o faz parecer mais bobo. As pessoas de lá estavam sempre tentando domar o Ego, em vez de glorificá-lo. Pois, nós, ocidentais, tentamos sempre glorificar o Ego com as imagens de herói projetadas nas mídias, ou da mulher escultural, perfeita, que serve de enfeite ao herói. A moça do Tibete dá um fora no Brad Pitt e fica com seu amigo feioso, mais puro de coração. Convenhamos, uma escolha que a levaria à avaliação psiquiátrica desse lado do mundo. Aqui temos mais uma peça do quebracabeça: a Meditação é uma forma de acalmar o Ego, tirá-lo de cena, senão ele fica o tempo todo, correndo em círculos atrás de seus pensamentos. Mas a dúvida ainda resiste: para que serve isso?
Eu li em um livro sobre um mestre Zen que foi dar aula nos Estados Unidos sobre a Não Mente e a Meditação. Um jornal local fez uma reportagem sobre o mestre e suas aulas. A matéria dizia que a sua Meditação era perfeita para o Relaxamento e a redução das tensões da vida moderna. Um dos anfitriões americanos traduziu essa matéria, pensando agradar o mestre. Qual não foi a sua surpresa quando o mestre falou que aquela reportagem era “muito cruel”. Já se vai meio século que o Mestre achou que essa leitura era muito cruel e nós, ocidentais não sabemos onde está essa crueldade. A Meditação continua sendo comparada ou indicada como um Relaxamento do Corpo e da Atividade Mental que traz benefícios de modular as tensões de nossa civilização adrenérgica. Mas por que será que o homem achou essa leitura cruel?
Na Neurociência, estuda-se há décadas a interação entre as experiências e o meio ambiente sobre a expressão genética. Vários países, de diferentes culturas, tem protegido a relação da mãe com os bebês nos primeiros meses de vida. Estudos mostram que o simples reconhecimento do rosto ou da voz da mãe já produzem uma descarga de Endorfinas no Cérebro Emocional do bebê. Isso vai ter influência na capacidade de estabelecer conexões sociais agradáveis e confiar na vida. Ontem um paciente relatava o terror, na sua infância, de quando fazia uma arte e ficava fechado no quarto, esperando pela punição, muitas vezes física, que a sua mãe iria determinar. Essa rede neural, hoje, faz com que ele seja mandado embora sistematicamente de seus empregos, simplesmente por esperar da figura de autoridade uma punição severa por um erro banal. O ambiente relaxado e protetor da psicoterapia permite que ele revisite a cena, compreenda os seus efeitos na construção do software defeituoso que atrapalha a sua vida pessoal e amorosa. Podemos dizer que a sua mãe sabia que estava fazendo aquele estrago no futuro de seu filho? É claro que não. Estava tentando domar um menino levado, mas usou os seus próprios medos na tarefa. Os resultados não foram bons, então.
O que eu posso dizer ao Mestre Zen é que a meditação e os estados de mente relaxada tem, sim, efeito terapêutico e liberador de Endorfinas e Serotonina. Isso é muito importante para nós, ocidentais assustados. Como o bebê que reconhece o sorriso da mãe, podemos “usar” a Meditação para reeducar nossos Cérebros adrenérgicos demais. Eu sei que a percepção do Sábio oriental é que a Meditação é uma prática de alargamento de Alma e de Consciência. É muito mais do que um banho de Endorfinas. Mas nós somos mais jovens, cultural e espiritualmente. Precisamos saber para o que serve e como usar a coisa. Isso pode ser um bom começo. Podemos sorrir mais e acreditar mais na vida. Isso poderia diminuir muito nossa violência interna e externa. Vamos praticar.
Há uma cena no belíssimo filme “Sete Anos no Tibet” em que Brad Pitt faz um papel de um alpinista alemão famoso, que se esconde no Tibet durante a Segunda Guerra para não ficar prisioneiro das forças inglesas, demonstra as suas habilidades de escalada para uma jovem tibetana. Ele está com uma queda por ela e a disputa com um amigo, que também está preso lá pelo mesmo motivo que ele. Lá vai o cara todo pimpão tentando demonstrar que o gostosão lá é ele, olha como eu escalo o morro, olha como manejo as cordas, sou atlético, etc, etc. A moça olha para ele de forma neutra e responde que aquele tipo de demonstração só o faz parecer mais bobo. As pessoas de lá estavam sempre tentando domar o Ego, em vez de glorificá-lo. Pois, nós, ocidentais, tentamos sempre glorificar o Ego com as imagens de herói projetadas nas mídias, ou da mulher escultural, perfeita, que serve de enfeite ao herói. A moça do Tibete dá um fora no Brad Pitt e fica com seu amigo feioso, mais puro de coração. Convenhamos, uma escolha que a levaria à avaliação psiquiátrica desse lado do mundo. Aqui temos mais uma peça do quebracabeça: a Meditação é uma forma de acalmar o Ego, tirá-lo de cena, senão ele fica o tempo todo, correndo em círculos atrás de seus pensamentos. Mas a dúvida ainda resiste: para que serve isso?
Eu li em um livro sobre um mestre Zen que foi dar aula nos Estados Unidos sobre a Não Mente e a Meditação. Um jornal local fez uma reportagem sobre o mestre e suas aulas. A matéria dizia que a sua Meditação era perfeita para o Relaxamento e a redução das tensões da vida moderna. Um dos anfitriões americanos traduziu essa matéria, pensando agradar o mestre. Qual não foi a sua surpresa quando o mestre falou que aquela reportagem era “muito cruel”. Já se vai meio século que o Mestre achou que essa leitura era muito cruel e nós, ocidentais não sabemos onde está essa crueldade. A Meditação continua sendo comparada ou indicada como um Relaxamento do Corpo e da Atividade Mental que traz benefícios de modular as tensões de nossa civilização adrenérgica. Mas por que será que o homem achou essa leitura cruel?
Na Neurociência, estuda-se há décadas a interação entre as experiências e o meio ambiente sobre a expressão genética. Vários países, de diferentes culturas, tem protegido a relação da mãe com os bebês nos primeiros meses de vida. Estudos mostram que o simples reconhecimento do rosto ou da voz da mãe já produzem uma descarga de Endorfinas no Cérebro Emocional do bebê. Isso vai ter influência na capacidade de estabelecer conexões sociais agradáveis e confiar na vida. Ontem um paciente relatava o terror, na sua infância, de quando fazia uma arte e ficava fechado no quarto, esperando pela punição, muitas vezes física, que a sua mãe iria determinar. Essa rede neural, hoje, faz com que ele seja mandado embora sistematicamente de seus empregos, simplesmente por esperar da figura de autoridade uma punição severa por um erro banal. O ambiente relaxado e protetor da psicoterapia permite que ele revisite a cena, compreenda os seus efeitos na construção do software defeituoso que atrapalha a sua vida pessoal e amorosa. Podemos dizer que a sua mãe sabia que estava fazendo aquele estrago no futuro de seu filho? É claro que não. Estava tentando domar um menino levado, mas usou os seus próprios medos na tarefa. Os resultados não foram bons, então.
O que eu posso dizer ao Mestre Zen é que a meditação e os estados de mente relaxada tem, sim, efeito terapêutico e liberador de Endorfinas e Serotonina. Isso é muito importante para nós, ocidentais assustados. Como o bebê que reconhece o sorriso da mãe, podemos “usar” a Meditação para reeducar nossos Cérebros adrenérgicos demais. Eu sei que a percepção do Sábio oriental é que a Meditação é uma prática de alargamento de Alma e de Consciência. É muito mais do que um banho de Endorfinas. Mas nós somos mais jovens, cultural e espiritualmente. Precisamos saber para o que serve e como usar a coisa. Isso pode ser um bom começo. Podemos sorrir mais e acreditar mais na vida. Isso poderia diminuir muito nossa violência interna e externa. Vamos praticar.
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