Vivemos num estado de hipnose coletiva, então eu sempre fico curioso sobre quem está mexendo nas cordinhas que nos movem feito marionetes. No meu ofício, por exemplo, não são poucas as pessoas que acusam a Psiquiatria de criar entidades clínicas fantasmas, dando remédios que não passam de placebos, escravizando pacientes que passam a depender, ou acreditar que dependem, das balinhas mágicas que prescrevemos em receitas carbonadas. Como eu posso abrir mão de muita coisa nessa vida, mas não posso abrir mão de duvidar, não me canso de notar as técnicas de persuasão da indústria farmacêutica e a discreta e eficaz imposição de um jeito de diagnosticar e tratar o sofrimento psíquico. Mas não vejo a tal máfia de avental querendo sodomizar o mundo com remédios cada vez mais caros e geradores de dependências e dependentes. Vejo, antes, o mundo ficando cada vez mais maluco e a Psiquiatria correndo atrás da loucura vertiginosa de nosso tempo, sem conseguir alcançá-la. Outro dia soube da história de um paciente, dependente químico, que saiu de sua internação e voltou para matar o psiquiatra que o havia internado. Senti um gelo no Estômago ao perceber o risco que é tentar encontrar alguma ordem no mundo que sempre é puxado para o Caos. Mexer com a alma humana e suas dores pode colocar os profissionais em situação de risco, e do pior dos riscos, que é o invisível. Os profissionais de Saúde Mental ficam então esmagados entre o sofrimento que tentam aliviar, os interesses econômicos e sociais envolvidos nos tratamentos e a impotência diante da progressão em espiral das doenças. Ainda assim tem muita gente que, como eu, se diverte de ver as pessoas melhorando, superando dificuldades, ampliando Consciências. Mas não é sempre que isso acontece.
Nos últimos anos a Neurociência descobriu uma região do Cérebro, o Giro do Cíngulo Anterior, que é o X de muitas questões. Essa região funciona como uma espécie de maestro que modula a Atenção, a Execução, o processamento de emoções e o tempo da resposta das funções executivas. Quando alguém passa por um tratamento, pode achar que vai tomar um remedinho e tudo voltará a ser como antes. Se o tratamento for bem sucedido, nada será como antes. A palavra mágica passa a ser Modulação, e a tal Modulação passa pelo Cíngulo Anterior. Priorizar, manter um objetivo em mente, não jogar o computador na parede, não matar o chefe ou o psiquiatra, tudo isso tem a ver com Modulação. Quem não desenvolve essa capacidade apanha da vida todo dia: perde empregos, afasta namorados, aborta projetos e briga com tudo e com todos. Sobretudo e pior que tudo, perde a capacidade de fazer a leitura do Real e se posicionar adequadamente diante dessa leitura.
Os medicamentos, quando bem empregados, devolvem ao paciente a sua capacidade de leitura da vida e modulação de afetos. Quando mal empregados, acabam sedando e encurtando o repertório de resposta das pessoas diante das dificuldades. É claro que existem situações clínicas severas que a sedação é o recurso para o curto circuito dos afetos e dos riscos para a vida do paciente e dos que o cercam. Mas este é um último recurso, não o único.
O sofrimento psíquico permite que o paciente olhe para aquilo que não quer olhar. Os medos, as dores, os traumas e a necessidade de cuidar disso. Pode parecer piegas, mas o simples fato de olhar para isso já produz uma transformação. Olhar, compreender, reposicionar são algumas das coisas que se conversa num processo de tratamento, enquanto os medicamentos começam a fazer efeito.
Muita gente que ataca os tratamentos e as medicações nunca tiveram a experiência de ver uma pessoa que passa por um transtorno sentir o alívio de suas dores e a gratidão pelo bom emprego dos medicamentos. Olha para tudo pelo viés de suas teorias de conspiração.
Na língua chinesa, o ideograma de Crise tem em si o ideograma da Oportunidade. As doenças podem realmente funcionar como Ponto de Inflexão, onde deixamos para trás o que não serve mais. Pode ser uma longa travessia até a dor virar transformação, e muita gente não quer pagar o preço nem da travessia, nem da transformação. Mas Jung dizia que a vida quer sempre ser reconquistada. Vamos reconquistá-la, então.
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segunda-feira, 9 de maio de 2016
domingo, 19 de agosto de 2012
Neuroplasticidade e Psicoterapias
Outro dia estava lendo os comentários desse blog e fiquei assustado com um Anônimo que comentou um post sobre livros de autoajuda, particularmente “O Segredo”. O cara (vamos assumir de forma sexista que aquele tipo de imbecilidade cabe melhor num homem) entrou nos comentários e espinafrou todo mundo. O autor, que era um babaca metido que estava atacando os livros de autoajuda. E uma das pessoas que comentaram o post também levou uns coices aleatórios. Confesso que fiquei mexido. Esse blog quase secreto teria caído na boca do povo e já começava a atrair malucos aleatórios da internet? O meu consultório começaria a receber trotes ameaçadores? E, para mim o pior, eu estava sendo atacado pela interpretação exatamente oposta ao que estava escrito: o post não atacava o livro (que eu não li, eu vi o filme), antes mostrava que ele tinha as suas aplicações práticas. Depois eu acabei entrando em outros blogs e outros comentários e pude observar que esse fenômeno das metralhadoras giratórias é bastante comum: os caras não entendem o que está escrito e já saem atacando o autor, a humanidade, os políticos, com várias e tresloucadas teorias da conspiração. Foi um alívio. Alguém tinha entrado aleatoriamente no blog e distribuído coices aleatórios. Feliz ou infelizmente, o visitante não apareceu mais.
Os livros desse tipo destacam o valor dos Sistemas de Crença como criadores invisíveis de nossa realidade. Posso citar uma pequena fábula edificante a respeito disso: “Havia em determinada cidade distante um barqueiro antigo e sábio, que ajudava silenciosamente as pessoas e famílias que iriam tentar a vida em um lugar inteiramente novo. Durante a travessia, vinha uma dessas pessoas em trânsito e perguntava ao barqueiro como era aquela cidade, como eram as pessoas de lá. O barqueiro, como um psicanalista, respondia a pergunta com outra pergunta: Como eram as pessoas da cidade que eles tinham deixado? Ah, eram ótimas pessoas, alegres, bondosas, tínhamos muitos amigos. O barqueiro coçava as barbas brancas e respondia que as pessoas dessa cidade eram exatamente iguais aos antigos amigos. Eles provavelmente seriam muito felizes por lá. Algum tempo depois, outra família o procurava com as mesma pergunta, que ele, mais uma vez, respondia da mesma forma: como eram as pessoas de sua cidade anterior? Eram pessoas falsas, negativas, fofoqueiras, que tratavam muito mal os forasteiros. O barqueiro balançava a cabeça e dizia que as pessoas dessa nova cidade eram exatamente iguais e que eles teriam dificuldades, com certeza".
Essa pequena história ilustra a importância do sistema de crenças das pessoas na apreciação da realidade. Além das crenças, podemos dar um destaque às expectativas, o que também ajuda a criar o que será a nossa realidade. Tem até um nome para isso, que é Profecia Autorrealizável.
Não há nenhuma forma de psicoterapia que não investigue e atente para esses sistemas de crença e de autoprofecias. Uma relação tensa com a mãe pode se reproduzir em hostilidades e incompatibilidades com as mulheres ou, em outro extremo, pode levar um sujeito a virar um assassino serial de prostitutas. Um pai espancador pode se reproduzir em maridos violentos ou indiferentes, ou na preferência pela relação com homens casados. As experiências antigas e mais profundas marcam a interpretação e a expectativa com que nos dirigimos à realidade.
Nas últimas décadas houve uma descoberta tão fundamental para a Neurociência como para as Psicoterapias, que foi a Neuroplasticidade. Dependendo dos estímulos, é possível manter, ampliar e, sobretudo, modificar as capacidades de seus neurônios de combinar entre si em novas redes neurais. Isso quer dizer que dá para ensinar truques novos para o cavalo velho, desde que o cavalo colabore e não seja muito escoiceador. Podemos e devemos identificar os padrões disfuncionais e modificá-los, mesmo que isso demore e consuma muitos lenços descartáveis e lágrimas.
Segundo esse novo conhecimento, o barqueiro poderia responder para a primeira família que continuem cultivando o hábito de serem cordiais e amigáveis com as pessoas, mas nunca confiar cegamente em sua bondade. À segunda família, ele pode sugerir que nessa nova vida eles devem trabalhar para mudar o seu padrão de medo e hostilidade com as pessoas, finalmente sendo mais objetivas em separar o joio do trigo e não prejulgarem uma cidade por meia dúzia de experiências negativas. Pode ser que o barqueiro seja arremessado para fora do barco, mas essa é a tarefa das psicoterapias, acreditar que os Sistemas de Crença podem ser alterados, para melhor.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
A Jornada
Ontem eu conversava com uma cliente querida que se queixava de sintomas que os medicamentos nem sempre corrigem: desânimo com a vida, sansação de falta de sentido e, pior de tudo, uma profunda indecisão, uma sensação vaga de incerteza quanto à sua vida e ao futuro. Os colegas diriam: é uma Depressão, cara pálida. Aumenta a dose do antidepressivo e chama a próxima ficha. Não, meus caros. A Depressão, sem dúvida, ela teve, seguiu-se à morte de um ente querido. Isso não é Depressão, não. É uma Jornada Noturna, mesmo.
Vivemos numa época de felicidade compulsória. Observo em alguns adolescentes e adultos jovens que atendo por aqui essa síndrome, uma dependência de baladas. O quadro é assim: o sujeito tem três baladas para ir na mesma noite, geralmente dá perda total alcoólica na primeira e perde as outras duas. Segue-se uma reação de luto e desespero. Eu perdi as outras duas baladas. Sempre a sensação de urgência e de estar perdendo alguma coisa. Não se pode perder nada. Se eu perder, vou ficar fora da festa. Imagine a sensação permanente de urgência e angústia. Tenho que correr, a felicidade me escapa.
A felicidade compulsória (e a compulsiva, que não são a mesma coisa) nos obriga todos à alegria. Temos vários e coloridos livros de autoajuda com fórmulas infalíveis de obter a felicidade que nos é devida. Se não conseguimos, é por pura incompetência e falta de disciplina. Se eu usar adequadamente as técnicas indicadas, não vou sentir tristeza nunca mais. Temos aí um novo quadro dos nossos dias: a culpa por estar doente. Se eu estou doente ou demorando para melhorar, então eu tenho culpa. Complicado, não? Pois é.
Estou dando essa volta toda para chegar ao tema do post: a Jornada de Transformação. Vou começar a comentar sobre isso nas próximas postagens. Mas posso adiantar: toda vez que estamos em processo de mudança ou de transformação, temos a sensação de dificuldade, medo, indecisão, incerteza. Não importa quantos consultores motivacionais gritem em nossos ouvidos solicitando animação e felicidade, não adianta, porque tem dia que você não quer ou simplesmente não consegue sentir toda essa animação. As fábulas, os mitos, os contos de fada descrevem muito bem essa jornada de autoconhecimento e os medos, as incertezas e os monstros que vamos cruzar no caminho, sem saber quando e como chegar. Se você não é adepto da felicidade compulsória, está convidado(a) a nos acompanhar nessa trajetória. Boa viagem,então, ou boa jornada.
Vivemos numa época de felicidade compulsória. Observo em alguns adolescentes e adultos jovens que atendo por aqui essa síndrome, uma dependência de baladas. O quadro é assim: o sujeito tem três baladas para ir na mesma noite, geralmente dá perda total alcoólica na primeira e perde as outras duas. Segue-se uma reação de luto e desespero. Eu perdi as outras duas baladas. Sempre a sensação de urgência e de estar perdendo alguma coisa. Não se pode perder nada. Se eu perder, vou ficar fora da festa. Imagine a sensação permanente de urgência e angústia. Tenho que correr, a felicidade me escapa.
A felicidade compulsória (e a compulsiva, que não são a mesma coisa) nos obriga todos à alegria. Temos vários e coloridos livros de autoajuda com fórmulas infalíveis de obter a felicidade que nos é devida. Se não conseguimos, é por pura incompetência e falta de disciplina. Se eu usar adequadamente as técnicas indicadas, não vou sentir tristeza nunca mais. Temos aí um novo quadro dos nossos dias: a culpa por estar doente. Se eu estou doente ou demorando para melhorar, então eu tenho culpa. Complicado, não? Pois é.
Estou dando essa volta toda para chegar ao tema do post: a Jornada de Transformação. Vou começar a comentar sobre isso nas próximas postagens. Mas posso adiantar: toda vez que estamos em processo de mudança ou de transformação, temos a sensação de dificuldade, medo, indecisão, incerteza. Não importa quantos consultores motivacionais gritem em nossos ouvidos solicitando animação e felicidade, não adianta, porque tem dia que você não quer ou simplesmente não consegue sentir toda essa animação. As fábulas, os mitos, os contos de fada descrevem muito bem essa jornada de autoconhecimento e os medos, as incertezas e os monstros que vamos cruzar no caminho, sem saber quando e como chegar. Se você não é adepto da felicidade compulsória, está convidado(a) a nos acompanhar nessa trajetória. Boa viagem,então, ou boa jornada.
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