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sábado, 10 de junho de 2017

O Fogo ou o Gelo

Certa vez ouvi Casagrande comentar em entrevista que jogar contra o Flamengo de Zico era uma arte. O Corinthians da época, início dos anos 80, era também forte, mas faziam um pacto de levar o jogo na maciota e, comentário dos mais engraçados, era importante NÂO fazer um gol no Flamengo no começo do jogo. “A ordem era levar o jogo em Banho Maria, para não acordar os caras...”, conta Casão bem humorado. “Se fizesse um gol eles acordavam e vinham para cima... Aí ninguém segurava”. Reza a lenda que uma ordem parecida era dada aos adversários do Chicago Bulls nos tempos de Michael Jordan: todos eram proibidos de dar entrevistas provocando o cara ou dizendo que ele estava velho. Sobretudo, era proibido fazer alusões à sua idade. Michael Jordan, como o Flamengo de Zico, se inflamava quando provocado e conseguia transformar a raiva em concentração, mas uma concentração inflamada pela raiva que fazia o seu desempenho se ampliar. Teve um gaiato que quase apanhou do time porque provocou o homem e levou 45 pontos no placar feitos por Michael Jordan, sem contar desarmes e assistências. A raiva o tornava um monstro.
A Neurociência está começando a distinguir reações diferentes diante do estresse. A diferença principal entre elas é a utilização da reação do estresse como Desafio, Raiva Explosiva ou Paralisia. Não há dúvidas que as pessoas estão mais acostumadas a ativar a reação de medo ou raiva do que de enfrentamento divertido.
O São Paulo, do chato Rogério Ceni, por exemplo. É um time todo cheio de deslocamentos e concepções táticas que Rogério passou muito tempo aprendendo como jogador e treinador aprendiz. Mas suas invenções de Professor Pardal logo desmoronam na primeira bola que entra no gol do São Paulo. O time continua moderno, bacana, tático, mas não consegue ter a reação adrenérgica de Desafio, que é abrir os Brônquios, fazer o Coração bombear o sangue com mais força ou encher os músculos de sangue com a certeza de que vai conseguir virar o resultado. O São Paulo é o contrário do Flamengo de Zico: quando toma um gol, é ativada a Reação de Medo, o time perde a alegria e não consegue acreditar na vitória.
Foi feito um estudo de resposta ao Estresse em que dois grupos de alunos foram testados em períodos de provas finais. Um dos grupos recebeu a orientação de que a Reação de Estresse era boa para a performance porque aguçava o raciocínio e levava mais sangue para o Cérebro. O outro grupo não recebeu nenhuma orientação a respeito e foi só mandado para a prova. O primeiro grupo teve uma resposta significativamente melhor quando foi orientado indiretamente a transformar o medo em reação de desafio e enfrentamento. Essa reação transforma o medo em uma tensão divertida, que pode provocar um prazer de enfrentar e passar por cima da dificuldade (ou do adversário). Já a reação de medo de perder, que causa uma contrição de energia, cria uma situação inversa: tudo dá errado e o que se teme mais acaba acontecendo.
É curioso que tanta gente chegue para tratamento de doenças relacionadas ao estresse, sobretudo estresse profissional, onde os gestores não tem a menor noção de um saber tão óbvio e intuitivo: um ambiente de trabalho de desafio e apoio mútuo é muito mais produtivo que nossos correspondentes modernos de navios negreiros, onde as pessoas são massacradas com metas inalcançáveis e chicotes de cobranças e berros da gerência. Diga-se também que os funcionários que se entregam à uma moleza reclamona e medrosa também são grandes candidatos à fila de desemprego. A reação mais comum é o medo, que é evolutivamente mais antiga do que transformar o medo em excitação/combate. Mas é muito importante propagar o saber, agora cientificamente comprovado, que é sempre melhor se divertir pelejando do que se esconder no banheiro. Como dizia o Capitão Rodrigo de Erico Veríssimo: “Não está morto quem peleia”

domingo, 17 de abril de 2016

Lula, Dilma e a Hormese

Vou colocar uma objeção nova à ideologia canhestra do Lulopetismo: o meu problema com essa pseudoesquerda peronista\getulista é a criação de um estrato de humanos sub humanos pela obstrução de qualquer acesso à dificuldade. Ouvi de um empresário que tinha muitos problemas em contratar pessoas em indústria no Nordeste porque os trabalhadores tinham medo de perder o benefício do Bolsa Família. Um programa assistencialista cristaliza a pobreza e, pior, cristaliza na pessoa menos favorecida a impressão que vai sempre precisar de ajuda. Ajuda de um Estado Onipotente, com recursos ilimitados. Como já sabemos, o Estado Deus logo vira Estado no Inferno. Dilma é o Estado no Inferno.
Pesquisadores e psicólogos tem informalmente descrito a geração Nem Nem Nem, ou seja, Nem trabalha, Nem Estuda, Nem Faz Coisa Nenhuma (o “Coisa” é uma gentileza com os leitores. O termo é outro, podemos imaginar). Vivemos uma época cravada de condescendência. Autoestima é muito diferente de Autopiedade. A geração Nem Nem Nem geralmente conta com estrutura familiar frouxa. O jovem fica estacionado no limbo entre a Adolescência e a Vida Adulta. Não pode ser cobrado, não pode perder seus confortos. Muitas vidas já estão profundamente comprometidas por essa narcose.
Levantei nesse blog uma questão na época das invasões das escolas de São Paulo, com a ocupação de avenidas de São Paulo por estudantes e representantes da APEOESP, entidade representativa de professores que pagaram propaganda em horário nobre. Os professores atacaram a reforma catastrófica do Governo Alkmin (que hoje está sendo realizada silenciosamente, sem alarde e carros de som). Mas os mesmos professores tem pouco a dizer sobre os resultados ridículos de seus alunos em exames nacionais. Uma ordem de Direitos sem Deveres cai sempre na Perversão. Esse é o ponto.
Hormese é um termo pouco conhecido da Biologia. Foi descrito em função do efeito benéfico de substâncias tóxicas ou agentes estressores nos processos orgânicos como um todo. O exercício físico, por exemplo. Cria inicialmente estressores físicos e algum desconforto. Aumento de batimento cardíaco, sudorese, respiração difícil. A reação do organismo a esses estressores responde por muito dos benefícios do exercício: hormônios, endorfinas, neurotransmissores, tudo é produzido para enfrentar o aumento de carga. Com o tempo, Mente e Corpo ficam melhores e mais afiados, após enfrentamento das dificuldades iniciais. Infelizmente, a grande maioria dos candidatos a atletas desistem nessa fase, a das dificuldades, antes que os benefícios apareçam e se consolidem. Hormese, portanto, é um conceito que fala dos benefícios do Stress em nossa vida diária. Viver estressado é tão ruim quanto viver sem nenhum desafio. Vivemos tão imersos nos adesivos de No Stress que mal sabemos que No Stress é uma forma lenta e infalível de morte.
Desconfio que a tal da droga do Câncer, a Fosfoetanolamida, seja uma substância que induz uma reação hormética do organismo como um todo, sobretudo do Sistema Imune. É claro que seu efeito pode ser de um gigantesco placebo, mas pode haver outra ação que vai levar muito tempo para ser provada. Estudos bem preliminares não provaram efeito direto da Fosfo em células cancerosas, ao contrário da ideia inicial de seu “criador”. Pode ser que seu efeito seja de estímulo indiscriminado da resposta imune, daí a sua ação em diversos processos diferentes. Mas isso é obviamente uma suposição.
Hoje à noite muito provavelmente vamos assistir ao fim desse período histórico em que o país foi envenenado por essa ideologia de condescendência, autocomiseração e avacalhação generalizada. Como eu já mencionei em outros post, isso não é privilégio do lulopetismo. George W. Bush, que está muito longe de ser um comunista, quebrou o seu país com a mesma ideologia de fazer o que bem entendia se lixando para a opinião pública. Como agora no Brasil, a cultura da avacalhação e putaria generalizada levou o país à bancarrota e à Depressão Econômica. A diferença é que o fofo Geroge W. foi para a lata de lixo da história. Já o Brasil, com quase metade da população de analfabetos funcionais, não entende o que está acontecendo em Brasília e sonha com a volta de Lula ao poder. E muita gente ilustrada acha que assistencialismo é justiça social. Cuidar e desenvolver é sobretudo, ensinar a enfrentar e vencer obstáculos. Mas tem muita gente que vai fazer de tudo para contornar, não resolver, as dificuldades.

domingo, 10 de maio de 2015

O Adeus e a Aspirina

Houve uma vez um começo de ano em que uma jornalista da Folha me ligou e informou que, naquele dia de começo de Janeiro, cinco caras, em lugares diferentes da cidade, haviam atirado em suas mulheres ou namoradas e tinham tentado (e a maioria conseguido) se matar em seguida. O que está acontecendo, doutor? Sei lá, pensei com meus botões, enquanto respondia que o período do ano de 20 de Dezembro a 05 de Janeiro é o mais perigoso do ano em termos de suicídios e violência doméstica. De maneira geral, o período de maior calor também é o mais animado em Hospitais Psiquiátricos e Delegacias. Observei também que o homem tem menos recurso para lidar com o abandono e pode partir para a saída evolutivamente estúpida de matar a pessoa que ama, apenas para não vê-la com outro cara.
No Congresso Brain, Behavior and Emotions, realizado em Porto Alegre, um colega apresentou um estudo americano que lançou uma nova luz nesse assunto; eu já sabia que, em escalas de estresse antigas, um divórcio pontuava 5 em um máximo de 6 pontos. Isso quer dizer que pior do que um divórcio, só a perda de um filho, um terremoto ou uma criança perdendo uma figura parental. Esse estudo demonstrou que uma separação tem uma escala de estresse muito superior a uma demissão, por exemplo, o que para mim foi uma surpresa. E lamento dizer que, apesar daquela conversa de que dói mais ser quem termina do quem “foi terminado”, o estudo mostra que tomar um pé na bunda é sempre bem pior do que dar. Términos inesperados ou repentinos pontuam mais. Isso se confirma nos consultórios, em quadros depressivos ou reações de luto diante da sensação dupla de rejeição e abandono que ocorre quando o parceiro, ou a parceira comunica que não quer mais e está terminando tudo.
Um trabalho aprofundando mais o tema lançou uma luz ainda mais interessante nesse assunto, com estudos de Ressonância Magnética Funcional: as vias neurais ativadas quando a pessoa sentia a dor do abandono são as mesmas mobilizadas por uma dor física. Sabe o que isso significa? O fim do “É psicológico”. A dor não tem causa física? “É psicológico”. Ou daqueles encaminhamentos simpáticos, do tipo: “Você não tem nada, vai fazer uma terapia”. Quando alguém descreve numa crise de angústia, uma dor tão forte como uma angina, ela está REALMENTE sentindo a dor de uma angina. Só não está sentindo uma dor que vem do seu Coração, mas da área do Cérebro que sente a dor do Coração. A dor é resultado da ativação de uma rede neural de dor, portanto não é “fingimento” ou “peripaque”.
O estudo mostra com felicidade que alguém que está com “o coração partido” não está necessariamente descrevendo uma sensação metaforicamente, ela pode ter realmente a sensação de que seu coração está partido em dois.
Hoje eu poderia responder para a jornalista que o sentimento de perda é dos mais perigosos que se pode ter em Psiquiatria. Alguém com a sensação de abandono deve receber toda atenção, sobretudo no período em que a sensação de perda evoca uma sensação física de dor. O desdobramento disso será usar medicamentos que atuem no Sistema Nervoso diminuindo a sensação de dor e a resposta inflamatória. Já foi colocado mais de uma vez que a Depressão e a Ansiedade já estão sendo entendidas como doenças inflamatórias. Vamos ter que desenvolver cada vez mais estratégias para ajudar as pessoas a lidar com a frustração e as dores de abandono. Isso pode evitar tragédias como um alguém que destrói a própria vida e de uma namorada porque não consegue tolerar que uma história de amor possa chegar ao fim.



quinta-feira, 1 de maio de 2014

O Vencedor e as Batatas

Caetano Veloso, já num período de maturidade artística, fez uma incompreensível música sobre Alexandre, o Grande, o que não será objeto de análise desse blog. A música era muito ruim e não deve figurar nas antologias de sua impressionante obra. A parte que interessa a este post é uma passagem dessa música em que menciona que o mestre de Alexandre era o filósofo Aristóteles, “cuja cabeça até hoje sustenta o Ocidente”.
Tenho a impressão que a cabeça que sustenta o Ocidente e grande parte do mundo, em nossos dias, é de Charles Darwin. Estou lendo um livro que menciona que Darwin deu de presente uma cópia do seu - “Origem das Espécies”- para um tio, que recusou o mesmo de maneira pouco polida. A sua justificativa é que Darwin tinha abolido a ideia de um Universo ordenado e moral, colocando no trono da divindade o Acaso selvagem. Pois o velho tinha toda razão e nenhuma Razão, podemos assim dizer: desde então, a Física Quântica e a Ciência foram destruindo gradativamente a noção de que há alguma ordem em nosso mundo. Tudo é mutação aleatória de nossos genes, que nos torna mais ou menos aptos a perpetuar nosso Genoma. Vivemos então sob a metáfora do “Gene Egoísta”, isto é, a única moralidade possível é a sua capacidade de sobreviver e perpetuar o nosso material genético (ou perpetuar nossos “genes egoístas”). Prevalecer ou morrer, essa é a lei (lembro quando escrevo isso de Quincas Borba, personagem do incrível Machado de Assis: Ao vencedor, as batatas).
O mundo darwiniano nos legou, paradoxalmente, um mundo mais primitivo do ponto de vista do afeto. Presenciamos um mundo onde grupos, ideias, empresas, pessoas, vivem e morrem com a intenção de prevalecer, superar, eliminar os concorrentes pelos nichos de poder. O mundo está dominado por paleoprimatas que vivem correndo para conseguir as melhores fatias do bolo, ou, de preferência, deter os meios de produção de todos os seus ingredientes. Corremos, corremos com medo da falência, da fome ou, pior do que as alternativas anteriores, do esquecimento. O Inferno é o silêncio.
No seminário que fui, na semana passada, garimpei uma aula particularmente interessante, de uma geneticista que procurava pela diferença genética entre saúde e doença, quais genes “causariam” as doenças. Angelina Jolie à parte, não existem genes projetados pela Mãe Natureza com a finalidade específica de causar doenças. O que ela descobriu é que determinadas doenças tem uma característica em comum de causar problemas e erros de multiplicação e função celular. Doenças como a Hipertensão Arterial, diversos tipos de Câncer e o Diabetes estão associados a esse problema na função das células, o que, por sua vez, está associado à ativação de determinado grupo de genes. Isso, na modesta opinião do escriba desse blog, confirma a origem e o funcionamento comum de diversas doenças de base inflamatória, como as doenças cardiovasculares, neoplásicas, autoimunes e mesmo nas doenças psiquiátricas como as geradas pelo estresse físico e psíquico, como Ansiedade e Depressão. Tudo pode ter uma fonte comum.
Nosso mundo darwiniano glorifica os campeões do correcorre de genes e memes egoístas. Isso produz nas pessoas um estado de urgência e o estímulo aos afetos negativos, como o medo, a raiva, o ressentimento. A sensação de insegurança, o medo do futuro, a alimentação e o estilo de vida inflamatórios estão completamente associados às doenças que tentamos e não conseguimos curar. Já há evidências científicas que cultivar emoções e sentimentos positivos cause um impacto mais profundo em nossa saúde do que nossas emoções darwinistas de luta por territórios e transmissão de genes. O homem sobreviveu às diversas fases de sua acidentada evolução pela capacidade de estabelecer alianças e proteção mútua. A comunicação e a cooperação nos salvaram nessa jornada. Foi isso que nos salvou da Seleção Natural e aumentou a complexidade e a capacidade de nosso Cérebro: fazer amor, não a guerra.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Circuito Oval

Steve Jobs, o homem que criou e depois recriou a Apple, falou em mais de uma entrevista que a grande questão para um moleque de vinte e poucos anos com cem milhões de dólares na conta, sempre passou longe do dinheiro. Ficar rico muito cedo tem essas vantagens. Desde então, a sua questão era mudar o mundo e ele o fez. Uma vez ele contratou um executivo da Coca Cola justamente com esse argumento: você pode passar a sua vida vendendo água com açúcar (muito açúcar) ou pode vir aqui mudar o mundo. Eu gosto dessas histórias, mesmo sabendo que Steve Jobs não era nenhum anjo e suas intenções não eram de salvar ninguém, mas, antes, derrotar seus concorrentes, como qualquer filho do Hipercapitalismo e do Hiperconsumo. Mas quando compramos um fone de ouvido da Apple, somos convidados a apreciar o design, o capricho, a sedução de tudo o que está ali, da facilidade de manuseio à perfomance do produto. Aquilo é que é um marketing bem feito, com imenso capricho e detalhismo que construiu um conceito.
Não estou aqui para vender nenhum produto da Apple, nem fazer uma ode a Steve Jobs. Fico na verdade suspirando pela falta de utopia dentro da minha área de atuação. A Psiquiatria evoluiu muito, muito, nessas décadas em que eu a pratico e hoje está batendo às portas da manipulação genética, mudando expressões e equilíbrios entre os genes. Mas isso ainda parece muito pouco. Vivemos num mundo acelerado e a Medicina pode fazer o papel dos mecânicos que trocam as peças dos Fórmulas 1 na beira da pista para devolvê-los para a corrida. Uma corrida que parece daqueles circuitos ovais, para ver quem produz mais, quem consome mais, quem ganha mais posições antes do motor finalmente pifar ou se autodestruir.
Hoje uma parte polpuda dos recursos do SUS para a Psiquiatria são gastos com programas de fornecimento de medicamentos de segunda e terceira geração para tratar a Esquizofrenia, o que acaba gerando uma situação esquizofrênica, gastando 60% do dinheiro com uma doença que afeta 1 a 3% da população. O Estresse, que nem doença é, afeta uma parte bem mais significativa da nossa vida. A principal fonte de doença, que é o Estresse, passa diluído do discurso e na ação da Medicina e na especialidade que mais deveria se ocupar dela, que é a minha. Procuramos por drogas que reduzam os efeitos e protejam nossos pacientes do Ansiedade e suas complicações, mas não temos uma proposta clara e aplicável em grande escala, de como reduzir ou transformar, o estresse de nossos pacientes. Os laboratórios, que ganham seus bilhõezinhos às custas do estresse, também não estão muito interessados em diminuir esse sofrimento. Quem deveria se interessar pela pesquisa de ponta na redução do estresse e no aumento de resiliência da população deveriam ser as Empresas Seguradoras e os Planos de Saúde, que economizariam uma soma exorbitante de dinheiro em exames, procedimentos e consultas de pessoas que, simplesmente, não conseguem parar de se angustiar com o futuro e com o devir, com medo de se tornarem carros velhos e obsoletos, incapazes de voltar para a corrida.
Um caminho que já sabemos tomar e criar corredores mais conscientes do jogo e que sabem dosar cada vez melhor a energia gasta correndo e a capacidade de reabastecimento nos pit stops. A questão é que estão todos viciados na corrida. Ainda.

domingo, 23 de setembro de 2012

Estresse e Interneurônios

Estava lendo um paper sobre o papel dos interneurônios GABAérgicos na gênese de doenças psiquiátricas graves. Não é preciso fugir desse post, eu vou explicar. Nossas redes neurais e quase toda a função de nossas células nervosas é um balanço extremamente complexo entre excitação e inibição. Temos aceleradores e breques à disposição para quase todo nosso leque de experiência. A Medicina Chinesa e o Taoísmo intuíram isso milênios antes da Ciência Moderna, dando nome de Yang para as funções masculinas e aceleradoras e de Yin para as funções femininas e acolhedoras, relaxantes, inibidoras. Há uma substância, o GABA, que responde por muitas funções Yin em nosso Cérebro.
Quando, dentro de nossas redes neurais, há um desequilíbrio maior ou menor dessas funções, os problemas começam a acontecer. Em casos mais graves, esse desequilíbrio entre excitação e inibição pode levar a doenças como a Esquizofrenia e o Autismo. Os Interneurônios constituem uma rede quase infinita de pequenos Relês que mediam a neurotransmissão, como amortecedores dessa excitação, um resfriador ou acelerador dependendo da ocasião.
Fico me perguntando se essa rede de Excitação/Inibição não responde na verdade por vários fenômenos de nossa vida prática. Tenho acompanhado a odisséia de um amigo que tem uma criança com desadaptação severa ao ambiente social, sobretudo o escolar, gerando reações violentas e autistas-like em situações de estresse. O excesso de informações, os deboches, as reações sociais complexas como as ironias, duplos sentidos, tudo isso fica dando voltas dentro de seu Cérebro Emocional gerando comportamentos disruptivos e violentos. A criança está perdida numa floresta de neurologistas, psiquiatras, pedagogos e psicoterapeutas de várias linhas, e parece faltar a todos esse entendimento: a criança não tem um instrumental de entendimento de situações complexas, emocionais e intelectuais. Não consegue, igualmente, entender essas situações e criar sistemas de aprendizagem para melhorar a sua perfomance. Isso deve atrapalhar ainda mais a ação dos seus interneurônios que tentam esfriar o sistema para encontrar a melhor solução. O resultado é, diante de pequenas contrariedades, explosões agressivas que estão se tornando cada vez mais perigosas. Qual seria a solução? Antes de mais nada, assumir que a criança tem uma limitação e parar de empurrá-la para a selva da Inclusão, muito linda no papel, mas uma verdadeira tortura para a criança que tem um déficit de desenvolvimento, se o processo não for muito bem conduzido. Depois, tentar criar estratégias para ele compreender melhor as interações sociais e o processo de aprendizagem, em um ambiente mais relaxado. Aprender numa escola menos solicitante e jogar futebol quase todo dia. Reconstruir sua capacidade de tolerar a frustração, passo a passo. Em nossa época, onde tudo está acelerado e as pessoas querem resolver tudo com um click em seu mouse, não é fácil encontrar quem faça esse trabalho.
Tenho a impressão que as pessoas vão ser cada vez mais avaliadas no futuro por sua capacidade de compreender, processar e atuar em situações de estresse e frustração. Hoje há um termo psiquiátrico que foi incorporado pelo senso comum quando a pessoa fracassa na gestão do estresse: o surto. Ouvimos cada vez mais: “Ele surtou na reunião”: “Toda vez que eu estou em TPM eu surto com a minha equipe”. Surto deveria ser um termo reservado a situações psiquiátricas severas. Hoje está incorporado em nosso dia a dia em situações onde nosso sistema de resfriamento e processamento emocional e cognitivo falham e uma pessoa pacata pode jogar o carro em corredores de uma maratona, sem motivo aparente.
Os consultores motivacionais devem parar de recomendar aos clientes estressados que relaxem ou joguem golfe. O melhor é ensinar as pessoas a usarem melhor os seus interneurônios GABAérgicos.

sábado, 28 de julho de 2012

Carga Alostática

Dei uma aula em um curso de Pós Graduação em Clínica Médica. Achei que era uma turma pequena, de até umas quinze pessoas e preparei uma aula visualizando esse grupo. Eu gosto mesmo é de dar aula rabiscando, fazendo o conhecimento se desenhar gradualmente enquanto as pessoas podem acompanhar o raciocínio. O Power Point tenta reproduzir esses desenhos, mas não é a mesma coisa. Acho que a transmissão do saber é antes de tudo um processo de sedução, de tornar fácil o que parece difícil, de encorajar o aluno a entrar dentro do aprendizado com confiança. Uma vez eu tive um bom arranca rabo com uma pedagoga por mencionar esse processo de sedução. Ela preferia uma formulação mais técnica do assunto. Mas essa é outra história. O fato é que eu cheguei lá com uma aula que delineava alguns conceitos de quadros depressivos e ansiosos, no sentido de convidar os colegas a saber identificá-los e tratá-los, pelo menos não cair no ancaminhamento tipo: "Você não tem nada, vá ao Psiquiatra", que dá ao paciente a impressão de ter um sintoma imaginário e de estar um tanto pirado. Cheguei um pouco atrasado e dei de cara com uma platéia cinco vezes maior do que esperava. Achei que a minha aula soaria meio boba em sua concepção e suspirei imaginando se eu iria ser acometido pelo Affinococus, agente infeccioso que tem acometido o time do São Paulo. O agente faz a gente gaguejar, tremer e concatenar mal as idéias. De fato, o começo da aula foi cheio de afinadas, gagueiras e procura de um caminho para chegar ao público que, felizmente, era receptivo e generoso. Comecei contando um "causo", sempre um jeito de captar a atenção, de um rapaz que eu atendera recentemente, com um quadro de ansiedade que foi cronificando. Ele chegou ao consultório no exato momento em que o quadro ansioso começava a ficar depressivo. Contei o caso achando que não estava sendo muito interessante, mas não deixei o Superego tomar conta. Sabia que uma hora eu e o público iríamos nos aquecer, não fiquei alimentando o medo, não. Para alguma coisa servem os cabelos brancos que estão crescendo nas laterais. O que fez a aula engrenar foi uma pergunta quase imediata, quando falei em Carga Alostática. Um dos alunos, um senhor simpático, me perguntou o que era Carga Alostática. Naquele momento, a aula encaixou. Senti afinidade pelo colega e pela pergunta. Alostase é um conceito relativamente novo, que amplia o conceito de Homeostase. A Homeostase é a tendência do nosso organismo manter um funcionamento estável, com o meio interno e externo sempre em equilíbrio. Acontece que o equilíbrio perfeito é a Morte. Nada muda, nada se perturba, tudo está me perfeito equilíbrio no sistema. Alostase é um conceito mais dinâmico, de equilíbrio no desequilíbrio. Nossos sistemas corporais são atacados por estressores o tempo todo, que produzem alteração genética, imune, inflamatória e hormonal. As nossas células funcionam num conserto aparentemente caótico, mas olhando de forma mais ampla é uma inacreditável estrutura em rede, como se todas as células trabalhando em harmonia estivessem conectadas. A doença se instala quando essa estrutura em rede é abalada por uma agressão, como uma virose, um acidente ou uma crise de Pânico. A Carga Alostática é a carga de estressores ou de agressões que o organismo tem que equilibrar. Outro dia assisti a um filme sobre uma família que passa pela experiência devastadora da morte de um filho adolescente em um acidente automobilístico. O irmão mais velho, John, era uma espécie de ídolo do garoto, titular do time de sua universidade e pensa seriamente em abandonar o esporte, pois o jogo perde o sentido para ele. O filme, "O Número Cinco", é na verdade um ensaio sobre elaboração do luto, de uma carga de estresse que talvez seja a pior de todas: perder um filho. John volta a jogar com o apoio do time e vira uma espécie de líder espiritual dos seus colegas. Mas os seus pais começam a desmoronar. Depois de um tempo lutando contra a dor, a mãe começa a ter crises de Pânico e o pai não tem mais força para lutar contra a tristeza. Todos vão ter que encontrar um jeito de se refazer como pessoas e família. O filme mostra exatamente a reação de um grupo, uma família e as pessoas individualmente diante de uma imensa carga alostática, que é a elaboração da morte de um adolescente. Na aula, não lembrei de dar esse exemplo, mas acho que me saí bem na explicação e aí a aula engrenou, as pessoas ouviam sem sair da sala e até umas piadinhas deram certo. O palestrante também suportou a carga alostática da responsabilidade. A parte realmente legal é chegar à conclusão, que a Medicina Chinesa conhece há milênios, de que todos os sistemas de nosso corpo, todas as nossas células funcionam em rede, e que a boa absorção dos estressores deve fazer parte de toda orientação que um médico tem a oferecer a seus pacientes.

domingo, 22 de julho de 2012

Espaço C

Pois hoje vou citar uma cena de filme bastante inesperada. No Kung Fú Panda 2, o mestre está ensinando o engraçado Panda as artes milenares do Kung Fú. Nas primeiras cenas, a lição do dia não é um novo golpe ou técnica de luta. O mestre lhe passa um conceito e uma tarefa: encontrar a “Inner Peace”, que podemos traduzir, como o tradutor das legendas, em Paz Interior. Eu prefiro um outro termo, Paz Interna. Qual a diferença? Pouca, talvez nenhuma. Uma Paz Interna é algo que vai se construindo desde o mundo interno. Vivemos numa época de quase abolição do mundo interno, tudo precisa ser exteriorizado. Procurar e construir uma paz que seja interna não é assunto de manchetes.
O Panda rechonchudo tenta durante todo o filme entrar em comunhão com a gota de orvalho que passeava pelas mãos de seu mestre, uma forma de manifestar a paz. Acaba sendo molhado e se dando mal, até a cena decisiva, quando encontra a Paz Interna no campo de batalha, devolvendo ao inimigo os seus tiros de canhão, apenas com o uso das mãos. Fiquei com as duas cenas, do mestre guaxinim brincando com a gota de orvalho e com Poh encontrando a paz no meio da batalha contra o inimigo invencível. São cenas bonitas, mesmo num desenho feito para agradar adultos e crianças.
Há mais de uma década eu publiquei um livro sobre o Stress. Como era um livro voltado para leigos e os editores me deram uma certa carta branca editorial, resolvi folgar no barraco e colocar uns conceitos meio pessoais. Um deles era o Espaço C. Emprestei o termo de um livro de Semiótica de Umberto Eco. Durante um congresso de Imunologia, alguém perguntou a ele se os Linfócitos, células brancas envolvidas em nossa resposta imune, eram células inteligentes. Humberto Eco respondeu que, se as células tem, por exemplo, diante de um ataque, a capacidade de escolher entre três ou mais tipos de resposta e escolhe a mais adequada, então são células inteligentes. Se as células tem “Espaço C”, isso é, a capacidade de olhar a situação de fora e decidir, então, havia uma inteligência celular. Não sei dizer, até hoje, se a resposta imune tem um Espaço C. Sei que a resposta das células podem reproduzir analogicamente alguns estados mentais. Uma pessoa que tem um medo muito profundo de ser agredida pelo tratamento tende a responder muito pior ou ter muito mais efeitos colaterais do que outra, que confia ou tem um bom contato afetivo com o médico. Por isso que a tal relação médico/paciente é meio caminho andado no tratamento. As células, os sistemas, respondem de forma diferente a situações diferentes, mas não sei se tem autonomia de decidir. Mas nós, humanos, temos. Nossa Mente, no mais das vezes, tem um Espaço C . Na prática clínica, usamos o Espaço C diariamente, sobretudo em situações de risco ou de incerteza, quando uma decisão pode fazer diferença, até entre vida e morte. Como o Kung Fú Panda, temos que abstrair as balas de canhão das expectativas, das frustrações e mesmo das ameaças de pacientes e familiares para entrar no Espaço C, olhar a situação de fora e tomar a melhor decisão. Ou, às vezes, a decisão menos ruim.
Na época do livro (que está esgotado, felizmente, porque está desatualizado), o Espaço C me parecia um lugar de proteção de nossa lucidez, um lugar de serenidade. Um cantinho de nosso Córtex Pré Frontal. Hoje acho que ele pode ser mais amplo e empregar as áreas afetivas. Por isso que gosto tanto da cena do desenho. O mestre disse ao Panda gorducho que cada um deve encontrar, por seu próprio esforço, o Caminho para a sua Paz Interna. Só não disse que esse caminho costuma ser longo, bem longo.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Estado de Sítio

Hoje estava ouvindo uma história de um condomínio onde as pessoas estavam andando na garagem com uma velocidade inadequada. Feita a reclamação, da parte das pessoas com filhos pequenos, o síndico colocou tartarugas nas passagens, tentando conter os apressadinhos. Ledo engano. Os pilotos de garagem passaram a correr pelos boxes desocupados. Uma moradora abriu a porta para a filha descer e foi chamar o elevador. Por uma fração de segundo a menina não foi atropelada por uma moça cortando entre os espaços vazios. Uma fração de segundo.
Nesses dias que a cidade de São Paulo está sitiada pelo novo ataque do PCC, digo, dos motoristas de caminhão autônomos, observamos a nossa humanidade se esvaindo. A queda de braço entre o prefeito Kassab e os caminhoneiros esconde a face perversa da civilização autoestima, onde voltamos a usar nossos Cérebros Neandertais para acelerar, cortar, xingar nas ruas de São Paulo transformada pela barbárie.
As verbas do Metrô repousam intactas em alguma brecha de orçamento, provavelmente rendendo juros para eleições que se aproximam, enquanto que os caminhoneiros recusam a penalização da prefeitura em favor do transporte individual, dos carros que hoje são piores do que a indústria do tabaco em termos de violência, morte e invalidez parcial e permanente. A queda de braço colocou a cidade em Estado de Sítio.
Vamos sendo brutalizados pelos espaços exíguos, pela falta de planejamento ou de norte para tentar lidar com a situação. Pelo contrário, as montadoras continuam vindo para o Brasil, milhares de carros novos são postos em circulação todo dia e o povo, com uma psique bovina, vai se apertando mais e mais. Cada dia mais.
O estresse rouba das pessoas a sua natureza humana. Não duvido que a senhora que quase atropelou uma menina de dois anos, ou o garoto que matou uma menina de três anos com seu jet ski, não duvido que sejam pessoas de bem, que amem as suas famílias e não queriam, em hipótese nenhuma, transformar seu veículo em arma letal. Mas a sensação de aperto, de pressa, de frustração pode transformarnos, todo o dia, em bestas e feras. Como o trânsito de São Paulo e a ameaça de falta de gasolina podem também provocar. Precisamos do estabelecimento de zonas de reflexão e de diálogo. Urgentíssimamente.