Estava assistindo uma pequena palestra de uma senhora, a pacifista Scilla Elworthy, numa série na internet chamada TED Talks. São pequenas inserções de ideias que valem a pena espalhar, segundo o subtítulo dessas apresentações. Scilla falou sobre Não Violência ou, mais importante, como enfrentar a Opressão em suas diversas formas com estratégias não violentas. Classificou a Violência institucional, ou seja, a praticada por Estados, Forças Policiais ou mesmo Empresas como Violência Política, usada para intimidar; Violência Psíquica, usada para fragilizar emocionalmente; e Violência Física, usada para aterrorizar. Esse pode ser o componente da Violência Doméstica e de várias formas de relação violenta, entre pessoas, grupos, estratos da sociedade.
Scilla citou uma pacifista que é a sua heroína, uma mulher chamada Aung San Suu Kyi, que atua em Burma (se o leitor pensa que eu sei onde fica Burma, está muito enganado). Ela liderava uma manifestação de estudantes quando depararam com uma tropa de choque, com várias metralhadoras apontadas para os jovens. Aung San notou que os jovens que seguravam as armas estavam tão assustados quanto seus seguidores. Calmamente, ela mandou seu grupo sentar no asfalto e caminhou serenamente até as armas apontadas, com tanta calma e clareza que pode caminhar até a arma, colocar a sua mão nela e baixá-la, suavemente. Ninguém morreu, nem virou um assassino naquele dia. É óbvio que esse tipo de paz interna e coragem precisa ser internalizada por muitos anos e inclui a disposição serena de entregar a própria vida para algo que valha a pena. Falei em um post anterior sobre a freira Dorothy Stang, morta no Pará por um pistoleiro, a mando de pessoas que seu trabalho incomodava. É preciso um laço muito profundo com uma causa, um caminho que se julgue ser o caminho correto, para se caminhar na direção de uma arma, pronta a disparar.
No filme “O Lobo de Wall Street”, Scorsese carrega na tinta da violência psíquica. Terminei o filme exausto com aquilo. Para quem não viu, o filme trata da trajetória verídica de um corretor do mercado financeiro que fez fama e fortuna desviando dinheiro de investidores para dentro de seu próprio bolso; e montou uma corretora especializada na prática. O filme trata de sua ascensão e queda. O que impressiona é a sua absoluta convicção em seu direito de enganar, persuadir e lesar pequenos e grandes investidores com a força de sua motivação. Ele termina a sua vida como um guru de autoajuda, ensinando às pessoas comuns como canalizar a própria energia para o sucesso pessoal.
Na prática clínica é possível constatar que o Ego é uma estrutura que faz muita falta para quem não o desenvolveu adequadamente, assim como destrói a vida de quem o tem poderoso demais. Ficar dentro de um universo de projetos e metas pessoais tem essa mesma característica: quem não tem meta nem projeto pessoal vive dissolvido nas águas da vida; quem se aferra aos seus projetos pessoais e objetivos como se não houvesse mais nada a se fazer, costuma cair no mesmo vazio do personagem do filme.
Posso notar que pessoas como a ativista caminhando suavemente na direção das metralhadoras, costumam ter mais paz interior e compaixão pelos seus pares. Fazer algo pelo outro é frequentemente mais divertido do que passar a vida obsessivamente remoendo o Eu e o Meu. Não tenho dúvida que vivemos num mundo que premia e coloca em cargos de liderança pessoas como o Lobo de Wall Street. Mas a imagem da pacifista enfrentando a violência com a paz de seu coração é bem mais agradável de levarmos como inspiração, para começarmos a semana.
Mostrando postagens com marcador Paz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paz. Mostrar todas as postagens
domingo, 25 de maio de 2014
domingo, 5 de dezembro de 2010
A Paz Invadindo Meu Coração
Esse título me ocorreu junto com a música belíssima de Gilberto Gil: "Vim parar na beira do cais/ Onde a estrada chegou ao fim/ Onde o fim da tarde é lilás/ Onde o sol arrebenta em mim/ O lamento de tantos ais". A música descreve o poeta se refugiando no final de uma tarde de briga, de sofrimento amoroso, do "Só a guerra faz nosso amor em paz". Pessoas sofrem pela presença e pela ausência de parceiro e de parceria. Não é incomum que a paz venha acompanhada da tristeza das batalhas, amorosas ou não. O fato é que somos sempre compelidos à guerra. Somos soldados do BOPE invadindo as favelas de nossas dificuldades, tentando vencer as batalhas que não vencemos: batalhas para perder peso, batalhas para encontrar o verdadeiro amor, batalhas para encontrar o conforto econômico e o futuro protegido, batalhas que nos consomem no dia a dia deixando sempre um gosto de que algo ainda não está bom no final da tarde lilás.
Uma das minhas birras com os livros de AutoAjuda (os terapeutas costumam torcer o nariz com esses livros que são como locutores de FM berrando aos nossos ouvidos que devemos ser felizes, magros, animados, positivos) é justamente essa coisa de jogar sempre para o amanhã o que poderia ser vivido hoje. Pense positivo e conquiste o carro, o namorado, a mansão de seus sonhos. Outro dia estava lendo um jornal e fiquei emocionado com uma matéria sobre a religião no dia a dia das pessoas; o repórter colheu um depoimento de uma senhora muito simples que havia se convertido ao Budismo e descobrira que poderia ser útil e feliz sendo uma boa empregada doméstica. Desde este insight imenso, ela cultivava uma atitude alegre e caprichosa em tudo o que fazia, tornando-se uma ótima profissional, além de realizada. Muita gente torceria o nariz diante desse texto dizendo que isso é estimular a alienação e o conformismo, as pessoas precisam querer crescer, a senhora deveria voltar a escola, ser empreendedorista e virar diarista, montar uma empresa de faxinas, fazer MBA e depois, sim, após o terceiro infarto do miocárdio, gozar da alegria da meta alcançada. Esses são nossos valores, ou a ausência deles, que nos tornam alienados de algumas verdades simples, que costumam ser as maiores verdades: não temos como antever e muito menos controlar o futuro. Gastamos muita energia com ele. Devemos ser imprevidentes, viver o limite, desprezar os planejamentos? Muito pelo contrário. Podemos planejar, cuidar e expandir as fronteiras de nosso futuro, é uma das vantagens de nosso Neocortex recém conquistado em nossa jornada evolutiva. Mas a serenidade da senhora, que transforma cada pequeno ato de limpeza e arrumação com algo transcendente é um exemplo do estado neurofisiológico que devemos praticar. Todo dia. Um estado que me lembra a paz, inavadindo meu coração.
Uma das minhas birras com os livros de AutoAjuda (os terapeutas costumam torcer o nariz com esses livros que são como locutores de FM berrando aos nossos ouvidos que devemos ser felizes, magros, animados, positivos) é justamente essa coisa de jogar sempre para o amanhã o que poderia ser vivido hoje. Pense positivo e conquiste o carro, o namorado, a mansão de seus sonhos. Outro dia estava lendo um jornal e fiquei emocionado com uma matéria sobre a religião no dia a dia das pessoas; o repórter colheu um depoimento de uma senhora muito simples que havia se convertido ao Budismo e descobrira que poderia ser útil e feliz sendo uma boa empregada doméstica. Desde este insight imenso, ela cultivava uma atitude alegre e caprichosa em tudo o que fazia, tornando-se uma ótima profissional, além de realizada. Muita gente torceria o nariz diante desse texto dizendo que isso é estimular a alienação e o conformismo, as pessoas precisam querer crescer, a senhora deveria voltar a escola, ser empreendedorista e virar diarista, montar uma empresa de faxinas, fazer MBA e depois, sim, após o terceiro infarto do miocárdio, gozar da alegria da meta alcançada. Esses são nossos valores, ou a ausência deles, que nos tornam alienados de algumas verdades simples, que costumam ser as maiores verdades: não temos como antever e muito menos controlar o futuro. Gastamos muita energia com ele. Devemos ser imprevidentes, viver o limite, desprezar os planejamentos? Muito pelo contrário. Podemos planejar, cuidar e expandir as fronteiras de nosso futuro, é uma das vantagens de nosso Neocortex recém conquistado em nossa jornada evolutiva. Mas a serenidade da senhora, que transforma cada pequeno ato de limpeza e arrumação com algo transcendente é um exemplo do estado neurofisiológico que devemos praticar. Todo dia. Um estado que me lembra a paz, inavadindo meu coração.
Assinar:
Comentários (Atom)
