Havia um tempo em que tudo o que era alternativo trazia o adjetivo de “Holístico”. A Cura Holística buscaria o Todo, a Totalidade, em detrimento à nossa visão parcial e científica, que mutila a verdade em míriades de pequenos pedacinhos que nunca se juntam. Holistas e Reducionistas se enfrentam desde que o mundo é mundo, e eu tenho a impressão que toda briga ideológica pode ser resumida em partidários do Hemisfério Cerebral Direito contra os amigos do Esquerdo. Tenho a impressão que a disposição dos parlamentares nos debates napoleônicos, após a Revolução Francesa, acabaram gerando um equívoco neurocientífico, alguns séculos depois. Os Conservadores, identificados com a Direita, estavam do lado errado. O Hemisfério Esquerdo é mais conservador, serial, ordenador e até um tanto obsessivo com a ordem, pois a mesma é a condição para o Controle. O Hemisfério Direito é mais revolucionário, intuitivo e vive desafiando a velha ordem do outro lado com novas intuições e insights. Podemos concluir que, no Cérebro, a Esquerda fica do lado direito e a Direita fica do lado esquerdo. Parece mais confuso do que é.
Os “Holísticos” hoje viraram os “Quânticos” e compartilham visões místicas e não locais do mundo. Deixo transparecer alguma ironia com eles, e não devia, porque procuro uma prática clínica sempre mais para o lado da totalidade do que da redução, e muito mais para a não localidade do que para o mundo newtoniano da causa e efeito lineares.
Normalmente, o preço de se querer usar mais o lado direito é saber muito bem o que fazer com o esquerdo. Para a liberdade, a intuição e os grandes holismos, é bom saber muito bem do que se está falando. E ter muito, muito rigor para perceber quando se está errado.
As corporações são particularmente obcecadas pela formação de líderes. Também teremos os líderes mais identificados com cada Hemisfério Cerebral. Existem os líderes seriais e os digitais. Os primeiros são mais obsessivos e perfeccionistas, sempre preocupados com os detalhes e os resultados. Os segundos são mais relacionais, cuidam da motivação e protegem o seu time, às vezes com o próprio emprego. Alguns líderes puxam o saco dos chefes e descem o cacete na sua equipe. Outros são amados e fofos com a equipe e sempre tem uma boa análise para justificar números ruins. Como os números comandam o mundo, o líder deve prestar muita atenção neles. Serial ou Digital, Intuitivo ou Técnico, Severo ou Paizão, se o número não aparacer, vai todo mundo para a rua.
Mais uma vez eu gosto mais de líderes “quânticos” do que dos “newtonianos”. E mais uma vez reconheço que dar mais atenção aos resultados pode dar mais resultado do que cuidar só do “Processo”.
Um bom líder, seja ele um gerente de corporação, um professor de piano ou um terapeuta, precisa sempre do trabalho simultâneo dos dois lados do Cérebro. Ele precisa saber dos passos do processo e do caminho que vai ter que percorrer para ter os resultados. Mas, igualmente, deve ter um olhar para o resultado e como fazer para chegar nele. Felipão dizia, antes dos 7 a 1 da Copa, que o cara que não sabe porque perde também não sabe porque ganha. No caso, ganhar ou perder tem dois lados para compor e considerar. Como muito do que já escrevi nesse espaço, é mais fácil de falar do que fazer.
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domingo, 3 de abril de 2016
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
Vale das Sombras
Lembro de um episódio de um seriado americano, tipo Law and Order, onde um terapeuta ensinava aos seus pacientes um mantra para os momentos de aflição e desespero: “Eu sou a Rocha no meio da tempestade. Eu sou a Rocha que resiste ao mar”. No episódio o tal do terapeuta acabava sendo o psicopata que se aproveitava de sua ascendência sobre adolescentes perturbados e perdidos no meio da tempestade para abusar, de várias formas, de sua confiança, aumentando a sensação perigosa de que nada faz sentido para esses pacientes. O terapeuta era ruim, mas o mantra, não.
Ninguém descobriu onde fica o Ego em nossa Neurociência. O lugar mais próximo é o Cortex Pré Frontal, onde somos capazes de planejar, executar e corrigir erros em nossos planos futuros. Jung descreveu que a nossa Consciência se amplia em meio a uma fabulosa tensão de tendências opostas. A santidade e o pecado lutando diariamente dentro de nosso corpo e alma. Talvez a Neurociência tenha descoberto uma das sedes dessa tensão eterna: os Hemisférios Cerebrais. O Esquerdo cuida de nosso mundo linear, lógico, baseado em nossos sentidos e racionalidade. Quando algo acontece que subverte ou desafia essa visão racional, esse lado tende a simplesmente ignorar o que não se encaixa. Não precisamos ir muito longe para perceber este comportamento na Ciência, que ignora ou desmerece todos os fenômenos que não se encaixam em sua visão materialista do mundo.
O Hemisfério Direito responde por uma visão não linear, sintética e intuitiva do mundo. Está constantemente criando novas visões ou percepções não lógicas que existem em estado de tensão com a visão linear e sequencial do outro lado. Quando o equilíbrio entre esses lados se rompe, a capacidade do Ego de organizar a sua experiência interna e externa acaba se dissolvendo. A sensação é de que o mundo está desmoronando, num imenso terremoto interior. Quem olha de fora não consegue entender, pois nada aparentemente está acontecendo e, ainda assim, a mente da pessoa está derretendo na sua frente. Lembro de um caso antigo, onde o paciente sentia que estava possuído por uma sensação maligna e queria se matar para não ser tomado por essa presença. Era como se um hemisfério se sentisse invadido pelo outro, perdendo a capacidade de modular os próprios afetos e pensamentos, e tudo vira medo. Em alguns casos, o medo vira terror.
Jung chamou de Self o centro organizador que, acima do Ego, mantém a integridade dessa Psique que parece se esfarelar no meio dos sintomas. Penso no Salmo 23 “Mesmo que eu ande no Vale das Sombras e da Morte, nada temerei pois sei que estás ao meu lado”. Longe de mim psicologizar a Bíblia, mas este salmo é particularmente belo para descrever os momentos de medo, incerteza e desequilíbrio que uma pessoa pode atravessar em sua vida e a sensação protetora e apaziguadora que este centro pode trazer, ajudando na travessia. Essa capacidade organizadora vem da união dos hemisférios opostos? A criação de um plano lógico junto com a força de nosso afeto cria uma força interna para atravessar o Vale das Sombras? Este vale está dentro das áreas que processam o medo e o terror, em nosso Cérebro Profundo?
O mantra do terapeuta maluco do Law and Order funciona desta forma: identificando o Ego com esta rocha que resiste à tempestade de medos que temos em nosso mundo interno. Uma escritora brincou que seus pensamentos são uma área perigosa da cidade, onde ela não gosta de andar sozinha. Muito já escrevi neste blog sobre os pensamentos circulares, reverberantes, que ganham vida dentro de alguns quadros psiquiátricos até que a pessoa não consegue, simplesmente, parar de ser engolido pela tempestade desses pensamentos, que escalam em espiral. A imagem da Rocha no meio da tempestade dá um sentido de orientação no meio da bagunça. Cria um novo centro, onde a pessoa pode se agarrar e esperar pelo fim das marés de medo.
Há muito eu percebi que os verdadeiros curadores são aqueles que acreditam que a tempestade vai passar e a rocha vai, mais uma vez, resistir.
Ninguém descobriu onde fica o Ego em nossa Neurociência. O lugar mais próximo é o Cortex Pré Frontal, onde somos capazes de planejar, executar e corrigir erros em nossos planos futuros. Jung descreveu que a nossa Consciência se amplia em meio a uma fabulosa tensão de tendências opostas. A santidade e o pecado lutando diariamente dentro de nosso corpo e alma. Talvez a Neurociência tenha descoberto uma das sedes dessa tensão eterna: os Hemisférios Cerebrais. O Esquerdo cuida de nosso mundo linear, lógico, baseado em nossos sentidos e racionalidade. Quando algo acontece que subverte ou desafia essa visão racional, esse lado tende a simplesmente ignorar o que não se encaixa. Não precisamos ir muito longe para perceber este comportamento na Ciência, que ignora ou desmerece todos os fenômenos que não se encaixam em sua visão materialista do mundo.
O Hemisfério Direito responde por uma visão não linear, sintética e intuitiva do mundo. Está constantemente criando novas visões ou percepções não lógicas que existem em estado de tensão com a visão linear e sequencial do outro lado. Quando o equilíbrio entre esses lados se rompe, a capacidade do Ego de organizar a sua experiência interna e externa acaba se dissolvendo. A sensação é de que o mundo está desmoronando, num imenso terremoto interior. Quem olha de fora não consegue entender, pois nada aparentemente está acontecendo e, ainda assim, a mente da pessoa está derretendo na sua frente. Lembro de um caso antigo, onde o paciente sentia que estava possuído por uma sensação maligna e queria se matar para não ser tomado por essa presença. Era como se um hemisfério se sentisse invadido pelo outro, perdendo a capacidade de modular os próprios afetos e pensamentos, e tudo vira medo. Em alguns casos, o medo vira terror.
Jung chamou de Self o centro organizador que, acima do Ego, mantém a integridade dessa Psique que parece se esfarelar no meio dos sintomas. Penso no Salmo 23 “Mesmo que eu ande no Vale das Sombras e da Morte, nada temerei pois sei que estás ao meu lado”. Longe de mim psicologizar a Bíblia, mas este salmo é particularmente belo para descrever os momentos de medo, incerteza e desequilíbrio que uma pessoa pode atravessar em sua vida e a sensação protetora e apaziguadora que este centro pode trazer, ajudando na travessia. Essa capacidade organizadora vem da união dos hemisférios opostos? A criação de um plano lógico junto com a força de nosso afeto cria uma força interna para atravessar o Vale das Sombras? Este vale está dentro das áreas que processam o medo e o terror, em nosso Cérebro Profundo?
O mantra do terapeuta maluco do Law and Order funciona desta forma: identificando o Ego com esta rocha que resiste à tempestade de medos que temos em nosso mundo interno. Uma escritora brincou que seus pensamentos são uma área perigosa da cidade, onde ela não gosta de andar sozinha. Muito já escrevi neste blog sobre os pensamentos circulares, reverberantes, que ganham vida dentro de alguns quadros psiquiátricos até que a pessoa não consegue, simplesmente, parar de ser engolido pela tempestade desses pensamentos, que escalam em espiral. A imagem da Rocha no meio da tempestade dá um sentido de orientação no meio da bagunça. Cria um novo centro, onde a pessoa pode se agarrar e esperar pelo fim das marés de medo.
Há muito eu percebi que os verdadeiros curadores são aqueles que acreditam que a tempestade vai passar e a rocha vai, mais uma vez, resistir.
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