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segunda-feira, 9 de maio de 2016

Ponto de Mutação

Vivemos num estado de hipnose coletiva, então eu sempre fico curioso sobre quem está mexendo nas cordinhas que nos movem feito marionetes. No meu ofício, por exemplo, não são poucas as pessoas que acusam a Psiquiatria de criar entidades clínicas fantasmas, dando remédios que não passam de placebos, escravizando pacientes que passam a depender, ou acreditar que dependem, das balinhas mágicas que prescrevemos em receitas carbonadas. Como eu posso abrir mão de muita coisa nessa vida, mas não posso abrir mão de duvidar, não me canso de notar as técnicas de persuasão da indústria farmacêutica e a discreta e eficaz imposição de um jeito de diagnosticar e tratar o sofrimento psíquico. Mas não vejo a tal máfia de avental querendo sodomizar o mundo com remédios cada vez mais caros e geradores de dependências e dependentes. Vejo, antes, o mundo ficando cada vez mais maluco e a Psiquiatria correndo atrás da loucura vertiginosa de nosso tempo, sem conseguir alcançá-la. Outro dia soube da história de um paciente, dependente químico, que saiu de sua internação e voltou para matar o psiquiatra que o havia internado. Senti um gelo no Estômago ao perceber o risco que é tentar encontrar alguma ordem no mundo que sempre é puxado para o Caos. Mexer com a alma humana e suas dores pode colocar os profissionais em situação de risco, e do pior dos riscos, que é o invisível. Os profissionais de Saúde Mental ficam então esmagados entre o sofrimento que tentam aliviar, os interesses econômicos e sociais envolvidos nos tratamentos e a impotência diante da progressão em espiral das doenças. Ainda assim tem muita gente que, como eu, se diverte de ver as pessoas melhorando, superando dificuldades, ampliando Consciências. Mas não é sempre que isso acontece.
Nos últimos anos a Neurociência descobriu uma região do Cérebro, o Giro do Cíngulo Anterior, que é o X de muitas questões. Essa região funciona como uma espécie de maestro que modula a Atenção, a Execução, o processamento de emoções e o tempo da resposta das funções executivas. Quando alguém passa por um tratamento, pode achar que vai tomar um remedinho e tudo voltará a ser como antes. Se o tratamento for bem sucedido, nada será como antes. A palavra mágica passa a ser Modulação, e a tal Modulação passa pelo Cíngulo Anterior. Priorizar, manter um objetivo em mente, não jogar o computador na parede, não matar o chefe ou o psiquiatra, tudo isso tem a ver com Modulação. Quem não desenvolve essa capacidade apanha da vida todo dia: perde empregos, afasta namorados, aborta projetos e briga com tudo e com todos. Sobretudo e pior que tudo, perde a capacidade de fazer a leitura do Real e se posicionar adequadamente diante dessa leitura.
Os medicamentos, quando bem empregados, devolvem ao paciente a sua capacidade de leitura da vida e modulação de afetos. Quando mal empregados, acabam sedando e encurtando o repertório de resposta das pessoas diante das dificuldades. É claro que existem situações clínicas severas que a sedação é o recurso para o curto circuito dos afetos e dos riscos para a vida do paciente e dos que o cercam. Mas este é um último recurso, não o único.
O sofrimento psíquico permite que o paciente olhe para aquilo que não quer olhar. Os medos, as dores, os traumas e a necessidade de cuidar disso. Pode parecer piegas, mas o simples fato de olhar para isso já produz uma transformação. Olhar, compreender, reposicionar são algumas das coisas que se conversa num processo de tratamento, enquanto os medicamentos começam a fazer efeito.
Muita gente que ataca os tratamentos e as medicações nunca tiveram a experiência de ver uma pessoa que passa por um transtorno sentir o alívio de suas dores e a gratidão pelo bom emprego dos medicamentos. Olha para tudo pelo viés de suas teorias de conspiração.
Na língua chinesa, o ideograma de Crise tem em si o ideograma da Oportunidade. As doenças podem realmente funcionar como Ponto de Inflexão, onde deixamos para trás o que não serve mais. Pode ser uma longa travessia até a dor virar transformação, e muita gente não quer pagar o preço nem da travessia, nem da transformação. Mas Jung dizia que a vida quer sempre ser reconquistada. Vamos reconquistá-la, então.


domingo, 9 de agosto de 2015

Inimigo Invisível

Uma das características da Doença do Pânico, em sua própria definição, é da ocorrência de uma crise de ansiedade repentina e devastadora, sem um desencadeante específico. Segundo essa definição, é como um vulcão interno que entra em erupção sem motivo e sem ter como prevenir esse fenômeno. Essa é uma das características que transformam os portadores dessa doença em reféns do medo: se a crise pode ocorrer a qualquer momento, é como viver sentado num barril de pólvora o tempo todo.
Estava numa livraria ontem e folheava um livro em que o autor denunciava a máfia da Psiquiatria e a sua capacidade de transformar os pacientes com o diagnóstico de Transtorno de Pânico em doentes crônicos, sempre dependentes de vários medicamentos e mantendo, ainda, crises que se repetem, repetem diante das doses cavalares de medicação, que vão sendo aumentadas indefinidamente. Achei a visão um tanto soturna e comprei um livro que talvez falasse do mesmo assunto, que é a Neuroplasticidade. Concordo com o autor que ficar aumentando a dose da medicação sem trabalhar com o paciente as origens e a manifestação do Medo, criando mecanismos de enfrentamento e controle dos sintomas, simplesmente não funciona.
Lembro de um caso que me chegou depois de tratamentos anteriores fracassados em que, apesar da dose da medicação estar adequada e até um pouco mais alta do que eu costumo prescrever, as crises continuavam indo e voltando, ante o olhar assustado do médico e de seus familiares. A conduta tradicional seria aumentar a dose. Acontece que essa definição de crises que vem do nada é muito bonita nos livros e nos manuais diagnósticos, mas não ajuda nos tratamentos. Por que aquele caso, que parecia ter tudo para melhorar, estava evoluindo tão mal? A paciente continuava cutucando as áreas do medo com uma sensação permanente de insegurança sobre o seu futuro. Tio Sigmund, sempre achincalhado nos seminários de Neurociência, descobriu há mais de um século que a existência de um conflito, rodando debaixo da camada percebida pela nossa Consciência, gera sintomas. Esses sintomas não são Imaginários nem vontade de chamar a atenção, como muita gente acredita, mas a tentativa de trazer o conflito para cima e, de preferência, elaborá-lo. A paciente em si estava perfeitamente acovardada por aquelas fases da vida em que nada parece dar certo: relacionamento terminando, transição de carreira, brigas na família, tudo isso bombardeando as áreas do Cérebro que processam o medo, gerando crises que surgiam no meio de pensamentos em turbilhão, preocupações indo e vindo e um bullying muito comum e cruel, que é o auto-bulliyng. Tudo isso criava as condições para a crise de Pânico perfeita, gerando assim novos ciclos de medo e de sensação de que aquilo nunca teria fim.
A estratégia foi trazer à tona os achacadores internos para depois enfrentar os externos, como chefe abusivo, namorado surtado e mãe chantagista, que foram perdendo sua força e as crises junto. De certa forma, pintar o Pânico como um inimigo traiçoeiro, que pode atacar do nada sem mais nem porque deixa os pacientes sempre aterrorizados e agarrados aos remédios. Trazer os medos à luz, explicar os mecanismos das crises e como lidar com elas tem o efeito de trazer o monstro para fora, onde ele não parece tão implacável, nem invencível.
Modular o medo, reduzir os conflitos e as preocupações circulares sem dúvida ajudam a diminuir as crises e ampliar o repertório de estratégias e manobras de lidar com elas. Isso é o contrário do acovardamento que cronifica a doença e gera livros que denunciam os psiquiatras e sua tentativa de escravizar os pacientes. O tratamento deve visar o "enpowerment", que em portuenglish é traduzido por empoderar a pessoa que sofre as crises, para devolver a ela a sensação de estar no comando. Eu concordo que essa não é sempre a posição que alguns pesquisadores tem em relação à doença.
Colocar a crise de Pânico como um fantasma imprevisível e que vai sempre voltar, pode transformar o paciente em uma pessoa fragilizada e escondida atrás dos remédios. Isso deve ser modificado.Mas justiça seja feita que não é todo mundo que está afim de peitar a doença. Em alguns casos, felizmente raros, a pessoa se esconde atrás dos sintomas e vira uma paniquenta profissional, pode-se assim dizer. Essas não se adaptam muito a esse que escreve esse texto. E a culpa vai para a conta do médico e de seus remédios, como sempre.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

A Insustentável Leveza PSI

Lembro de uma passagem de um programa da série “Viver com Fé” do canal de TV paga GNT, onde um rapaz contava a sua experiência de horror e redenção como dependente de substância, ou dependente químico. Um cara para lá dos quarenta anos, com uma expressão de paz e uma imensa ternura nos olhos, contava Np programa como o seu pai vendeu um apartamento para poder pagar por suas internações, como a fissura quase destruiu a sua vida e a da sua família. Tudo parecia caminhar para um daqueles relatos de como uma Igreja ou determinado grupo tinha ajudado a sua redenção, mas não. Depois de muitos anos perdido em reuniões de grupos de Doze Passos e mensagens espirituais que nada diziam para ele, finalmente ele teve uma introvisão, ou em bom Português, um insight em que, olhando para as pessoas da clínica, com o olhar esgazeado e perdido, os olhos de abandono de quem já está há muito tempo sem visão da vida ou de algum futuro, olhando para essas pessoas, ele teve a percepção de finalmente entender o Evangelho. Naquele momento, ele entendeu que não havia nada mais importante para ele e para a sua vida do que ajudar aquelas pessoas, o que ele faz até hoje como coach e aconselhamento de dependentes de álcool e outras drogas.
Pensei nesse cara quando vi o terceiro episódio de PSI, nova série da HBO escrita e produzida pelo psicanalista pop Contardo Calligaris. Já falei desse programa no último post. Mencionei que ele reflete um processo de louco enamoramento de Calligaris consigo próprio. E olha que eu estou gostando da série. O que motivou esse blog a voltar a comentar o programa foi um diálogo de Contardo, digo, Carlo Antonini, o psicanalista e herói da série, que interpreta a tudo e a todos, na rua, na chuva ou na fazenda, ou numa casinha de sapé; bem, excepcionalmente, ele está interpretando alguém no lugar certo para a prática, isto é,no seu consultório. Debate com um rapaz, dependente de cocaína, que já passou por todas as tentativas de ajuda, sem sucesso, e tenta chegar a um consenso sobre a sua internação, voluntária ou involuntária, numa clínica. Um debate alegre, recheado por uns bombons trufados que ele oferece ao rapaz. Terminam sem uma conclusão clara: ele deve se internar ou continuar buscando pela overdose definitiva? Como responder a essa questão tão difícil?
Os leitores desse blog hão de convir que tenho tratado essa série com alguma boa vontade. Mas acho que a mesma presta um grande desserviço quando contrapõe um debate frívolo e superficial sobre um dos quadros mais graves e de pior evolução de toda a Medicina. O índice de recuperação desses quadros não chega a 30 por cento, com pequenas fortunas consumidas em todo mundo. O contraponto da imagem do ex drogado que encontrou a sua cura na visão absoluta do amor e da entrega para o outro,e, na outra cena, o psicanalista bacaninha, que transforma essa questão numa masturbação descolada e cool, regada a bombom trufado. Quem já atendeu ou atende esse tipo de caso deve ter recebido essa cena como um belo soco na boca do estômago. O rapaz sai do consultório alegremente, achando o terapeuta muito maneiro, pronto para o próximo pino de cocaína.
Todos conhecemos a história de alguém que, depois de anos tentando parar de fumar, tem um clique, ou um estalo na cabeça e nunca mais põe um cigarro na boca, além de virar o mais feroz caçador de cheiros de cigarro. Acredito que a recuperação de uma dependência, qualquer uma das dependências, de substância a relacionamentos, seja uma combinação de várias tentativas fracassadas com esse momento em que a pessoa salta para fora daquele estado de ser e não volta mais. Não dá para planejar nem saber quando esse salto ocorrerá, e sua busca é penosa, com algumas mortes no caminho. Para tratar esses quadros é preciso uma pegada e tanto do terapeuta para mostrar que todos os discursos de autoengano são uma piada ante a marcha inexorável da doença. Já vi muita gente recair depois de uma internação, assim como todo dia tem moleques pulando o muro das clínicas para fugir do tratamento. Vencer a doença demanda uma profunda reestruturação cognitiva, afetiva e existencial dos pacientes. Não é assunto para se debater com chocolate. É um assunto e um tratamento visceral. Um assunto de Morte e Renascimento, bom para a Sexta Feira Santa.

domingo, 9 de setembro de 2012

Ajuda

Há uma cena no novo filme de Fernando Meirelles, “360”, particularmente forte: Anthony Hopkins faz o papel de um pai procurando por uma filha desaparecida, que acaba conhecendo uma jovem brasileira voltando para o Brasil de coração partido, após uma separação. O filme mostra essas vidas se entrelaçando, com filmagens em Viena, na França, na Inglaterra. A cena com Tony é particularmente forte, pois o seu personagem está em uma reunião de Alcoólicos Anônimos, contando a sua história. O ator revelou que ele usou elementos de sua vida pessoal para fazer a cena, já que passou muitos anos em tratamento e passou por muitas reuniões do AA como aquela do filme. Eu assisti à cena sabendo desse detalhe, que a produção do filme deve ter vazado para atrair atenção, claro. Na cena, ele descreve o quanto odiava aquelas reuniões em seus dias de alcoolista mais grave. Odiava os depoimentos, o clima baixo astral e, sobretudo, odiava as partes dos Doze Passos em que ele, um ateu, tinha que reconhecer que era impotente em vencer a Dependência sozinho, ele precisava da ajuda de um Ser Superior e Espiritual para enfrentar a compulsão. Como um ateu, que acreditou a vida toda em seu Ego e sua capacidade de fazer tudo baseado em sua força de vontade, como esse homem poderia reconhecer a sua impotência diante do Álcool e confiar em um Ser Superior? Essa foi a questão que deve ter unido ator e personagem naquela cena.
Há uma passagem no Novo Testamento que me ocorreu assistindo a essa cena. Um centurião romano vai pedir ajuda a Jesus, pois sua filha está muito doente em casa. O que chamou a atenção foi a forma que o soldado pediu por essa ajuda: “Eu não sou digno da Tua Presença em minha morada, mas se dizes uma palavra ela estará curada”. Jesus responde que ele já pode voltar para a sua casa, que a sua filha já está recuperada, pela força de sua fé.
Quando enfrentamos uma dificuldade, uma doença, tentamos equacionar o problema com as ferramentas do Ego: procuramos por diagnóstico, por algum remédio ou algum bisturi que conserte o que está quebrado. O que eu quero dizer é que a atitude é sempre de combater o que achamos que seja o mal. Não é incomum que esse enfrentamento acabe piorando o problema: a moça que não consegue um companheiro, quanto mais se preocupa com o assunto, mais acaba inconscientemente afastando as pessoas, sobretudo do sexo masculino, pois o medo de se desapontar supera qualquer outro sentimento e esse medo sempre acaba atrapalhando tudo. Toda semana começamos uma dieta ou tentamos perder peso, mas no final de semana caímos em tentação em algum churrasco ou exageramos na sobremesa. O que eu quero dizer é que as coisas que o Ego se propõe tem um determinado alcance, o que depende de mudanças profundas de hábitos para darem certo. Criar o hábito de fazer exercícios, mudar a alimentação, enfrentar uma dependência (e somos dependentes de muitas, muitas coisas) é difícil e essa dificuldade é bastante relatada nesse blog, sob diversos ângulos diferentes.
O centurião consegue retirar o Ego da frente e se abre para a Ajuda, que é misteriosa. “Eu não sou digno da sua Presença” tem o mesmo efeito do Passo que o personagem de Anthony Hopkins detesta no filme: é saber que precisamos de ajuda, de uma ajuda misteriosa quando todas as ferramentas da vontade acabaram falhando, ou se esgotando. Pode parecer algo simplesmente Metafísico ou uma carolice de junguiano, mas talvez exista um fundamento também neural para essa “manobra”.
Havia um emprego onde eu atendia uma quantidade excessiva de pacientes em um curto período de Ambulatório. A tentativa de ser completamente eficaz ou dar um nível de atendimento próximo ao do meu consultório, onde tinha um tempo muito maior para cada atendimento, me deixava tenso, com dor de cabeça e, pior, errando mais do que o normal. Comecei a fazer uma manobra cognitiva, ou uma pequena oração dependendo do ângulo que se olha: imaginava que, sozinho, não conseguiria ajudar ninguém. Precisava de alguma ajuda, de uma forma diferente de atender. Deu certo. Os atendimentos ficaram mais leves, o tempo parecia se esticar nas consultas e a tal “ajuda” vinha. Isso pode ser o Espírito Santo, mas pode também ser um Cérebro que funciona de um jeito completamente diferente quando esvaziamos as expectativas e pedimos ajuda.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Ameaça Invisível

Quem me conhece sabe muito bem que eu sou o último a defender a polimedicação e a polimedicalização de nossos dias (parece a mesma coisa, mas não é). Já dei aula e fiz propaganda dos livros de Daniel Servant-Schreiber, que justamente estudam formas de tratamentos alternativos para enfrentar o estresse e suas consequências: exercícios físicos, meditação, dietas, higiene do sono, psicoterapia, tudo é uma forma de se preservar ou incrementar o funcionamento cerebral, melhorando os sintomas de desgaste e mesmo esgotamento que chamamos de depressão. Essas técnicas, associadas a medicação bem indicada e acompanhada, permitem na minha experiência o uso de doses até dois terços menores do que a de colegas que só acreditam em genes defeituosos e doenças com base biológica, apenas. Psicoterapia, para muitos, é divertimento de senhoras com saias longas e vontade de jogar conversa fora com os pacientes até o remédio começar a fazer efeito. Pois as técnicas combinadas permitem a redução dos estressores, a sobrecarga diária que afeta uma enorme parcela da população e responde talvez pelo lucro de muitas empresas farmacêuticas, pois não há quase nenhuma doença que não tenha uma participação enorme do estresse e dos estressores que se perpetuam em nossa vida. Nessa semana mesmo, tive dois debates acalorados com pacientes jovens que se recusam a tomar medicação para quadros depressivos leves, aqueles que não deixam a pessoa de cama mas vão tirando gradativamente a cor e o gosto da vida. Sono pouco reparador, mesmo que a pessoa durma várias horas, cansaço diário e permanente, refletido em mau humor e irritação constantes, impaciência, dificuldades em se concentrar e se lembrar de coisas, diminuição do desejo sexual e de outros desejos, evitação social, tudo isso pode fazer parte do mesmo problema. Entendo a relutância que as pessoas tem de usar um medicamento com ação no Sistema Nervoso Central, entendo também que com uma "higiene cerebral" melhor, com os cuidados que já apontei acima e em outros posts, muitos desses sintomas podem ser melhorados ou mesmo superados. Mas, se a pessoa tem esses sintomas há semanas ou meses, tenta se cuidar de várias formas mas continua com altos e baixos a ponto de acreditar que esse estado de fadiga permanente é seu estado normal, saiba que o seu sofrimento é desnecessário e sua autosuficiência, burra. Há tratamentos acessíveis, relativamente simples e que usam, sim, medicamentos com ação no Sistema Nervoso que vão recuperar os seus neurônios desse estado de semifalência.
Eu não sou lá muito fã dos Doze Passos dos Alcoólicos Anônimos, com exceção do primeiro passo, que é reconhecer que, sozinhos, não vamos a lugar nenhum. E que às vezes precisamos muito de ajuda. Talvez esse passo seja o mais importante de todos.

domingo, 3 de abril de 2011

Zumbis Farmacológicos

A Folha de hoje publicou hoje uma matéria sobre o que a repórter chamou de "Efeito Zumbi" dos medicamentos psiquiátricos. Para começar, colocou todos no mesmo balaio. Seguiu-se depois um lixo de referências inadequadas, lugares comuns tendenciosos e alhos com bugalhos com sintomas e efeitos colaterais. Vou passar a semana ouvindo falar nisso, a fantasia de que do Psiquiatra Malvado que a todos submete com seus medicamentos será reforçada na cabeça das pessoas. Posso até receber essa matéria em E-Mail-Denúncia contra a Máfia de Avental.
Ontem falei sobre os Zumbis Emocionais. Juro que não combinei nada com a Folha de São Paulo. Os zumbis representam bem a nossa época, as pessoas cada vez mais famintas e apáticas, procurando por sangue, ou seja, por emoção e por algum contato físico. Não era um quadro psiquiátrico em si, embora esteja na base de vários quadros psiquiátricos. As pessoas alternam o hiperestímulo com a apatia. Os leitores podem checar os outros posts, falo disso o tempo todo.
As informações dos profissionais entrevistados são desencontradas, novamente misturando alhos com bugalhos. Existe uma tendência a um uso abusivo, seja nas indicações seja nas doses, de medicamentos com ação mais ou menos sedativa no Sistema Nervoso Central. Um dos pacientes citados na matéria teve um quadro depressivo, provavelmente por Burn Out, um termo para um quadro de esgotamento por múltiplos e importantes estressores. O paciente em questão teve esse esgotamento por desadaptação ao seu trabalho, numa empresa de telemarketing. Ele não aguentava mais ser xingado e desrespeitado por clientes e chefia, causando um colapso. A médica deu cinco tipos de remédio, o paciente suspendeu o tratamento por conta própria. Um detalhe do ofício: quando o diagnóstico é bem feito e o tratamento bem estabelecido, não dá certo suspender o tratamento. Em algumas semanas ou meses, o resultado da retirada dos medicamentos é a recaída, muitas vezes de forma mais intensa do que no início do tratamento. Se ele retirou os medicamentos e ficou melhor, é porque o tratamento foi mal indicado e/ou aplicado.
Já cansei de ver pessoas com a vida devastada por sintomas depressivos, ou ansiosos ou de abuso de substância por tratamentos inadequados ou interrompidos antes dos resultados poderem sequer serem avaliados. Esse tipo de matéria levanta uma lebre correta de forma errada e imprecisa. Os medicamentos não devem ser usados desnecessária nem em doses maiores do que as suficientes. Os medicamentos tem efeitos colaterais, inclusive o de causar, em alguns casos, uma diminuição da resposta afetiva, que a matéria da Folha chama de Efeito Zumbi. Mas esses remédios salvam vidas e reconstróem famílias todo dia. As pessoas não imaginam como era lidar com essas doenças antes desses medicamentos estarem à nossa disposição. Não imaginam o alívio que um tratamento bem feito pode trazer a um paciente que está sofrendo.

sábado, 6 de novembro de 2010

Transfusão de Serenidade

O termo do título é de autoria de um teólogo e psicoterapeuta de quem eu gosto muito, Jean Yves Leloup. Ele a descreve em um momento particularmente dramático, quando estava à beira do leito de um paciente terminal, que sentia a proximidade da morte e se angustiava profundamente com o momento da passagem. Jean Yves descreve em um livro sobre os Terapeutas do Deserto que o paciente vai se acalmando na medida que o terapeuta faz uma transfusão de serenidade, tocando psiquicamente a alma turbada pelo vazio, até que o paciente começa a descrever uma paz interior, ausente de medo.
Lembrei desse trecho na apresntação de Flávio Kechanski, já citada na última postagem, no Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em Fortaleza. Para quem não me conhece, sou psiquiatra e psicoterapeuta de orientação junguiana. No congresso não há portanto nenhuma palestra que eu não sofra uma alfinetada. Entro na apresentação da Sociedade de Psicoterapia e o palestrante fala de um caso onde a paciente tinha um quadro depressivo que respondia mal aos psiquiatras biológicos desalmados, interessados em diagnosticá-la e entupí-la de medicamentos, sem perceber que a paciente estava presa numa simbiose familiar, os pais inteiramente dependentes dela, por isso os remédios não faziam efeito. O terapeuta atento e arguto começa a trabalhar na simbiose, a paciente melhora da depressão. O terapeuta mantém os medicamentos estabilizadores do humor, mas fala disso com um tom de quase displicência. Na outra sala, outro colega descreve como seu paciente estava perdido na selva de psicoterapeutas inoperantes e autorreferentes, até finalmente ser salvo pela medicação potente e heróica que seu psiquiatra introduziu, dando finalmente ao paciente a estabilidade de humor que necessitava. Percebe, caro leitor? É pancada de cá, pancada de lá.
Há alguns anos a Folha de domingo fez uma matéria de capa: Dr Freud ou Dr Prozac? A resposta é muito simples: Dr Freud E Dr Prozac. Todas as evidências mostram há muitos anos a eficácia maior do trabalho combinado, mas os xiitas de lado a lado continuam trocando suas farpas, suas acusações.
Na palestra de Flávio Kechanski, ele rechaçou com elegância a eficácia das terapias de base analítica em pacientes dependentes de crack nas fases iniciais de tratamento. Isso faz todo o sentido, pois o foco inicial é a desintoxicação e recontrução gradativa de uma psique despedaçada por uma das drogas mais potentes à disposição dos dependentes, o crack. Flávio destacou também a importância do uso de tratamentos baseados em evidências no tratamento desses casos graves. A psicoterapia de base analítica, subentende-se, baseia-se em sistemas teóricos nem sempre baseados em evidências. Podemos discutir isso em outra ocasião, mas também posso aceitar a colocação. Só que durante a sua apresentação, que, o leitor pode notar, gostei muito, Flávio descreveu uma enfermeira de sua equipe que consegue reverter quadros de agitação psicomotora jogando cartas com o paciente, até que ele consiga novamente centrar-se. Aí o raciocínio vai todo para as cucuias, para não usar outro termo. A enfermeira tranquilizando um paciente agitado apenas na base do carteado não está usando uma Terapia Cognitiva baseada em evidências. Está fazendo, isso sim, uma transfusão de serenidade, como fazem os bons psicoterapeutas. Seja por transmissão eletromagnética de afeto, seja por informação não local, seja pelo mecanismo metafísico pouco baseado em evidências e muito em vidências que caracteriza uma boa relação terapêutica.
Coloco isso apenas para abrirmos mais o leque de possibilidades quando um ser humano se debruça sobre o sofrimento de outro ser para tentar ajudar, tentar transfundir a serenidade que pode mesmo faltar para si. Se vai se usar mais ou menos a técnica, seja ou não a técnica baseada em evidências, o fato é que as transmissões não locais de alma para alma ampliam muito a nossa capacidade de ajuda. E de entendimento.