Há cerca de uma década eu criei, se é que fui eu, a personagem da Vovó. Ela me aparecia na cabeça, por vezes eu chegava a ouvir o seu tom de voz sereno e sua voz rouca. A Vovó conversando com a netinha foi um hit na internet por algum tempo e até hoje chegam alguns textos das duas no meu e-mail. Algumas vezes eu achei a personagem um pouco piegas, mas normalmente as pessoas, sobretudo do sexo feminino, gostam dos textos da velhota. Hoje recebi um e-mail de uma jornalista sobre uma pauta difícil, que é a relação de uma garota com o ciúme da Ex. Vou preparar a entrevista e algumas perguntas para a "visão feminina" da Vovó. Ela deve me ajudar.
- Vó?
- Oi?
- Você estava dormindo?
- Estava é o termo.
- O que?
- Nada. O que foi?
- Espera aí que eu me esqueci.
Esfregou os olhos, já pensando em cochilar de novo.
- Lembrei.
Olhou para ela, já sem esperanças de dormir de novo.
- Por que as mulheres tem ciúme dos homens?
- Que história é essa, menina?
- Outro dia eu li que uma mulher atropelou o marido na frente dos filhos, porque estava com ciúmes.
- E quem falou que é para você ficar lendo essas coisas?
- Eu sei ler, ora... Estava no jornal...
A Vovó ficou numa sinuca: como criticar uma menina que gosta de ler?
- As pessoas andam muito loucas, meu bem.
- Por que?
- Não sei, não... As pessoas dessa geração acham que todos os seus desejos tem que ser realizados... Acham que se tentarem, se colocarem a sua energia num desejo, ele vai se realizar, ele tem que se realizar... Só que não é assim que acontece na vida real, meu bem. Não adianta comer uma caixa de bombom e decorar as comédias românticas, a vida não é uma comédia romântica.
- A Cida é asim?
- O que tem a Cida?
Cida era a empregada.
- Ela vive com ciúmes da antiga namorada do Celso.
- Quem é o Celso?
- É o namorado dela.
- E como é que a mocinha sabe disso?
- Que coisa, Vó, você pensa que eu sou um bebê?
- (Fez uma careta) A Cida é um bom exemplo. Fica caçando foto de ex, fica entrando no Facebook o tempo todo. Daqui a pouco vou colocar essa menina na rua.
- Por que?
- Porque essa geração tem cérebro de minhoca, caramba... Fica obsecada pela própria insegurança. Fuça as coisas do menino, não dá sossego... Uma hora ele vai se cansar e ela vai ficar chorando pelos cantos. De novo.
- Isso já aconteceu antes?
- Um monte de vezes.
- Eu vou fazer isso quando eu crescer?
- Se fizer, eu te pego, menina, eu te pego! (Fez cócegas na menina, as duas às gargalhadas).
- Por que as mulheres brigam pelos homens?
- Porque mulher é um bicho besta, mesmo. Porque está em nossos genes.
- O que é isso?
Coçou a cabeça. E agora?
- Você não gostava daquele moleque com nome de ator?
- O Cauã?
- Esse mesmo.
- Eu não. Ele que gostava de mim.
- E aquela loirinha não ficou com ciúmes?
- Ficou. Até jogou o meu bolo no chão.
- Então, não falei?
- Mas por que a coisa é assim?
- Isso é um instinto, meu bem. A fêmea tem que escolher um macho da espécie para ter seus filhotes, certo?
- Você não vai me contar como elas fazem os filhotes, não é?
Ficou com a face pegando fogo.
- Hoje não. Hoje não. Você só precisa saber que a fêmea de nossa espécie precisa encontrar o melhor macho possível para ter os seus bebês. Ele precisa ser forte, bonito, intenso, amoroso, atencioso, delicado, dedicado e bom pai para os filhotes.
- Só isso?
- É uma boa lista, para começar. Mas podemos resumir tudo em uma coisa só.
- Uma coisa só?
- Uma coisa só: A mulher precisa sentir que é especial. Ela precisa saber que o olhar do homem é todo dela. Não dá para ficar olhando para todos os rabos de saia. Precisa olhar para ela e saber que é especial.
- É disso que a mulher tem ciúmes?
- Do que?
- Da atenção do homem?
- Disso e de muitas outras coisas. Mas o principal é que as mulheres, como a Cida, querem se sentir realmente únicas. Querem que o homem admire e esteja plenamente atento a elas. Querem que os homens olhem para elas como se fossem um bilhete de loteria premiado. Por isso elas se irritam com fotos, presentes e facebooks de exnamorada. Elas sabem que não tem essa de ser amiga de ex. Sempre tem alguma coisa a mais.
- Como assim?
- A mulher, meu bem, quer o desejo do homem. Mesmo que não faça nada com ele. A ex não quer ser amiguinha, quer marcar território, quer estar no pensamento do homem, quer ser a preferida dos amigos, a fofa da sogrinha...
- Caraca...
- O que?
- Nada não.
Coçou a cabeça, ainda pensando no assunto.
- Vó?
- O que?
- Como é que eu posso ajudar a Cida?
- Você não pode ajudar a Cida.
- Quem pode ajudar a Cida?
- O tempo pode ajudar a Cida.
- Como?
- Com o tempo ela vai chorar muito, se descabelar muito até aprender que o problema não é a ex, meu bem, o problema é o cara. O cara... (falou isso sacudindo as agulhas de tricô. A menina evitou o riso).
- O que tem o cara?
- A Cida vai aprender a escolher, meu bem. Escolher um homem que seja homem, que não fique de lero com a ex, que não aceite quando a mamãe convida a ex para festa da família. Um homem que a proteja e a valorize. Para isso, menina, ela precisa descobrir uma coisa.
- O que?
- Ela precisa aprender que se ela não se der valor, os homens também não vão dar. Se ela não souber que é uma mulher legal, que tem tudo que o namorado quer e precisa, vai passar a vida fuçando o celular do namorado, procurando o fantasma da ex. Dane-se a ex. O que interessa é o que ela sente, o que o namorado sente. O resto é fumaça.
A menina deu um pulo da cadeira.
- Onde você vai?
- Vou anotar tudo.
- Que?! Vai anotar para que?
- Vou anotar tudo para escrever um livro de autoajuda.
- Para quem?
- Para a Cida, claro.
- Volte aqui, pestinha...
Só deu para ouvir a porta batendo. E as gargalhadas no corredor.
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sábado, 8 de outubro de 2011
sábado, 28 de maio de 2011
As Camadas da Cebola
Aqui vai mais um texto da Vovó. Depois deixo a velhinha descansar. Vai ser o último texto sobre o evento, que nem eu mais aguento.
- Vó?
- Oi?
- Você pode me falar sobre a aula?
- Que aula?
- A aula do Marco.
- No outro post eu falei que não fui à aula que estava frio. Hoje está mais frio ainda.
- Vó?
- Oi?
- Deixa de história. Somos personagens da cabeça dele. Você sabe falar da aula.
A velha senhora suspirou. Podia enveredar a conversa sobre a realidade psíquica das personagens, que ganham vida e falam contra a vontade do autor. Mas a conversa iria ficar muito abstrata. Melhor falar sobre a aula.
- Tá bom, fofinha, tá bom...Mas no que uma aula sobre as dimensões da cura pode te interessar?
- Você sempre dá um jeito do assunto me interessar.
(Risos).
- Obrigada. Obrigada (agradecendo aplausos imaginários). Vamos lá, então. Nosso autor falou sobre um assunto que ele ama, que é multidimensionalidade.
- Multi o quê?
Franzindo a testa:
- Deixa para lá esse palavrão. O que ele falou é que sempre que você vai analisar um problema, é como descascar uma cebola. Tem várias camadas, que vão do mais superficial ao mais profundo. Dá para entender isso?
- Dá. Prossiga.
- Muito obrigada. Imagine que vamos descascar a cebola em quatro camadas. Todos os problemas dessa vida podem ser analisados assim.
- Cortando cebolas?
- (Risos) Posso falar?
- Pode. Desculpe.
- Imagine uma pessoa que vai ao consultório dele com uma depressão. Qual é o nível 1 da depressão? É um estado de esgotamento ou diminuição da neurotransmissão, sobretudo em áreas que comandam as emoções no Sistema Nervoso. Entendeu?
- Claro que não (risos).
- Imagine que está faltando energia no motor do Cérebro. A pessoa vai até o médico e fala: a minha bateria está fraca, não consigo mais fazer as coisas que eu fazia, não consigo dormir, não consigo trabalhar, tudo está uma chatice. O médico vai entrevistar, ver os sintomas e falar: Está faltando energia, vamos repor o que está faltando. Esse é o nível 1, ok?
- Ok.
- A maioria das pessoas fica bem satisfeita com as coisas resolvidas no nível 1. Quebrou, conserta. Nós, não. Vamos procurar as questões do nível 2: o que está cansando esse Sistema Nervoso? Quais são os estressores? Como a pessoa se alimenta? Como se diverte? O Cérebro que brinca é diferente do Cérebro que luta, sabia?
- Claro que eu sabia, sou uma criança...
- Pois é. Os adultos ficam bobos e só lutam, não brincam. De tanto lutar, acabam cansando. O nível 2 é esse: quais são os múltiplos fatores que ajudam uma pessoa a adoecer e , mais do que isso, quais são os fatores para ela melhorar. Onde estão os vazamentos e como vamos consertá-los? Esse é o nível 2, ok?
- Ok. Qual é o nível 3?
- O nível 3 é o nível do Significado. Qual o significado dessa depressão. Por que aconteceu nesse momento. Qual é o chamado que a vida está me fazendo que eu não estou ouvindo? Qual a ferida que está machucando no meu mundo interno que precisa ser cuidada. Qual a peça que não deixa a máquina funcionar direito?
- São muitas perguntas, não é?
- Pois eu sempre te falo que a diferença nessa vida é saber ou não fazer as perguntas certas, mesmo que não tenham resposta. Foi sobre isso que o nosso autor falou.
- Você esqueceu do nível 4.
- Não esqueci não. É que a nível 4 é o mais difícil.
- Por que?
- Porque o nível 4 é o Sentido de tudo aquilo. Demora anos para se descobrir. A pessoa olha para tráz e pensa: a partir daquela depressão, eu mudei a minha vida, passei a cuidar mais de mim e de quem eu amo, larguei o cigarro, ouvi mais os passarinhos. Foi como tirar um véu que cobria os meus olhos.
- Por que esse nível é o mais difícil?
- Porque muita gente nem acredita que ele exista. Acham que tudo ocorre ao acaso, que a depressão é um punhado de genes que não funcionam bem e pronto. Mas essa é outra história, uma longa história. Ele vai acabar falando disso em outras aulas.
- As pessoas gostaram dessa aula?
- Acho que sim. Mas no dia seguinte já começaram a ser pressionadas.
- Como assim, pressionadas?
- Pressionadas a resolver tudo no nível 1: quebrou, conserta e vamos em frente.
- Deve ser por isso que gente grande fica triste, não é, minha avó?
- (Suspiro) Deve ser exatamente por isso, meu bem. Exatamente por isso. Nunca conseguem descascar a cebola direito. Tem sempre alguém com pressa, empurrando para as coisa serem resolvidas só na superfície.
- Vó?
- Oi?
- Você pode me falar sobre a aula?
- Que aula?
- A aula do Marco.
- No outro post eu falei que não fui à aula que estava frio. Hoje está mais frio ainda.
- Vó?
- Oi?
- Deixa de história. Somos personagens da cabeça dele. Você sabe falar da aula.
A velha senhora suspirou. Podia enveredar a conversa sobre a realidade psíquica das personagens, que ganham vida e falam contra a vontade do autor. Mas a conversa iria ficar muito abstrata. Melhor falar sobre a aula.
- Tá bom, fofinha, tá bom...Mas no que uma aula sobre as dimensões da cura pode te interessar?
- Você sempre dá um jeito do assunto me interessar.
(Risos).
- Obrigada. Obrigada (agradecendo aplausos imaginários). Vamos lá, então. Nosso autor falou sobre um assunto que ele ama, que é multidimensionalidade.
- Multi o quê?
Franzindo a testa:
- Deixa para lá esse palavrão. O que ele falou é que sempre que você vai analisar um problema, é como descascar uma cebola. Tem várias camadas, que vão do mais superficial ao mais profundo. Dá para entender isso?
- Dá. Prossiga.
- Muito obrigada. Imagine que vamos descascar a cebola em quatro camadas. Todos os problemas dessa vida podem ser analisados assim.
- Cortando cebolas?
- (Risos) Posso falar?
- Pode. Desculpe.
- Imagine uma pessoa que vai ao consultório dele com uma depressão. Qual é o nível 1 da depressão? É um estado de esgotamento ou diminuição da neurotransmissão, sobretudo em áreas que comandam as emoções no Sistema Nervoso. Entendeu?
- Claro que não (risos).
- Imagine que está faltando energia no motor do Cérebro. A pessoa vai até o médico e fala: a minha bateria está fraca, não consigo mais fazer as coisas que eu fazia, não consigo dormir, não consigo trabalhar, tudo está uma chatice. O médico vai entrevistar, ver os sintomas e falar: Está faltando energia, vamos repor o que está faltando. Esse é o nível 1, ok?
- Ok.
- A maioria das pessoas fica bem satisfeita com as coisas resolvidas no nível 1. Quebrou, conserta. Nós, não. Vamos procurar as questões do nível 2: o que está cansando esse Sistema Nervoso? Quais são os estressores? Como a pessoa se alimenta? Como se diverte? O Cérebro que brinca é diferente do Cérebro que luta, sabia?
- Claro que eu sabia, sou uma criança...
- Pois é. Os adultos ficam bobos e só lutam, não brincam. De tanto lutar, acabam cansando. O nível 2 é esse: quais são os múltiplos fatores que ajudam uma pessoa a adoecer e , mais do que isso, quais são os fatores para ela melhorar. Onde estão os vazamentos e como vamos consertá-los? Esse é o nível 2, ok?
- Ok. Qual é o nível 3?
- O nível 3 é o nível do Significado. Qual o significado dessa depressão. Por que aconteceu nesse momento. Qual é o chamado que a vida está me fazendo que eu não estou ouvindo? Qual a ferida que está machucando no meu mundo interno que precisa ser cuidada. Qual a peça que não deixa a máquina funcionar direito?
- São muitas perguntas, não é?
- Pois eu sempre te falo que a diferença nessa vida é saber ou não fazer as perguntas certas, mesmo que não tenham resposta. Foi sobre isso que o nosso autor falou.
- Você esqueceu do nível 4.
- Não esqueci não. É que a nível 4 é o mais difícil.
- Por que?
- Porque o nível 4 é o Sentido de tudo aquilo. Demora anos para se descobrir. A pessoa olha para tráz e pensa: a partir daquela depressão, eu mudei a minha vida, passei a cuidar mais de mim e de quem eu amo, larguei o cigarro, ouvi mais os passarinhos. Foi como tirar um véu que cobria os meus olhos.
- Por que esse nível é o mais difícil?
- Porque muita gente nem acredita que ele exista. Acham que tudo ocorre ao acaso, que a depressão é um punhado de genes que não funcionam bem e pronto. Mas essa é outra história, uma longa história. Ele vai acabar falando disso em outras aulas.
- As pessoas gostaram dessa aula?
- Acho que sim. Mas no dia seguinte já começaram a ser pressionadas.
- Como assim, pressionadas?
- Pressionadas a resolver tudo no nível 1: quebrou, conserta e vamos em frente.
- Deve ser por isso que gente grande fica triste, não é, minha avó?
- (Suspiro) Deve ser exatamente por isso, meu bem. Exatamente por isso. Nunca conseguem descascar a cebola direito. Tem sempre alguém com pressa, empurrando para as coisa serem resolvidas só na superfície.
domingo, 22 de maio de 2011
A Vovó e o Evento
Vou continuar usando a velha Vovó para falar das coisas. Marco Spinelli descansa um pouquinho, depois eu deixo esse sujeito voltar a falar:
- Vó?
- Oi?
- Você foi ao evento do Marco ontem?
- Não, acabei não indo. Estava muito frio, eu fiquei com preguiça. Você sabe, as minhas juntas doem um pouco no frio. Mas eu conversei com uma menina que foi.
- Ela gostou?
- Gostou, gostou sim. Como foi um grupo pequeno, o clima foi de bate papo, intimista, isso foi mais legal mesmo do que o conhecimento compartilhado. Ela se sentiu realmente em casa.
- Sobre o que eles falaram?
- Não sei direito. Dá uma olhada no e-mail que lá estão os temas.
Fez um muxoxo, sem saber como continuar a conversa.
- Vó?
- Ooiiiê?
- Eles falaram sobre como é difícil emagrecer?
- Por que você está perguntando isso? Você é magra, menina.
- Mas um dia eu vou crescer, não vou?
- Imagino que sim (sorrindo).
- Então... Quando a mulher cresce, só pensa em emagrecer, não é?
- (Risos) Pode ser, pode ser sim ...
- A minha mãe e as amigas dela só pensam na dieta disso, na dieta daquilo... As revistas delas só falam disso também, como ficar magra, bonita e poderosa na cama.
A Vovó engasgou.
- Vocês pensam que eu sou criança e que criança não sabe de nada, mas eu sei.
A Vovó tentava se recompor.
- Isso é uma preocupação sim, bonitinha. Não deveria ser a única, mas é, sim.
- Então por que entra de dieta, sai de dieta, ela está cada dia mais gordinha?
- Você falou isso para ela?
- Eu não...Sou besta?
- Que bom.
- Mas alguém precisava falar, não acha?
- Não, não acho não.
- Por que?
- Porque as pesssoas, as mulheres passam muito tempo brigando com o corpo, brigando com o cabelo, brigando com o espelho. Depois pegam essas revistas que você está fuçando que dizem para elas terem autoestima, procurar por chazinhos milagrosos e emagrecer dois manequins em uma semana.
- E daí?
- Daí que isso, estar sempre brigando, sempre em guerra, não funciona. Quem luta para emagrecer engorda, quem luta para engordar emagrece.
- Mas eu não entendo,Vó, por que isso acontece?
- Porque o nosso corpo está cansado de guerra, meu bem. Quando você crescer, eu sei que não vai ficar em guerra para emagrecer, ou engordar. Mas se quiser perder uns quilinhos, ame comer uma comida gostosa e saudável, não passe fome e ame todo o processo de emagrecer. Faça amor, não faça guerra.
A menina pousou a cabeça no colo da avó. O bolo no forno já começava a cheirar.
- Vó?
- Oi?
- Você foi ao evento do Marco ontem?
- Não, acabei não indo. Estava muito frio, eu fiquei com preguiça. Você sabe, as minhas juntas doem um pouco no frio. Mas eu conversei com uma menina que foi.
- Ela gostou?
- Gostou, gostou sim. Como foi um grupo pequeno, o clima foi de bate papo, intimista, isso foi mais legal mesmo do que o conhecimento compartilhado. Ela se sentiu realmente em casa.
- Sobre o que eles falaram?
- Não sei direito. Dá uma olhada no e-mail que lá estão os temas.
Fez um muxoxo, sem saber como continuar a conversa.
- Vó?
- Ooiiiê?
- Eles falaram sobre como é difícil emagrecer?
- Por que você está perguntando isso? Você é magra, menina.
- Mas um dia eu vou crescer, não vou?
- Imagino que sim (sorrindo).
- Então... Quando a mulher cresce, só pensa em emagrecer, não é?
- (Risos) Pode ser, pode ser sim ...
- A minha mãe e as amigas dela só pensam na dieta disso, na dieta daquilo... As revistas delas só falam disso também, como ficar magra, bonita e poderosa na cama.
A Vovó engasgou.
- Vocês pensam que eu sou criança e que criança não sabe de nada, mas eu sei.
A Vovó tentava se recompor.
- Isso é uma preocupação sim, bonitinha. Não deveria ser a única, mas é, sim.
- Então por que entra de dieta, sai de dieta, ela está cada dia mais gordinha?
- Você falou isso para ela?
- Eu não...Sou besta?
- Que bom.
- Mas alguém precisava falar, não acha?
- Não, não acho não.
- Por que?
- Porque as pesssoas, as mulheres passam muito tempo brigando com o corpo, brigando com o cabelo, brigando com o espelho. Depois pegam essas revistas que você está fuçando que dizem para elas terem autoestima, procurar por chazinhos milagrosos e emagrecer dois manequins em uma semana.
- E daí?
- Daí que isso, estar sempre brigando, sempre em guerra, não funciona. Quem luta para emagrecer engorda, quem luta para engordar emagrece.
- Mas eu não entendo,Vó, por que isso acontece?
- Porque o nosso corpo está cansado de guerra, meu bem. Quando você crescer, eu sei que não vai ficar em guerra para emagrecer, ou engordar. Mas se quiser perder uns quilinhos, ame comer uma comida gostosa e saudável, não passe fome e ame todo o processo de emagrecer. Faça amor, não faça guerra.
A menina pousou a cabeça no colo da avó. O bolo no forno já começava a cheirar.
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