Há dez anos atrás estava no Congresso Brasileiro de Psiquiatria em Belo Horizonte e na porta do Centro de Convenções tinha um carro de som de um pessoal da luta antimanicomial protestando contra nós, psiquiatras vendidos aos interesses dos laboratórios, a máfia do Prozac, pode-se assim dizer. Eu acompanhava com algum interesse os discursos enquanto subia as escadas do predião antigo. Um rapaz de cabelo e barbas compridos tomou o microfone e relatou sua história de anos de tratamentos caros, quando foi diagnosticado como Bipolar e só fazia piorar. O seu equilíbrio só se estabeleceu quando finalmente alguém parou para ouví-lo e finalmente, compreender o que se passava com ele, libertou-se de toda a medicação e, provavelmente, do estereótipo de doente mental. Estou melhorando e dando um corpo ao seu discurso e omitindo os palavrões contra a máfia que estava naquele convescote psiquiátrico. Nunca mais fomos recebidos por esse carro de som em nenhum outro Congresso, o que eu acho pessoalmente uma pena.
Neste Congresso, dez anos depois, encontrei um velho amigo, com quem tramava contra a onda da Psiquiatria Biológica há muitos anos. Não ficamos muito animados em relembrar aqueles tempos. Parecia a música do Cazuza: "Meus heróis morreram de overdose/Meus inimigos, estão no poder...". Na verdade a história não é tão melancólica assim. Não temos tantos heróis nem tantos inimigos assim, os medicamentos são uma parte importante do arsenal terapêutico, mas a crítica daquele rapaz encima do carro de som continua muito, muito válida. Ficar avaliando os casos com escalinhas de sintomas é o fim da picada. Nada substitui a boa e velha Compreensibilidade, nada é melhor do que entender como aqueles sintomas se manifestam na vida da pessoa e achar um jeito de manejá-los. A palavra da moda: Modulação. O bom e velho Cérebro Racional tentando se haver com o mais antigo e contundente Cérebro Emocional. Ou a Emoção regulando a Emoção, com serenidade, afim de modular a melhor resposta.Mas no que essas velhas pendengas psiquiátricas interessam aos visitantes desse blog?
No último post escrevi sobre outra paciente com diagnóstico de Bipolaridade que mencionou a seu médico, em emocionado encontro, que na hora de maior aflição ouvia uma voz, ou uma presença tranquilizadora, falando para o seu interior que tudo acabaria dando certo. Ela ficou particularmente confiante quando foi ouvida por seu médico, que acreditou nela. Acreditou em sua vivência. Foi como se aquele estado caótico em que se encontrava tivesse começado a se autorganizar. O último post sugere que nosso organismo psíquico tem a mesma capacidade que nosso organismo biológico de se autorganizar e encontrar níveis progressivos de equilíbrio e complexidade.
Infelizmente, dentre tantas capacidades que a hipermodernidade está abolindo, a mais crucial é a capacidade de escuta. Para compreender, é preciso escutar. Com atenção. A escuta coloca esse sistema autorganizador em ação. Uma capacidade de olhar para si mesmo de fora e organizar os sentimentos é o resultado dessa autorganização. Há uma mudança muito grande de paradigma, entre achar que se tem uma doença crônica, que só vai piorar com o tempo, para um modelo em que o paciente aprende a modular a sua reação aos sintomas e a enfrentá-los.
Isso vale para muitas situações de nossa vida. É crucial saber se vamos ser vítimas das dificuldades ou vamos interagir com elas. O rapaz encima do carro de som tinha toda a razão. Pena que nunca pude dizer isso naquele microfone.
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domingo, 15 de novembro de 2015
sábado, 14 de abril de 2012
Ciência e Consciência
Estive num evento há três semanas, da Lilly Neuroscience Academy, com algumas apresentações bem legais. Infelizmente, as mais legais foram logo as primeiras, com o resto do evento com o "mais do mesmo" que caracteriza os congressos e simpósios. Vou falar um pouco dessas idéias nos próximos posts.
O Dr Jim van Os, psiquiatra holandês, começou a sua apresentação com alguns slides arrasa quarteirão. Colocou que o nosso Conhecimento é uma mistura de Fatos Científcos com as nossas Crenças. No meio dessas duas instâncias, está a Moda. Pasmem os leitores que a Ciência também tem as suas Fashion Weeks, com idéias que entram e saem da Moda. Já falei sobre isso em outro post. Não existe a tal Objetividade Científica. O cientista enxerga o que está determinado pelo seu sistema de crenças, querendo ou não. Se um cientista fizer um estudo para provar os poderes curadores da oração, vai encontrar resultados positivos. Se desenhar o experimento para comprovar a crença dos céticos, também vai gerar resultados condizentes. Por isso que gosto, na minha prática clínica, de duas atitudes diante do que estou vendo: um é a Epoché da Fenomenologia e outro é o Falsificacionismo de Karl Popper. Calma, que vou explicar esses palavrões.
No início do século vinte, E. Husserl descreveu a Fenomenologia, um primórdio de Filosofia da Ciència. O fenomenologista é o sujeito que tenta descrever e penetrar no fenmeno em profundidade, para atingir a sua essência. A "epoché" da Fenomenologia é a capacidade do observador abandonar tudo em que acredita, deixar em suspenso tudo o que já viu a respeito e simplesmente penetrar no fenômeno que está na sua frente. É uma tentativa de recuperar o olhar mágico da criança, que vê em tudo encantamento e novidade. Jesus dizia que se não recuperarmos a visão das crianças, não vamos entrar no Reino. Esse olhar sem preconceitos permite que o observador perceba o inesperado, o comportamento exatamente diferente de um fenômeno do que era o razoável, a média. Vivemos no império das médias e das medianas, o que desemboca na mediocridade. Devemos olhar tudo como novidade. Tem um jeito de você matar um médico, ou qualquer profissional: é ele pensar que já viu tudo ou, pior, que o mundo cabe em suas crenças.
Lembro de um momento crucial na minha vida, quando, há vinte anos, dividi uma aula com um grande psicanalista junguiano. Ele era e de alguma forma, ainda o é, talvez o nome mais importante dessa linha no Brasil. Nunca me esqueço da decepção e da solidão de assistir a sua aula. Um moleque de vinte e sete anos já conseguia ver a vaidade, a falta de embasamento e os ataques bobocas que ele fez à Psiquiatria Biológica (eu conseguia e consigo fazer ataques bem melhores). Naquele dia eu percebi que, dali para frente, estava por minha conta, pelo menos no especto teórico, mas essa é outra história. Das várias cagadas que o Grande Junguiano proferiu, uma delas foi atacar o filósofo Karl Popper como grande expoente da filosofia e materialismo científico. Ele nunca leu o sujeito, mas precisava de um inimigo. Popper formulou o Falsificacionismo, que, a grosso modo, descreve que um fato científico é verdadeiro apenas enquanto outro fato não vem contrariá-lo. Um exemplo clássico é o aforisma: "Todos os cisnes são brancos" é uma verdade científica até alguém aparecer com um cisne negro. O cientista deve testar e duvidar de tudo o que acredita, sempre. Acho que era esse o espírito da apresentação do colega holandês: duvide sempre, de tudo. Quem se agarra a um conjunto de verdades absolutas vira uma caricatura de si mesmo. Nossos diagnósticos, crenças, estratégias são válidas apenas e tão somente enquanto não aparecer algo melhor e mais abrangente para entendermos o que estamos vendo. É um pouco angustiante, mas, se a gente souber fazer, é bem divertido. O Grande Junguiano poderia se beneficiar da filosofia de Popper, já que propunha várias teorias e visões provenientes de seu próprio umbigo. Mas aqui entre nós, não tenho mais nenhuma mágoa do Grande Junguiano. Ele é bom terapeuta e, sobretudo, um apaixonado pela sua prática. Um abraço para ele.
Esse post pode resumido, então: olhe tudo com olhos de principiante e, sobretudo, duvide sempre de tudo o que você acredita. Fé, para mim, é isso.
O Dr Jim van Os, psiquiatra holandês, começou a sua apresentação com alguns slides arrasa quarteirão. Colocou que o nosso Conhecimento é uma mistura de Fatos Científcos com as nossas Crenças. No meio dessas duas instâncias, está a Moda. Pasmem os leitores que a Ciência também tem as suas Fashion Weeks, com idéias que entram e saem da Moda. Já falei sobre isso em outro post. Não existe a tal Objetividade Científica. O cientista enxerga o que está determinado pelo seu sistema de crenças, querendo ou não. Se um cientista fizer um estudo para provar os poderes curadores da oração, vai encontrar resultados positivos. Se desenhar o experimento para comprovar a crença dos céticos, também vai gerar resultados condizentes. Por isso que gosto, na minha prática clínica, de duas atitudes diante do que estou vendo: um é a Epoché da Fenomenologia e outro é o Falsificacionismo de Karl Popper. Calma, que vou explicar esses palavrões.
No início do século vinte, E. Husserl descreveu a Fenomenologia, um primórdio de Filosofia da Ciència. O fenomenologista é o sujeito que tenta descrever e penetrar no fenmeno em profundidade, para atingir a sua essência. A "epoché" da Fenomenologia é a capacidade do observador abandonar tudo em que acredita, deixar em suspenso tudo o que já viu a respeito e simplesmente penetrar no fenômeno que está na sua frente. É uma tentativa de recuperar o olhar mágico da criança, que vê em tudo encantamento e novidade. Jesus dizia que se não recuperarmos a visão das crianças, não vamos entrar no Reino. Esse olhar sem preconceitos permite que o observador perceba o inesperado, o comportamento exatamente diferente de um fenômeno do que era o razoável, a média. Vivemos no império das médias e das medianas, o que desemboca na mediocridade. Devemos olhar tudo como novidade. Tem um jeito de você matar um médico, ou qualquer profissional: é ele pensar que já viu tudo ou, pior, que o mundo cabe em suas crenças.
Lembro de um momento crucial na minha vida, quando, há vinte anos, dividi uma aula com um grande psicanalista junguiano. Ele era e de alguma forma, ainda o é, talvez o nome mais importante dessa linha no Brasil. Nunca me esqueço da decepção e da solidão de assistir a sua aula. Um moleque de vinte e sete anos já conseguia ver a vaidade, a falta de embasamento e os ataques bobocas que ele fez à Psiquiatria Biológica (eu conseguia e consigo fazer ataques bem melhores). Naquele dia eu percebi que, dali para frente, estava por minha conta, pelo menos no especto teórico, mas essa é outra história. Das várias cagadas que o Grande Junguiano proferiu, uma delas foi atacar o filósofo Karl Popper como grande expoente da filosofia e materialismo científico. Ele nunca leu o sujeito, mas precisava de um inimigo. Popper formulou o Falsificacionismo, que, a grosso modo, descreve que um fato científico é verdadeiro apenas enquanto outro fato não vem contrariá-lo. Um exemplo clássico é o aforisma: "Todos os cisnes são brancos" é uma verdade científica até alguém aparecer com um cisne negro. O cientista deve testar e duvidar de tudo o que acredita, sempre. Acho que era esse o espírito da apresentação do colega holandês: duvide sempre, de tudo. Quem se agarra a um conjunto de verdades absolutas vira uma caricatura de si mesmo. Nossos diagnósticos, crenças, estratégias são válidas apenas e tão somente enquanto não aparecer algo melhor e mais abrangente para entendermos o que estamos vendo. É um pouco angustiante, mas, se a gente souber fazer, é bem divertido. O Grande Junguiano poderia se beneficiar da filosofia de Popper, já que propunha várias teorias e visões provenientes de seu próprio umbigo. Mas aqui entre nós, não tenho mais nenhuma mágoa do Grande Junguiano. Ele é bom terapeuta e, sobretudo, um apaixonado pela sua prática. Um abraço para ele.
Esse post pode resumido, então: olhe tudo com olhos de principiante e, sobretudo, duvide sempre de tudo o que você acredita. Fé, para mim, é isso.
sábado, 7 de abril de 2012
Psiquiatria de Aquário
• Já que esse blog, como muitos outros, às vezes tem uma característica confessional, vou abrir mais um segredo para o grande público: às vezes assisto “Celebrity Rehab”. Sim. Essa é a verdade horrível. Para quem não sabe, e a maioria não sabe, esse é um Reality Show americano sobre uma série de micro celebridades americanas que perderam o caminho do sucesso e acharam o caminho dos tabloides pelo uso de drogas e escândalos seguidos. Eles aceitam uma internação numa clínica de Reabilitação, tudo sob a vigilância estreita das câmeras. Há um psiquiatra que comanda o trabalho na clínica, Dr Drew, que é um dos motivos para eu assistir a esse programa. Eu me sinto um psiquiatra maravilhoso perto do Dr Drew. Não costumo usar aquela gravatas maravilhosas, tom sobre tom com as camisas, igualmente maravilhosas, mas, de resto, sou um verdadeiro gênio perto do cara. Vou dar um exemplo, para não parecer uma necessidade absoluta de afirmação desse autor: um dos internados é o ator (?) Eric Roberts. Não consigo lembrar de nenhum filme para servir de referência de seu trabalho. Havia um com Sylvester Stallone, “The Judge”, em que ele fazia o papel de um mafioso que estava sendo seguido pelo mocinho. O filme é dos anos 90. Eric Roberts teve um episódio cerebral após o uso de Cocaína que lhe atrapalhou a fala. Já era um ator ruim antes disso, depois estava simplesmente acabado. Na entrevista, descreveu uso crônico e abusivo de Maconha, depois seguida de Cocaína. Relata que sob efeito das drogas sente-se alegre, espirituoso, a alegria da festa. Sem as substâncias, descreve-se como um chato, mau humorado e sem nenhuma das grandes tiradas que o álcool e a maconha lhe despertam. Na entrevista, Dr Drew me sai com uma frase mais ou menos assim: “Parece que há um grande cara aí que vira um babaca quando usa drogas”. Só esta frase já poderia encerrar o tratamento. O cara relatou exatamente o contrário: sem o efeito das drogas, aparece um sujeito tenso, paranoico, sem graça. Sintomas evidentes de uma Fobia Social, com uso secundário de Maconha, Álcool e outras drogas para mitigar os seus sintomas. Um ator com Fobia Social? Pode parecer estranho, mas não é incomum que as pessoas mesmo procurem essa profissão para enfrentar a própria timidez e em casos mais graves, a Fobia da exposição e do ridículo em público. Na hora em que o médico inverte a ordem dos sintomas, deixa o paciente no escuro quanto à origem de seus sintomas.
Não quero transformar esse espaço em lugar para desancar o colega, que, com as suas camisas bonitas e gravatas bárbaras, dá a cara para bater nesse programa. Ele é capaz de uma escuta delicada e tenta orientar os pacientes sobre as fases da desintoxicação. Não tem a menor noção da complexidade da dinâmica dos pacientes e menos ainda, do grupo. No episódio de hoje, um titica que eu nunca vi mais gordo começou a provocar uma atriz, dizendo que ela é viciada em Cirurgia Plástica. Ela foi reclamar com a equipe, que se solidarizou com ela. O grupo permitiu o bullying sem nenhuma intervenção. Eu já fiquei com vontade de perguntar se a mamãe dele andou namorando algum cirurgião malvado. Ou o que o grupo se propunha a funcionar como grupo para tentar dar suporte a essas atuações. Dr Drew limitou-se a lembrar que não pode haver agressões físicas nas dependências da clínica. Boa lembrança.
Já escrevi milhares e falei milhares de vezes, mas vou repetir: em vez de animar essa briga de comadres, de Dr Freud versus Prozac, ou Neurociência versus Psicanálise, ou Dr Jung versus Dr Freud, devemos procurar pelas confluências, pelas abordagens integradas e, sobretudo, pela compreensibilidade dos sintomas, para os tratamentos não parecerem um vôo cego entre escalas diagnósticas e frases feitas dos terapeutas. E tenho dito.
Não quero transformar esse espaço em lugar para desancar o colega, que, com as suas camisas bonitas e gravatas bárbaras, dá a cara para bater nesse programa. Ele é capaz de uma escuta delicada e tenta orientar os pacientes sobre as fases da desintoxicação. Não tem a menor noção da complexidade da dinâmica dos pacientes e menos ainda, do grupo. No episódio de hoje, um titica que eu nunca vi mais gordo começou a provocar uma atriz, dizendo que ela é viciada em Cirurgia Plástica. Ela foi reclamar com a equipe, que se solidarizou com ela. O grupo permitiu o bullying sem nenhuma intervenção. Eu já fiquei com vontade de perguntar se a mamãe dele andou namorando algum cirurgião malvado. Ou o que o grupo se propunha a funcionar como grupo para tentar dar suporte a essas atuações. Dr Drew limitou-se a lembrar que não pode haver agressões físicas nas dependências da clínica. Boa lembrança.
Já escrevi milhares e falei milhares de vezes, mas vou repetir: em vez de animar essa briga de comadres, de Dr Freud versus Prozac, ou Neurociência versus Psicanálise, ou Dr Jung versus Dr Freud, devemos procurar pelas confluências, pelas abordagens integradas e, sobretudo, pela compreensibilidade dos sintomas, para os tratamentos não parecerem um vôo cego entre escalas diagnósticas e frases feitas dos terapeutas. E tenho dito.
domingo, 11 de março de 2012
Conexão Mente Corpo
Fui visitar no último final de semana uma pessoa querida que está com uma doença oncológica agressiva. Pelas estatísticas, uma doença letal. Ela tem enfrentado a doença com coragem e serenidade, embora obviamente com episódios de raiva e de mágoas vomitadas. Ela apontou como fator desencadeante da doença uma grande decepção, quando mudou para uma cidade onde não conseguiu se adaptar. Tinha a esperança de morar perto de seu filho, reconstruir o núcleo familiar e nada foi como planejara. A literatura médica não consegue negar, e olha que ela tenta muito fazê-lo, que há uma correlação evidente entre choques emocionais e várias doenças. Câncer inclusive. Ou sobretudo.
Apesar dos discursos humanistas, o foco é na técnica, a Medicina não se ocupa muito das correlações entre estresse e doença. Os médicos que assistem essa pessoa querida, muito bem, diga-se de passagem, colocam à disposição dela e da família uma equipe de psicoterapeutas para lidar com os estressores e o processo da própria doença. Ninguém imagina usar técnicas de visualização ou uso de alimentação antioxidante para interromper a evolução da doença. As estratégias se concentram nas quimioterapias que controlem o crescimento dos tumores.
Recebi um link bacana de uma leitora desse blog, Luciana, sobre um médico alemão, Dr Heimer, que pesquisa há muitas décadas a relação entre os tipos de estresse e os tipos de doença oncológica. Haveriam conecções claras entre as áreas do Cérebro afetadas pelos estressores e os orgâos afetados pelo Câncer. O Dr Heimer fundou a Nova Medicina Alemã baseado nesses princípios. Foi perseguido, ridicularizado e ignorado, como é de praxe quando alguém vem te dizer que tudo em que você acredita está errado.
Lembro de um Congresso Brasileiro de Psiquiatria que eu fui em Belô que o Centro de convenções recebeu a "visita" de um caminhão de som do pessoal da luta antimanicomial. Os caras passavam um bom tempo gritando palavras de ordem e xingando a máfia dos laboratórios e dos tratamentos químicos, ou seja, nós, participantes do Congresso. Como eu tenho mesmo o vício da curiosidade, parei para ouvir algum discurso antes da minha aula. Havia um rapaz comentando que fora rotulado e envenenado pela química ao receber o diagnóstico da Doença Bipolar, mas só se curou e se salvou quando foi atendido em um Hospital Dia, onde a sua dor foi finalmente acolhida e compreendida. Agora ele estava bem e sem nenhuma medicação. O psiquiatra que vive dentro do autor dessas mal tecladas linhas pensou: "É porque você não é nem nunca foi Bipolar, meu amigo. O diagnóstico estava errado". Segui em frente e corri para a minha aula, já atrasado. Mas penso hoje que foi um ótimo testemunho, infelizmente ignorado pelos congressistas. Uma abordagem compreensiva economiza muita medicação, ajuda o paciente a lidar com seus estressores e se equilibrar naturalmente. Eu dedico a minha vida a isso, a minha prática clínica se baseia nisso.
Existe uma evidente relação entre os estressores que temos todo dia e as doenças. Estressores são todos os fatores que produzem desequilíbrios à sua homeostase. Homeostase é um conceito maravilhoso, que representa o estado sempre relativo de equilíbrio que nosso organismo procura manter, todo dia. Sem a Homeostase, ou quando ela está prejudicada, adoecemos e morremos. Alimentos industrializados, substãncias químicas, irradiação, poluição e mágoas, decepções, preocupações, tudo isso bombardeia o nosso corpo todo dia. Ele milagrosamente aguenta esse tranco e nós nem sempre colaboramos com ele.
A elaboração e a compreensão da conexão Mente/Corpo é, na minha opinião, a mais promissora e verdadeira das Medicinas.
Apesar dos discursos humanistas, o foco é na técnica, a Medicina não se ocupa muito das correlações entre estresse e doença. Os médicos que assistem essa pessoa querida, muito bem, diga-se de passagem, colocam à disposição dela e da família uma equipe de psicoterapeutas para lidar com os estressores e o processo da própria doença. Ninguém imagina usar técnicas de visualização ou uso de alimentação antioxidante para interromper a evolução da doença. As estratégias se concentram nas quimioterapias que controlem o crescimento dos tumores.
Recebi um link bacana de uma leitora desse blog, Luciana, sobre um médico alemão, Dr Heimer, que pesquisa há muitas décadas a relação entre os tipos de estresse e os tipos de doença oncológica. Haveriam conecções claras entre as áreas do Cérebro afetadas pelos estressores e os orgâos afetados pelo Câncer. O Dr Heimer fundou a Nova Medicina Alemã baseado nesses princípios. Foi perseguido, ridicularizado e ignorado, como é de praxe quando alguém vem te dizer que tudo em que você acredita está errado.
Lembro de um Congresso Brasileiro de Psiquiatria que eu fui em Belô que o Centro de convenções recebeu a "visita" de um caminhão de som do pessoal da luta antimanicomial. Os caras passavam um bom tempo gritando palavras de ordem e xingando a máfia dos laboratórios e dos tratamentos químicos, ou seja, nós, participantes do Congresso. Como eu tenho mesmo o vício da curiosidade, parei para ouvir algum discurso antes da minha aula. Havia um rapaz comentando que fora rotulado e envenenado pela química ao receber o diagnóstico da Doença Bipolar, mas só se curou e se salvou quando foi atendido em um Hospital Dia, onde a sua dor foi finalmente acolhida e compreendida. Agora ele estava bem e sem nenhuma medicação. O psiquiatra que vive dentro do autor dessas mal tecladas linhas pensou: "É porque você não é nem nunca foi Bipolar, meu amigo. O diagnóstico estava errado". Segui em frente e corri para a minha aula, já atrasado. Mas penso hoje que foi um ótimo testemunho, infelizmente ignorado pelos congressistas. Uma abordagem compreensiva economiza muita medicação, ajuda o paciente a lidar com seus estressores e se equilibrar naturalmente. Eu dedico a minha vida a isso, a minha prática clínica se baseia nisso.
Existe uma evidente relação entre os estressores que temos todo dia e as doenças. Estressores são todos os fatores que produzem desequilíbrios à sua homeostase. Homeostase é um conceito maravilhoso, que representa o estado sempre relativo de equilíbrio que nosso organismo procura manter, todo dia. Sem a Homeostase, ou quando ela está prejudicada, adoecemos e morremos. Alimentos industrializados, substãncias químicas, irradiação, poluição e mágoas, decepções, preocupações, tudo isso bombardeia o nosso corpo todo dia. Ele milagrosamente aguenta esse tranco e nós nem sempre colaboramos com ele.
A elaboração e a compreensão da conexão Mente/Corpo é, na minha opinião, a mais promissora e verdadeira das Medicinas.
sábado, 10 de março de 2012
O Impera-Dor
Na sua obsessão edípica pelo São Paulo e por Juvenal Juvêncio, Andrés Sanchez, então presidente do Corinthians, contratou Adriano, O Imperador, para vestir a camisa 10 do Timão, há um ano. ( Calma, meninas, embora o texto vá falar de alguns personagens do futebol, o assunto será outro. Vamos falar do assunto de sempre, a construção de uma Psiquiatria Compreensiva).
Tentando causar o impacto publicitário que o São Paulo obtivera com o Luís Fabiano (outro furo n´água, diga-se de passagem), Andrés Sanchez riu-se com a atenção e o espaço na mídia gerado pela contratação de um exjogador em atividade, como é o caso de Adriano. Deu no que deu. O roliço tirou um ano sabático no Corinthians, curou os seus tendões, enganou em alguns treinos e repetiu o que vem fazendo nos últimos anos, com a rotina de bebedeiras, faltas e mentiras que escondem algo pior e mais grave, clinicamente falando. Ontem, finalmente, Tite jogou a toalha e sentenciou que o jogador volta para o seu Spa, onde ele vai fingir que quer treinar, emagrecer e voltar a ser um atleta de alto desempenho que foi pela última vez há uns cinco ou seis anos. O desânimo em seus olhos sugere que ele, simplesmente, desistiu de Adriano. Como Dunga e vários outros já fizeram antes.
Normalmente volto mais tarde para a casa, depois de um longo dia de trabalho e adoro ouvir os programas de esporte que tem no rádio. Há alguns meses eu ouvia um debate em que os analistas esportivos, nome bonito para a saraivada de palpites que damos em qualquer conversa de boteco, se perguntavam por que um cara que tem tudo, dinheiro, sucesso, talento, afeto das pessoas, consegue destruir tudo o que construiu diariamente, mantendo, apesar dos milhões de reais que correm em suas contas, o mesmo comportamento autodestrutivo. Um deles tentava explicar que a Depressão é uma doença como outra qualquer, independe da conta bancária do doente. Mas tem mais caroço nesse angú.
Adriano sempre foi um bad boy, mas tenho a impressão que degringolou de vez após a morte de seu pai. Não é incomum que um jogador de futebol passe a ser um embusteiro depois de ganhar dinheiro para as próximas cinco gerações de sua família. Há uma infinidade de exemplos, Ronaldinho Gaúcho, por exemplo. O cara aprende que não precisa mais se esforçar, basta fazer uma jogadinhas que lembrem os anos de ouro e beleza, a mídia bate palminhas, Galvão Bueno baba de esperança, “Ele está de volta”. O jogador vive da memória do atleta que um dia foi, da emoção que causou em todos. Essa é a sua ilusão e desgraça. Tenho a impressão, à distância, que Adriano entrou para esse mundo da “embromation” futebolística após a morte repentina de seu pai.
Quando Adriano ficou “internado” na concentração por uma semana, emagreceu e encheu a todos de esperança (de novo). Alguém da Comissão Técnica pronunciou as palavras fatais: “Mais algumas semanas e vamos ver o Adriano que todos conhecem, ele vai voltar a ser O Cara”. Pronto, o homem afundou de novo, voltou a engordar, voltou a aprontar. A mensagem é clara: “Não queiram nada de mim, não esperem nada de mim”. Esse é o outro lado de quem vive da própria memória: ele sabe que nunca mais vai voltar a ser o que as pessoas esperam.
Nos últimos posts eu falei do Vazio criativo, o vazio que dá origem à nossas idéias e ao nosso Ser profundo. O vazio de Adriano não é esse. É bem diferente, na verdade. É o vazio de quem perdeu o senso de sentido, o que ele vai procurar nos excessos e nas baladas, nos sumiços dentro das ruas da favela onde cresceu, onde a luta pela sobrevivência tinha sentido. Adriano procura pelo menino que um dia foi, as emoções que sentiu até chegar ao sucesso.
Não sei se Adriano, o homem, é abordável para um tratamento. Sei que muita gente já tentou fazê-lo. Mas, como psiquiatra, me dá uma coceira danada vendo um rapaz de menos de trinta anos caminhando a passos largos para o precipício. Numa sessão imaginária, eu gostaria de perguntar sobre o seu pai, o que ele não consegue esquecer nem perdoar na relação com o velho? Por que esse luto não se resolve? Bom, cara, o telefone do consultório está aí do lado na coluna. Liga lá para a Yrá e vamos colocar ordem nessa zona.
Tentando causar o impacto publicitário que o São Paulo obtivera com o Luís Fabiano (outro furo n´água, diga-se de passagem), Andrés Sanchez riu-se com a atenção e o espaço na mídia gerado pela contratação de um exjogador em atividade, como é o caso de Adriano. Deu no que deu. O roliço tirou um ano sabático no Corinthians, curou os seus tendões, enganou em alguns treinos e repetiu o que vem fazendo nos últimos anos, com a rotina de bebedeiras, faltas e mentiras que escondem algo pior e mais grave, clinicamente falando. Ontem, finalmente, Tite jogou a toalha e sentenciou que o jogador volta para o seu Spa, onde ele vai fingir que quer treinar, emagrecer e voltar a ser um atleta de alto desempenho que foi pela última vez há uns cinco ou seis anos. O desânimo em seus olhos sugere que ele, simplesmente, desistiu de Adriano. Como Dunga e vários outros já fizeram antes.
Normalmente volto mais tarde para a casa, depois de um longo dia de trabalho e adoro ouvir os programas de esporte que tem no rádio. Há alguns meses eu ouvia um debate em que os analistas esportivos, nome bonito para a saraivada de palpites que damos em qualquer conversa de boteco, se perguntavam por que um cara que tem tudo, dinheiro, sucesso, talento, afeto das pessoas, consegue destruir tudo o que construiu diariamente, mantendo, apesar dos milhões de reais que correm em suas contas, o mesmo comportamento autodestrutivo. Um deles tentava explicar que a Depressão é uma doença como outra qualquer, independe da conta bancária do doente. Mas tem mais caroço nesse angú.
Adriano sempre foi um bad boy, mas tenho a impressão que degringolou de vez após a morte de seu pai. Não é incomum que um jogador de futebol passe a ser um embusteiro depois de ganhar dinheiro para as próximas cinco gerações de sua família. Há uma infinidade de exemplos, Ronaldinho Gaúcho, por exemplo. O cara aprende que não precisa mais se esforçar, basta fazer uma jogadinhas que lembrem os anos de ouro e beleza, a mídia bate palminhas, Galvão Bueno baba de esperança, “Ele está de volta”. O jogador vive da memória do atleta que um dia foi, da emoção que causou em todos. Essa é a sua ilusão e desgraça. Tenho a impressão, à distância, que Adriano entrou para esse mundo da “embromation” futebolística após a morte repentina de seu pai.
Quando Adriano ficou “internado” na concentração por uma semana, emagreceu e encheu a todos de esperança (de novo). Alguém da Comissão Técnica pronunciou as palavras fatais: “Mais algumas semanas e vamos ver o Adriano que todos conhecem, ele vai voltar a ser O Cara”. Pronto, o homem afundou de novo, voltou a engordar, voltou a aprontar. A mensagem é clara: “Não queiram nada de mim, não esperem nada de mim”. Esse é o outro lado de quem vive da própria memória: ele sabe que nunca mais vai voltar a ser o que as pessoas esperam.
Nos últimos posts eu falei do Vazio criativo, o vazio que dá origem à nossas idéias e ao nosso Ser profundo. O vazio de Adriano não é esse. É bem diferente, na verdade. É o vazio de quem perdeu o senso de sentido, o que ele vai procurar nos excessos e nas baladas, nos sumiços dentro das ruas da favela onde cresceu, onde a luta pela sobrevivência tinha sentido. Adriano procura pelo menino que um dia foi, as emoções que sentiu até chegar ao sucesso.
Não sei se Adriano, o homem, é abordável para um tratamento. Sei que muita gente já tentou fazê-lo. Mas, como psiquiatra, me dá uma coceira danada vendo um rapaz de menos de trinta anos caminhando a passos largos para o precipício. Numa sessão imaginária, eu gostaria de perguntar sobre o seu pai, o que ele não consegue esquecer nem perdoar na relação com o velho? Por que esse luto não se resolve? Bom, cara, o telefone do consultório está aí do lado na coluna. Liga lá para a Yrá e vamos colocar ordem nessa zona.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Vazio Afetivo e Transtorno Borderline de Personalidade
A Psiquiatria vem tentando nos últimos anos sair de um diagnóstico categorial para um diagnóstico dimensional. Isso significa deixar a descrição pura e simples de doenças e quadros clínicos, o que pode levar a várias doenças parecidas com nomes diferentes, apenas para o autor tentar dar o seu nome para uma determinada doença, uma forma meio estranha de se atingir a Imortalidade. Procura-se então descrever os transtornos como espectros sindrômicos; esse palavrão quer dizer que há uma diferença de grau e de expressão na população de determinados sintomas. Dos sintomas leves aos quadros muito graves. Quando a esposa chega em casa e vê a tampa da privada levantada, pode gritar com o marido que imagina que o mundo inteiro tem e usa um pênis para fazer xixi, ou pode tentar acertá-lo com o tampo da privada, numa tentativa de pintocídio. A diferença do grau da resposta pode ser determinada pela distância entre estar cansada/mal humorada após um dia de trabalho ou estar com uma irritabilidade assassina, decorrente de uma doença. Nem sempre é fácil fazer a distinção, e é isso que os psiquiatras tentam fazer todos os dias: traçar um limite entre um quadro transitório e uma doença instalada.
Falamos muito nesse blog sobre os Quadros Obsessivos Amorosos, um nome que eu inventei para a preocupação e o comportamento cada vez mais obsessivo das pessoas com seus sucessos e sobretudo com seus fracassos amorosos. Há um extremo desses quadros obsessivos amorosos, não tão engraçado: os Transtornos de Personalidade do tipo Borderline.
Hoje somos assaltados por histórias e notícias de pessoas que cometem abusos ou violências impensáveis quando se sentem rejeitadas pela pessoa amada. Basta qualquer pessoa medianamente informada para lembrar de espancamentos, perseguições e assassinatos cometidos em nome do Amor. Muitos desses episódios tem homens ou mulheres com traços Borderline de Personalidade. O Transtorno Borderline se caracteriza por uma Hipersensibilidade na relação interpessoal; a pessoa tem um horror impressionante a qualquer tipo de rejeição ou abandono, real ou imaginária. Quando a relação está apenas começando, o Borderline de plantão enche o ser amado de checagens e questionamentos para saber se está pensando/planejando abandoná-lo(a). Isso pode virar um inferno de cobranças e perseguições. O quadro fica pior quando o objeto de amor finalmente se esgota e quer se separar da pessoa, nesse momento já desesperada e obsediada pelo desespero: a perseguição pode nesse ponto se transformar em tragédia e lemos sobre isso todo dia nos tablóides.
Outra característica dos Borderline é a mudança abrupta de estado afetivo. É muito comum que as pessoas vivam aterrorizadas perto de alguém assim, pois nunca se sabe quando ela vai explodir ou gargalhar. Aliás ela pode passar do riso à cólera em alguns segundos, deixando abismada a outra pessoa, que não sabe o que esperar. Mas talvez o achado mais dramático na vida dessas pessoas seja a sensação horrível de vazio e tédio com a própria vida. Essa sensação de vazio que pode viriar crises intensas de angústia. A espiral da angústia pode gerar comportamento de autoagressão e automutilação. Não é incomum a tentativa suicida.
O Transtorno Borderline está muito vinculado a um senso de Ser, de valor próprio muito danificado na vida e formação do sujeito. Achar alguém que a ame ou aceite é uma questão de vida ou morte, pois a pessoa não se sente existente se não for reconhecida e amada pelo Outro.
A Psiquiatria pode encontrar todo tipo de medicamento para auxiliar a pessoa a lidar melhor e transformar os seus sintomas. Mas nenhum remédio pode oferecer a esse paciente a sensação de que a sua vida vale a pena, independente de seu sucesso ou fracasso amoroso. Esse senso nós temos que contruir todo dia e oferecê-lo a nossos filhos: o senso de que nossa vida tem um valor interno, antes que o mundo exterior nos diga o que acha de nós.
Falamos muito nesse blog sobre os Quadros Obsessivos Amorosos, um nome que eu inventei para a preocupação e o comportamento cada vez mais obsessivo das pessoas com seus sucessos e sobretudo com seus fracassos amorosos. Há um extremo desses quadros obsessivos amorosos, não tão engraçado: os Transtornos de Personalidade do tipo Borderline.
Hoje somos assaltados por histórias e notícias de pessoas que cometem abusos ou violências impensáveis quando se sentem rejeitadas pela pessoa amada. Basta qualquer pessoa medianamente informada para lembrar de espancamentos, perseguições e assassinatos cometidos em nome do Amor. Muitos desses episódios tem homens ou mulheres com traços Borderline de Personalidade. O Transtorno Borderline se caracteriza por uma Hipersensibilidade na relação interpessoal; a pessoa tem um horror impressionante a qualquer tipo de rejeição ou abandono, real ou imaginária. Quando a relação está apenas começando, o Borderline de plantão enche o ser amado de checagens e questionamentos para saber se está pensando/planejando abandoná-lo(a). Isso pode virar um inferno de cobranças e perseguições. O quadro fica pior quando o objeto de amor finalmente se esgota e quer se separar da pessoa, nesse momento já desesperada e obsediada pelo desespero: a perseguição pode nesse ponto se transformar em tragédia e lemos sobre isso todo dia nos tablóides.
Outra característica dos Borderline é a mudança abrupta de estado afetivo. É muito comum que as pessoas vivam aterrorizadas perto de alguém assim, pois nunca se sabe quando ela vai explodir ou gargalhar. Aliás ela pode passar do riso à cólera em alguns segundos, deixando abismada a outra pessoa, que não sabe o que esperar. Mas talvez o achado mais dramático na vida dessas pessoas seja a sensação horrível de vazio e tédio com a própria vida. Essa sensação de vazio que pode viriar crises intensas de angústia. A espiral da angústia pode gerar comportamento de autoagressão e automutilação. Não é incomum a tentativa suicida.
O Transtorno Borderline está muito vinculado a um senso de Ser, de valor próprio muito danificado na vida e formação do sujeito. Achar alguém que a ame ou aceite é uma questão de vida ou morte, pois a pessoa não se sente existente se não for reconhecida e amada pelo Outro.
A Psiquiatria pode encontrar todo tipo de medicamento para auxiliar a pessoa a lidar melhor e transformar os seus sintomas. Mas nenhum remédio pode oferecer a esse paciente a sensação de que a sua vida vale a pena, independente de seu sucesso ou fracasso amoroso. Esse senso nós temos que contruir todo dia e oferecê-lo a nossos filhos: o senso de que nossa vida tem um valor interno, antes que o mundo exterior nos diga o que acha de nós.
domingo, 27 de novembro de 2011
Dormir de dia, Acordar de noite
No filme “Tempos Modernos”, Charles Chaplin colocava a sua obra prima, o personagem Carlitos, dentro de uma fábrica, numa linha de produção, onde a sua principal função era apertar uma única porca. Ele precisaria fazê-lo com muita precisão, pois a sua função seria apertar centenas de porcas por minuto. Óbvio que Carlitos vai se embananar no serviço, perdendo algumas peças, indo para frente atrás delas, para depois voltar, até ser engolido pelo mecanismo, na cena clássica em que continua apertando as porcas enquanto é levado pelas engrenagens. Chaplin queria denunciar a escravidão do homem pela máquina e pela produção em série. Uma vez eu ouvi de um cliente engenheiro, que o pensador mais influente do século vinte não foi Charles Darwin, mas Henry Ford, criador da linha de montagem. Como no filme de Carlitos, tudo virou uma gigantesca linha de montagem, com uma elite mexendo nos botões e o resto da galera cumprindo as suas microfunções, sem ter a visão do todo.
De algumas décadas para cá, Carlitos não seria engolido pela máquina, mas pelo computador. Ficaria pedido em algum lugar na Nuvem, o gigantesco espaço virtual onde as informações da Rede são processadas. O homem vem tentando competir com a máquina e agora chegamos numa época em que todos seremos biônicos, com algum chip ou peça mecânica inserida em nosso corpo. Alguns pacientes com depressões intratáveis já tem implantado em seu nervo vago um marcapasso que estimula o seu Cérebro continuamente, para devolver a função a áreas praticamente mortas pelos estressores e as derrotas que sofremos na vida. Uma geração de jovens está seqüestrada na nuvem, vivendo cada vez mais no Virtual e perdendo a dimensão do Real. Na Coréia um casal deixou o seu bebê morrer de inanição porque ficava horas cuidando de seu bichinho virtual. A notícia parece fabricada, de tão surreal, mas está aí debaixo de nosso nariz. Já temos uma porcentagem de jovens que chegam à idade adulta com uma escolaridade lesada em suas origens, jogando jogos na rede durante a madrugada e dormindo durante o dia. Tomam energético à noite e calmantes de dia, para viverem só no mundo em que as coisas obedecem aos seus desejos.
A Psiquiatria dá a sua contribuição para a maluquice, diagnosticando à torto e à direito o Transtorno Bipolar. No ano passado eu trabalhava num caso de um garoto chegando à maioridade que apresentava esse quadro de sequestro virtual. À noite ele fumava maconha com os amigos, jogava vídeo games de última geração e comia porcarias até abrir um buraco em seu estômago. Durante o dia ele dormia e fugia dos berros desesperados de seus pais. Tentamos fazer contato com o seu “planeta”, estabelecer acordos e trazê-lo de volta ao mundo real. Óbvio que a família abortou o processo, levou-o à uma colega que diagnosticou que o menino era um Bipolar, entupindo-o de sedativos. A última notícia que eu tive é que ele agora dormia o dia inteiro e estava cada vez mais alheio e isolado do mundo real, agora com uma Maconha legalizada, que são os psicotrópicos.
Temos uma elite que acompanha o ritmo frenético dos processamentos de informação e vida online vinte e quatro horas por dia e uma camada crescente da população de excluídos não só do mundo digital, mas do Real, mesmo.
Educar os filhos hoje tem uma dupla função: ensinar a aprender as coisas no Real, que é bem mais chato do que abrir tudo com alguns cliques do mouse, e indicar o caminho de viver, onde os erros não são apagados com a tecla DEL.
De algumas décadas para cá, Carlitos não seria engolido pela máquina, mas pelo computador. Ficaria pedido em algum lugar na Nuvem, o gigantesco espaço virtual onde as informações da Rede são processadas. O homem vem tentando competir com a máquina e agora chegamos numa época em que todos seremos biônicos, com algum chip ou peça mecânica inserida em nosso corpo. Alguns pacientes com depressões intratáveis já tem implantado em seu nervo vago um marcapasso que estimula o seu Cérebro continuamente, para devolver a função a áreas praticamente mortas pelos estressores e as derrotas que sofremos na vida. Uma geração de jovens está seqüestrada na nuvem, vivendo cada vez mais no Virtual e perdendo a dimensão do Real. Na Coréia um casal deixou o seu bebê morrer de inanição porque ficava horas cuidando de seu bichinho virtual. A notícia parece fabricada, de tão surreal, mas está aí debaixo de nosso nariz. Já temos uma porcentagem de jovens que chegam à idade adulta com uma escolaridade lesada em suas origens, jogando jogos na rede durante a madrugada e dormindo durante o dia. Tomam energético à noite e calmantes de dia, para viverem só no mundo em que as coisas obedecem aos seus desejos.
A Psiquiatria dá a sua contribuição para a maluquice, diagnosticando à torto e à direito o Transtorno Bipolar. No ano passado eu trabalhava num caso de um garoto chegando à maioridade que apresentava esse quadro de sequestro virtual. À noite ele fumava maconha com os amigos, jogava vídeo games de última geração e comia porcarias até abrir um buraco em seu estômago. Durante o dia ele dormia e fugia dos berros desesperados de seus pais. Tentamos fazer contato com o seu “planeta”, estabelecer acordos e trazê-lo de volta ao mundo real. Óbvio que a família abortou o processo, levou-o à uma colega que diagnosticou que o menino era um Bipolar, entupindo-o de sedativos. A última notícia que eu tive é que ele agora dormia o dia inteiro e estava cada vez mais alheio e isolado do mundo real, agora com uma Maconha legalizada, que são os psicotrópicos.
Temos uma elite que acompanha o ritmo frenético dos processamentos de informação e vida online vinte e quatro horas por dia e uma camada crescente da população de excluídos não só do mundo digital, mas do Real, mesmo.
Educar os filhos hoje tem uma dupla função: ensinar a aprender as coisas no Real, que é bem mais chato do que abrir tudo com alguns cliques do mouse, e indicar o caminho de viver, onde os erros não são apagados com a tecla DEL.
domingo, 3 de abril de 2011
Zumbis Farmacológicos
A Folha de hoje publicou hoje uma matéria sobre o que a repórter chamou de "Efeito Zumbi" dos medicamentos psiquiátricos. Para começar, colocou todos no mesmo balaio. Seguiu-se depois um lixo de referências inadequadas, lugares comuns tendenciosos e alhos com bugalhos com sintomas e efeitos colaterais. Vou passar a semana ouvindo falar nisso, a fantasia de que do Psiquiatra Malvado que a todos submete com seus medicamentos será reforçada na cabeça das pessoas. Posso até receber essa matéria em E-Mail-Denúncia contra a Máfia de Avental.
Ontem falei sobre os Zumbis Emocionais. Juro que não combinei nada com a Folha de São Paulo. Os zumbis representam bem a nossa época, as pessoas cada vez mais famintas e apáticas, procurando por sangue, ou seja, por emoção e por algum contato físico. Não era um quadro psiquiátrico em si, embora esteja na base de vários quadros psiquiátricos. As pessoas alternam o hiperestímulo com a apatia. Os leitores podem checar os outros posts, falo disso o tempo todo.
As informações dos profissionais entrevistados são desencontradas, novamente misturando alhos com bugalhos. Existe uma tendência a um uso abusivo, seja nas indicações seja nas doses, de medicamentos com ação mais ou menos sedativa no Sistema Nervoso Central. Um dos pacientes citados na matéria teve um quadro depressivo, provavelmente por Burn Out, um termo para um quadro de esgotamento por múltiplos e importantes estressores. O paciente em questão teve esse esgotamento por desadaptação ao seu trabalho, numa empresa de telemarketing. Ele não aguentava mais ser xingado e desrespeitado por clientes e chefia, causando um colapso. A médica deu cinco tipos de remédio, o paciente suspendeu o tratamento por conta própria. Um detalhe do ofício: quando o diagnóstico é bem feito e o tratamento bem estabelecido, não dá certo suspender o tratamento. Em algumas semanas ou meses, o resultado da retirada dos medicamentos é a recaída, muitas vezes de forma mais intensa do que no início do tratamento. Se ele retirou os medicamentos e ficou melhor, é porque o tratamento foi mal indicado e/ou aplicado.
Já cansei de ver pessoas com a vida devastada por sintomas depressivos, ou ansiosos ou de abuso de substância por tratamentos inadequados ou interrompidos antes dos resultados poderem sequer serem avaliados. Esse tipo de matéria levanta uma lebre correta de forma errada e imprecisa. Os medicamentos não devem ser usados desnecessária nem em doses maiores do que as suficientes. Os medicamentos tem efeitos colaterais, inclusive o de causar, em alguns casos, uma diminuição da resposta afetiva, que a matéria da Folha chama de Efeito Zumbi. Mas esses remédios salvam vidas e reconstróem famílias todo dia. As pessoas não imaginam como era lidar com essas doenças antes desses medicamentos estarem à nossa disposição. Não imaginam o alívio que um tratamento bem feito pode trazer a um paciente que está sofrendo.
Ontem falei sobre os Zumbis Emocionais. Juro que não combinei nada com a Folha de São Paulo. Os zumbis representam bem a nossa época, as pessoas cada vez mais famintas e apáticas, procurando por sangue, ou seja, por emoção e por algum contato físico. Não era um quadro psiquiátrico em si, embora esteja na base de vários quadros psiquiátricos. As pessoas alternam o hiperestímulo com a apatia. Os leitores podem checar os outros posts, falo disso o tempo todo.
As informações dos profissionais entrevistados são desencontradas, novamente misturando alhos com bugalhos. Existe uma tendência a um uso abusivo, seja nas indicações seja nas doses, de medicamentos com ação mais ou menos sedativa no Sistema Nervoso Central. Um dos pacientes citados na matéria teve um quadro depressivo, provavelmente por Burn Out, um termo para um quadro de esgotamento por múltiplos e importantes estressores. O paciente em questão teve esse esgotamento por desadaptação ao seu trabalho, numa empresa de telemarketing. Ele não aguentava mais ser xingado e desrespeitado por clientes e chefia, causando um colapso. A médica deu cinco tipos de remédio, o paciente suspendeu o tratamento por conta própria. Um detalhe do ofício: quando o diagnóstico é bem feito e o tratamento bem estabelecido, não dá certo suspender o tratamento. Em algumas semanas ou meses, o resultado da retirada dos medicamentos é a recaída, muitas vezes de forma mais intensa do que no início do tratamento. Se ele retirou os medicamentos e ficou melhor, é porque o tratamento foi mal indicado e/ou aplicado.
Já cansei de ver pessoas com a vida devastada por sintomas depressivos, ou ansiosos ou de abuso de substância por tratamentos inadequados ou interrompidos antes dos resultados poderem sequer serem avaliados. Esse tipo de matéria levanta uma lebre correta de forma errada e imprecisa. Os medicamentos não devem ser usados desnecessária nem em doses maiores do que as suficientes. Os medicamentos tem efeitos colaterais, inclusive o de causar, em alguns casos, uma diminuição da resposta afetiva, que a matéria da Folha chama de Efeito Zumbi. Mas esses remédios salvam vidas e reconstróem famílias todo dia. As pessoas não imaginam como era lidar com essas doenças antes desses medicamentos estarem à nossa disposição. Não imaginam o alívio que um tratamento bem feito pode trazer a um paciente que está sofrendo.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Psiquiatria Compreensiva 4 - Significado
Há uma passagem que particularmente me tocou no livro de Victor Franckel : "Em Busca do Sentido". Victor foi um psiquiatra de origem judaica que, preso durante os anos de guerra em Campos de Concentração Nazistas, sobreviveu através de sua profissão, evitando toda a loucura que o cercava através da observação meticulosa do comportamento do opressor e do oprimido, ou seja, como se comportavam os soldados e oficiais nazistas que detinham o poder de vida e morte dos prisioneiros, e, por outro lado, como reagiam os seus colegas de infortúnio que passavam da colaboração ativa à apatia mais profunda. Ele conseguiu finalmente sobreviver, de forma quase milagrosa para fundar no Pós Guerra a Logosofia, corrente de pensamento de sua autoria. A passagem a que eu me referia é quando trabalhando na Enfermaria do Campo de Concentração, Victor atendia uma jovem judia agonizante de febre e desnutrição que, perto de sua morte segredou ao jovem médico que era muito grata aos nazistas pelo o que lhe fizeram passar ali. Como assim?, pensou o médico, julgando que a paciente já delirava em sua febre. A jovem respondeu que vivera uma vida fútil de família rica na Alemanha. Não fosse a sua prisão naqueles campos de morte, nunca teria podido viver o que vivera, amar como amou e buscar a vida até o seu último sopro.
Nas últimas postagens abordei os diversos níveis de Compreensão de problemas ou de fenômenos. No nível 1, temos a abordagem direta do fato: um paciente quebra a perna, o médico faz uma cirurgia e coloca a perna em posição para reparar o estrago. O nível 2 é o levantamento de todos os fatores envolvidos em um caso assim: como se deu o acidente? Como o paciente pisa no chão, tem um quadril desalinhado, está muito gordo. Resumidamente, quais são os fatores de risco e de estresse físico/mental envolvidos no caso? No Nível 3 de abordagem o paciente pode descobrir, depois da passagem no tempo, qual o significado daquele evento em sua vida. Por que ele não respeita os próprios limites? Como cuida da própria saúde e como preza, ou não, sua segurança? Finalmente, no nível 4 a pessoa pode tentar descobrir, depois de um tempo ainda maior, qual foi o sentido daquela provação e por que teve que passar pela mesma naquele momento de sua vida?
O exemplo dilacerante da prisioneira judia mostra como uma pessoa pode, numa situação limite, atingir o nível 3 e 4 de compreensão. Ela percebeu o significado, estava lá tendo uma experiência terrível, mas podia aprender com ela, podia aprender a amar e valorizar cada minuto da vida a partir daquela situação. O mais difícil de se atingir é o nível 4, quando fnalmente o Significado vira Sentido, onde a percepção do fato e da vida se tornam mais profundos. O gordo que quebrou a perna na pelada de final de semana pode perceber que a partir desse fato precisou aprender sobre paciência cuidado de si mesmo. A psisioneira agradece a seus perseguidores pela experiência sublime de conhecer os extremos da vida e da morte para encontrar, finalmente, a própria luz. Dificilmente passamos do nível 2 em nosso contato com os problemas e outras questões de nossas vidas. Mas pensar em diferentes níveis nos abrem o coração de nossas questões com o Outro e com a própria Vida.
Nas últimas postagens abordei os diversos níveis de Compreensão de problemas ou de fenômenos. No nível 1, temos a abordagem direta do fato: um paciente quebra a perna, o médico faz uma cirurgia e coloca a perna em posição para reparar o estrago. O nível 2 é o levantamento de todos os fatores envolvidos em um caso assim: como se deu o acidente? Como o paciente pisa no chão, tem um quadril desalinhado, está muito gordo. Resumidamente, quais são os fatores de risco e de estresse físico/mental envolvidos no caso? No Nível 3 de abordagem o paciente pode descobrir, depois da passagem no tempo, qual o significado daquele evento em sua vida. Por que ele não respeita os próprios limites? Como cuida da própria saúde e como preza, ou não, sua segurança? Finalmente, no nível 4 a pessoa pode tentar descobrir, depois de um tempo ainda maior, qual foi o sentido daquela provação e por que teve que passar pela mesma naquele momento de sua vida?
O exemplo dilacerante da prisioneira judia mostra como uma pessoa pode, numa situação limite, atingir o nível 3 e 4 de compreensão. Ela percebeu o significado, estava lá tendo uma experiência terrível, mas podia aprender com ela, podia aprender a amar e valorizar cada minuto da vida a partir daquela situação. O mais difícil de se atingir é o nível 4, quando fnalmente o Significado vira Sentido, onde a percepção do fato e da vida se tornam mais profundos. O gordo que quebrou a perna na pelada de final de semana pode perceber que a partir desse fato precisou aprender sobre paciência cuidado de si mesmo. A psisioneira agradece a seus perseguidores pela experiência sublime de conhecer os extremos da vida e da morte para encontrar, finalmente, a própria luz. Dificilmente passamos do nível 2 em nosso contato com os problemas e outras questões de nossas vidas. Mas pensar em diferentes níveis nos abrem o coração de nossas questões com o Outro e com a própria Vida.
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