No último Congresso Brasileiro de Psiquiatria entrei no final de uma Mesa Redonda que abordava o tema Psiquiatria e Espiritualidade, ou Religião, ou algo assim. Cheguei a tempo de ouvir uma palestra muito bonita de um colega que conciliava a sua fé Cristã com o trabalho clínico. Falou muito sobre uma atitude realmente humilde de um médico diante do paciente e do que sabemos e não podemos saber. Mencionou que frequentemente orava antes ou durante seus atendimentos. Foi mais do que uma exposição, foi um testemunho, nessa época que esse tema nunca é discutido a sério nos bastiões da Ciência. Jung era filho de um pastor protestante e pode-se dizer que uma boa parte de sua obra foi consagrada a responder a uma crise de fé que fez sucumbir a vida daquele modesto pastor, seu pai. Para Jung, a Psique Cristã era uma coisa viva, uma prática e uma simbologia que devia ser trazida e compreendida por nossa Psique Ocidental moderna. Falar disso em um Congresso não seria assunto proibido para um junguiano. A aula foi aplaudida e passaram a palavra à plateia. Um rapaz pediu a palavra e deu ali o seu testemunho, sobre um grupo que estudava os benefícios da Meditação Mindfulness na prática terapêutica. Aí começou a ficar engraçado. O tal do psiquiatra cristão acabou dando uma alfinetada no gordinho do Mindfulness, chegando a mencionar que a mística cristã tinha ótimos exemplos de práticas contemplativas e meditativas, e que ele via com certa estranheza esse modismo de meditações e mantras orientais invadindo as terapias cognitivas. O outro começou a defender a sua técnica e a plateia ficou vendo os dois monopolizando o debate, até que a senhora que tinha falado de Espiritismo chamou a atenção do gordinho, que estaria tomando todo o espaço do debate, e que outras pessoas também mereceriam fazer perguntas. Ele, calmamente, se calou, antes que terminasse em cadeiradas ou em alguma Cruzada aquela troca de farpas. A tal da senhora e o arauto da humildade cristã foram indelicados com o rapaz, que por sua vez parecia querer um lugar na mesa. Ou seja, a coisa descambou. Mas por que esse escriba achou a situação engraçada? Espírito de porco? Vontade de ver o circo pegando fogo? Claro, sem dúvida. Mas havia outra questão que Jung discutiria ali: a questão da Sombra.
Quando montamos o consultório, tive vontade de chamar a clínica de Acolhimento. Logo desisti da ideia, porque chamar o lugar de Acolhimento jogaria o Abandono para o Inconsciente do lugar. Diz o ditado popular que de boa intenção o Inferno está cheio. Nelson Rodrigues gostava desses paradoxos, sempre achando que por trás de um puritano sempre havia um devasso. É o mesmo mecanismo que faz uma pessoa em regime cair em tentação e ter ataques de comilança que nunca teria se não estivesse em regime. Toda intenção consciente pode evocar uma reação sombria em contrário. Toda pulsão reprimida pode voltar como sintoma ou como doença. O colega falava de humildade diante do Mistério e do paciente, mas se irritou com a técnica meditativa derivada do Budismo. Para piorar, fez uma leitura da técnica a partir de suas crenças e chamou o trabalho (bastante referendado por estudos e evidências científicas) de uma espécie de modismo. Lá se foi a humildade cristã por água abaixo. O gordinho por sua vez parecia mais afim de falar do que de ouvir.
Fui tomar um café, pensando que a Meditação, sendo ela cristã, budista, muçulmana, judaica, yogue, ou de qualquer origem, tem resultados comprovados na pacificação de grandes doenças do nosso tempo: os pensamentos reverberantes, as tentativas de controle de tudo e de todos, o estado de violência psíquica que se espalha em nosso cotidiano e consultórios. Não deve ter havido época de maior estresse psíquico na história humana. Tem lugar para o Mindfulness e para a Meditação Cristã em nossa vida. O importante é praticar. Mas não acho que os dois debatedores deram as mãos depois da palestra.
Dia-bolon significa Aquele que Separa. Humildade é saber que ele habita dentro de nossas boas intenções.
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domingo, 15 de janeiro de 2017
domingo, 11 de outubro de 2015
Da Luz e Sombra
Como James Hillman, analista e pensador junguiano, acredito que nossos problemas mitológicos começam e terminam no livro do Genesis. Vamos fazer um pequeno sumário: No Princípio era o Caos e escuridão, e o Criador passa a iniciar o Big Bang da criação, saindo do Vácuo Quântico para o construção da matéria e energia, que são a mesma coisa e intercambiáveis. O que? Não é isso que está escrito? Tudo bem então. Vou me deter numa parte específica: a expulsão do Paraíso.
Adão e Eva viviam no Jardim do Eden, cercados de tudo o que precisavam em um mundo de absoluta harmonia e abundância. Não havia conflito, portanto, não havia sofrimento. Entretanto, a falta de conflito gerava um efeito colateral grave: a falta de Consciência. Jeová permitiu aos pombinhos comer e beber de tudo naquele jardim magnífico, exceto o fruto da árvore de Conhecimento. Sendo onisciente, Jeová sabia muito bem o que iria acontecer quando impusesse ao ser humano uma Interdição: onde tudo era simetria, acontecia, enfim uma tensão, um conflito. E a Serpente, junto com a Mulher, levaram a culpa quando a Interdição foi transgredida, o que parece ser o destino das interdições tomadas sem consciência. Expulsos do Paraíso, Jeová avisou que Adão ganharia o pão com o suor de seu rosto e Eva sofreria dor em seus partos, além de criar uma eterna inimizade entre ela e a serpente. A Modernidade teria tornado as maldições inócuas, já que quem ganha mais maçãs, ou dinheiro, é quem nunca tira seu sustento do suor de seu rosto, mas armazena o suor alheio em algum Paraíso, não do Eden, mas um Paraíso Fiscal. Sem mencionar que as técnicas de analgesia e as cesarianas também afastaram das mulheres as dores do parto. Como a linguagem, ao contrário do que pensam os Criacionistas, é Simbólica e não factual, então as maldições não só persistem como se tornaram mais complexas: feliz do homem que pode ganhar o pão com o suor de seu rosto, pois o trabalho está cada vez mais dissociado de algum significado e, ter como ganhar a vida com dignidade é uma tarefa cada vez mais difícil. E a criação e manutenção da vida está migrando das dores do parto para os tubos de ensaio. Mas parece que temos cada vez mais suor e mais dor para dar origem e sustentar a vida, nossa e de quem amamos.
A Jornada da Consciência passa então por essa dores de criar e manter a Vida. O suor que se demanda é o da dedicação atenta ao caminho, para não se perder nos emaranhados das estradas que se bifurcam. Mas talvez a pior das pragas tenha sido a da inimizade com a Serpente. Essa continua enchendo os consultórios.
Jung escreveu que uma das maiores dificuldades na formação de nossa Consciência, ou uma das condições iniciais de nossa Neurose, seja a dissociação do Bem e do Mal. A Serpente é uma figura simbólica ligada à terra e à profundidade. Eva é o símbolo do Feminino, o mesmo que tem em seu interior a Mãe Criadora e o veneno da Serpente. A herança dessa Mitologia é o estabelecimento da Consciência binária, que opõe a Luz e a Sombra, o Bem e o Mal, a Vida e a Morte. Em outro livro da Bíblia, temos um Jó perplexo com a percepção que o Deus que tanto amava fora capaz de uma aposta com o Diabo para testar a sua fé. Mas não vamos falar disso hoje. Mas uma dica: Jó descobriu que o Bem e o Mal estavam no mesmo lugar, milênios antes de Melanie Klein.
Uma ilusão de nossa mitologia é de que podemos isolar o Mal se o colocarmos aos cuidados das figuras demoníacas. A Interdição do Mal, como no caso das maçãs do Eden, criam um mundo regido pelo engodo e pela maldade. Conquistamos o Mal não com o Bem, mas com a Consciência. Podemos renunciar a ele na medida que o conhecemos e, em algumas situações, podemos exercê-lo. Sobretudo, não se vence o Mal com Bondade ingênua. Por isso que diz o ditado popular que as boas intenções pavimentam o caminho do Inferno. Deve ser por isso que Jesus recomendou a mansidão do cordeiro, mas a astúcia das serpentes. Ele devia saber que estava reabilitando e incorporando às serpentes o seu lugar na dança da Vida.
Adão e Eva viviam no Jardim do Eden, cercados de tudo o que precisavam em um mundo de absoluta harmonia e abundância. Não havia conflito, portanto, não havia sofrimento. Entretanto, a falta de conflito gerava um efeito colateral grave: a falta de Consciência. Jeová permitiu aos pombinhos comer e beber de tudo naquele jardim magnífico, exceto o fruto da árvore de Conhecimento. Sendo onisciente, Jeová sabia muito bem o que iria acontecer quando impusesse ao ser humano uma Interdição: onde tudo era simetria, acontecia, enfim uma tensão, um conflito. E a Serpente, junto com a Mulher, levaram a culpa quando a Interdição foi transgredida, o que parece ser o destino das interdições tomadas sem consciência. Expulsos do Paraíso, Jeová avisou que Adão ganharia o pão com o suor de seu rosto e Eva sofreria dor em seus partos, além de criar uma eterna inimizade entre ela e a serpente. A Modernidade teria tornado as maldições inócuas, já que quem ganha mais maçãs, ou dinheiro, é quem nunca tira seu sustento do suor de seu rosto, mas armazena o suor alheio em algum Paraíso, não do Eden, mas um Paraíso Fiscal. Sem mencionar que as técnicas de analgesia e as cesarianas também afastaram das mulheres as dores do parto. Como a linguagem, ao contrário do que pensam os Criacionistas, é Simbólica e não factual, então as maldições não só persistem como se tornaram mais complexas: feliz do homem que pode ganhar o pão com o suor de seu rosto, pois o trabalho está cada vez mais dissociado de algum significado e, ter como ganhar a vida com dignidade é uma tarefa cada vez mais difícil. E a criação e manutenção da vida está migrando das dores do parto para os tubos de ensaio. Mas parece que temos cada vez mais suor e mais dor para dar origem e sustentar a vida, nossa e de quem amamos.
A Jornada da Consciência passa então por essa dores de criar e manter a Vida. O suor que se demanda é o da dedicação atenta ao caminho, para não se perder nos emaranhados das estradas que se bifurcam. Mas talvez a pior das pragas tenha sido a da inimizade com a Serpente. Essa continua enchendo os consultórios.
Jung escreveu que uma das maiores dificuldades na formação de nossa Consciência, ou uma das condições iniciais de nossa Neurose, seja a dissociação do Bem e do Mal. A Serpente é uma figura simbólica ligada à terra e à profundidade. Eva é o símbolo do Feminino, o mesmo que tem em seu interior a Mãe Criadora e o veneno da Serpente. A herança dessa Mitologia é o estabelecimento da Consciência binária, que opõe a Luz e a Sombra, o Bem e o Mal, a Vida e a Morte. Em outro livro da Bíblia, temos um Jó perplexo com a percepção que o Deus que tanto amava fora capaz de uma aposta com o Diabo para testar a sua fé. Mas não vamos falar disso hoje. Mas uma dica: Jó descobriu que o Bem e o Mal estavam no mesmo lugar, milênios antes de Melanie Klein.
Uma ilusão de nossa mitologia é de que podemos isolar o Mal se o colocarmos aos cuidados das figuras demoníacas. A Interdição do Mal, como no caso das maçãs do Eden, criam um mundo regido pelo engodo e pela maldade. Conquistamos o Mal não com o Bem, mas com a Consciência. Podemos renunciar a ele na medida que o conhecemos e, em algumas situações, podemos exercê-lo. Sobretudo, não se vence o Mal com Bondade ingênua. Por isso que diz o ditado popular que as boas intenções pavimentam o caminho do Inferno. Deve ser por isso que Jesus recomendou a mansidão do cordeiro, mas a astúcia das serpentes. Ele devia saber que estava reabilitando e incorporando às serpentes o seu lugar na dança da Vida.
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