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segunda-feira, 2 de março de 2015

Asa de Borboleta

Sempre gostei muito, e sempre tive uma suave intuição de entender o conceito do “Efeito Borboleta”, enunciado pela primeira vez nos anos setenta, em um seminário de Meteorologia. O princípio é de que um pequeno ou microscópico evento, como o bater das asas de uma borboleta na floresta tropical pode provocar um furacão na costa do Pacífico, no Hemisfério Norte. Um evento ínfimo, imperceptível, pode atuar em escala produzindo mudanças globais. Essa é a percepção que tudo está interconectado.
Onde o Micro e o Macro interagem é uma grande questão. O filme “A Teoria de Tudo” deu o Oscar de melhor ator para o rapaz que interpretou o físico britânico Stephen Hawking, mostra a trajetória desse homem através de uma doença degenerativa devastadora, a Esclerose Amiotrófica Lateral, o que criou um homem sem corpo e uma cabeça fantasticamente pensante. A própria tentativa, de Hawking e da Física Moderna, de achar um vínculo, um sistema que englobe o Universo em expansão com os eventos subatômicos, tem uma sutil e delicada ironia: qual o efeito subatômico que gera essa e outras doenças degenerativas? Por que é uma doença que acomete muitos ex atletas de alto desempenho, que sofrem muitos traumas e muitos microtraumas? Qual será o Efeito Borboleta que vai produzir essa doença catastrófica, que deixa de joelhos a Medicina? Onde o micro da comunicação entre as células leva a uma doença que destrói o organismo como um todo?
Já escrevi em alguns posts sobre a eterna tensão entre Micro e Macro na nossa vida. Atendo diariamente pessoas doentes das macro expectativas não realizadas: o candidato a Steve Jobs torturado numa pequena empresa de TI; a candidata ao amor cinematográfico e eterno torturada entre casos que não viram relacionamento e homens que não criam vínculo, e assim por diante. Muita gente esperando que algo que faça sentido entre voando pela sua janela, porque não conseguem sair de casa para procurar. Autores procurando pelo grande livro, místicos buscando a iluminação, doentes procurando a cura definitiva, todo mundo está procurando por alguma coisa, diz a velha música do Eurytmics.
Um lugar da Medicina que procura juntar os efeitos subatômicos com as mudanças multissistêmicas é a Homeopatia, onde quantidades subatômicas de determinadas substâncias podem produzir mudanças profundas da resposta de um organismo, como a Resposta Imune, por exemplo. Lá é um lugar onde se pode examinar o Efeito Borboleta. Estranhamente, eu nunca me mobilizei para estudar esse tipo de abordagem e continuei com meus medicamentos alopáticos. Muito provavelmente porque essa medicação, quando bem empregada e associada a outras abordagens terapêuticas, pode trazer imenso alívio para o sofrimento humano. Mas há outro motivo: há uma imensa gama de interações e de efeitos macro e micro de um tratamento. A intervenção macro produz efeitos profundos, de dentro para fora, de fora para dentro. Mesmo a Alopatia produz esses efeitos.
Dizem os místicos que uma de nossas tarefas na vida é tornar sutil o grosseiro, libertar a energia presa na matéria na direção da Luz. Perceber o sutil e a sua infinita cadeia de relações é uma tarefa dos seres em busca de sua consciência e do significado. Outro dia recebi o e-mail de uma esposa preocupada, que atribui as variações de humor e angústias de seu marido à uma possível bipolaridade. Ele tem uma profunda angústia de Vazio e de Não Sentido, não tem achados compatíveis com a Doença Bipolar, embora tem muita gente graúda que diria que ele é um Bipolar. É bem difícil traduzir para ambos que o significado pode estar no Micro, não no Macro. Ele queria ser um homem de negócios poderoso, mas pode fazer diferença num pequeno comércio. Um pequeno ato de boa vontade pode melhorar a crise hídrica. Um trabalho honesto pode ser uma alternativa para a sensação de avacalhação que acomete o povo brasileiro que entende as notícias. O problema é que, se eu disser isso, posso acabar diante de um psiquiatra, que vai me achar um pouco Bipolar.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Continuum

Já mencionei em outros posts, relativos à dificuldade de se criar uma visão orgânica, panorâmica, do que seja o adoecer humano, a história dos hindus cegos que tentavam descrever pela palpação, um elefante: um disse que o elefante era uma orelha gigante, outro disse que era uma rabo, uma tromba e assim por diante. Cada um seria capaz de defender seu ponto de vista (sem trocadilho) até a morte. A história é uma metáfora de nossa visão sempre parcial das coisas, a nossa cegueira é a nossa visão em túnel, ou a tentativa de explicar coisas complexas de uma maneira simplista. Sir Bernard Shaw, teatrólogo e pensador inglês, disse que para toda questão complexa há uma resposta simples... que está errada.
O último post traduziu uma visível irritação desse escriba com essas supersimplificações com ares de Ciência. A fonte de inspiração foi um Seminário em local bastante agradável, onde uma séria e bem intencionada colega desenvolvia os estudos sobre a Insônia, mal que afeta cada vez mais pessoas, ou, pelo menos, é muito mais vista e diagnosticada na medida que damos mais atenção a essa queixa. Quase a metade da população vai ter problemas com o sono em algum momento de sua vida. Essa colega em questão descreveu que a Insônia, antes vista como um sintoma, ou um complexo sintomatológico, geralmente ligada aos quadros ansiosos ou afetivos, hoje está ganhando vida própria e se emancipando, virando uma doença em si. Já temos institutos e especialistas voltados para o diagnóstico e tratamento dos Transtornos de Sono, sejam os que ocorrem durante o sono em si, sejam os que se manifestam durante o dia. Há problemas em iniciar, manter ou completar os ciclos de sono durante a noite, o que é secundário a várias doenças e causas orgânicas. Quem dorme mal vive menos, tem mais doenças crônicas como Hipertensão e Diabetes, sofre mais acidentes e prejuízo de capacidades intelectuais durante o dia. Ou seja, pela aula da moça, todos deveriam correr para uma Clínica de Sono e fazer uma Polissonografia.
A aula foi correta, bem fundamentada e baseada em evidências de pesquisa. O que me incomoda tem a ver com a história do elefante. Lá vamos ficar falando da tromba e vamos perder de vista o elefante. Não há dúvida que estudar e entender melhor o sono é lição de casa para todo psiquiatra ou neurologista que preza a sua clínica. Mas o que estamos recebendo são as vítimas de nossa civilização inflamatória. Existe um continuum, uma continuidade entre ansiedade, fadiga, depressão, aceleração, insônia, obesidade e todos os males que tentamos tratar, nem sempre com bons resultados. Na época de hipermídia, somos hiperestimulados o tempo todo a consumir, correr, buscar algo que nos falta e nem sabemos que falta. Esse é grande miolo de todas as questões, psicanalíticas, médicas, antropológicas: vivemos num mundo torturado pela sensação de falta e pela busca desesperada do alívio dessa falta. De um sapato novo a uma namorada nova, tudo, tudo virou um objeto de consumo. O consumo é rápido, pouco recompensador e aumenta a fome. A comida dos fast foods são sempre docinhas e gordurosas, para estimular justamente a satisfação rápida e a atraso da sensação de saciedade. Tudo com o objetivo de consumir-se mais, mais, mais.
A colega dizia que vivemos numa sociedade privada de sono. Não. Vivemos numa sociedade privada da sensação de saciedade. Temos uma alimentação inflamatória, um trânsito inflamatório, um sono inflamatório. O resto é consequência: os estressores geram a ansiedade, a ansiedade aumenta a ânsia de gratificação, a ânsia de gratificação gera o abuso de comida e substâncias, isso vai gerar o ganho de peso, a fadiga, a depressão, a insônia. É tudo um continuum.
O triste é que, se o leitor e a leitora forem procurar ajuda, vão receber exames para ver cada pedaço do elefante. E cada especialista vai dizer que a sua fração do elefante é a mais importante.