Continuo assistindo a série de Contardo Calligaris, “Psi”, que gravei da TV a cabo, em sua segunda temporada. Cansei de meter o pau ou de tentar ver nela qualquer traço de verossimilhança com a prática bruta das consultas e da clínica. O psiquiatra da série é uma espécie de Superman que negocia com presas amotinadas, interpreta quem passa na sua frente e discorre com distância quando questões de vida e morte passam pelos seus divãs. Como diria a neo peemedebista Marta Suplicy, relaxa e goza. Assisto e me divirto, ponto. Num episódio nosso super herói vai a um Pronto Socorro visitar uma paciente com sua amiga e colega Valentina. Uma outra moça agoniza na maca ao lado, tentando falar algo. Sua pulseira tem seu nome, Lara dos Santos. Ele recosta a cabeça e ouve entre sussurros: “Fui violentada”. Apalpa o abdomen da moça e percebe que está rígido, as extremidades frias e arroxeadas. Ele chama a plantonista, que a leva imediatamente para o Centro Cirúrgico. Carlo Antoninni, o alter ego de Calligaris, volta no dia seguinte para saber da moça, após uma noite mal dormida em que não conseguiu tirar o caso de sua cabeça. Recebe a notícia de que ela fora a óbito no final do plantão. Carlo começa uma longa jornada para esclarecer o que tinha acontecido com aquela moça, que, menciona, acabou virando sua paciente depois de morrer. O fio condutor de sua busca é a frase: “Fui violentada”, que se torna enigmática porque não há sinal de violência sexual e o legista afirma que a morte foi por suicídio. Carlo faz uma autópsia psiquiátrica para entender o que aconteceu com a moça. O episódio se chama: “O que aconteceu com você?”.
Há alguns dias eu estava saindo cedo de meu consultório para comprar umas coisas no mercadinho da esquina. Dois prédios adiante do meu havia duas ambulâncias do Resgate. Senti um aperto na boca do Estômago quando vi os paramédicos colocando a maca vazia dentro da ambulância e fechando a porta. Já imaginava o significado disso. Continuei andando e vi homens de terno e seguranças conversando em roda, com os olhos baixos. Atrás deles, no chão da garagem, havia um corpo coberto por uma manta prateada. A disposição do corpo e o local me sugeriu suicídio. Engoli em seco e segui para as cápsulas de café que estavam me esperando no mercadinho. Quando eu voltei, tinham adiantado um carro que ocultou o corpo do olhar dos curiosos e das expressões de “que horror” que passavam pelos olhos dos transeuntes a caminho do trabalho. Perguntei para os porteiros, sempre a melhor referência de rádio peão à disposição, sobre o que tinha acontecido lá. Meus porteiros não são bons informantes, sabiam das ambulâncias, mas não do corpo. Quando Yrá, minha secretária, chegou horas mais tarde, foi enviada por mim para investigação do ocorrido. Melhor informante que os porteiros foi o cara da barraquinha de doces, que contou as poucas informações que circularam: tinha sido um suicídio de uma moça de dezenove anos, que passou o crachá de entrada na sua empresa e se atirou pela janela. Por que ela teria feito aquilo no seu trabalho? Foi a pergunta de minha detetive, digo, secretária. Ela deve morar em uma casa, respondi. E estava indiferente aos efeitos de seu ato no ambiente de trabalho. Tinha pouca chance de cair sobre outra pessoa no local escolhido. Foi premeditado, planejado e violento, o que não é muito comum em meninas adolescentes. Como o super psiquiatra da série, eu tive vontade de investigar o que tinha ocorrido. Mas a agenda estava lotada e eu tratei de enfrentar essa Doença onde eu posso fazê-lo, com aquele gosto de impotência que essa tragédia deixa na boca.
Nos Estados Unidos, as estatísticas são mais confiáveis e o Suicídio é a causa principal de morte em jovens, da adolescência até os vinte e cinco anos. No Brasil, com certeza, a causa principal nessa faixa etária é a morte por acidentes e execuções de jovens pobres. Nas classes mais favorecidas é que o Suicídio está crescendo, não sabemos se em proporções epidêmicas como nos jovens americanos.
Embora tenha uma correlação bastante clara entre Depressão, Doença Bipolar, Dependência de Álcool e Drogas e o Suicídio, cada vez mais temos evidẽncias que o Suicídio é um quadro à parte na Psiquiatria e deve ser cada vez mais estudado como entidade própria. Mesmo em centros especializados e com bom aparato de equipe e seguimento, o ato suicida continua sendo paradoxal, abrupto e difícil de prevenir. Não que isso sirva de consolo. Para ninguém.
Quando eu voltei para a rua, agora para o almoço, ainda tinha uma viatura da PM no prédio. As pessoas continuavam entrando e saindo no prédio, indiferentes à tragédia que tinha ocorrido. O carro ainda ocultava o que ocorria na garagem. Foi triste imaginar que, a 20 metros daquele escritório, estavam eu e o Fábio, que poderíamos tentar evitar aquele desfecho.
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domingo, 24 de janeiro de 2016
sexta-feira, 18 de abril de 2014
A Insustentável Leveza PSI
Lembro de uma passagem de um programa da série “Viver com Fé” do canal de TV paga GNT, onde um rapaz contava a sua experiência de horror e redenção como dependente de substância, ou dependente químico. Um cara para lá dos quarenta anos, com uma expressão de paz e uma imensa ternura nos olhos, contava Np programa como o seu pai vendeu um apartamento para poder pagar por suas internações, como a fissura quase destruiu a sua vida e a da sua família. Tudo parecia caminhar para um daqueles relatos de como uma Igreja ou determinado grupo tinha ajudado a sua redenção, mas não. Depois de muitos anos perdido em reuniões de grupos de Doze Passos e mensagens espirituais que nada diziam para ele, finalmente ele teve uma introvisão, ou em bom Português, um insight em que, olhando para as pessoas da clínica, com o olhar esgazeado e perdido, os olhos de abandono de quem já está há muito tempo sem visão da vida ou de algum futuro, olhando para essas pessoas, ele teve a percepção de finalmente entender o Evangelho. Naquele momento, ele entendeu que não havia nada mais importante para ele e para a sua vida do que ajudar aquelas pessoas, o que ele faz até hoje como coach e aconselhamento de dependentes de álcool e outras drogas.
Pensei nesse cara quando vi o terceiro episódio de PSI, nova série da HBO escrita e produzida pelo psicanalista pop Contardo Calligaris. Já falei desse programa no último post. Mencionei que ele reflete um processo de louco enamoramento de Calligaris consigo próprio. E olha que eu estou gostando da série. O que motivou esse blog a voltar a comentar o programa foi um diálogo de Contardo, digo, Carlo Antonini, o psicanalista e herói da série, que interpreta a tudo e a todos, na rua, na chuva ou na fazenda, ou numa casinha de sapé; bem, excepcionalmente, ele está interpretando alguém no lugar certo para a prática, isto é,no seu consultório. Debate com um rapaz, dependente de cocaína, que já passou por todas as tentativas de ajuda, sem sucesso, e tenta chegar a um consenso sobre a sua internação, voluntária ou involuntária, numa clínica. Um debate alegre, recheado por uns bombons trufados que ele oferece ao rapaz. Terminam sem uma conclusão clara: ele deve se internar ou continuar buscando pela overdose definitiva? Como responder a essa questão tão difícil?
Os leitores desse blog hão de convir que tenho tratado essa série com alguma boa vontade. Mas acho que a mesma presta um grande desserviço quando contrapõe um debate frívolo e superficial sobre um dos quadros mais graves e de pior evolução de toda a Medicina. O índice de recuperação desses quadros não chega a 30 por cento, com pequenas fortunas consumidas em todo mundo. O contraponto da imagem do ex drogado que encontrou a sua cura na visão absoluta do amor e da entrega para o outro,e, na outra cena, o psicanalista bacaninha, que transforma essa questão numa masturbação descolada e cool, regada a bombom trufado. Quem já atendeu ou atende esse tipo de caso deve ter recebido essa cena como um belo soco na boca do estômago. O rapaz sai do consultório alegremente, achando o terapeuta muito maneiro, pronto para o próximo pino de cocaína.
Todos conhecemos a história de alguém que, depois de anos tentando parar de fumar, tem um clique, ou um estalo na cabeça e nunca mais põe um cigarro na boca, além de virar o mais feroz caçador de cheiros de cigarro. Acredito que a recuperação de uma dependência, qualquer uma das dependências, de substância a relacionamentos, seja uma combinação de várias tentativas fracassadas com esse momento em que a pessoa salta para fora daquele estado de ser e não volta mais. Não dá para planejar nem saber quando esse salto ocorrerá, e sua busca é penosa, com algumas mortes no caminho. Para tratar esses quadros é preciso uma pegada e tanto do terapeuta para mostrar que todos os discursos de autoengano são uma piada ante a marcha inexorável da doença. Já vi muita gente recair depois de uma internação, assim como todo dia tem moleques pulando o muro das clínicas para fugir do tratamento. Vencer a doença demanda uma profunda reestruturação cognitiva, afetiva e existencial dos pacientes. Não é assunto para se debater com chocolate. É um assunto e um tratamento visceral. Um assunto de Morte e Renascimento, bom para a Sexta Feira Santa.
Pensei nesse cara quando vi o terceiro episódio de PSI, nova série da HBO escrita e produzida pelo psicanalista pop Contardo Calligaris. Já falei desse programa no último post. Mencionei que ele reflete um processo de louco enamoramento de Calligaris consigo próprio. E olha que eu estou gostando da série. O que motivou esse blog a voltar a comentar o programa foi um diálogo de Contardo, digo, Carlo Antonini, o psicanalista e herói da série, que interpreta a tudo e a todos, na rua, na chuva ou na fazenda, ou numa casinha de sapé; bem, excepcionalmente, ele está interpretando alguém no lugar certo para a prática, isto é,no seu consultório. Debate com um rapaz, dependente de cocaína, que já passou por todas as tentativas de ajuda, sem sucesso, e tenta chegar a um consenso sobre a sua internação, voluntária ou involuntária, numa clínica. Um debate alegre, recheado por uns bombons trufados que ele oferece ao rapaz. Terminam sem uma conclusão clara: ele deve se internar ou continuar buscando pela overdose definitiva? Como responder a essa questão tão difícil?
Os leitores desse blog hão de convir que tenho tratado essa série com alguma boa vontade. Mas acho que a mesma presta um grande desserviço quando contrapõe um debate frívolo e superficial sobre um dos quadros mais graves e de pior evolução de toda a Medicina. O índice de recuperação desses quadros não chega a 30 por cento, com pequenas fortunas consumidas em todo mundo. O contraponto da imagem do ex drogado que encontrou a sua cura na visão absoluta do amor e da entrega para o outro,e, na outra cena, o psicanalista bacaninha, que transforma essa questão numa masturbação descolada e cool, regada a bombom trufado. Quem já atendeu ou atende esse tipo de caso deve ter recebido essa cena como um belo soco na boca do estômago. O rapaz sai do consultório alegremente, achando o terapeuta muito maneiro, pronto para o próximo pino de cocaína.
Todos conhecemos a história de alguém que, depois de anos tentando parar de fumar, tem um clique, ou um estalo na cabeça e nunca mais põe um cigarro na boca, além de virar o mais feroz caçador de cheiros de cigarro. Acredito que a recuperação de uma dependência, qualquer uma das dependências, de substância a relacionamentos, seja uma combinação de várias tentativas fracassadas com esse momento em que a pessoa salta para fora daquele estado de ser e não volta mais. Não dá para planejar nem saber quando esse salto ocorrerá, e sua busca é penosa, com algumas mortes no caminho. Para tratar esses quadros é preciso uma pegada e tanto do terapeuta para mostrar que todos os discursos de autoengano são uma piada ante a marcha inexorável da doença. Já vi muita gente recair depois de uma internação, assim como todo dia tem moleques pulando o muro das clínicas para fugir do tratamento. Vencer a doença demanda uma profunda reestruturação cognitiva, afetiva e existencial dos pacientes. Não é assunto para se debater com chocolate. É um assunto e um tratamento visceral. Um assunto de Morte e Renascimento, bom para a Sexta Feira Santa.
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