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domingo, 25 de outubro de 2015

Tite e a Neurociência

Os posts desse blog sobre futebol não são muito visitados pelos leitores (ou, mais provavelmente, pelas leitoras). Ou eu não entendo muito do assunto, mas gosto de me meter à besta, ou o pequeno público que se formou em torno desses posts gosta de saber sobre outras coisas e não está nem aí para o futebol. O fato é que já escrevi algumas bobagens nesse blog, as maiores sobre futebol: elogiei e enchi a bola do Felipão um ano antes do Sete a Um, afirmei que ninguém entendia o que Tite falava no Corinthians, no ano em que ele remontou um time em frangalhos para ser Campeão Brasileiro no mesmo ano e Mundial no seguinte, ou seja, minha pouca credibilidade pode ser abalada quando me meto a escrever sobre esse assunto. Contrariando o bom senso, vou falar sobre futebol e Neurociência, voltando a ele, Tite.
Tite é o melhor técnico do Brasil em atividade. Não porque daqui a poucas semanas vai comemorar mais um título brasileiro pelo Corinthians, para meu sofrimento. Ele vai ser campeão com um grupo de jogadores razoavelmente fraco e pior que muitos outros elencos, como o São Paulo, o Internacional e o próprio Palmeiras. Vai ser campeão com Wagner Love de centroavante. Isso é coisa de gênio. Não está na seleção por obra de uma dupla em que, um está na Suiça riscando a parede de sua cela para contar os dias e o outro não viaja nem para o Paraguai com medo de ser preso. Ou seja, uma duplinha que não usa critérios muito transparentes para escolher o técnico. Dunga, o escolhido, nunca foi campeão em um clube, nem em campeonato de várzea. Mas este é outro assunto.
Os hominídeos não eram muito promissores nesse planeta: não eram os primatas mais fortes, nem mais rápidos, nem duravam muito depois de procriar. Os seus bebês eram frágeis e precisavam de cuidado por muito tempo depois de seu nascimento. O que? Ainda estou escrevendo sobre o Corinthians? Estou, calma. O que destacou os hominídeos na sua luta pela sobrevivência, além dos polegares opositores e a criação de armas e utensílios, foi a sua capacidade de organização e colaboração como grupo. Para isso, desenvolveu Neurônios Espelho, que lhe permitiram aprender por imitação e similaridade, perceber a reação de seus pares e, muitas eras depois, aprender a ser auto consciente. Vivemos a época pós darwiniana de metáforas de genes egoístas e sobrevivência do mais apto, o que no limite está destruindo o nosso mundo, mas o que nos fez prosperar como espécie até a completa dominância do planeta não foram os genes egoístas, mas a capacidade de colaborar e cuidar dos mais fracos.
Tite montou um time baseado em colaboração e ressonância psíquica. É como se fosse uma orquestra de Neurônios Espelho sempre buscando ressonâncias e sinergias. Jogadores desacreditados e dados como medíocres deslancharam nesse sistema. Houve apitos amigos no caminho? Sim, mas não era necessário. Ninguém conseguiu montar um grupo tão coeso. Ninguém conseguiu tirar tanto de tão poucos.
Infelizmente, em nossos sistemas corporativos, permanecem as metáforas darwinianas e os sistemas de dividir para governar. Assim como as fantasias de controle. Nem sempre é valorizada a força do grupo e dos sistemas de sinergia e ressonância, que trariam resultados mais palpáveis e interessantes, como vemos hoje no Corinthians, que perdeu meio time no começo do campeonato e parecia que ficaria perdido em posições intermediárias.( Enquanto isso, o São Paulo vive a sua própria Operação Lavajato).

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Autoindulgência

Hoje acordei com aquela sensação de irrealidade, pensando se o que aconteceu ontem não foi apenas um sonho ruim. Hoje iríamos enfrentar a Alemanha e ganharíamos num jogo duro, mas leal. Um a zero, com gol de um dos malditos de nosso time, Fred ou Hulk. Mais alguns minutos e a memória do chocolate que o Brasil tomou da Alemanha se impôs. Óbvio que o experiente e carismático Felipão hoje virou um técnico superado. A mídia clama por um técnico estrangeiro, mas parece que é Tite que vai assumir a seleção. Os cronistas clamam por reforma do Futebol. A única nota que me arrancou um sorriso foi saber que Marin e Del Nero, a dupla Debi e Lóide que pretendem mandar no futebol brasileiro, está se borrando com medo de CPI e de medidas que varram essa corja do comando. E, por falar em corja, nossa presidente Dilma também teme que a tragédia do Mineirão contamine a política e a economia do país. Se são esses que estão incomodados, então pode não ter sido em vão.
O volante/armador/atacante Toni Kroos, um dos melhores jogadores dessa Copa, senão o melhor, que enfiou dois dos sete gols na meta de Júlio César, falou algo que me chamou muito a atenção em sua entrevista coletiva: o time da Alemanha sabia muito bem da fragilidade emocional da seleção brasileira, vergada pela expectativa e responsabilidade de ter um país nas suas costas. Em post anterior eu brinquei que gostaria de ter um time de autistas, que congelassem o ruído e a vibração da torcida e só visse o gol adversário e a necessidade de enfiar lá dentro o maior número de bolas. Estava sendo tristemente profético, mas com o time errado. Toni Kroos revelou o plano de fazer um ou mais gols logo de cara para desestabilizar emocionalmente o time do Brasil e dominar completamente o jogo. Havia uma percepção óbvia, direta dessa fragilidade e ela foi explorada com frieza e objetividade. Sem essa de família Scolari, ou entrar em campo com a mão no ombro do colega, assim tipo Sete Anões; a Alemanha não viu, não ouviu, não sentiu: limitou-se a enfiar o maior números de bolas dentro de nosso gol. No finalzinho do jogo, Özil perdeu um gol na cara de Júlio César. No contrataque, Oscar fez nosso gol solitário. Ele levou uma bronca no meio de campo de seus colegas. E olha que estava sete a zero. Não interessa. Era para ter enfiado mais um.
No primeiro post sobre essa Copa do Mundo que graças a Deus está terminando, falei sobre a nossa pior doença cultural, que é a autoindulgência. O fim desse evento vai nos permitir voltar a nosso país em recessão e com um colapso de infraestrutura, mas que precisa de pessoas trabalhando e produzindo, não de especulações infinitas sobre quem iria substituir Neymar. Enquanto nossa seleção assistia palestras motivacionais recheadas de obviedades para bater palminhas e entrar em campo gritando, a Alemanha planejou meticulosamente todos os seus passos e o que seria necessário para sair desse país com o caneco. Planejou inclusive a melhor maneira de entrar na nossa psique e encontrar o ponto fraco que levou o time ao maior colapso emocional que já houve em nossa seleção em toda sua história.
Pelo visto, na Segunda Feira o caneco vai estar na bagagem dos chucrutes. E nós vamos retomar a nossa vida, pois este país precisa muito de gente produzindo. Pra frente, Brasil. Tem uma dúzia de pessoas vivendo do Bolsa Família que precisa de nosso trabalho. Vamos que o Real caiu em nossa cabeça por sete vezes.

domingo, 6 de julho de 2014

Neymar e a Banalidade do Mal

O psiquiatra suiço Carl Jung era filho de um pastor protestante. Seu pai era um homem fraco e deprimido que morreu prematuramente. É justo imaginar que uma boa parte de sua obra psicológica foi uma forma de responder a questões que seu pai se recusava a tentar entender. Para Jung, o Bem, o Mal, a vida e o ensinamento de Jesus eram uma verdade psíquica viva e atual, algo para ser compreendido, não ser sepultado debaixo do cimento do Dogma. O seu pai defendia que o Dogma deveria ser respeitado e pronto. Jung dedicou uma boa parte de sua vida para demonstrar que essa visão não era a mais correta.
Obviamente, Jung andou às turras com Protestantes, Católicos e, por outros motivos, com os Judeus. Uma das pendengas com a Igreja Católica foi sobre a natureza do Mal. Jung discordava que o Mal seria apenas algo que ocorre pela privação do Bem. Essa ideia está gravada de maneira mais profunda em nossa Psique e Cultura do que podemos imaginar. Quando se estuda um sociopata ou um serial killer, logo vamos procurar por terríveis abusos e privações de infância. É claro que na maioria dos casos, vamos encontrar. O imprinting da violência e do abandono de transmite de geração em geração, e filhos de mães abandonadoras vão ter uma chance bem maior de reproduzir esse comportamento do que filhos de mães amorosas. Mas Jung via no Mal uma realidade psíquica própria. Como uma expressão de uma função na Natureza. Haveria pessoas naturalmente vocacionadas para exercê-lo, bastando oferecer a elas a devida oportunidade para fazê-lo.
Assisti outro dia ao filme “Hanna Arendt”, sobre a filósofa judia alemã que dedicou grande parte de sua obra ao estudo do Mal. Estou frisando a sua origem judaica e alemã porque isso é fundamental para entender o tema central desse filme. Hanna Arendt fugiu da Alemanha no alvorecer do Nazismo e dava aulas de Filosofia nos Estados Unidos. Foi contratada por um importante órgão de imprensa para cobrir o julgamento de um genocida nazista, Adolf Eichman, um dos executores da chamada “Solução Final”. Eichman foi identificado e preso pelo Mossad vivendo uma vida pacata na Argentina, e em nada lembrava o monstro que ordenou o extermínio de centenas de milhares de vidas de pessoas que nada fizeram contra ele. O seu julgamento foi no início dos anos 60 e sua linha de defesa frisou que ele foi um mero executor de ordens superiores e que ele não tinha a capacidade e o direito de questionar essas ordens. Transformou-se, então, num mero autômato da Morte, sem esboçar sentimento humano com relação a o que fazia.
Hanna Arendt, depois de um longo período de pesquisa e reflexão que quase levou seus editores à loucura, escreveu uma longuíssima matéria sobre o julgamento de Eichman, onde destacou a perplexidade de ver um homem tão medíocre, tão desprovido de qualquer inteligência ou capacidade especial ter sido capaz de dar a Morte uma característica industrial, como uma linha de montagem. Hanna analisou no mesmo ângulo os judeus que colaboraram com os nazistas nos Campos de Concentração e os jovens oficiais germânicos que mandavam seus semelhantes para a morte em massa sem nenhuma culpa e, acima de tudo, sem nenhuma reflexão. Esse foi o tema mais importante do artigo de Hanna: o Mal havia se tornado algo banal e qualquer imbecil poderia assumir o comando da linha de montagem. Obviamente que seu artigo foi incompreendido, para dizer o mínimo, e ela sofreu um verdadeiro linchamento intelectual e moral após a sua publicação. O filme mostra a sua tentativa irredutível de defender o seu olhar em contraponto a todos que queriam transformar o oficial nazista num titã da maldade. Foi classificada como uma traidora de seu povo e da compaixão humana. Hoje, mais de meio século depois, a sua visão sobre o Mal continua sendo comprovada, até pela Neurociência.
Neymar saiu da Copa do Mundo graças a uma joelhada de um jogador da Colômbia, Zuniga, que se caracteriza pelo excesso de vigor físico em detrimento de um Cérebro pouco privilegiado. Se houvesse um poste em campo, correria o risco de um Trauma de Crânio, pois corre sempre em linha reta e de cabeça abaixada. Neymar fez algumas firulas encima dele durante o jogo. O que me convence que a joelhada de Zuniga foi um ato de maldade banal e estúpido foi a sua reação posterior, de se eximir completamente do ocorrido, como um lance normal de jogo. Nenhum tipo de sentimento pelo ocorrido. Um ato banal e sem sentido de agredir um semelhante que ganha em um trimestre o que Zuniga não receberá em toda a sua vida.
Jung e Hanna Arendt tinham, ambos, razão. O Mal existe e se manifesta melhor onde campeia a estupidez.

domingo, 29 de junho de 2014

Pátria Límbica, Brasil

Experimentos com hamsters, hoje clássicos, demonstraram que o amor não estava no Coração, como diziam os poetas, mas no Cérebro Límbico, o Cérebro Emocional. Se o Neocortex, o que podemos chamar de Cérebro Racional, é removido, os roedores não aprendem mais como sair de labirintos, mas continuam cuidando atenciosamente de seus filhotes. Por outro lado, se as áreas emocionais forem ligeiramente danificadas, os bichos vão resolver qualquer labirinto, mas vão deixar os filhotes morrerem de fome. Há uma relação do afeto com o córtex olfativo, usado pelas ratinhas para localizar as suas crias no escuro. A tal da “Química” entre casais é talvez seja química mesmo, com uma compatibilidade de cheiros, gostos, texturas. Isso que está na base de relações que dão, ou não, liga.
Quem acompanha esse blog sabe que eu já escrevi um texto de apoio e admiração pelo Felipão, técnico da seleção nesta Copa. Felipão é um técnico eminentemente Límbico, pode-se assim dizer. Abraça e beija seus jogadores, xinga juízes e dá peitadas em oponentes. Quando era técnico de Portugal deu uma cabeçada em um beque adversário. No início da carreira, deu uns cascudos em Wanderley Luxemburgo dentro de campo e só por isso já merecia colocar as mãos na Calçada da Fama. Felipão descarta jogadores que não tenham “Espírito de Seleção”, o que eu desconfio que foi o motivo de não chamar o Robinho. Ele sabe que para ganhar os sete jogos que separam uma seleção da taça é preciso foco e motivação absolutas. O problema é que a sua ênfase no aspecto emocional e amoroso do grupo está transformando nossa seleção num bando de mariquinhas. Eles choram abraçados, choram no hino, choram na zona mista, choram antes, durante e depois da decisão por pênaltis contra os tampinhas do Chile. Como os ratinhos de laboratório, a retirada do Neocortex deixa a galera unida, a família Scolari aos prantos, e jogar bola, que é bom, nada. Precisamos de Cérebro para entender o jogo, criar situações inesperadas e executar o adversário de maneira sumária e implacável. Chega de caras fofinhos que entram em campo de mãos dadas. Precisamos de gente de má índole, sobretudo na hora em que passa pela cabeça dos jogadores o que vai acontecer se milhões e milhões de brasileiros se decepcionarem mais uma vez com o futebol.
Uma característica dramática das crianças autistas é a sua capacidade de identificar e retribuir as manifestações de afeto. A doença de Asperger, que está dentro do espectro do Autismo, deixa os pacientes como os ratinhos com lesão límbica: com uma capacidade de inteligência bem próxima ao normal, mas com uma incapacidade de entender emoções complexas, ironias ou frases de duplo sentido. Entendem a lógica, mas tem dificuldades de perceber quando alguém está irritado mas não o demonstra. E, sobretudo, não conseguem retribuir ou demonstrar as emoções que não conseguem processar.
Pode me chamar, Felipão. Vamos acabar com a choradeira e transformar os seus meninos em Autistas, que não ouvem, não sentem, não percebem o que está envolta. Só conseguem ver as traves do adversário e a necessidade de enfiar a bola lá dentro. Várias vezes. Emoção, só com o caneco na mão.

domingo, 15 de junho de 2014

País do Futebol

Lá pelos idos dos anos 90, minha esposa fez uma dura consideração sobre o cinema brasileiro: disse que o nosso cinema não sustenta a tragédia. Tudo acaba em Carnaval ou besteirol. Venho tentando responder a essa crítica desde então, sem sucesso. Lembrei, na época e hoje, das filmagens das peças de Nelson Rodrigues, nosso autor de várias tragédias suburbanas. Terminavam em Carnaval. Lembro de um filme de Arnaldo Jabor, “O Casamento”, em que o personagem principal, após confessar um crime que não havia cometido, para expiar a culpa por tantos outros pecados, vai sendo levado na cena final para a prisão, levanta as mãos com algemas em triunfo, a batucada comendo solta, enquanto ele repetia, em transe: “Eu sou um assassino”. Veja bem, termina em batucada. Eu poderia citar o “Abril Despedaçado”, do Valtinho Moreira Sales, como uma tragédia brasileira, de morte e assassinato no agreste. O filme é lento, chato e parece iraniano, como, se não me angano, o livro que originou o roteiro. Nunca consegui assistí-lo inteiro para poder usá-lo como argumento. A brincadeira versa sobre nossa incrível vocação tupiniquim para a autoindulgência, para o descuido estético e a desatenção aos detalhes porque somos o país do Samba e do Carnaval. Somos incompetentes, mas muito alegres.

Fui comprar uma camiseta do Brasil para meu filho na véspera da estréia da Copa do Mundo. O estoque acabou rápido em uma grande loja de material esportivo. Como não vendia nada, os estoques estavam pequenos. Foi um Deus nos acuda para encomendar o atual modelo, com aquela gola feiosa. Começamos a entrar na Copa bem devagar. Acho que estávamos naquele suspense do que poderia acontecer, antevendo vexames, greves, black blocks e passeatas causando caos urbano e fracasso total do evento. Hoje as vendas de camisetas estão bombando. O fracasso tem sido relativo, e tolerável, então as pessoas vão se animando. Eu, pessoalmente, tenho me retorcido de vergonha em várias ocasiões. A Cerimônia de Abertura foi de provocar náuseas. A Festa Junina da escolinha da minha sobrinha foi bem melhor. Se as nossas tragédias terminam em Carnaval, a Abertura da Copa terminou em tragédia. Que lixo, que pobreza franciscana de imaginação e coreografias. Sobretudo, que coisinha feita sem capricho. As tribunas dos convidados internacionais ficaram vazias até a hora do jogo. Soube-se depois que estavam perdidos pelo estádio, tentando achar os seus lugares, ou encontrá-los mediunicamente, já que não tinha sinalização interna no estádio. A internet não funcionou e a imprensa se comunicava por celular. As luzes de parte do estádio se apagaram no Primeiro Tempo e eu fiquei mais preocupado com isso do que com o gol contra do Marcelo. Só faltava parar o jogo por falta de iluminação. Na Arena das Dunas, choveu mais no público do que no campo, pelas inúmeras goteiras não consertadas a tempo. Na Fonte Nova, acabou a comida e a bebida.

Falar sobre esses vexames, essas falhas lamentáveis, pode ser classificado de antipatriótico. Lula, sempre ele, classificou os xingamentos da torcida à presidente Dilma (que eu também não endosso) de uma reação da “elite branca”, obesa e reacionária, contra o governo imaculado do PT.

Nossa velha comiseração tudo perdoa, já que somos um país de gente afetiva, acolhedora e alegre. Os gringos se deliciam com essa alegria, e há um esforço coletivo de receber bem essas pessoas, de apagar essas falhas de organização com nossa pegada festeira. Lula, em mais um surto de sinceridade etílica, falou em entrevista que levar o metrô até dentro do estádio é uma babaquice. Brasileiro vai a pé e de jumento, disse o nosso ex (?) presidente.

Nossa tragédia cotidiana está assentada nessa indulgência frouxa, nessa capacidade de batucar, sorrir e rebolar a bunda para os buanas enquanto cometemos erros grosseiros em todos os setores de nosso país, que caminha aos passos largos para um apagão de infraestrutura e estagnação econômica. Espero que a Copa engrene e que as presepadas se tornem menos visíveis. Mas o bom mesmo é essa Copa terminar rápido e podermos voltar para o trabalho, pois esse país tem muita gente que trabalha e que merece descer de metrô, e não de jumento, nos estádios construídos e superfaturados com dinheiro público.

domingo, 16 de dezembro de 2012

A Mente Vencedora

Dizem que o que faltou ao Chelsea para vencer o Corinthians na final de hoje em Yokohama foi contratar o time B do São Paulo, que deu um chocolate no mesmo time que pulava abraçado aos gritos de “É campeão!”. Outra providência seria destacar os seguranças do tricolor para uma boa massagem no intervalo, no adversário, é claro. Dizem que o time fica tão relaxado que alguns nem querem voltar para o Segundo Tempo.
O pior não foi ver o Timão ganhar os títulos que outrora o São Paulo ganhava. O pior foi ver o Bando de Loucos ganhar com absoluta justiça a Libertadores e o Mundial, na manhã de hoje. Mas já tomei minhas providências: vou remarcar todos os clientes corintianos para Fevereiro de 2013. A minha cachorrinha Boxer, Scarlett, vai ser devolvida ao canil. Desde que ela chegou, no início desse ano, o Corinthians ganhou tudo que nunca antes sonhara. Alguém tem que pagar por isso e a pequena Scarlett ou é corintiana ou é uma tremenda pé frio.
Vou fugir das resenhas, dos programas esportivos, dos jornais e das carreatas. Mesmo assim, quando estava no supermercado, acabando de comprar o almoço, percebi, aterrorizado, que havia cometido um ato falho no vestuário: estava com uma bermuda cinza e uma camiseta preta, da Nike, a mesma cor e a mesma marca dos uniformes do Corinthians. Os carros dos malucos passavam a caminho do churrasco, com buzinaço e os corintianos cantavam olhando para mim como quem identifica um irmão, mais um do Bando de Loucos. Quase eu gritei: “Timão, eh ôô...Timão, eh ô”.
Não foi bom o Santos levar um vareio de bola na final do ano passado, para o Barcelona de Messi. Foi bom o Corinthians ter colocado o Chelsea no bolso no jogo de hoje. Eles jogaram com a costumeira empáfia, achando que matariam o jogo naturalmente. Depois do gol de Guerrero, os Blues foram colocados no bolso pela marcação implacável armada por Tite. Finalmente um time brasileiro ganhou de um time com seis vezes o seu orçamento com autoridade e confiança. Isso depois de um trabalho longo de construção de um time com mentalidade vencedora e foco impressionante.
Mas não diga aos corintianos que eu escrevi isso.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Pés Inchados

Uma passagem belíssima da Mitologia é quando Édipo, Rei de Tebas, desesperado, procura um vidente cego, Tirésias, para perguntar o que está trazendo desgraça para o Reino. As colheitas perdidas, a seca, os bichos morrendo, Édipo se pergunta: mas o que está dando errado? Tudo que estava no manual de boas práticas ele tinha feito: derrotou a Esfinge com grande coragem e astúcia. Desposou a bela rainha Jocasta, que já estava um pouco passadita mas ainda dava um caldo. Contratou os melhores marketeiros e consultores, fez um MBA em gestão pública, pagou o mensalão de Tebas para os senadores e os resultados continuavam uma desgraça. O que estava rolando? Tirésias, sem tablets e sem banda larga, consultou os deuses e trouxe o veredito, implacável: o causador da desgraça és tu, Édipo. Tu és o nó que falta desatar. Mas como assim? Estou fazendo tudo direito, aplicando todos os checklists, trazendo os melhores consultores e ainda assim os resultados não aparecem. O que mais me resta fazer?
Tirésias, que não era de passar a mão na cabeça de ninguém, revelou para o Rei de Tebas que ele matara o seu pai biológico, Laio, em uma estrada que levaria o herói para a sua glória e desgraça. Logo depois, Édipo derrotou a Esfinge e desposou a bela e madura rainha, que teve o seu filho roubado décadas antes. O filho roubado és tu, meu Rei. Estás partilhando o leito com tua própria mãe.
Édipo poderia ter ignorado a consultoria e chamado alguma mega auditoria, tipo da Price, para ouvir um parecer depois de várias e várias apresentações em Power Point, recheadas de termos em Inglês. Mas ele sabia, de alguma forma em seu coração, que o velho Tirésias estava certo. Édipo, que quer dizer “Pés Inchados”, acariciou as suas cicatrizes, fruto do atentado que sofrera quando bebê, quando cortaram os seus tendões e o abandonaram às feras, percebeu onde a sua ambição o levara. Numa ação inédita na vida corporativa ou na política, arrancou os próprios olhos e passou a vagar pelo mundo. O leitor pode se perguntar: mas Édipo cometeu o supremo crime, o Parricídio e o Incesto, sem ter conhecimento da própria culpa. Mas o Mito revela: não há perdão para a Inconsciência. O que fazes inconscientemente pode destruir o teu lar, o teu povo, a tua semente.
A Diretoria do São Paulo, estranhamente, fez as coisas certas nesse ano: contrataram bons reforços e trouxeram um técnico bom e respeitado. As condições para o treinamento e recuperação dos atletas são as melhores do Brasil. Ainda assim, o time coleciona vexames. Nessa semana, o seu maior ídolo, Rogério Ceni, foi respingado desse ridículo, fazendo um gol contra. Como na história trágica do rei de Tebas, apesar de tudo o que possa fazer está sendo feito, os resultados e as derrotas humilham os justos. Daí a pergunta que não quer calar: onde está Édipo, heim Juvenal? Onde está doendo os calos da Nação Tricolor? Uma dica: pergunte á sua pedicure.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Felipão, de novo.

“As ameaças e as guerras/ Havemos de atravessá-las/ Cortando-as ao meio/ Como a quilha corta ao meio, as ondas” (João Bosco)


Lembrei desse trecho que antecede a gravação de uma música antiga de João Bosco quando vi o Palmeiras, com um elenco bastante limitado e sem as suas poucas estrelas, vencer a Copa do Brasil com um gol de um certo Betinho, há alguns meses reserva do São Caetano.
Nós sãopaulinos estamos realmente numa época difícil: o Santos, o Corinthians e agora o Palmeiras povoaram os céus paulistanos com seus fogos e rojões, que deixam as minhas cachorras encolhidas de medo. O São Paulo continua correndo em círculos. Lembrei de uma filme brasileiro, “Se Eu Fosse Você”, onde marido e mulher trocam de personalidades e de corpos, o que deu margem para divertidas gags de Toni Ramos e Glória Pires. Acho que aconteceu um processo semelhante entre a diretoria do São Paulo e a do Timão. Quando eu ouvi o presidente corintiano, César Gobbi, dizer que iria comemorar o título da Libertadores afogado no champanhe, pude constatar que houve essa troca de personalidades e gestão entre os clubes. Mas o São Paulo não é o tema desse post. Felipão é.
Há pouco mais de um ano levei gozação porque escrevi um post declinando a minha admiração pelo técnico Luís Felipe Scolari, conhecido treteiro/encrenqueiro e recentemente carimbado com um “Fala Muito”, berrado a plenos pulmões por Tite em um jogo que se enfrentaram, com vitória de Tite, diga-se de passagem.
Felipão ganhou um campeonato de um time que eliminou o São Paulo, que tem o elenco mais caro dos finalistas. O presidente deu uns sopapos num conselheiro na semana da final, a estrela do time sofreu um sequestro relâmpago e declarou à TV chilena que no Brasil se mata por 50 reais, o principal atacante teve uma Apendicite no dia da final, a sua dupla de atacantes na final vieram, respectivamente, do Ituano e do São Caetano e estavam há poucas semanas no clube, sem contar que todos os técnicos Top contratados pelo Palestra nos últimos anos fracassaram. Um cenário ideal e estimulante para Felipão, que tem como característica crescer e se inflamar diante da adversidade, além de transmitir isso aos seus comandados. Como nos versos de João Bosco, ele atravessou as ameaças e as incertezas como uma quilha de navio rasgando as ondas. Aos sãopaulinos, que poderiam ter levado o timoneiro ao Morumbi mas afinaram, restam os aplausos.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Jung e a Final da Libertadores

Outro dia um paciente veio fazer uma fofoca e me atiçar contra a terapeuta de sua filha, uma lacaniana muito composta. Quando ele mencionou que fazia Psicoterapia Junguiana, a colega se empertigou no sofá e observou que Jung era assim um cara místico... Eu não passei recibo e comentei que me recusava a discutir essa "acusação" sem cerveja. Ele passou o recado, todo pimpão. Eu sei, eu sei. Que coisa feia. Entrar nessa rivalidade clubística entre linhas, isso é coisa de um junguiano sem compostura. O fato é que não houve mais nenhum comentário da moça.
Uma das construções teóricas de Jung que lhe valem o título de "místico" é a Sincronicidade, ou Lei das Coincidências Significativas. Jung começou a notar pequenos eventos onde fatos ou acontecimentos sem relação de causalidade entre si aconteciam em determinado momento, reforçando uma impressão ou uma idéia. Uma vez no hospital um colega me enunciou esse princípio de forma muito clara e interessante. Era logo um Ortopedista, que não acreditam em nada que não esteja no Raio X. Havia um senhorzinho que trabalhava no prédio da Faculdade de Medicina e era muito querido dos alunos. Um belo dia ele caiu de uma escada e teve uma fratura. Diagnosticada a fratura, optou-se por fazer uma cirurgia para colocar um pino no local. A cirurgia foi desmarcada três vezes, por razões diferentes: numa o cirurgião bateu o carro, na outra o paciente pegou uma Pneumonia, na terceira a Pressão dele subiu antes da Anestesia, a cirurgia foi suspensa. O colega optou por fazer um tratamento mais conservador e não cirúrgico. A justificativa científica é que "alguém lá encima não estava querendo essa cirurgia". Claro que o tratamento conservador era uma boa opção e, mais claro ainda, os três eventos que impediram a cirurgia não tiveram nenhuma relação causal entre si. Entretanto, colocando as três coincidências na balança, o médico "sentiu" que era melhor optar por outro caminho. Para a Ciência, meu colega é um supersticioso e o terapeuta que leva as coincidências em conta é um místico ou um charlatão (pode não parecer, mas para a Ciência, são sinônimos).
Toda essa introdução é para dar aos secadores do Corinthians, dentre os quais eu alegremente me incluo, uma má notícia: a Sincronicidade, chamada pelos locutores esportivos de "sorte de campeão" está do lado do Timão. Explico. No gol do Boca, a torcida pode dar graças pelo fato da bola ter entrado. O centroavante do Boca, carinhosamente alcunhado de El Tanque cabeceou para fazer o gol. Chicão meteu a mão na bola no desespero. A bola bateu na trave e voltou para outro jogador estufar as redes. Se ele não tivesse feito o gol, seria pênalti e expulsão. Como o Boca levou vantagem, Chicão tomou um cartão amarelo e o Corinthians não ficou com um jogador a menos,que, naquela altura, seria catastrófico. Tite colocou o Romarinho, um garoto de 21 anos recém chegado do Bragantino, para tentar empatar o jogo. No primeiro toque que deu na bola, Romarinho mandou-a para dentro do gol do Boca. Para finalizar, um jogador do Boca que acabara de entrar perdeu um gol debaixo da trave.
Lamento dizer, caros e solidários secadores: a Sincronicidade está do lado do Corinthians. isso não é nada bom.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Destruidor de Castelos

Um dos vários livros que estou lendo simultaneamente é sobre a biografia de um homem que trabalhou toda sua vida com cavalos e desenvolveu uma capacidade impressionante de se comunicar e adestrar os bichos. Desenvolveu até uma linguagem para isso, que chamou de Equus. Monty, o encantador de cavalos, recebeu em determinada época de sua vida uma proposta de um homem muito rico e influente, para administrar sua fazenda e cuidar de seus cavalos, que gostaria que participasse de competições de adestramento. Como esse cara já havia aprontado com Monty uma vez, sumindo depois de fazer uma proposta igualmente irrecusável, o cowboy pensou, ou intuiu, que era melhor recusar a proposta. O velho milionário confessou que era um portador da Doença Bipolar e autorizou-o a conversar com seu próprio psiquiatra, para esclarecer a situação. Ainda a contragosto, foi falar com o tal médico, que descreveu o seu paciente como um portador da "Síndrome do Destruidor de Castelos". Mas o que seria isso? Ele respondeu que o quadro é como o de uma criança que gosta de levantar um castelo na praia. Quando ele está alto e bonito, a criança pode ir fazer outra coisa e deixar a sua "obra" por lá, para a admiração das pessoas, até que as ondas o levem. Mas algumas crianças não conseguem resistir à tentação de derrubar o castelo com chutes e voadoras. Não conseguem conter esse impulso agressivo. Estava pensando nisso quando cheguei ao consultório e vi a ficha de uma pessoa que levou a família toda a psiquiatras. Os pais, o filho, ela própria. Nenhum tratamento vingou. Todos os trabalhos foram interrompidos diante das primeiras dificuldades. Bem, mas voltando a Monty, apesar do alerta do psiquiatra, que se contorceu nas fronteiras da Ética Médica para alertá-lo, não resistiu ao apelo da oportunidade e foi trabalhar com o Destruidor de Castelos. No início, teve sucesso, ganhou várias provas e adestrou vários cavalos, até que um dia parou de fazer contato com o seu patrão. Soube que o homem estava com um quadro depressivo importante, que teve como um dos desencadeantes a derrota em uma prova de seu cavalo favorito. A situação esquisita ficou aterradora quando recebeu a visita do advogado do homem, com a ordem de vender a maior parte dos cavalos e matar, isso mesmo, sacrificar um casal de procriadores e o tal cavalo que havia perdido a prova. Monty fingiu concordar, vendeu vários cavalos, doou outros, mas obviamente que não conseguiu matar nenhum dos bichos. Vendeu-os para si mesmo e mandou-os escondidos para outros criadores da região. Quando o capataz do homem perguntou se ele executara o serviço, disse que sim. Alguns meses depois foi preso, quando os asseclas do homem descobriram o que ele fizera. Foi preso acusado de ter roubado o cavalo que ele salvara. O homem era rico e com boa equipe de advogados. Monty precisou do apoio de seus amigos, de sua comunidade e da Imprensa local para inverter as acusações e reestabelecer a verdade. Ganhou a tal fazenda no processo, mas o preço foi alto. Sobretudo, o preço de não ter ouvido a sua própria intuição logo de início, dizendo não para a proposta aparentemente irrecusável.Já escrevi alguns posts tecendo críticas mais ou menos bem humoradas ao presidente do glorioso São Paulo Futebol Clube, Juvenal Juvêncio, ou seu Jujú. Juvenal está padecendo nos últimos anos dessa Síndrome do Destruidor de Castelos. Lembro muito bem de um Campeonato Brasileiro em que todos, eu inclusive, clamávamos pela demissão de Muricy Ramalho, o técnico hoje mais do que consagrado e às portas de assumir a seleção brasileira. Jujú bancou o Muricy diante de toda pressão, e estava certo; o resto, eu inclusive, estavam errados. De alguns anos para cá, entretanto, Juvenal tornou-se o destruidor de castelos: monta bons elencos, técnicos mais ou menos adequados e, quando os resultados não vem, demite o técnico, joga fora jogadores promissores, começa tudo de novo, para repetir o ciclo de novo. É como um cozinheiro que abre o forno antes do bolo estar pronto, por falta de feeling,de paciência, de entendimento do Tempo das Coisas. Como todo comandante autocrático e autoritário, termina seu mandato só e cercado de áulicos. Enquanto isso, o Corinthians manteve a sua Comissão Técnica e o respeito pelas pessoas. É só comparar os resultados.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Três Teorias e Uma Derrota

Bem sei que o page views desse blog são predominantemente do sexo feminino, mas de vez em quando, sobretudo quando o São Paulo sofre, mais uma vez, de sua síndrome de semifinal e apanha dentro de casa do Santos, com direito a olé no final, bem, não posso me calar. As meninas podem pular esse post, portanto. Mas vou abordar o tema sob vários aspectos, usando a Lógica, as Angústias Edípicas e a Teoria dos Campos Morfogenéticos de Sheldrake. Isso vocês não vão ler nas resenhas esportivas.
Inicialmente, o juiz Paulo César de Oliveira é detestado por muitos clubes. No ano passado expulsou Felipão, que sugeriu que o rapaz é um juiz de esquema, através de um característico movimento com a mão. O fato é que o rapaz parece sempre entrar com um determinado resultado na cabeça. O São Paulo tem um elenco melhor do que o Santos. O Santos tem um time e técnico melhores que os do São Paulo. A chance de ganhar era menor, mas passou a ser zero depois de se marcar um pênalti maroto logo no primeiro ataque do Santos. Esse é um jeito de se quebrar um time no meio. Depois é só deixar o Neymar mano a mano com Paulo Miranda no contrataque e a natureza vai seguir o seu curso. Eu já estava suspeitando do Paulo César antes do jogo, piorou durante e se confirmou no Segundo Tempo. Por que? Porque nosso amigo operou o Santos no Segundo Tempo. Uma completa inversão de tendência. Anulou um gol legítimo do Santos e validou um ilegítimo do São Paulo. Essa foi uma quebra importante da lógica interna do seu trabalho. Se estivesse convicto do seu Pênalti-Mandrake, continuaria apitando de forma normal. Não. Inverteu a tendência do Segundo Tempo, para a crônica chapa-branca, como o intolerável Milton Neves afirmar que ele beneficiou o São Paulo. Teoria da Conspiração? Sem dúvida, mas com lógica interna.Uma palavra sobre o terceiro gol do Santos e a angústia edípica. Vivemos uma época em que todos os grandes clubes tem em sua meta goleiros de medianos para fracos. Júlio César, Deola e Dênis pipocaram e falharam na hora da decisão, quando um time precisa de um goleiro. Dois já dançaram e foram para a merecida reserva. Dênis vai ganhar uma sobrevida, pois seus reservas são jovens e Leão não quer queimá-los. Dênis padece da Angústia de Influência, um termo cunhado por um crítico literário, Harold Bloom. Tudo o que ele fizer ou deixar de fazer vai sempre, sempre comparado a Rogério Ceni, o chato e arquetípico goleiro do Sâo Paulo há vinte anos. Ele mesmo já andou papando frango em final de Libertadores, mas ganhou um título mundial para o tricolor quase sozinho. Dênis, por enquanto, só papou um frango na sua primeira partida decisiva. Já foi apelidado na Folha, de Frango com Alface, uma alusão a sua Mão de Alface. Pronto. Rubinho Barrichello também sofreu desse mal, ao suceder o também arquetípico Ayrton Senna. Tudo o que ele fez foi acompanhado com a comparação, a sombra que ele nunca conseguiu ou conseguiria igualar. Dênis já está padecendo desse maldição. Não sei se vai ter força interna para vencê-la.
Finalmente, os Campos Morfogenéticos. Não sou exatamente um especialista, mas é uma Teoria que tenta explicar a tendência à repetição que vemos na natureza. Se você ensinar uma cobaia um novo truque na Austrália, outra cobaia vai replicá-lo na Califórnia. O campo morfogenético é um campo energético que produz uma comunicação universal. Explica como um cristal que necessita de milhões de repetições de padrão de precipitação fica sempre com a mesma forma. Ou como nosso corpo se forma da união de dois gametas após um número infindável de reações químicas. Uma enzima a menos pode comprometer todo o processo. Rupert Sheldrake formulou a Teoria de que deve haver uma espécie de campo energético que
cria um molde para a repetição. Gosto muito dele e de sua teoria, que tem uma fácil aplicação ao futebol. Os times tem ciclos de vitórias e de derrotas. É muito importante para um time chegar à vitória a convicção de que a mesma lhe pertence, como direito natural. O Santos entra em campo contra o São Paulo com essa convicção. O Campo Morfogenético tende a repetir os resultados pregressos. O São Paulo lembra, inconscientemente, dos chocolates que tem tomado, sistematicamente, quando cruza com o Santos em jogos decisivos (ganha quando não vale nada, como no primeiro turno). Quando toma um pênalti esquisito logo no começo, a bactéria multiresistente Afinococuss começa a dominar todo o time, começando pelo goleiro.
Resumidamente, estou à disposição, Juvenal! Fiz um post inteiro sem meter o pau em você!

sábado, 10 de março de 2012

O Impera-Dor

Na sua obsessão edípica pelo São Paulo e por Juvenal Juvêncio, Andrés Sanchez, então presidente do Corinthians, contratou Adriano, O Imperador, para vestir a camisa 10 do Timão, há um ano. ( Calma, meninas, embora o texto vá falar de alguns personagens do futebol, o assunto será outro. Vamos falar do assunto de sempre, a construção de uma Psiquiatria Compreensiva).
Tentando causar o impacto publicitário que o São Paulo obtivera com o Luís Fabiano (outro furo n´água, diga-se de passagem), Andrés Sanchez riu-se com a atenção e o espaço na mídia gerado pela contratação de um exjogador em atividade, como é o caso de Adriano. Deu no que deu. O roliço tirou um ano sabático no Corinthians, curou os seus tendões, enganou em alguns treinos e repetiu o que vem fazendo nos últimos anos, com a rotina de bebedeiras, faltas e mentiras que escondem algo pior e mais grave, clinicamente falando. Ontem, finalmente, Tite jogou a toalha e sentenciou que o jogador volta para o seu Spa, onde ele vai fingir que quer treinar, emagrecer e voltar a ser um atleta de alto desempenho que foi pela última vez há uns cinco ou seis anos. O desânimo em seus olhos sugere que ele, simplesmente, desistiu de Adriano. Como Dunga e vários outros já fizeram antes.
Normalmente volto mais tarde para a casa, depois de um longo dia de trabalho e adoro ouvir os programas de esporte que tem no rádio. Há alguns meses eu ouvia um debate em que os analistas esportivos, nome bonito para a saraivada de palpites que damos em qualquer conversa de boteco, se perguntavam por que um cara que tem tudo, dinheiro, sucesso, talento, afeto das pessoas, consegue destruir tudo o que construiu diariamente, mantendo, apesar dos milhões de reais que correm em suas contas, o mesmo comportamento autodestrutivo. Um deles tentava explicar que a Depressão é uma doença como outra qualquer, independe da conta bancária do doente. Mas tem mais caroço nesse angú.
Adriano sempre foi um bad boy, mas tenho a impressão que degringolou de vez após a morte de seu pai. Não é incomum que um jogador de futebol passe a ser um embusteiro depois de ganhar dinheiro para as próximas cinco gerações de sua família. Há uma infinidade de exemplos, Ronaldinho Gaúcho, por exemplo. O cara aprende que não precisa mais se esforçar, basta fazer uma jogadinhas que lembrem os anos de ouro e beleza, a mídia bate palminhas, Galvão Bueno baba de esperança, “Ele está de volta”. O jogador vive da memória do atleta que um dia foi, da emoção que causou em todos. Essa é a sua ilusão e desgraça. Tenho a impressão, à distância, que Adriano entrou para esse mundo da “embromation” futebolística após a morte repentina de seu pai.
Quando Adriano ficou “internado” na concentração por uma semana, emagreceu e encheu a todos de esperança (de novo). Alguém da Comissão Técnica pronunciou as palavras fatais: “Mais algumas semanas e vamos ver o Adriano que todos conhecem, ele vai voltar a ser O Cara”. Pronto, o homem afundou de novo, voltou a engordar, voltou a aprontar. A mensagem é clara: “Não queiram nada de mim, não esperem nada de mim”. Esse é o outro lado de quem vive da própria memória: ele sabe que nunca mais vai voltar a ser o que as pessoas esperam.
Nos últimos posts eu falei do Vazio criativo, o vazio que dá origem à nossas idéias e ao nosso Ser profundo. O vazio de Adriano não é esse. É bem diferente, na verdade. É o vazio de quem perdeu o senso de sentido, o que ele vai procurar nos excessos e nas baladas, nos sumiços dentro das ruas da favela onde cresceu, onde a luta pela sobrevivência tinha sentido. Adriano procura pelo menino que um dia foi, as emoções que sentiu até chegar ao sucesso.
Não sei se Adriano, o homem, é abordável para um tratamento. Sei que muita gente já tentou fazê-lo. Mas, como psiquiatra, me dá uma coceira danada vendo um rapaz de menos de trinta anos caminhando a passos largos para o precipício. Numa sessão imaginária, eu gostaria de perguntar sobre o seu pai, o que ele não consegue esquecer nem perdoar na relação com o velho? Por que esse luto não se resolve? Bom, cara, o telefone do consultório está aí do lado na coluna. Liga lá para a Yrá e vamos colocar ordem nessa zona.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Futebol Total

Estou assistindo nesse momento o vareio de bola que o Santos está tomando do Barcelona, na final do Campeonato Mundial de Clubes. Não tenho nenhum prazer em ver o melhor time do Brasil assistindo o melhor time do mundo jogar, sem defesa. Todo mundo sabia que seria muito difícil o Santos ganhar. O que todos pensavam é que, pelo menos, daria jogo. Não deu.
Uma das minhas lembranças mais fortes no futebol foi de uma seleção que assombrou o mundo na década de setenta: a Laranja Mecânica, a seleção da Holanda da Copa do Mundo de 74. Eu era um moleque de dez anos e desci chorando para jogar bola no meu prédio, depois de ver o Brasil tomar um vareio de bola semelhante do time da Holanda, na semifinal da Copa da Alemanha. A comparação não é imotivada, nem por acaso.
A seleção da Holanda de 74 mudou o jogo que conhecemos como futebol. Um técnico do minúsculo país, um dos países baixos, Rinus Mitchels, foi o criador dessa revolução. A Laranja Mecânica jogava o futebol total: todos marcavam, todos atacavam, todos defendiam. Não havia posição fixa, só faixas do campo que o jogador ocupava. Não havia um centroavante enfiado na área, mas quatro, cinco, seis jogadores, chegando em conjunto em condições de concluir. O time evoluía em triangulações, tomando as beiradas do campo, fazendo ultrapassagens constantes. Não ganhou aquela Copa, o que deve ter contribuído ainda mais para eternizá-lo.
A cultura do futebol total encontrou o seu melhor solo para ser semeado em Barcelona. Rinus Mitchels, Cruiff e toda aquela geração acabaram em Barcelona. Quem já visitou essa cidade entende fácil como o estilo holandês caiu como uma luva na capital da Catalunha. A criatividade, a inversão da lógica na arquitetura, nas artes, na música, tudo combinava com a revolução holandesa. O Barcelona de Guardiola, que vai se sagrar campeão mundial daqui a alguns minutos,é a materialização de toda essa fusão da escola holandesa com a Catalunha (diga-se de passagem, é a única herdeira da escola holandesa, já que a seleção da Holanda é um bando de brucutús aplicando voadoras e pontapés. Na final da última Copa do Mundo, a seleção “holandesa” era a Espanha). No mesmo jogo, Guardiola pode mudar o jeito de jogar do Barça três ou quatro vezes. Em termos filosóficos, Muricy é um estruturalista, Guardiola é um desconstrutivista. Muricy acabou de trocar um centroavante por outro. Guardiola trocou um lateral que joga de ponta por um segundo atacante que volta para marcar no meio. Dá para entender a diferença?
A Copa do Mundo será em dois anos, no Brasil. Temos receio de muitas vergonhas que podemos passar: na infraestrutura, na segurança, na organização. Com esse jogo, podemos também temer por passar vergonha também dentro do campo. Mano Menezes também é um estruturalista. Será que vai conseguir fazer a seleção jogar como uma seleção brasileira?

sábado, 10 de dezembro de 2011

Sócrates Brasileiro

Estava na cama do pequeno quarto do hotel em Manhattan quando a minha esposa me avisou da morte de Sócrates Brasileiro, grande ídolo do Corinthians e do futebol brasileiro, por complicações de uma Insuficiência Hepática, causada por uma Cirrose e Alcoolismo, nessa ordem. Não foi uma surpresa, embora achasse que o Magrão ainda tinha mais lenha, pouca, para queimar. Voltei para o Brasil no meio da semana e já engatei um ritmo de doze horas de consultório, o que me poupou dos longos e melosos obituários, todos falando do jogador mítico, elegante, luminoso, que encantava a todos com as suas passadas curtas e seus passes de calcanhar, desconcertantes. Imitei muito esses passes. Mas o que fez aquele jogador impressionante virar aquela figura inchada, pálida, com os olhos infinitamente tristes que víamos na TV nos últimos anos?
Sócrates, Garrincha, Jorge Mendonça, e, como esquecer, Maradona, não são poucos os jogadores que se consomem na bebida depois do fim dos holofotes. Fim da atenção especial, das manchetes, dos tapinhas nas costas? Tenho outra teoria. O atleta, o artista, a figura pública, desenvolve uma espécie de personalidade por trás da Persona. Os jogadores de futebol tem uma personalidade futebolística específica. O São Paulo tem um moleque muito bom de bola, o Marlos, que tem tudo para virar um pequeno Messi. Mas o garoto não deslancha, as pernas tremem, o chute sai torto na hora H, simplesmente porque Marlos não desenvolveu a sua personalidade futebolística. A diretoria do São Paulo pode mandar o garoto lá para o meu sofá que eu dou um jeito nele. Sócrates, ao contrário, era uma personalidade futebolística ímpar. Um Príncipe. Elegante, peito estufado, visão 360 graus, o braço levantado comemorando o gol de forma impassível. Nunca explodia, nunca dava pontapé, nunca saía gritando e babando na hora da vitória. Era frio, introspectivo, vivia dentro de uma bolha mental onde pensava o jogo como ninguém. Imagino Sócrates jogando hoje, nessa época de correrias, onde ninguém parece pensar, só correr. Sócrates, com esse nome, só podia mesmo pensar profundamente o jogo, a solução mais minimalista, o toque inesperado. Tenho a impressão que a sua personalidade futebolística o matou. Explico.
Pelé faz uma distinção entre Pelé, o Rei, e Edson, a anta. É bom mesmo. A personalidade futebolística de Edson Arantes do Nascimento foi a mais fulgurante de todas. Um monstro que parecia ter o triplo de seu metro e setenta e dois. Pelé era o cara. Edson, que vive às custas do que Pelé realizou, é um homem simples, pouco habilidoso com as palavras e com os homens fora das quatro linhas. Sócrates nunca se encontrou fora delas. Tentou a Medicina, tentou ser técnico, tentou muitos empreendimentos, parece que a única atividade que prosperou foi o papo de boteco. Teve um filme, “Boleiros” em que Sócrates fez o papel dele mesmo, sempre empunhando um copo de cerveja, contando e ouvindo “causos”. Parece que foi lá que o Magrão passou os anos de aposentadoria: tomando cerveja, beliscando salgadinhos e relembrando as cenas míticas do Príncipe. Por isso os seus olhos sempre pareciam tão tristes e cansados. Como eu já falei em outros posts, você dá conta da ferida, ou a ferida dá conta de você. Sócrates, o homem, cedeu à essa tristeza. Mas deixou o Príncipe em nossa lembrança, para sempre.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O Futebol e suas Metáforas

Hoje tive um sonho melancólico me acordando. O São Paulo tomava um gol do Corinthians, o segundo, selando uma derrota. Acordei com a bola entrando milimetricamente no canto de Rogério Ceni, que se esticou inteiro, em vão. Uma interpretação seria que, em alguns momentos de nossa vida, apesar de todos os esforços para fazer a coisa certa, ainda assim as coisas podem dar errado. No meu caso, tomar um gol do Corinthians é o cúmulo da tristeza futebolística.
Recentemente o presidente do São Paulo, o burlesco Juvenal Juvêncio, cunhou uma frase que reverberou em todas as mídias sobre o presidente do Timão, Andrés Sanchez: “O problema dele é o Mobral inconcluso”. Há alguns dias Andrés foi convidado para ser diretor de seleções, uma manobra para levá-lo à Presidência da CBF sucedendo Ricardo Teixeira, após a Copa. A frase agressiva\preconceituosa\engraçada de Jujú visava já mandar um torpedo na direção dessa manobra. Andrés respondeu com uma meia dúzia de desaforos, nenhum com a força de chegar às manchetes como o punchline de seu desafeto.
O meu sonho desagradável também tem a ver com a iminente conquista do quinto título brasileiro pelo Corinthians. Aqui podemos extrair umas lições, aplicáveis a toda atividade humana. Uma das coisas mais difíceis de se fazer na Medicina é manter uma conduta que você entende correta, quando as coisas vão mal ou a resposta clínica é insatisfatória. Eu adoro as peripécias do Dr Gregory House, mas aquilo é ficção enlouquecida. Não há como trocar de conduta cinco vezes no mesmo dia. As pressões vem de todos os lados e eu simpatizo com os técnicos se defendendo de ataques de todo tipo de leigos, sobretudo da Imprensa, os piores, que não tem idéia da gestão de um processo grupal, como montar um time a partir de um grupo de jogadores. A conduta precisa ter um tempo para se mostrar certa ou errada, não adianta ficar trocando.
O São Paulo tem um elenco melhor do que o Corinthians nesse ano. Não é só melhor, é bem melhor. No próximo final de semana o Timão será campeão brasileiro e o São Paulo não vai conseguir nem estar entre os G5 da Libertadores. Qual será o mistério? O apito amigo beneficiou o time de Andrés? Muito menos que no ano passado. O segredo pode estar no bom aproveitamento que o presidente do Corinthians teve de seu Grupo Escolar inconcluso.
Tite, o técnico que montou um time sabedor de suas deficiências, com uma defesa sólida e vitórias de um a zero, uma fórmula que Muricy já aplicara no São Paulo em seu tricampeonato, balançou no cargo em três ocasiões: a primeira no maior vexame de todos os tempos para o seu clube, que foi a eliminação da Libertadores por um obscuro time de terceira linha da Colômbia, o Tolima. Logo depois, perdeu o Campeonato Paulista para o Santos de Neymar. Finalmente, jogou na retranca contra o São Paulo para interromper uma sequência de derrotas. Na época eu, bom são paulino, fiz um post nesse blog para tirar onda com Tite, que fala muito difícil num clube gerido por um presidente pouco letrado. Queimei a língua, e gosto de atestar que queimei.
Andrés Sanchez, chamado de analfabeto pelo presidente do São Paulo, agiu como um grande comandante nos momentos difíceis desse ano. Ele aprendeu que trocar de técnico no meio do campeonato é uma roubada e é procedimento de exceção. Bancou o seu treinador quando todo o mundo pedia a sua cabeça e agora colhe os louros. O São Paulo, do alto de sua vaidade, e a vaidade costuma ser péssima conselheira, trocou de técnico quatro vezes na temporada. Trocou mal, escolheu mal e trouxe Emerson Leão de seu merecido ostracismo, para dar muito errado. Dessa vez eu acertei, avisando que iria dar errado. Um time se faz com a unidade orgânica entre os seus jogadores, formando um todo psíquico. Juvenal, o letrado, junto com a sua diretoria, não conseguiu ninguém que desse unidade ao grupo. Deu no que deu.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Jujú e Lula

Às vezes, quando eu olho a tela branca desse blog eu me lembro das tirinhas do Angeli na Folha, "Angeli em Crise", sempre com nuvens negras e horrores cercando a falta de um tema. Sou altamente solidário. Como escapar da falta de um tema? Eu poderia facilmente aproveitar o ensejo para disparar mais um blog contra o Juvenal Juvêncio, mistura de Paulo Francis com Hugo Chavez (tem a impostação de voz, a teatralidade e a humildade de Paulo Francis, junto com a habilidade política e vocação democrática de Hugo Chavez), o atual presidente (?) do glorioso São Paulo Futebol Clube. Mas já mandei algumas sapatadas no Jujú e ele não parece balançar no cargo. Poderia falar da contratação de Leão, para teoricamente "botar ordem na casa" tricolor. Impressionante como as dificuldades com a própria virilidade que acomete a diretoria tricolor pode virar essa escolha compensatória, de um suposto xerife que veio falando grosso e colecionando resultados pífios (inclusive ser eliminado da SulAmericana pelo poderoso Libertad, do Paraguai. O salário do Rogério Ceni e do Luís Fabiano pagam todo o elenco do Libertad e ainda vem troco). Mas deixa para lá. Só fica um adendo Shakeaspeariano de que o poder, quando usurpado ou exercido de forma ilegítima, traz resultados trágicos mesmo, desde os tempos de Hamlet.
Podemos falar da relação entre Luto e Câncer, para mudar de tema. O expresidente Lula desenvolveu um tumor de agressividade moderada em sua Laringe apenas 10 meses depois de deixar o poder e, principalmente, o centro das atenções. Lula já vinha dando vários sinais de luto na época da campanha presidencial, dizendo que iria exterminar a oposição, caçando os desafetos que lhe tiraram a CPMF em seus estados em verdadeiras cruzadas revanchistas. Chegou a nos brindar com várias inadequações etílicas, mais do que a sua média, a ponto de ter sido retirado de circulação após o primeiro turno por alguns dias, até recuperar a sobriedade (em ambos os sentidos). Diriam os oncologistas que eu estou falando uma bobagem psicossomática, que o tumor já estava lá e deu sinal de vida apenas agora, após um crescimento gradativo. Stress, Álcool e Nicotina teriam causado o estrago. Beleza, posso aceitar o argumento. Mas é tão escandalosa a relação entre períodos prolongados de tristeza e luto e a eclosão ou recidiva de doenças oncológicas que é impossível para um psiquiatra ignorá-la. Lula foi um presidente ansioso/medroso no começo do mandato, mas depois passou bons anos em "furioso enamoramento de si mesmo" como diria Nelson Rodrigues. Nunca se viu um presidente com uma autoestima tão favorável, com uma capacidade tão imensa de atrair a atenção e o amor de todos. É lógico que tanta fúria narcísica tem lá o seu preço, pois como saciar um egocentrismo tão mastodôntico? Nenhum carinho, nenhuma atenção, nenhum reconhecimento são suficientes para aplacar essa fome. Lógico que perder isso da noite para o dia não é mole. Ainda mais com uma presidenta-poste que Lula elegeu mas que não consegue comandar. O pior, na hora que faz uma pequena limpeza, demonstra de forma consistente a putaria nababesca dos anos Lula. Os 85 bilhões jogados no ralo dos parasitas que há séculos consomem nosso sangue brasileiro.
Bom, Lula, te desejo sorte. Pode passar aqui no consultório que eu te dou uma guaribada nesse luto. Difícil é tratar o luto de 170 milhões de brasileiros.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Tite e a Maré

Estava secando o Corinthians confortavelmente, já que o São Paulo havia ganho na véspera do Ceará. O gol de Liédson logo de saída não foi muito animador, o Santos estava desarrumado e parecia que o caldo iria entornar no clássico. O que dava para notar é que bola alta na área do timão era um Deus nos acuda, parecia que não haviam treinado nada na semana de folga que tiveram. Após mais uma bola alta espirrada, Henrique empatou. Muricy, que não gosta de mexer no time, arrumou as peças no intervalo e o Corinthians desmoronou no segundo tempo. Parecia um time feito de paçoca, desmanchou num jogo que mandava no meio de campo e jogava em casa.
Não há nenhum braço da atividade humana em que não aconteça o que está acontecendo entre o técnico Tite e o seu time. Eles simplesmente não respondem mais ao comando. Não acho que seja de propósito (em alguns casos, é), mas quanto mais ele tenta retomar o desempenho do começo do campeonato, mais o time mantém a média de um candidato ao rebaixamento.
Em Psiquiatria, o horror é dos quadros refratários ao tratamento, quando você troca de medicamentos, de estratégia e de abordagens e o quadro continua sem responder a nada, como se aquela pessoa tivesse desistido da continuar na luta do dia a dia. Pode parecer estranho, mas algumas vezes pode acontecer exatamente o que está acontecendo com a relação entre técnico e time do Corinthians: quando você dá o remédio para a pessoa reagir, é como acelerar um carro sem gasolina. Falta alma, convicção e unidade psíquica, a primeira bola que entra e o grupo de bons e experientes jogadores viram um amontoado de peladeiros. Há fases em nossa vida em que ficamos desse jeito: cada susto, cada adversidade aumenta a sensação de insegurança e medo.
A medicação psiquiátrica é cercada de medo, preconceito e desinformação. Num "paciente" como o time do Corinthians seria preciso recuperar a sua base de confiança, para o time não entrar em pânico diante de qualquer adversidade. Seria necessária uma interiorização, com recuperação das bases de identidade do grupo. Sobretudo, o "médico" precisa recuperar a confiança do paciente, para voltar a ser ouvido. Alguém precisa reaproximar o técnico do grupo, para voltar a haver uma sinergia. Pelo menos até Quarta Feira, quando eles vão enfrentar o tricolor. Depois, podem trocar de técnico à vontade.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Muricy

Hoje vou viajar para dez dias de férias. Vou para a terra do tio Sam, então se os posts ficarem raros, é que estou enjoado em alguma montanha russa. Estarei de volta em Julho.
Despeço-me do Brasil falando de um assunto que eu adoro, que é futebol. Não vão embora, meninas. As metáforas futebolísticas servem para a nossa vida psíquica e profissional. Talvez valha a pena examinar esse mundo, de vez em quando.
Um cliente meu, gaúcho e colorado, confessou não entender a minha birra com Muricy. O cara foi tricampeão brasileiro com o São Paulo. Exatamente por isso, respondi, azedo. O São Paulo de Telê Santana sempre teve vocação internacional. Campeonato Brasileiro é para os pobres. Explico esse azedume: Muricy é obsessivo. Todas as suas qualidades e defeitos derivam desse diagnóstico inicial. O pior, é sãopaulino. Queria vencer uma Libertadores pelo São Paulo de qualquer jeito. No São Paulo, Muricy era mais obsessivo, teimoso, irritável. Sempre com a sombra edípica de Telê Santana sobre a sua cabeça. Ficava mais envolvido emocionalmente. O resultado? Perdeu todas as Libertadores que disputou pelo tricolor, sempre tomando coco de times brasileiros: Internacional, Grêmio, Fluminense e Cruzeiro. Saiu do São Paulo demitido como um cara tosco, teimoso, bom de campeonato de pontos corridos e um perdedor vocacional de copas. A minha birra foi recompensada duplamente quando Muricy afundou com o Palmeiras no ano seguinte. Dupla satisfação, Muricy e Palmeiras na mesma draga. Melhor que isso, só se fosse o Corinthians, que agora deve estar roendo as unhas por não tê-lo contratado na época.
Mas alguma coisa aconteceu com o cara. Quando chegou no Fluminense, arrumou o time em poucas rodadas. Foi campeão com a devida e irônica ajuda de seus times anteriores, São Paulo e Palmeiras, que entregaram os seus jogos para sacramentar o Sem-ter-nada do Corinthians no ano passado. No Santos, Muricy Ramalho foi ainda mais surpreendente: sereno, ponderado, arrumou a defesa, que era uma peneira antes de sua chegada. Mas isso não era novidade. Arrumar a defesa sempre foi a especialidade dele. Muricy montou um meio de campo marcador e criativo ao mesmo tempo, coisa que nunca tinha conseguido no São Paulo. Mas não me rendo completamente: Muricy continuou o mesmo obsessivo/teimoso mantendo o ridículo e esforçado Zé Love de centroavante. Tudo pela sua obsessão em não mexer na estrutura do time, mesmo mantendo o folclórico ruivo perdendo gols debaixo da trave, para desespero de meu filho, que é santista doente e chama o Muricy de gênio.
Nas semanas anteriores à final, Muricy deu uma entrevista dizendo que "não tinha loucura" em ganhar a Libertadores. Senti um arrepio na espinha. Ele tinha achado o ponto certo: o quero-ganhar-mas-posso-perder, tão difícil para encontrarmos na vida. Eu tenho uma história, tenho uma trajetória, a vitória não vai me iludir, a derrota não vai me destruir. Quando eu li aquilo, percebi que o Muricy, já na galeria dos grandes técnico da nossa história futebolística, estava pronto para ganhar a taça que perdeu quatro vezes no São Paulo. Uma mexida que ele deu na posição do Arouca, do primeiro para o segundo tempo, decidiu o jogo em um minuto. O meu filho continuou repetindo: Muricy é um gênio. Confesso que sorri com uma pequena lágrima no canto do olho.

domingo, 29 de maio de 2011

Barcelona e o Fluxo

Bem, meninas, desculpe mas eu vou falar de novo de futebol. Bem sei que o público maior desse blog é feminino, mas um autor não pode ser refém de seu sucesso.(Rsrsrs).
Não há como não falar do Barcelona, campeão ontem da Champions League, a Copa dos Campeões da Europa, o mais importante torneio interclubes do planeta, assim como o Barça é o melhor time de futebol do planeta. Mas não se preocupem, que não vou me restringir a cantar os encantos do jogo de Messi e companhia, da fabulosa armação do jogo com Iniesta e Xavi, os ataques imarcáveis com seis, sete jogadores chegando perto da área e encurralando o adversário. Ontem, o poderoso Manchester United, um dos times mais ricos do mundo, ficou assistindo o Barcelona jogar, como se fosse o um time da Segunda Divisão encantado com aquela geração de jogadores, a base da seleção campeã da última Copa do Mundo. Não, não vou me babar de tietagem e inveja, pois já vi um time tricolor que jogava assim, com Raí e companhia e o mestre Telê Santana no banco, com a sua camisa polo vermelha. Não, não vou ficar enaltecendo esses gênios da bola. Vou falar de outra coisa. Vou falar de estados de fluxo.
Há pouco mais de uma década eu escrevi e publiquei um livro sobre o estresse, chamado "Stress: o coelho de Alice tem sempre muita pressa". O livro fazia parte de um projeto de oferecer palestra e orientação para os estressados corporativos, do chão de fábrica aos colarinhos brancos. Acabou não rolando, o livro era vendido nas palestras, hoje está esgotado, ainda bem, porque muito do que eu escrevi sobre os efeitos de um hormônio, a Adrenalina, hoje teria outro vilão, também fabricado nas Supra-Renais, o Cortisol. Foi nessa época, estudando o estresse e os estressores, que descobri uma literatura tímida sobre os estados de fluxo. Esses estados se caracterizam por uma Concentração absoluta com um mínimo de esforço, aqueles estados em que nos sentimos criativos e completamente absortos numa tarefa, que pode cair a parede que não tira a pessoa desse estado de concentração. Os sinos tocaram quando li sobre esses estados: isso é exatamente o contrário do estresse: é um estado de concentração plena, relaxada e ao mesmo tempo de absoluta presença no que se está fazendo. Uma Concentração no fio da navalha e relaxada ao mesmo tempo. Em vez de cultivar as teorias do "Relaxe, seja Zen, se acalme", ou tentar transformar os estressados em iogues recitando mantras, poderíamos ensinar e cultivar esse estado mental no trabalho. O contrário do estresse é o estado de fluxo, é a alta perfomance com o menor desgaste possível.
Um exemplo dos estados de fluxo é o time do Barcelona. Os caras tocam a bola de pé em pé, com um ritmo estranhamente lento e consistente, vai chegando na área para fazer as jogadas que todo mundo sabe que vão sair e ninguém vai conseguir marcar. Leve, felino, implacável, preparando e dando o bote com uma ação combinada. Veja como é raro que um jogador do Barcelona dê um pontapé ou mesmo se machuque. O time joga com leveza e consistência, sempre num estado energético de fluxo.
Como seria bom que o projeto de Stress tivesse dado certo, para mudar a cultura corporativa da pressão a todo custo pela cultura dos estados de fluxo. O técnico do Barcelona, Guardiola, poderia ser o CEO dessa nova empresa.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Felipão

O técnico de futebol Luís Felipe Scolari é mesmo uma figura. Ainda me lembro quando assumiu a seleção, em 2001, e enfrentava um lobby nacional para convocar Romário. A seleção estava jogando em Goiás, se não me engano, um torcedor passou e lhe deu um xingo, exigindo Romário na Copa. Felipão deu-lhe literalmente um chute na bunda, foi todo mundo para a Delegacia até a turma do deixa disso aparecer e apaziguar a situação. Esse é o Felipão.
Voltou para o Brasil já completamente consagrado, com vários títulos, uma Copa do Mundo inclusive, e vários milhões de dólares na conta. Ainda encontra forças para treinar um Palmeiras completamente esfacelado, por um terço do que ganhava no exterior e ainda tem que aguentar repórteres recém formados comparando o seu salário com o orçamento dos times que enfrenta no Paulistinha. Ainda ameaçou buscar o moleque no Inferno se algo acontecer à sua família. O mesmo bom e velho Felipão. A minha secretária do lar, Rafaela, é palmeirense roxa, sócia da Mancha Verde. Quando o Palmeiras contratou Max Pardalzinho e Adriano Michael Jackson, caímos de pau nela, com boas gargalhadas na cozinha. Outro dia o Adriano Michael Jackson meteu quatro gols numa partida. No Comercial do Piauí, ok, mas o moleque, completamente desconhecido, fez gols e voava em campo como ninguém. Tive que aturar gozação da Rafa, como são as coisas do futebol. Lembrei a ela que só o Felipão para tirar leite desse território árido que é o elenco alviverde.
É muito raro um técnico fazer um jogador jogar mais do que realmente joga. O Telê cansou de lesar os clubes que compravam jogadores do São Paulo que jogavam uma barbaridade no Morumbi, para depois se revelarem jogadores bem medianos longe do Mestre. Felipão também causa essa impressão. Ele consegue extrair o máximo dos jogadores, sobretudo dos medianos, para depois ser aquela decepção quando vão para outros clubes. Felipão trabalha os seus grupos com dois princípios que aplica sempre e que sabe que aplica, embora não dê nomes científicos para isso: o princípio da Atenção Plena e o princípio da Visão Compartilhada.
O primeiro princípio é o de ter no grupo pessoas que sempre estão no fio da navalha, sempre na ponta dos cascos física e psiquicamente. Por isso ele não levou Romário. O baixinho quebrava os seus dois princípios, sempre com a preguiça e o individualismo inconpatíveis com a família Scolari. Quando você ouve o homem espinafrando o time ou comprando briga com Valdívia e Kléber, as estrelas do parco céu palmeirense, ele está mandando um recado para todos: aqui não tem corpo mole, aqui tem que ter entrega. E alma. E atenção completa, elétrica. Ontem, finalmente, elogiou o Kléber, depois de meses de rusgas. Quando você consegue de seu grupo a Atenção Plena, não precisa de nenhum palestrante motivacional na concentração.
O outro princípio é o da Visão Compartilhada. Esse é o princípio de família que ele coloca em seus trabalhos. Na Copa de 2002 ele colocou todos os jogadores para jogar. Todos. Todos estavam compartilhando a visão do objetivo em comum e da possibilidade de alcançá-lo. Não é à toa que ele levou o limitado Portugal a uma final da Eurocopa e à duas quartas de final de Copa do Mundo. Todos acreditavam na visão que compartilhavam, de chegar pelo menos até lá, de ir cada vez mais longe.
Felipão tem a característica dos grandes líderes. Isso não se ensina em workshops de final de semana.