Houve uma vez um começo de ano em que uma jornalista da Folha me ligou e informou que, naquele dia de começo de Janeiro, cinco caras, em lugares diferentes da cidade, haviam atirado em suas mulheres ou namoradas e tinham tentado (e a maioria conseguido) se matar em seguida. O que está acontecendo, doutor? Sei lá, pensei com meus botões, enquanto respondia que o período do ano de 20 de Dezembro a 05 de Janeiro é o mais perigoso do ano em termos de suicídios e violência doméstica. De maneira geral, o período de maior calor também é o mais animado em Hospitais Psiquiátricos e Delegacias. Observei também que o homem tem menos recurso para lidar com o abandono e pode partir para a saída evolutivamente estúpida de matar a pessoa que ama, apenas para não vê-la com outro cara.
No Congresso Brain, Behavior and Emotions, realizado em Porto Alegre, um colega apresentou um estudo americano que lançou uma nova luz nesse assunto; eu já sabia que, em escalas de estresse antigas, um divórcio pontuava 5 em um máximo de 6 pontos. Isso quer dizer que pior do que um divórcio, só a perda de um filho, um terremoto ou uma criança perdendo uma figura parental. Esse estudo demonstrou que uma separação tem uma escala de estresse muito superior a uma demissão, por exemplo, o que para mim foi uma surpresa. E lamento dizer que, apesar daquela conversa de que dói mais ser quem termina do quem “foi terminado”, o estudo mostra que tomar um pé na bunda é sempre bem pior do que dar. Términos inesperados ou repentinos pontuam mais. Isso se confirma nos consultórios, em quadros depressivos ou reações de luto diante da sensação dupla de rejeição e abandono que ocorre quando o parceiro, ou a parceira comunica que não quer mais e está terminando tudo.
Um trabalho aprofundando mais o tema lançou uma luz ainda mais interessante nesse assunto, com estudos de Ressonância Magnética Funcional: as vias neurais ativadas quando a pessoa sentia a dor do abandono são as mesmas mobilizadas por uma dor física. Sabe o que isso significa? O fim do “É psicológico”. A dor não tem causa física? “É psicológico”. Ou daqueles encaminhamentos simpáticos, do tipo: “Você não tem nada, vai fazer uma terapia”. Quando alguém descreve numa crise de angústia, uma dor tão forte como uma angina, ela está REALMENTE sentindo a dor de uma angina. Só não está sentindo uma dor que vem do seu Coração, mas da área do Cérebro que sente a dor do Coração. A dor é resultado da ativação de uma rede neural de dor, portanto não é “fingimento” ou “peripaque”.
O estudo mostra com felicidade que alguém que está com “o coração partido” não está necessariamente descrevendo uma sensação metaforicamente, ela pode ter realmente a sensação de que seu coração está partido em dois.
Hoje eu poderia responder para a jornalista que o sentimento de perda é dos mais perigosos que se pode ter em Psiquiatria. Alguém com a sensação de abandono deve receber toda atenção, sobretudo no período em que a sensação de perda evoca uma sensação física de dor. O desdobramento disso será usar medicamentos que atuem no Sistema Nervoso diminuindo a sensação de dor e a resposta inflamatória. Já foi colocado mais de uma vez que a Depressão e a Ansiedade já estão sendo entendidas como doenças inflamatórias. Vamos ter que desenvolver cada vez mais estratégias para ajudar as pessoas a lidar com a frustração e as dores de abandono. Isso pode evitar tragédias como um alguém que destrói a própria vida e de uma namorada porque não consegue tolerar que uma história de amor possa chegar ao fim.
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domingo, 10 de maio de 2015
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