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sábado, 28 de maio de 2011

As Camadas da Cebola

Aqui vai mais um texto da Vovó. Depois deixo a velhinha descansar. Vai ser o último texto sobre o evento, que nem eu mais aguento.
- Vó?
- Oi?
- Você pode me falar sobre a aula?
- Que aula?
- A aula do Marco.
- No outro post eu falei que não fui à aula que estava frio. Hoje está mais frio ainda.
- Vó?
- Oi?
- Deixa de história. Somos personagens da cabeça dele. Você sabe falar da aula.
A velha senhora suspirou. Podia enveredar a conversa sobre a realidade psíquica das personagens, que ganham vida e falam contra a vontade do autor. Mas a conversa iria ficar muito abstrata. Melhor falar sobre a aula.
- Tá bom, fofinha, tá bom...Mas no que uma aula sobre as dimensões da cura pode te interessar?
- Você sempre dá um jeito do assunto me interessar.
(Risos).
- Obrigada. Obrigada (agradecendo aplausos imaginários). Vamos lá, então. Nosso autor falou sobre um assunto que ele ama, que é multidimensionalidade.
- Multi o quê?
Franzindo a testa:
- Deixa para lá esse palavrão. O que ele falou é que sempre que você vai analisar um problema, é como descascar uma cebola. Tem várias camadas, que vão do mais superficial ao mais profundo. Dá para entender isso?
- Dá. Prossiga.
- Muito obrigada. Imagine que vamos descascar a cebola em quatro camadas. Todos os problemas dessa vida podem ser analisados assim.
- Cortando cebolas?
- (Risos) Posso falar?
- Pode. Desculpe.
- Imagine uma pessoa que vai ao consultório dele com uma depressão. Qual é o nível 1 da depressão? É um estado de esgotamento ou diminuição da neurotransmissão, sobretudo em áreas que comandam as emoções no Sistema Nervoso. Entendeu?
- Claro que não (risos).
- Imagine que está faltando energia no motor do Cérebro. A pessoa vai até o médico e fala: a minha bateria está fraca, não consigo mais fazer as coisas que eu fazia, não consigo dormir, não consigo trabalhar, tudo está uma chatice. O médico vai entrevistar, ver os sintomas e falar: Está faltando energia, vamos repor o que está faltando. Esse é o nível 1, ok?
- Ok.
- A maioria das pessoas fica bem satisfeita com as coisas resolvidas no nível 1. Quebrou, conserta. Nós, não. Vamos procurar as questões do nível 2: o que está cansando esse Sistema Nervoso? Quais são os estressores? Como a pessoa se alimenta? Como se diverte? O Cérebro que brinca é diferente do Cérebro que luta, sabia?
- Claro que eu sabia, sou uma criança...
- Pois é. Os adultos ficam bobos e só lutam, não brincam. De tanto lutar, acabam cansando. O nível 2 é esse: quais são os múltiplos fatores que ajudam uma pessoa a adoecer e , mais do que isso, quais são os fatores para ela melhorar. Onde estão os vazamentos e como vamos consertá-los? Esse é o nível 2, ok?
- Ok. Qual é o nível 3?
- O nível 3 é o nível do Significado. Qual o significado dessa depressão. Por que aconteceu nesse momento. Qual é o chamado que a vida está me fazendo que eu não estou ouvindo? Qual a ferida que está machucando no meu mundo interno que precisa ser cuidada. Qual a peça que não deixa a máquina funcionar direito?
- São muitas perguntas, não é?
- Pois eu sempre te falo que a diferença nessa vida é saber ou não fazer as perguntas certas, mesmo que não tenham resposta. Foi sobre isso que o nosso autor falou.
- Você esqueceu do nível 4.
- Não esqueci não. É que a nível 4 é o mais difícil.
- Por que?
- Porque o nível 4 é o Sentido de tudo aquilo. Demora anos para se descobrir. A pessoa olha para tráz e pensa: a partir daquela depressão, eu mudei a minha vida, passei a cuidar mais de mim e de quem eu amo, larguei o cigarro, ouvi mais os passarinhos. Foi como tirar um véu que cobria os meus olhos.
- Por que esse nível é o mais difícil?
- Porque muita gente nem acredita que ele exista. Acham que tudo ocorre ao acaso, que a depressão é um punhado de genes que não funcionam bem e pronto. Mas essa é outra história, uma longa história. Ele vai acabar falando disso em outras aulas.
- As pessoas gostaram dessa aula?
- Acho que sim. Mas no dia seguinte já começaram a ser pressionadas.
- Como assim, pressionadas?
- Pressionadas a resolver tudo no nível 1: quebrou, conserta e vamos em frente.
- Deve ser por isso que gente grande fica triste, não é, minha avó?
- (Suspiro) Deve ser exatamente por isso, meu bem. Exatamente por isso. Nunca conseguem descascar a cebola direito. Tem sempre alguém com pressa, empurrando para as coisa serem resolvidas só na superfície.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Espaço "Quattro !" (de novo)

Obrigado mais uma vez pelos comentários. Eles ajudam muito. Para os leitores do blog que quiserem assistir a palestras em que eu dou a impressão inicial de antipatia e arrogância, vamos refazer o evento do feriado no dia 21/05, das 9:30 às 12:00, com direito a cofee break saudável. Informações no (11) 3726 8478. O evento é gratuito e pedimos apenas um kg de ração para cachorros, pois apoiamos uma futura ONG que protege cachorros abandonados. Vamos falar da associação da Psiquiatria com Psicologia Analítica e Nutrição para melhores resultados terapêuticos. Essa associação parece muito óbvia, mas não é.
Já falei sobre ele, mas não custa repetir: esse trabalho é muito influenciado por um colega, o psiquiatra francês David Servant-Schreiber. Estou relendo um livro dele que é mais fácil de encontrar: "Anticâncer" (estou respondendo à leitora anônima que pediu indicação de livro). O título não é exatamente estimulante e parece dirigido a doentes ou profissionais que enfrentam as doenças oncológicas. Pode ter esse uso, mas é muito mais do que isso. É quase um autoexorcismo, além de uma reflexão profunda sobre a vida e a jornada de cura e transformação desencadeada por um grande baque, ou uma grande dor. Daniel teve um diagnóstico, por volta dos trinta anos, de um tumor cerebral agressivo. Quando ele deu a notícia ao seu pai o consolo que poderia oferecer é que estava na mão de bons profissionais e que provavelmente não sofreria muito se precisasse partir. Bem , felizmente ele não partiu e teve uma daquelas curas que a Medicina chama de Paradoxais. O seu oncologista quer usá-lo como exemplo de excelente resposta à Quimioterapia. Ele balança a cabeça e ri. A Medicina tecnicista que praticamos é hoje uma espécie de religião fundamentalista que só acredita em dados e estatísticas. Você pode até morrer, desde que os exames confirmem isso. Daniel não se restringiu ao que a Medicina tradicional, a que eu e ele praticamos, podia oferecer. Estudou as causas do aumento das doenças inflamatória (o Câncer inclusive) e as suas relações com estresse, alimentação, sono e energia vital. Aprendeu Meditação, Visualização, procurou profundamente por suas feridas e bloqueios psíquicos. E fez também a Rádio e a Quimioterapia.
Não posso dizer que o trabalho multiprofissional me seja estranho. Há vinte anos que procuro a interface do meu trabalho com outros tipos de conhecimento. A idéia me veio numa apostila que estudei lá no Instituto de Psiquiatria do HC - FMUSP, no final dos anos 80. O texto era de um psiquiatra que não estava mais lá, Dr Eunofre, e falava sobre as diferentes dimensões de um ser humano que precisamos conhecer.
O trabalho de Servant-Schreiber atualiza para mim a necessidade de um médico ampliar as suas visões para além do campo de ação muito determinado por laboratórios e speakers de interesses estranhos à área.
Vivemos hoje numa civilização inflamatória. Aceleramos todos, o tempo todo, mesmo que seja na direção do precipício. Não vamos mudar o mundo com uma palestra. Mas é um começo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Psiquiatria Compreensiva 4 - Significado

Há uma passagem que particularmente me tocou no livro de Victor Franckel : "Em Busca do Sentido". Victor foi um psiquiatra de origem judaica que, preso durante os anos de guerra em Campos de Concentração Nazistas, sobreviveu através de sua profissão, evitando toda a loucura que o cercava através da observação meticulosa do comportamento do opressor e do oprimido, ou seja, como se comportavam os soldados e oficiais nazistas que detinham o poder de vida e morte dos prisioneiros, e, por outro lado, como reagiam os seus colegas de infortúnio que passavam da colaboração ativa à apatia mais profunda. Ele conseguiu finalmente sobreviver, de forma quase milagrosa para fundar no Pós Guerra a Logosofia, corrente de pensamento de sua autoria. A passagem a que eu me referia é quando trabalhando na Enfermaria do Campo de Concentração, Victor atendia uma jovem judia agonizante de febre e desnutrição que, perto de sua morte segredou ao jovem médico que era muito grata aos nazistas pelo o que lhe fizeram passar ali. Como assim?, pensou o médico, julgando que a paciente já delirava em sua febre. A jovem respondeu que vivera uma vida fútil de família rica na Alemanha. Não fosse a sua prisão naqueles campos de morte, nunca teria podido viver o que vivera, amar como amou e buscar a vida até o seu último sopro.
Nas últimas postagens abordei os diversos níveis de Compreensão de problemas ou de fenômenos. No nível 1, temos a abordagem direta do fato: um paciente quebra a perna, o médico faz uma cirurgia e coloca a perna em posição para reparar o estrago. O nível 2 é o levantamento de todos os fatores envolvidos em um caso assim: como se deu o acidente? Como o paciente pisa no chão, tem um quadril desalinhado, está muito gordo. Resumidamente, quais são os fatores de risco e de estresse físico/mental envolvidos no caso? No Nível 3 de abordagem o paciente pode descobrir, depois da passagem no tempo, qual o significado daquele evento em sua vida. Por que ele não respeita os próprios limites? Como cuida da própria saúde e como preza, ou não, sua segurança? Finalmente, no nível 4 a pessoa pode tentar descobrir, depois de um tempo ainda maior, qual foi o sentido daquela provação e por que teve que passar pela mesma naquele momento de sua vida?
O exemplo dilacerante da prisioneira judia mostra como uma pessoa pode, numa situação limite, atingir o nível 3 e 4 de compreensão. Ela percebeu o significado, estava lá tendo uma experiência terrível, mas podia aprender com ela, podia aprender a amar e valorizar cada minuto da vida a partir daquela situação. O mais difícil de se atingir é o nível 4, quando fnalmente o Significado vira Sentido, onde a percepção do fato e da vida se tornam mais profundos. O gordo que quebrou a perna na pelada de final de semana pode perceber que a partir desse fato precisou aprender sobre paciência cuidado de si mesmo. A psisioneira agradece a seus perseguidores pela experiência sublime de conhecer os extremos da vida e da morte para encontrar, finalmente, a própria luz. Dificilmente passamos do nível 2 em nosso contato com os problemas e outras questões de nossas vidas. Mas pensar em diferentes níveis nos abrem o coração de nossas questões com o Outro e com a própria Vida.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Psiquiatria Compreensiva 3 - A Cadeia de Causas

Vamos falar sobre o nível 2 de Compreensão: Um paciente chega com um quadro de Depressão. Entrevista, exames , critérios diagnósticos, ok, agora vamos tratar, escolhendo um medicamento que tenha boa tolerabilidade, baixo perfil de efeitos colaterais e, de quebra, não cause um depressão na conta bancária do paciente. Esse é o nível 1 de abordagem: o que quebrou e qual a melhor estratégia de conserto. A maioria das pessoas, médicos inclusive, já se sentem tranquilas se essa primeira fase dá certo. A segunda parte de avaliação é: qual a cadeia de microcausas que cercaram esse evento? Há uma tendência genética na família do paciente, com outros casos? Qual a sua gravidade? Temos também na cadeia de microcausadores da doença uma colheita ainda mais ampla de se fazer: quais os Estressores envolvidos na vida desse ser humano que está com a doença? O que estava acontecendo nos meses que a antecederam? Quais foram as perdas que a pessoa sofreu ou vem sofrendo, gerando desgaste físico e mental? Parece impressionante que façamos uma Medicina, essa Baseada em Evidências, que se contente com um nível 1 de resolução. Precisamos sempre abordar o fenômeno com tudo que o cerca, o tempo todo. Então, caros leitor e leitora, quais são os principais estressores de sua vida? O que lhe rouba mais energia? Não basta só repor o que se perdeu num vazamento, é preciso localizar e deter por onde a energia está escoando. Esse é o nível 2 de Compreensibilidade.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Psiquiatria Compreensiva 2 - Os Níveis de Compreensão

Uma das fantasias que as pessoas tem a respeito de suas doenças é que podem chegar ao médico e pedir que ele simplesmente faça um conserto no que está quebrado. A culpa com certeza não é delas, desde Descartes que o corpo é visto como uma máquina separada de sua alma, portanto, quebrou, é só levar para a oficina, digo, o hospital. Convivemos com pacientes que cruzam os braços esperando que o medicamento faça efeito e a doença vá embora. É grande a decepção quando percebem que adoecer é uma jornada de ida cuja volta é longa e sinuosa e, pior, voltar não é uma ciência exata. Tristemente curioso é quando essa fantasia se dá com crianças e adolescentes, após anos de mal funcionamento e os pais olham para o médico com aquela cara singela de "dá para consertar esse sujeito", geralmente, claro, colocando-se fora do problema e da solução. Virem-se, por favor. Sempre que me vejo diante dessa atitude de pacientes e familiares eu me lembro (e às vezes, falo) de multidimensionalidade e dos diferentes níveis de abordagem de um problema. Vamos dar um exemplo bem concreto: imaginem um cidadão que estava lá jogando a sua pelada de fim de semana, achando-se um Neymar mas com o corpo mais parecido com o Ronaldo Fenômeno. Jogada de linha de fundo, o gordo gira encima de sua abundante carroceria e os tendões do tornozelo não resistem à sobrecarga e se rompem. Pronto Socorro, gesso e cara feia da patroa, já cansada das presepadas do marido. Parece uma coisa muito simples, não é? Lesão, Raio X, Exame Físico, Diagnóstico e Tratamento. A máquina quabrou, vamos consertá-la, todo mundo feliz no final, menos a esposa que vai ter que levá-lo ao trabalho. Esse é o nível 1 de atenção e resolução. Em todas as esferas de resolução de problemas, as pessoas procuram, esperam e se satisfazem com o nível 1 de atenção/resolução. Alguém poderia imaginar: esse atleta de fim de semana pode jogar futebol? Como ele deveria se preparar e cuidar para não ser mais um na fila do Pronto Socorro? O que ele quer provar para si mesmo quando não percebe o perigo? Ele está prevendo que seu chefe já está cheio de ter um funcionário descuidado e que vai pensar em demití-lo assim que ver o gesso? Ele tem alguma idéia do que a vida está tentando lhe dizer com mais esse contratempo? Não, caros e possíveis leitores. Ele acha que quebrou, consertou, colocou pino e vamos para outra. Nos próximos capítulos, vamos falar sobre os outros níveis de atenção. Uma dica: já estão esboçados nas perguntas acima.