Freud formulou um modelo de princípios antagônicos. Por exemplo, logo nos seus trabalhos iniciais já descrevia o ser humano dividido entre o Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade. Mário de Andrade construiu um anti herói arquetípico para nós, brasileiros, Macunaíma, um ser movido exclusivamente pelo Princípio do Prazer: folgado, preguiçoso, avesso ao trabalho, esperando ser alimentado e cuidado sem precisar dispender nenhum esforço. Macunaíma está no noticiário todo dia, nos mensalões, obras superfaturadas e dólares na cueca. Esse é o Princípio do Prazer em contraponto ao Princípio da Realidade, manifesta nesta época em São Paulo pelas enchentes e o abandono legado pela administração macunaímica de Gilberto Kassab.
Freud também opôs, já numa fase mais adiantada de sua obra os princípios da vida e da morte, Eros e Tânatos, como formadores de nosso ser psíquico e da nossa vida. Falou mesmo de um Instinto de Morte, que se manifesta de forma inconsciente mas muito palpável no dia a dia, em motoristas bêbados em alta velocidade, em tiroteios nos botecos, em comportamentos de risco e descuido que vemos e temos quase todo dia. A morte é tão reverenciada e cortejada quanto temida.
Eu, particularmente, gosto dos princípios que estão na Teogonia, Mito da Criação dos gregos que foi abordado no penúltimo post: o Caos e Eros. O Princípio da Criação versus o Princípio não da Destruição, mas o da absoluta desorganização, o Caos. A própria eclosão da vida é um princípio que contraria a tendência natural da desorganização. Até hoje a Ciência tenta entender o evento absolutamente raro e estatísticamente impossível da criação da vida em nosso planeta. A Lei da Entropia descreve que todos os sistemas físicos tendem à desorganização; há a necessidade de uma carga imensa de energia para organizar e estabilizar um sistema de uma única célula. A tendência é que ele volte, sempre, para o Caos.
Os chineses chamam esse princípio organizador de Chi, a energia vital que mantém nosso organismo coeso. Quando termina a Energia Vital, o sistema todo se desorganiza e vem a morte. As diversas doenças representam o desequilíbrio no Chi. Na Medicina Ocidental, falamos de Homeostase, a capacidade de nosso organismo se manter equilibrado com o ambiente e com o funcionamento necessário para a sobrevivência. A doença vem da sobrecarga que o tempo e os estressores ambientais depositam em nosso organismo, gerando o desequilíbrio.
Acho que é por isso que a Alquimia descreve a Obra como um Opus contra Naturam, uma obra contra a natureza. Sempre achei isso uma ideia estranha: se estamos na natureza e fazemos parte de seu corpo, como podemos realizar uma Obra contra ela? Engraçado que pelos princípios da Entropia da para entender a intuição dos alquimistas pré e pós medievais: a obra alquímica, como a obra de nossa vida, é a luta para transformar o Caos em Criação, a tendência à bestialidade em humanidade. Deve ser por isso que seja necessário tanto dispêndio de energia para mudarmos velhos hábitos e velhos sistemas de comportamento. Vou dar um exemplo mais fácil, para esse post não ficar tão complicado: é muito mais “fácil” uma alimentação desregrada, ou soltar as amarras da voracidade, do que aprender a comer de forma consciente, regrada. Toda vez que vamos começar um regime, cutucamos as áreas da voracidade e do caos que repousam em nosso Cérebro, lá onde ainda residem a fúria e a destruição de nossas ganas de paleoprimata. É mais fácil, sempre, destruir do que construir.
Em todas as Mitologias, Deus é o princípio criador que se opõe às Trevas. É o Princípio do Amor que não se opõe ao Ódio: se opõe à dissolução no Caos.
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domingo, 17 de fevereiro de 2013
domingo, 11 de março de 2012
Conexão Mente Corpo
Fui visitar no último final de semana uma pessoa querida que está com uma doença oncológica agressiva. Pelas estatísticas, uma doença letal. Ela tem enfrentado a doença com coragem e serenidade, embora obviamente com episódios de raiva e de mágoas vomitadas. Ela apontou como fator desencadeante da doença uma grande decepção, quando mudou para uma cidade onde não conseguiu se adaptar. Tinha a esperança de morar perto de seu filho, reconstruir o núcleo familiar e nada foi como planejara. A literatura médica não consegue negar, e olha que ela tenta muito fazê-lo, que há uma correlação evidente entre choques emocionais e várias doenças. Câncer inclusive. Ou sobretudo.
Apesar dos discursos humanistas, o foco é na técnica, a Medicina não se ocupa muito das correlações entre estresse e doença. Os médicos que assistem essa pessoa querida, muito bem, diga-se de passagem, colocam à disposição dela e da família uma equipe de psicoterapeutas para lidar com os estressores e o processo da própria doença. Ninguém imagina usar técnicas de visualização ou uso de alimentação antioxidante para interromper a evolução da doença. As estratégias se concentram nas quimioterapias que controlem o crescimento dos tumores.
Recebi um link bacana de uma leitora desse blog, Luciana, sobre um médico alemão, Dr Heimer, que pesquisa há muitas décadas a relação entre os tipos de estresse e os tipos de doença oncológica. Haveriam conecções claras entre as áreas do Cérebro afetadas pelos estressores e os orgâos afetados pelo Câncer. O Dr Heimer fundou a Nova Medicina Alemã baseado nesses princípios. Foi perseguido, ridicularizado e ignorado, como é de praxe quando alguém vem te dizer que tudo em que você acredita está errado.
Lembro de um Congresso Brasileiro de Psiquiatria que eu fui em Belô que o Centro de convenções recebeu a "visita" de um caminhão de som do pessoal da luta antimanicomial. Os caras passavam um bom tempo gritando palavras de ordem e xingando a máfia dos laboratórios e dos tratamentos químicos, ou seja, nós, participantes do Congresso. Como eu tenho mesmo o vício da curiosidade, parei para ouvir algum discurso antes da minha aula. Havia um rapaz comentando que fora rotulado e envenenado pela química ao receber o diagnóstico da Doença Bipolar, mas só se curou e se salvou quando foi atendido em um Hospital Dia, onde a sua dor foi finalmente acolhida e compreendida. Agora ele estava bem e sem nenhuma medicação. O psiquiatra que vive dentro do autor dessas mal tecladas linhas pensou: "É porque você não é nem nunca foi Bipolar, meu amigo. O diagnóstico estava errado". Segui em frente e corri para a minha aula, já atrasado. Mas penso hoje que foi um ótimo testemunho, infelizmente ignorado pelos congressistas. Uma abordagem compreensiva economiza muita medicação, ajuda o paciente a lidar com seus estressores e se equilibrar naturalmente. Eu dedico a minha vida a isso, a minha prática clínica se baseia nisso.
Existe uma evidente relação entre os estressores que temos todo dia e as doenças. Estressores são todos os fatores que produzem desequilíbrios à sua homeostase. Homeostase é um conceito maravilhoso, que representa o estado sempre relativo de equilíbrio que nosso organismo procura manter, todo dia. Sem a Homeostase, ou quando ela está prejudicada, adoecemos e morremos. Alimentos industrializados, substãncias químicas, irradiação, poluição e mágoas, decepções, preocupações, tudo isso bombardeia o nosso corpo todo dia. Ele milagrosamente aguenta esse tranco e nós nem sempre colaboramos com ele.
A elaboração e a compreensão da conexão Mente/Corpo é, na minha opinião, a mais promissora e verdadeira das Medicinas.
Apesar dos discursos humanistas, o foco é na técnica, a Medicina não se ocupa muito das correlações entre estresse e doença. Os médicos que assistem essa pessoa querida, muito bem, diga-se de passagem, colocam à disposição dela e da família uma equipe de psicoterapeutas para lidar com os estressores e o processo da própria doença. Ninguém imagina usar técnicas de visualização ou uso de alimentação antioxidante para interromper a evolução da doença. As estratégias se concentram nas quimioterapias que controlem o crescimento dos tumores.
Recebi um link bacana de uma leitora desse blog, Luciana, sobre um médico alemão, Dr Heimer, que pesquisa há muitas décadas a relação entre os tipos de estresse e os tipos de doença oncológica. Haveriam conecções claras entre as áreas do Cérebro afetadas pelos estressores e os orgâos afetados pelo Câncer. O Dr Heimer fundou a Nova Medicina Alemã baseado nesses princípios. Foi perseguido, ridicularizado e ignorado, como é de praxe quando alguém vem te dizer que tudo em que você acredita está errado.
Lembro de um Congresso Brasileiro de Psiquiatria que eu fui em Belô que o Centro de convenções recebeu a "visita" de um caminhão de som do pessoal da luta antimanicomial. Os caras passavam um bom tempo gritando palavras de ordem e xingando a máfia dos laboratórios e dos tratamentos químicos, ou seja, nós, participantes do Congresso. Como eu tenho mesmo o vício da curiosidade, parei para ouvir algum discurso antes da minha aula. Havia um rapaz comentando que fora rotulado e envenenado pela química ao receber o diagnóstico da Doença Bipolar, mas só se curou e se salvou quando foi atendido em um Hospital Dia, onde a sua dor foi finalmente acolhida e compreendida. Agora ele estava bem e sem nenhuma medicação. O psiquiatra que vive dentro do autor dessas mal tecladas linhas pensou: "É porque você não é nem nunca foi Bipolar, meu amigo. O diagnóstico estava errado". Segui em frente e corri para a minha aula, já atrasado. Mas penso hoje que foi um ótimo testemunho, infelizmente ignorado pelos congressistas. Uma abordagem compreensiva economiza muita medicação, ajuda o paciente a lidar com seus estressores e se equilibrar naturalmente. Eu dedico a minha vida a isso, a minha prática clínica se baseia nisso.
Existe uma evidente relação entre os estressores que temos todo dia e as doenças. Estressores são todos os fatores que produzem desequilíbrios à sua homeostase. Homeostase é um conceito maravilhoso, que representa o estado sempre relativo de equilíbrio que nosso organismo procura manter, todo dia. Sem a Homeostase, ou quando ela está prejudicada, adoecemos e morremos. Alimentos industrializados, substãncias químicas, irradiação, poluição e mágoas, decepções, preocupações, tudo isso bombardeia o nosso corpo todo dia. Ele milagrosamente aguenta esse tranco e nós nem sempre colaboramos com ele.
A elaboração e a compreensão da conexão Mente/Corpo é, na minha opinião, a mais promissora e verdadeira das Medicinas.
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