Lembro de um episódio de um seriado americano, tipo Law and Order, onde um terapeuta ensinava aos seus pacientes um mantra para os momentos de aflição e desespero: “Eu sou a Rocha no meio da tempestade. Eu sou a Rocha que resiste ao mar”. No episódio o tal do terapeuta acabava sendo o psicopata que se aproveitava de sua ascendência sobre adolescentes perturbados e perdidos no meio da tempestade para abusar, de várias formas, de sua confiança, aumentando a sensação perigosa de que nada faz sentido para esses pacientes. O terapeuta era ruim, mas o mantra, não.
Ninguém descobriu onde fica o Ego em nossa Neurociência. O lugar mais próximo é o Cortex Pré Frontal, onde somos capazes de planejar, executar e corrigir erros em nossos planos futuros. Jung descreveu que a nossa Consciência se amplia em meio a uma fabulosa tensão de tendências opostas. A santidade e o pecado lutando diariamente dentro de nosso corpo e alma. Talvez a Neurociência tenha descoberto uma das sedes dessa tensão eterna: os Hemisférios Cerebrais. O Esquerdo cuida de nosso mundo linear, lógico, baseado em nossos sentidos e racionalidade. Quando algo acontece que subverte ou desafia essa visão racional, esse lado tende a simplesmente ignorar o que não se encaixa. Não precisamos ir muito longe para perceber este comportamento na Ciência, que ignora ou desmerece todos os fenômenos que não se encaixam em sua visão materialista do mundo.
O Hemisfério Direito responde por uma visão não linear, sintética e intuitiva do mundo. Está constantemente criando novas visões ou percepções não lógicas que existem em estado de tensão com a visão linear e sequencial do outro lado. Quando o equilíbrio entre esses lados se rompe, a capacidade do Ego de organizar a sua experiência interna e externa acaba se dissolvendo. A sensação é de que o mundo está desmoronando, num imenso terremoto interior. Quem olha de fora não consegue entender, pois nada aparentemente está acontecendo e, ainda assim, a mente da pessoa está derretendo na sua frente. Lembro de um caso antigo, onde o paciente sentia que estava possuído por uma sensação maligna e queria se matar para não ser tomado por essa presença. Era como se um hemisfério se sentisse invadido pelo outro, perdendo a capacidade de modular os próprios afetos e pensamentos, e tudo vira medo. Em alguns casos, o medo vira terror.
Jung chamou de Self o centro organizador que, acima do Ego, mantém a integridade dessa Psique que parece se esfarelar no meio dos sintomas. Penso no Salmo 23 “Mesmo que eu ande no Vale das Sombras e da Morte, nada temerei pois sei que estás ao meu lado”. Longe de mim psicologizar a Bíblia, mas este salmo é particularmente belo para descrever os momentos de medo, incerteza e desequilíbrio que uma pessoa pode atravessar em sua vida e a sensação protetora e apaziguadora que este centro pode trazer, ajudando na travessia. Essa capacidade organizadora vem da união dos hemisférios opostos? A criação de um plano lógico junto com a força de nosso afeto cria uma força interna para atravessar o Vale das Sombras? Este vale está dentro das áreas que processam o medo e o terror, em nosso Cérebro Profundo?
O mantra do terapeuta maluco do Law and Order funciona desta forma: identificando o Ego com esta rocha que resiste à tempestade de medos que temos em nosso mundo interno. Uma escritora brincou que seus pensamentos são uma área perigosa da cidade, onde ela não gosta de andar sozinha. Muito já escrevi neste blog sobre os pensamentos circulares, reverberantes, que ganham vida dentro de alguns quadros psiquiátricos até que a pessoa não consegue, simplesmente, parar de ser engolido pela tempestade desses pensamentos, que escalam em espiral. A imagem da Rocha no meio da tempestade dá um sentido de orientação no meio da bagunça. Cria um novo centro, onde a pessoa pode se agarrar e esperar pelo fim das marés de medo.
Há muito eu percebi que os verdadeiros curadores são aqueles que acreditam que a tempestade vai passar e a rocha vai, mais uma vez, resistir.
Mostrando postagens com marcador Self. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Self. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
domingo, 8 de novembro de 2015
Voz do Self, Voz de Deus
O tema era “Psiquiatria e Espiritualidade”, no Congresso Brasileiro de Psiquiatria.(Parecem termos excludentes, mas não são). O convidado falava de um caso daqueles que tiram o sono dos psiquiatras. Uma paciente bipolar com várias internações e fases repetidas de depressão ou mania, que também passou por vários tratamentos, vários médicos, nada dava certo. Depois de muito tentar, ela passou a manifestar o desejo de morrer. Como em muitos casos de quadros clínicos de má resposta, ela estava cansada, quebrada por dentro, sem forças para lutar. O médico, como em muitas situações semelhantes, tentava contornar o grande horror dessas situações, que é a situação ficar sem saída e o paciente acabar de frente com risco de suicĩdio ou de internação, para evitar o pior. A cena que ele descreveu é daquelas que não se costuma descrever em público: a paciente começou a chorar, num profundo lamento. Ela se perguntava, entre soluços, “O que pode aliviar esses sofrimento, meu Deus?”. O palestrante sentiu-se estranhamente inspirado pelo tom bíblico dessa lamentação e perguntou, com o mesmo tom, “Para onde você se volta, em busca de conforto, em meio a esse sofrimento?”. Ele mesmo ficou surpreso com essas palavras que saíram de seus lábios. A paciente voltou-se para ele, diminuindo seus soluços, e confessou que sentia como que uma voz tranquilizadora, bem no fundo de si, dizendo que tudo iria ficar bem, para ela se tranquilizar que tudo iria se acalmar, inclusive o seu sofrimento. O médico perguntou de quem ela achava que era essa voz. Enxugando o rosto ela falou: “A voz parece de Deus”. “E você ouve isso há muito tempo?”. “Ouço há algum tempo, sim”. “E por que você nunca me falou sobre isso?”. Ela chegou a sorri: “Já me acham maluca sem eu contar sobre essa voz…”. O tratamento tomou outro rumo depois desse diálogo, já que o psiquiatra felizmente não achou que a tal da voz fosse uma alucinação. As oscilações clínicas melhoraram e a paciente finalmente assinou um contrato com seu médico de que não tentaria mais o suicídio (já havia tentado três vezes).
Um dado estatístico que esse ciclo de palestras trouxe é o dado que metade dos psiquiatras americanos não acredita em Deus ou em qualquer forma de transcendência à nossa vida material. Devem ser os mesmos que acreditam que a Mente é uma produção do Cérebro. Ou que a doença mental deriva de um pool de genes malfuncionantes. Posso lembrar de alguns colegas ateus que são excelentes médicos, bem como alguns crentes em Deus que são umas antas, mas a cena que o colega descreveu não ocorreria na sala de alguém que não acredita em nada fora do campo da matéria. Também duvidaria que uma bipolar, cicladora rápida, pudesse melhorar de sua doença através de uma voz interior acolhedora. A história seria motivo fácil de chacota.
Jung descreveu o aparecimento da forma redonda em sonhos e desenhos de pacientes vivendo grande tensão e sofrimento psíquico. Fez um paralelo com as mandalas orientais, que para ele representam a totalidade da Psique tentando se restaurar, em momentos de grande perigo. A Psique, seja ela fabricada pelo Cérebro ou pela Consciência corporal profunda, produz essas imagens e intuições procurando encontrar o equilíbrio perdido. A imagem da Mandala pode indicar essa situação dupla, de grande Perigo e de grande força regenerativa. Deve ser por isso que o ideograma chinês para Crise também representa Oportunidade.
Quem prestar atenção pode perceber esse fator de reação quase orgânica do corpo e da Psique em momentos de risco e desequilíbrio. Jung chamou essa estrutura reorganizadora de Self. A presença tranquilizadora que a paciente chamou da voz de Deus poderia ser essa função orgânica de busca de reequilíbrio. A “voz” do Self. Uma sabedoria celular dizendo para a moça que o seu sofrimento poderia ter fim. A pergunta intuitiva e inspirada do colega levou-a diretamente ao Centro da Psique, perdido no meio das oscilações de seu quadro clínico. A palavra que ele próprio usou quase sem querer, foi “para onde você se volta quando busca consolo no sofrimento?”, “Consolo”, ativou esse sistema autorganizador, que pertence ao organismo físico e psíquico, que os junguianos chamam de Psique. Procuramos tanto a cura nas moléculas, nas metilações e desmetilações dos genes que nos esquecemos que a Psique e o corpo querem se curar, querem encontrar o equilíbrio perdido. E que a hora da aflição pode ser a hora da mudança. Enquanto isso, os colegas assistiam outras aulas, o que salvou o palestrante da internação, como delirante.
Não preciso dizer que saí da conferência muito grato por ter estado lá.
Um dado estatístico que esse ciclo de palestras trouxe é o dado que metade dos psiquiatras americanos não acredita em Deus ou em qualquer forma de transcendência à nossa vida material. Devem ser os mesmos que acreditam que a Mente é uma produção do Cérebro. Ou que a doença mental deriva de um pool de genes malfuncionantes. Posso lembrar de alguns colegas ateus que são excelentes médicos, bem como alguns crentes em Deus que são umas antas, mas a cena que o colega descreveu não ocorreria na sala de alguém que não acredita em nada fora do campo da matéria. Também duvidaria que uma bipolar, cicladora rápida, pudesse melhorar de sua doença através de uma voz interior acolhedora. A história seria motivo fácil de chacota.
Jung descreveu o aparecimento da forma redonda em sonhos e desenhos de pacientes vivendo grande tensão e sofrimento psíquico. Fez um paralelo com as mandalas orientais, que para ele representam a totalidade da Psique tentando se restaurar, em momentos de grande perigo. A Psique, seja ela fabricada pelo Cérebro ou pela Consciência corporal profunda, produz essas imagens e intuições procurando encontrar o equilíbrio perdido. A imagem da Mandala pode indicar essa situação dupla, de grande Perigo e de grande força regenerativa. Deve ser por isso que o ideograma chinês para Crise também representa Oportunidade.
Quem prestar atenção pode perceber esse fator de reação quase orgânica do corpo e da Psique em momentos de risco e desequilíbrio. Jung chamou essa estrutura reorganizadora de Self. A presença tranquilizadora que a paciente chamou da voz de Deus poderia ser essa função orgânica de busca de reequilíbrio. A “voz” do Self. Uma sabedoria celular dizendo para a moça que o seu sofrimento poderia ter fim. A pergunta intuitiva e inspirada do colega levou-a diretamente ao Centro da Psique, perdido no meio das oscilações de seu quadro clínico. A palavra que ele próprio usou quase sem querer, foi “para onde você se volta quando busca consolo no sofrimento?”, “Consolo”, ativou esse sistema autorganizador, que pertence ao organismo físico e psíquico, que os junguianos chamam de Psique. Procuramos tanto a cura nas moléculas, nas metilações e desmetilações dos genes que nos esquecemos que a Psique e o corpo querem se curar, querem encontrar o equilíbrio perdido. E que a hora da aflição pode ser a hora da mudança. Enquanto isso, os colegas assistiam outras aulas, o que salvou o palestrante da internação, como delirante.
Não preciso dizer que saí da conferência muito grato por ter estado lá.
sábado, 24 de janeiro de 2015
A Teia e a Mão Tecedeira
Steve Jobs fez um famoso discurso numa formatura de Stanford. Para os formandos, prometeu três pequenas histórias. No big deal, ele disse, “Nada demais, apenas três pequenas histórias”. Não eram apenas pequenas histórias.
A primeira delas ele chamou de “Juntando os Pontos”. A primeira “Pequena História” foi sobre o seu nascimento e processo de adoção (uma história levinha, como pode-se perceber). Sua mãe biológica achou que seria impossível conciliar a sua carreira universitária e doutorado com as tarefas de mãe, então encaminhou o bebê para adoção, exigindo apenas que o casal que o adotasse tivesse nível escolar superior, certificando que aquele bebê fizesse uma boa faculdade. Vamos combinar que a moça realmente prezava a vida acadêmica. Tudo bem se os pais fossem terroristas ou abusadores de crianças, mas tinham que, acima de tudo, garantir uma boa faculdade para aquele bebê. O casal que finalmente o adotou era de pessoas humildes e sem curso superior, mas que juraram de pés juntos que aquele moleque iria para a faculdade quando crescesse. Talvez o único ato de rebeldia de Steve Jobs para com a sua mãe biológica foi nunca ter concluído nenhuma curso de nível superior. Ele pediu desculpas para a plateia de formandos para acrescentar que largar a faculdade foi uma das melhores decisões de sua vida. Pois ele passou um semestre nessa Universidade cara, já sabendo que não iria concluir o curso. Começou a fazer matérias que lhe chamavam a atenção, sem uma razão ou objetivo aparente. Um dos cursos que ele fez foi o de Caligrafia. Pensar em Caligrafia hoje em dia soa quase como piada, com o fim da palavra manuscrita. Pois o jovem e pobre estudante gastou os apertados recursos de seus pais estudando caligrafia. Alguns poucos anos depois, quando fabricava o primeiro Macintosh e o primeiro processador de texto, teve a oportunidade de colocar todas as letras, os caracteres e os tipos de grafias, muitas das quais usamos ainda hoje em nossos programas, a partir do tal curso de Caligrafia. Como Bill Gates passou a mão em alguns programas e plataformas do Macintosh, podemos concluir que muitas letras e textos que digitamos em nossos computadores tem alguma coisa a dever para o tal curso de Caligrafia que o jovem Steve Jobs fez sem intenção nenhuma. Jobs concluiu a sua primeira história dizendo que essas coisas nunca são percebidas em seu significado na hora em que acontecem. Elas só podem ser analisadas quando olhamos para trás e juntamos os pontos. Ele recomendou, finalmente, que as pessoas sempre mantivessem contato com a sua intuição para tomar as grandes e pequenas decisões de sua vida, e que algumas poderiam levar alguns anos para finalmente fazer algum sentido.
Foi bom para Steve Jobs não ter seguido nenhuma carreira acadêmica ou científica, senão seria linchado diante da turba. Conectar os pontos, mais do que juntá-los, necessariamente implica numa infinidade de questões. Implica, por exemplo, em um conceito grego caro aos junguianos, que é a Enteléquia. Este palavrão puxa por outro palavrão, que propõe que nossa vida e Psique tenam um Telos. Calma que eu explico.
Enteléquia é o princípio da semente do carvalho. É um pequeno milagre que uma semente minúscula possa formar uma árvore imensa como um carvalho. A Enteléquia significa o potencial intrínseco, o vir a ser misterioso de toda vida, que faz uma semente virar uma árvore gigante. Posso dar o exemplo de um menino de Três Corações que passou a infância a jogar bola pelos terrões mineiros para virar anos depois o Rei Pelé, o Atleta do Século. Como isso é possível? Destino, acaso, sorteio genético, determinismo edípico, já que seu Dondinho, pai do Edson, passava para o filho todo o legado do grande jogador que tinha sido, mas que nunca ultrapassou os campeonatos amadores?
Enteléquia é o potencial que estava em estado de semente naquele jovem fumeteiro dos anos setenta que viria a se tornar o grande inovador Steve Jobs, um cara que influenciou quase tudo o que acontece em nossa vida moderna. Daí chegamos em um conceito ainda mais complexo e metafísico, que é o Telos. Telos significa Finalidade ou direção. Como se nosso desenvolvimento pessoal tivesse uma direção, um significado e um sentido. Conectar os pontos significa entender, de alguma forma, essa Mão Invisível que vai trançando o meu e o seu destino. Os pontos formam uma Teia imensamente complexa, que podemos perceber em alguns flashes, ou olhando para trás. Pensar que há uma mão invisível significa o que o físico David Bohm chamou de Ordem Implicada, o que a grosso modo significa a ordem profunda que tece, com imensa delicadeza, as teias do nosso destino. Veja bem que tudo isso pode ser retirado desta pequena história. Pensando bem, foi muito bom que Steve Jobs tenha largado a faculdade.
A primeira delas ele chamou de “Juntando os Pontos”. A primeira “Pequena História” foi sobre o seu nascimento e processo de adoção (uma história levinha, como pode-se perceber). Sua mãe biológica achou que seria impossível conciliar a sua carreira universitária e doutorado com as tarefas de mãe, então encaminhou o bebê para adoção, exigindo apenas que o casal que o adotasse tivesse nível escolar superior, certificando que aquele bebê fizesse uma boa faculdade. Vamos combinar que a moça realmente prezava a vida acadêmica. Tudo bem se os pais fossem terroristas ou abusadores de crianças, mas tinham que, acima de tudo, garantir uma boa faculdade para aquele bebê. O casal que finalmente o adotou era de pessoas humildes e sem curso superior, mas que juraram de pés juntos que aquele moleque iria para a faculdade quando crescesse. Talvez o único ato de rebeldia de Steve Jobs para com a sua mãe biológica foi nunca ter concluído nenhuma curso de nível superior. Ele pediu desculpas para a plateia de formandos para acrescentar que largar a faculdade foi uma das melhores decisões de sua vida. Pois ele passou um semestre nessa Universidade cara, já sabendo que não iria concluir o curso. Começou a fazer matérias que lhe chamavam a atenção, sem uma razão ou objetivo aparente. Um dos cursos que ele fez foi o de Caligrafia. Pensar em Caligrafia hoje em dia soa quase como piada, com o fim da palavra manuscrita. Pois o jovem e pobre estudante gastou os apertados recursos de seus pais estudando caligrafia. Alguns poucos anos depois, quando fabricava o primeiro Macintosh e o primeiro processador de texto, teve a oportunidade de colocar todas as letras, os caracteres e os tipos de grafias, muitas das quais usamos ainda hoje em nossos programas, a partir do tal curso de Caligrafia. Como Bill Gates passou a mão em alguns programas e plataformas do Macintosh, podemos concluir que muitas letras e textos que digitamos em nossos computadores tem alguma coisa a dever para o tal curso de Caligrafia que o jovem Steve Jobs fez sem intenção nenhuma. Jobs concluiu a sua primeira história dizendo que essas coisas nunca são percebidas em seu significado na hora em que acontecem. Elas só podem ser analisadas quando olhamos para trás e juntamos os pontos. Ele recomendou, finalmente, que as pessoas sempre mantivessem contato com a sua intuição para tomar as grandes e pequenas decisões de sua vida, e que algumas poderiam levar alguns anos para finalmente fazer algum sentido.
Foi bom para Steve Jobs não ter seguido nenhuma carreira acadêmica ou científica, senão seria linchado diante da turba. Conectar os pontos, mais do que juntá-los, necessariamente implica numa infinidade de questões. Implica, por exemplo, em um conceito grego caro aos junguianos, que é a Enteléquia. Este palavrão puxa por outro palavrão, que propõe que nossa vida e Psique tenam um Telos. Calma que eu explico.
Enteléquia é o princípio da semente do carvalho. É um pequeno milagre que uma semente minúscula possa formar uma árvore imensa como um carvalho. A Enteléquia significa o potencial intrínseco, o vir a ser misterioso de toda vida, que faz uma semente virar uma árvore gigante. Posso dar o exemplo de um menino de Três Corações que passou a infância a jogar bola pelos terrões mineiros para virar anos depois o Rei Pelé, o Atleta do Século. Como isso é possível? Destino, acaso, sorteio genético, determinismo edípico, já que seu Dondinho, pai do Edson, passava para o filho todo o legado do grande jogador que tinha sido, mas que nunca ultrapassou os campeonatos amadores?
Enteléquia é o potencial que estava em estado de semente naquele jovem fumeteiro dos anos setenta que viria a se tornar o grande inovador Steve Jobs, um cara que influenciou quase tudo o que acontece em nossa vida moderna. Daí chegamos em um conceito ainda mais complexo e metafísico, que é o Telos. Telos significa Finalidade ou direção. Como se nosso desenvolvimento pessoal tivesse uma direção, um significado e um sentido. Conectar os pontos significa entender, de alguma forma, essa Mão Invisível que vai trançando o meu e o seu destino. Os pontos formam uma Teia imensamente complexa, que podemos perceber em alguns flashes, ou olhando para trás. Pensar que há uma mão invisível significa o que o físico David Bohm chamou de Ordem Implicada, o que a grosso modo significa a ordem profunda que tece, com imensa delicadeza, as teias do nosso destino. Veja bem que tudo isso pode ser retirado desta pequena história. Pensando bem, foi muito bom que Steve Jobs tenha largado a faculdade.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
O Invisível
Estou lendo um livro que comprei aqui, que traça um paralelo entre a Física Quântica e a organização da Vida. Até onde eu cheguei ele fala da impossibilidade estatística da Vida ter se formado em nosso planeta a partir da sopa primordial de carbono, água e nitrogênio que cobria o planeta. Nas palavras do Gênesis, havia a escuridão e o espírito de Deus pairava sobre as águas. A vida se desenvolveu de forma relativamente rápida, como se a matéria primordial "soubesse" como se organizar para fabricar as primeiras enzimas, que deram origem ao RNA e depois ao DNA, que foi o início da transmissão de informação genética de uma geração à outra. Portanto, onde se iniciou a vida e a forma de sua transmissão em todas as espécies animais e vegetais.
Por que você está lendo sobre isso num blog de um psiquiatra e psicoterapeuta é que são elas. Mas vou explicar.
O psiquiatra suiço Carl Jung criou uma teoria em que a psique humana tem um centro organizador: chamou esse centro de Self. Essa teoria rende ainda boas gargalhadas aos terapeutas de outras áreas e aos colegas materialistas. Para eles, O Self é um conceito metafísico, ou seja, não pode ser comprovado pelos métodos físicos. Suprema acusação, o Self é uma construção absurda, da cabeça de um velho místico suiço. Como a idéia de um Deus criador, que é onipresente e onisciente e ainda cultivado pela maior parte da população. Um delírio construído pelos homens das cavernas que tinham medo da fome e das tempestades, criando deuses para o sol, para a chuva, para a caça. As idéias religiosas seriam um consolo para um universo regido por leis físicas e de seleção natural, onde somos propagadores cegos do DNA que herdamos das bactérias e procariontes.
O que esse povo não consegue explicar é essa capacidade intrínseca e invisível da vida se organizar e se complexificar como se houvesse um atrator, uma batuta invisível mostrando o caminho. Podemos chamar isso de Self, de Deus ou de Variáveis Ocultas, mas o fato é que a vida se organiza como se houvesse uma ordem invisível organizando o processo. Desde que o mundo é mundo, ou desde os gregos, mais específicamente, que os pensadores se dividem entre os que exploram e acreditam nessa ordem invisível e os que acreditam no acaso cego, puro e simples.
Eu acredito em uma cadeia de quase causas que confluem na construção da vida. Na nossa vida. Acredito que as pequenas coincidências podem ser o disfarce de pequenos milagres, que passamos sem notar em nosso dia a dia. Lógico que sempre vai haver os dependentes de realidade que se recusam a acreditar no Invisível, ou Inefável. Mas o debate vai contiuar divertido.
Por que você está lendo sobre isso num blog de um psiquiatra e psicoterapeuta é que são elas. Mas vou explicar.
O psiquiatra suiço Carl Jung criou uma teoria em que a psique humana tem um centro organizador: chamou esse centro de Self. Essa teoria rende ainda boas gargalhadas aos terapeutas de outras áreas e aos colegas materialistas. Para eles, O Self é um conceito metafísico, ou seja, não pode ser comprovado pelos métodos físicos. Suprema acusação, o Self é uma construção absurda, da cabeça de um velho místico suiço. Como a idéia de um Deus criador, que é onipresente e onisciente e ainda cultivado pela maior parte da população. Um delírio construído pelos homens das cavernas que tinham medo da fome e das tempestades, criando deuses para o sol, para a chuva, para a caça. As idéias religiosas seriam um consolo para um universo regido por leis físicas e de seleção natural, onde somos propagadores cegos do DNA que herdamos das bactérias e procariontes.
O que esse povo não consegue explicar é essa capacidade intrínseca e invisível da vida se organizar e se complexificar como se houvesse um atrator, uma batuta invisível mostrando o caminho. Podemos chamar isso de Self, de Deus ou de Variáveis Ocultas, mas o fato é que a vida se organiza como se houvesse uma ordem invisível organizando o processo. Desde que o mundo é mundo, ou desde os gregos, mais específicamente, que os pensadores se dividem entre os que exploram e acreditam nessa ordem invisível e os que acreditam no acaso cego, puro e simples.
Eu acredito em uma cadeia de quase causas que confluem na construção da vida. Na nossa vida. Acredito que as pequenas coincidências podem ser o disfarce de pequenos milagres, que passamos sem notar em nosso dia a dia. Lógico que sempre vai haver os dependentes de realidade que se recusam a acreditar no Invisível, ou Inefável. Mas o debate vai contiuar divertido.
Assinar:
Comentários (Atom)
