Pois hoje vou citar uma cena de filme bastante inesperada. No Kung Fú Panda 2, o mestre está ensinando o engraçado Panda as artes milenares do Kung Fú. Nas primeiras cenas, a lição do dia não é um novo golpe ou técnica de luta. O mestre lhe passa um conceito e uma tarefa: encontrar a “Inner Peace”, que podemos traduzir, como o tradutor das legendas, em Paz Interior. Eu prefiro um outro termo, Paz Interna. Qual a diferença? Pouca, talvez nenhuma. Uma Paz Interna é algo que vai se construindo desde o mundo interno. Vivemos numa época de quase abolição do mundo interno, tudo precisa ser exteriorizado. Procurar e construir uma paz que seja interna não é assunto de manchetes.
O Panda rechonchudo tenta durante todo o filme entrar em comunhão com a gota de orvalho que passeava pelas mãos de seu mestre, uma forma de manifestar a paz. Acaba sendo molhado e se dando mal, até a cena decisiva, quando encontra a Paz Interna no campo de batalha, devolvendo ao inimigo os seus tiros de canhão, apenas com o uso das mãos. Fiquei com as duas cenas, do mestre guaxinim brincando com a gota de orvalho e com Poh encontrando a paz no meio da batalha contra o inimigo invencível. São cenas bonitas, mesmo num desenho feito para agradar adultos e crianças.
Há mais de uma década eu publiquei um livro sobre o Stress. Como era um livro voltado para leigos e os editores me deram uma certa carta branca editorial, resolvi folgar no barraco e colocar uns conceitos meio pessoais. Um deles era o Espaço C. Emprestei o termo de um livro de Semiótica de Umberto Eco. Durante um congresso de Imunologia, alguém perguntou a ele se os Linfócitos, células brancas envolvidas em nossa resposta imune, eram células inteligentes. Humberto Eco respondeu que, se as células tem, por exemplo, diante de um ataque, a capacidade de escolher entre três ou mais tipos de resposta e escolhe a mais adequada, então são células inteligentes. Se as células tem “Espaço C”, isso é, a capacidade de olhar a situação de fora e decidir, então, havia uma inteligência celular. Não sei dizer, até hoje, se a resposta imune tem um Espaço C. Sei que a resposta das células podem reproduzir analogicamente alguns estados mentais. Uma pessoa que tem um medo muito profundo de ser agredida pelo tratamento tende a responder muito pior ou ter muito mais efeitos colaterais do que outra, que confia ou tem um bom contato afetivo com o médico. Por isso que a tal relação médico/paciente é meio caminho andado no tratamento. As células, os sistemas, respondem de forma diferente a situações diferentes, mas não sei se tem autonomia de decidir. Mas nós, humanos, temos. Nossa Mente, no mais das vezes, tem um Espaço C . Na prática clínica, usamos o Espaço C diariamente, sobretudo em situações de risco ou de incerteza, quando uma decisão pode fazer diferença, até entre vida e morte. Como o Kung Fú Panda, temos que abstrair as balas de canhão das expectativas, das frustrações e mesmo das ameaças de pacientes e familiares para entrar no Espaço C, olhar a situação de fora e tomar a melhor decisão. Ou, às vezes, a decisão menos ruim.
Na época do livro (que está esgotado, felizmente, porque está desatualizado), o Espaço C me parecia um lugar de proteção de nossa lucidez, um lugar de serenidade. Um cantinho de nosso Córtex Pré Frontal. Hoje acho que ele pode ser mais amplo e empregar as áreas afetivas. Por isso que gosto tanto da cena do desenho. O mestre disse ao Panda gorducho que cada um deve encontrar, por seu próprio esforço, o Caminho para a sua Paz Interna. Só não disse que esse caminho costuma ser longo, bem longo.
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domingo, 22 de julho de 2012
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