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domingo, 25 de maio de 2014

A Paz, Fez um Lar na Revolução

Estava assistindo uma pequena palestra de uma senhora, a pacifista Scilla Elworthy, numa série na internet chamada TED Talks. São pequenas inserções de ideias que valem a pena espalhar, segundo o subtítulo dessas apresentações. Scilla falou sobre Não Violência ou, mais importante, como enfrentar a Opressão em suas diversas formas com estratégias não violentas. Classificou a Violência institucional, ou seja, a praticada por Estados, Forças Policiais ou mesmo Empresas como Violência Política, usada para intimidar; Violência Psíquica, usada para fragilizar emocionalmente; e Violência Física, usada para aterrorizar. Esse pode ser o componente da Violência Doméstica e de várias formas de relação violenta, entre pessoas, grupos, estratos da sociedade.
Scilla citou uma pacifista que é a sua heroína, uma mulher chamada Aung San Suu Kyi, que atua em Burma (se o leitor pensa que eu sei onde fica Burma, está muito enganado). Ela liderava uma manifestação de estudantes quando depararam com uma tropa de choque, com várias metralhadoras apontadas para os jovens. Aung San notou que os jovens que seguravam as armas estavam tão assustados quanto seus seguidores. Calmamente, ela mandou seu grupo sentar no asfalto e caminhou serenamente até as armas apontadas, com tanta calma e clareza que pode caminhar até a arma, colocar a sua mão nela e baixá-la, suavemente. Ninguém morreu, nem virou um assassino naquele dia. É óbvio que esse tipo de paz interna e coragem precisa ser internalizada por muitos anos e inclui a disposição serena de entregar a própria vida para algo que valha a pena. Falei em um post anterior sobre a freira Dorothy Stang, morta no Pará por um pistoleiro, a mando de pessoas que seu trabalho incomodava. É preciso um laço muito profundo com uma causa, um caminho que se julgue ser o caminho correto, para se caminhar na direção de uma arma, pronta a disparar.
No filme “O Lobo de Wall Street”, Scorsese carrega na tinta da violência psíquica. Terminei o filme exausto com aquilo. Para quem não viu, o filme trata da trajetória verídica de um corretor do mercado financeiro que fez fama e fortuna desviando dinheiro de investidores para dentro de seu próprio bolso; e montou uma corretora especializada na prática. O filme trata de sua ascensão e queda. O que impressiona é a sua absoluta convicção em seu direito de enganar, persuadir e lesar pequenos e grandes investidores com a força de sua motivação. Ele termina a sua vida como um guru de autoajuda, ensinando às pessoas comuns como canalizar a própria energia para o sucesso pessoal.
Na prática clínica é possível constatar que o Ego é uma estrutura que faz muita falta para quem não o desenvolveu adequadamente, assim como destrói a vida de quem o tem poderoso demais. Ficar dentro de um universo de projetos e metas pessoais tem essa mesma característica: quem não tem meta nem projeto pessoal vive dissolvido nas águas da vida; quem se aferra aos seus projetos pessoais e objetivos como se não houvesse mais nada a se fazer, costuma cair no mesmo vazio do personagem do filme.
Posso notar que pessoas como a ativista caminhando suavemente na direção das metralhadoras, costumam ter mais paz interior e compaixão pelos seus pares. Fazer algo pelo outro é frequentemente mais divertido do que passar a vida obsessivamente remoendo o Eu e o Meu. Não tenho dúvida que vivemos num mundo que premia e coloca em cargos de liderança pessoas como o Lobo de Wall Street. Mas a imagem da pacifista enfrentando a violência com a paz de seu coração é bem mais agradável de levarmos como inspiração, para começarmos a semana.

domingo, 22 de julho de 2012

Espaço C

Pois hoje vou citar uma cena de filme bastante inesperada. No Kung Fú Panda 2, o mestre está ensinando o engraçado Panda as artes milenares do Kung Fú. Nas primeiras cenas, a lição do dia não é um novo golpe ou técnica de luta. O mestre lhe passa um conceito e uma tarefa: encontrar a “Inner Peace”, que podemos traduzir, como o tradutor das legendas, em Paz Interior. Eu prefiro um outro termo, Paz Interna. Qual a diferença? Pouca, talvez nenhuma. Uma Paz Interna é algo que vai se construindo desde o mundo interno. Vivemos numa época de quase abolição do mundo interno, tudo precisa ser exteriorizado. Procurar e construir uma paz que seja interna não é assunto de manchetes.
O Panda rechonchudo tenta durante todo o filme entrar em comunhão com a gota de orvalho que passeava pelas mãos de seu mestre, uma forma de manifestar a paz. Acaba sendo molhado e se dando mal, até a cena decisiva, quando encontra a Paz Interna no campo de batalha, devolvendo ao inimigo os seus tiros de canhão, apenas com o uso das mãos. Fiquei com as duas cenas, do mestre guaxinim brincando com a gota de orvalho e com Poh encontrando a paz no meio da batalha contra o inimigo invencível. São cenas bonitas, mesmo num desenho feito para agradar adultos e crianças.
Há mais de uma década eu publiquei um livro sobre o Stress. Como era um livro voltado para leigos e os editores me deram uma certa carta branca editorial, resolvi folgar no barraco e colocar uns conceitos meio pessoais. Um deles era o Espaço C. Emprestei o termo de um livro de Semiótica de Umberto Eco. Durante um congresso de Imunologia, alguém perguntou a ele se os Linfócitos, células brancas envolvidas em nossa resposta imune, eram células inteligentes. Humberto Eco respondeu que, se as células tem, por exemplo, diante de um ataque, a capacidade de escolher entre três ou mais tipos de resposta e escolhe a mais adequada, então são células inteligentes. Se as células tem “Espaço C”, isso é, a capacidade de olhar a situação de fora e decidir, então, havia uma inteligência celular. Não sei dizer, até hoje, se a resposta imune tem um Espaço C. Sei que a resposta das células podem reproduzir analogicamente alguns estados mentais. Uma pessoa que tem um medo muito profundo de ser agredida pelo tratamento tende a responder muito pior ou ter muito mais efeitos colaterais do que outra, que confia ou tem um bom contato afetivo com o médico. Por isso que a tal relação médico/paciente é meio caminho andado no tratamento. As células, os sistemas, respondem de forma diferente a situações diferentes, mas não sei se tem autonomia de decidir. Mas nós, humanos, temos. Nossa Mente, no mais das vezes, tem um Espaço C . Na prática clínica, usamos o Espaço C diariamente, sobretudo em situações de risco ou de incerteza, quando uma decisão pode fazer diferença, até entre vida e morte. Como o Kung Fú Panda, temos que abstrair as balas de canhão das expectativas, das frustrações e mesmo das ameaças de pacientes e familiares para entrar no Espaço C, olhar a situação de fora e tomar a melhor decisão. Ou, às vezes, a decisão menos ruim.
Na época do livro (que está esgotado, felizmente, porque está desatualizado), o Espaço C me parecia um lugar de proteção de nossa lucidez, um lugar de serenidade. Um cantinho de nosso Córtex Pré Frontal. Hoje acho que ele pode ser mais amplo e empregar as áreas afetivas. Por isso que gosto tanto da cena do desenho. O mestre disse ao Panda gorducho que cada um deve encontrar, por seu próprio esforço, o Caminho para a sua Paz Interna. Só não disse que esse caminho costuma ser longo, bem longo.