Lamento pelos poucos e bons leitores desse blog, mas vou ter que falar sobre um filme desagradável. Isso torna o post particularmente inútil, entre outros posts inúteis, como aqueles em que eu me dedico a atacar o presidente (?) do São Paulo, Juvenal Juvêncio. Escrever sobre um filme desagradável é convidar o leitor a evitar o mesmo. Mesmo assim, vou escrever sobre ele e sugiro ao leitor que evite esse texto. É o máximo que posso fazer.
O filme é “O Mestre”, que valeu ao bom Joaquin Phoenix a indicação para o Oscar de 2013 de Melhor Ator. Joaquin faz um personagem tão absolutamente repulsivo que era de se esperar que não levasse a estatueta. O filme se passa nos anos 50, após a Segunda Guerra, onde Charlie lutou com japoneses no Pacífico. Ele é um marinheiro que volta ao seu país e passa a ter um comportamento estranho, com episódios de agressividade imotivada, chegando a tentar trabalhar como fotógrafo, mas ataca sem motivo um cliente. Vai trabalhar em plantações de algodão e tenta envenenar um lavrador, novamente sem motivo nenhum. O ator compõe um personagem sempre crispado, a postura encurvada, o rosto com uma máscara de tensão e caretas. O psiquiatra que vos fala já ia diagnosticando algo do espectro da Esquizofrenia, mas o filme segue e nada confirma, ou exclui, a hipótese. Quando o estranho personagem abandona o campo e passa a vagar sem destino, entregue cada vez mais ao abuso alcoólico, ele encontra o sujeito que dá título ao filme, o tal “Mestre”. O Mestre é o líder de uma espécie de seita, também dado a excessos alcoólicos, entre outros hábitos repulsivos. Esse “Mestre” toma o marinheiro perdido como seu protegido e passa a fazer sessões de “Processamento”, que consistem em fazer trabalho de levantamento de traumas, incestos e violências que Charlie teria sofrido ou perpretado. Ele vai entrando e fazendo parte daquele grupo, com adoração e adesão total ao seu líder. Quem o critica ou questiona é prontamente espancado por Charlie (como a torcida uniformizada que vem ameaçando fisicamente os opositores de Juvenal Juvêncio). Tudo parece caminhar para um desfecho trágico, até Charlie aproveitar um dos experimentos do “Mestre” para sumir no mundo. O que vai acontecer depois eu não vou dizer, para não estragar o filme que alguém queira assistir, mesmo alertados que é um filme desagradável.
O filme provavelmente é um relato de algum dissidente da Cientologia de L Ron Hubbard. As técnicas de processamento que o líder usa com o perturbado seguidor, foram e são, praticados pelos membros dessa seita, e visam desatar os nós de traumas passados e libertar seus seguidores de suas aberrações, ou neuroses, medos, traumas para poderem se expressar como seres espirituais e libertos de suas amarras psíquicas e físicas. O retrato do “Mestre” é crú, de um homem vaidoso,dado a explosões inesperadas e bebedeiras incontroláveis. Ele é sempre acompanhado por uma filha fanática e incestuosa, que representa o fabuloso aparato que se revestiu esse movimento nas últimas décadas, sempre tentando transformar o tal “Mestre” em um Semideus que não pode ser contrariado, ou questionado, em nenhuma hipótese.
O leitor deve estar se perguntando, assim como este escriba, qual a necessidade de escrever esse texto, já que ele não recomenda o filme nem vai conseguir mudar a sinuca de bico em que se meteu a diretoria do São Paulo. Acho que o filme muito me impressionou pela potência das cutucadas que os caras dão nos membros dessa seita. Mexer com o Inconsciente das pessoas demanda um cuidado e um respeito absolutos, além de conhecimento de causa. Hoje as pessoas “processam” traumas e mexem nos Inconscientes alheios em Vivências Corporativas, Constelações, Regressões e Workshops de final de semana. Os resultados nem sempre são bons.
Penso que esse filme mostra o nascimento da Cientologia e o germe do que um processo que quase destruiu o personagem principal do filme e outras tantas pessoas, inclusive o “Mestre”, que morreu só em seu rancho, tomando remédios para sua Paranóia progressiva. Escrevo esse texto para lembrar a quem se aventura nesses caminhos e feridas psíquicas para fazê-lo com cuidado e orientação. E, finalmente, sempre, sempre, desconfiar de quem se acha um “Mestre” absoluto, inquestionável. Morrer é parar de fazer perguntas.
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quarta-feira, 7 de agosto de 2013
sábado, 20 de julho de 2013
Too Much Mind
Peço desculpas aos fiéis leitores dessas mal tecladas. Depois de minhas férias, tive uma semana daquelas e o resultado é um grande tempo sem posts nesse blog, que está ficando um pouco bissexto. Depois de mais de trezentos textos, ainda há muito o que se falar, embora às vezes bata uma preguiça ou fantasias de encerrar essa tribuna virtual. A maioria dos blogs morrem assim na blogosfera, ouvi numa entrevista no rádio. Vamos continuar alimentando este aqui, que teve e tem lá seus momentos melhores e piores, como tudo nessa vida.
Nesta semana bem bombada fui convidado a dar uma entrevista sobre uma pauta bem difícil: a necessidade, ou não, que temos que provar as coisas para as pessoas, para o Outro. Bola quadrada para psiquiatras: não há nenhum quadro clínico ou falha de neurotransmissão para discutir. Bola quadradérrima para psicoterapeutas: como tirar um protocolo de ação para essa questão? Sem mencionar o sotaque de Autoajuda, o que queima definitivamente o filme de qualquer um. Dá para viver sem querer provar nada para ninguém, como cantava Renato Russo? Somos testados todo dia e avaliados por pares, clientes, chefes, afetos e desafetos. Dr House zelava muito pela sua capacidade de se lixar para o que pensam dele. Isso valeu boas risadas aos expectadores da série, e socos, tiros, prisões e perseguições ao personagem principal, que realmente não era bom candidato a Mr Simpatia.
Vou citar nessa entrevista, se ela ocorrer, uma cena que eu gosto muito de um filme, que já devo ter citado em algum desses trezentos e muitos posts: é uma cena com um ator limitado, Tom Cruise, no filme melosão-que-eu-adoro “O Último Samurai”. Para quem não lembra, o filme conta a história de um coronel do exército americano, alcoólatra e traumatizado com as atrocidades de guerra, que é contratado para treinar o exército japonês. O objetivo era combater os samurais, obstáculos à modernização do Japão. O personagem de Tom Cruise cai prisioneiro dos samurais e passa um inverno nas montanhas geladas, aprendendo sua visão da vida e curando suas feridas. A cena a que eu me refiro é uma em que ele está treinando com um samurai que não vai muito com a sua cara. Simulam uma luta de espada com porretes longos. O americano leva um tremendo e inevitável cacete do japa. Quanto mais se esforça, mais acaba no chão, comendo uma humilhação empoeirada. Um jovem samurai se aproxima e observa qual é o seu problema: “Too much mind” Como assim? Você pensa demais, cara pálida. Pensa na técnica correta, na raiva do adversário, no medo de levar mais porrada, e sobretudo, se preocupa com os olhos risonhos de quem está assistindo. Ele entende rápido, como acontece no cinema, e já equilibra a luta com o samurai que fez aquilo a sua vida toda. Mas o princípio vale, e responde uma questão dessa entrevista: a questão não é ter ou não que provar algo para alguém. A questão é o peso que carregamos por esses infinitos pares de olhos que ficam nos olhando, pelo menos em nosso Imaginário. O que vão falar de mim? Como vão me julgar?
Uma prova de maturidade é estabelecer uma convicção sobre o que somos, tornando a opinião alheia menos importante com o tempo. Como no caso do aprendiz de samurai, sair do “too much mind” e prestar atenção a cada momento, a cada tarefa, esquecendo temporariamente desses pares de olhos que nos espreitam e suas vozes abafadas. Ter que provar alguma coisa, ou não, faz parte de nossas vidas. Todas as vidas. Mas o único jeito de manejar a espada com liberdade é se descolar das infinitas opiniões alheias. Mais uma vez, é mais fácil falar do que fazer.
Nesta semana bem bombada fui convidado a dar uma entrevista sobre uma pauta bem difícil: a necessidade, ou não, que temos que provar as coisas para as pessoas, para o Outro. Bola quadrada para psiquiatras: não há nenhum quadro clínico ou falha de neurotransmissão para discutir. Bola quadradérrima para psicoterapeutas: como tirar um protocolo de ação para essa questão? Sem mencionar o sotaque de Autoajuda, o que queima definitivamente o filme de qualquer um. Dá para viver sem querer provar nada para ninguém, como cantava Renato Russo? Somos testados todo dia e avaliados por pares, clientes, chefes, afetos e desafetos. Dr House zelava muito pela sua capacidade de se lixar para o que pensam dele. Isso valeu boas risadas aos expectadores da série, e socos, tiros, prisões e perseguições ao personagem principal, que realmente não era bom candidato a Mr Simpatia.
Vou citar nessa entrevista, se ela ocorrer, uma cena que eu gosto muito de um filme, que já devo ter citado em algum desses trezentos e muitos posts: é uma cena com um ator limitado, Tom Cruise, no filme melosão-que-eu-adoro “O Último Samurai”. Para quem não lembra, o filme conta a história de um coronel do exército americano, alcoólatra e traumatizado com as atrocidades de guerra, que é contratado para treinar o exército japonês. O objetivo era combater os samurais, obstáculos à modernização do Japão. O personagem de Tom Cruise cai prisioneiro dos samurais e passa um inverno nas montanhas geladas, aprendendo sua visão da vida e curando suas feridas. A cena a que eu me refiro é uma em que ele está treinando com um samurai que não vai muito com a sua cara. Simulam uma luta de espada com porretes longos. O americano leva um tremendo e inevitável cacete do japa. Quanto mais se esforça, mais acaba no chão, comendo uma humilhação empoeirada. Um jovem samurai se aproxima e observa qual é o seu problema: “Too much mind” Como assim? Você pensa demais, cara pálida. Pensa na técnica correta, na raiva do adversário, no medo de levar mais porrada, e sobretudo, se preocupa com os olhos risonhos de quem está assistindo. Ele entende rápido, como acontece no cinema, e já equilibra a luta com o samurai que fez aquilo a sua vida toda. Mas o princípio vale, e responde uma questão dessa entrevista: a questão não é ter ou não que provar algo para alguém. A questão é o peso que carregamos por esses infinitos pares de olhos que ficam nos olhando, pelo menos em nosso Imaginário. O que vão falar de mim? Como vão me julgar?
Uma prova de maturidade é estabelecer uma convicção sobre o que somos, tornando a opinião alheia menos importante com o tempo. Como no caso do aprendiz de samurai, sair do “too much mind” e prestar atenção a cada momento, a cada tarefa, esquecendo temporariamente desses pares de olhos que nos espreitam e suas vozes abafadas. Ter que provar alguma coisa, ou não, faz parte de nossas vidas. Todas as vidas. Mas o único jeito de manejar a espada com liberdade é se descolar das infinitas opiniões alheias. Mais uma vez, é mais fácil falar do que fazer.
sábado, 29 de junho de 2013
Efeitos Colaterais
Finalmente assisti ao novo filme de Soderbergh, “Side Effects” (título lamentável brasileiro- “Terapia de Risco”). Os pacientes trazem o filme para dentro do consultório, lá vou eu ver do que se trata. A impressão inicial é que seria um filme que levantaria o véu dos perigos dos psicofármacos e as relações igualmente perigosas entre psiquiatras e os laboratórios, que devem uma significativa fatia de seus lucros a remédios dessa linha.
Para quem não assistiu o filme, vou tentar não entregar o final, mas não posso garantí-lo. O filme começa com a saída de um rapaz, condenado por crime financeiro, da prisão. A sua saída, que deveria ser motivo de alegria, começa a provocar em sua jovem esposa um comportamento progressivamente autodestrutivo. Sem motivo aparente, ela acelera o seu automóvel contra o muro do estacionamento. No Pronto Socorro, ela é atendida por um jovem e atencioso psiquiatra, que opta por não interná-la em Hospital Psiquiátrico. Ela vai para seu consultório, onde o seu quadro depressivo vai se aprofundando em meio à má resposta aos medicamentos prescritos. Discutindo o caso com uma colega, psiquiatra que já havia atendido a paciente em crise anterior, ele menciona a má resposta da paciente ao IRSR (esqueçam a sigla). A colega sugere que ele teste a nova droga, Ablixa (nome fictício). A paciente melhora, mas continua apresentando episódios de agressividade, voltada a si própria e, tempos depois, contra o seu marido. Durante um episódios de sonambulismo, a moça esfaqueia e mata o seu marido, voltando a dormir em seguida. Pronto. Muito pano para manga. Medicamento novo com efeitos colaterais desconhecidos e subvalorizados pelo establishment dos laboratórios. Psiquiatra que testa medicamentos contra a ansiedade em seus pacientes particulares. Promotor que tenta obrigar o psiquiatra a depor contra a sua paciente para evitar ser responsabilizado pelo crime, já que ele prescreveu o tal do Ablixa. Muitos panos nessas mangas. A paciente vai até os programas femininos para denunciar a droga que provocou a tragédia. Muitas e importantes questões, algumas embaraçosas. Se a paciente tinha tendências autoagressivas, por que o médico não a internou? O fato de estar trabalhando demais prejudicou o seu julgamento? Como ele não valorizou os episódios anteriores de sonambulismo da paciente? Ele não estava atualizado sobre esses efeitos colaterais?
Para piorar o meu já avançado mal estar, a vida do bem intencionado psiquiatra se dissolve completamente: a mídia o persegue e ele não pode se defender, para não comprometer o Sigilo Profissional. Seus colegas o expulsam do consultório, seus pacientes desaparecem. Pensei em parar de ver o filme. Infelizmente, ou felizmente, para mim, o filme dá uma virada nesse ponto. As questões levantadas, tão importantes quanto delicadas, ficam meio largadas, para o filme virar uma investigação de uma teoria de conspiração. Que pena.
Algumas questões importantes que ficaram abandonadas nessa virada do filme: há uma excessiva ênfase na medicalização dos transtornos depressivos. A paciente pergunta em uma consulta se não haveria um caminho diferente, ou complementar ao medicamentoso, para conseguir a melhora. O cara disse que não. Não é verdade. Os medicamentos podem gerar efeitos imprevisíveis, aumentando a impulsividade dos pacientes. Geralmente, não a ponto de gerar uma tragédia, mas esses efeitos precisam ser monitorados e corrigidos pelo médico quando aparecem. Finalmente, uma Psiquiatria só baseada na coleta de sintomas pode fazer um Zé Mané ignorar um sinal claro que está diante de um caso de Simulação (em inglês, Malingering) e não diante de uma verdadeira alteração de humor. O sinal vem de dentro de seus intestinos (do médico), quando a Depressão se manifesta de forma não linear, bem como as alterações de sono.Fica faltando um pedaço, o que o rapaz ignorou por um bom tempo.
Finalmente, o psiquiatra tenta e deve tentar, sempre, evitar uma internação. Isso o expõe a riscos, assim como expõe o paciente. Uma internação psiquiátrica tem muitas implicações imediatas e tardias na vida de uma pessoa. É um procedimento guardado para proteção de vidas. O filme mostra um psiquiatra que decide correr o risco, pelo o que imagina ser o melhor para a sua paciente. Várias condutas médicas podem ter bons e maus resultados. A diferença está na Atenção Plena do médico aos mesmos, para poder corrigir ou mudar o curso das coisas, quando necessário.
Para quem não assistiu o filme, vou tentar não entregar o final, mas não posso garantí-lo. O filme começa com a saída de um rapaz, condenado por crime financeiro, da prisão. A sua saída, que deveria ser motivo de alegria, começa a provocar em sua jovem esposa um comportamento progressivamente autodestrutivo. Sem motivo aparente, ela acelera o seu automóvel contra o muro do estacionamento. No Pronto Socorro, ela é atendida por um jovem e atencioso psiquiatra, que opta por não interná-la em Hospital Psiquiátrico. Ela vai para seu consultório, onde o seu quadro depressivo vai se aprofundando em meio à má resposta aos medicamentos prescritos. Discutindo o caso com uma colega, psiquiatra que já havia atendido a paciente em crise anterior, ele menciona a má resposta da paciente ao IRSR (esqueçam a sigla). A colega sugere que ele teste a nova droga, Ablixa (nome fictício). A paciente melhora, mas continua apresentando episódios de agressividade, voltada a si própria e, tempos depois, contra o seu marido. Durante um episódios de sonambulismo, a moça esfaqueia e mata o seu marido, voltando a dormir em seguida. Pronto. Muito pano para manga. Medicamento novo com efeitos colaterais desconhecidos e subvalorizados pelo establishment dos laboratórios. Psiquiatra que testa medicamentos contra a ansiedade em seus pacientes particulares. Promotor que tenta obrigar o psiquiatra a depor contra a sua paciente para evitar ser responsabilizado pelo crime, já que ele prescreveu o tal do Ablixa. Muitos panos nessas mangas. A paciente vai até os programas femininos para denunciar a droga que provocou a tragédia. Muitas e importantes questões, algumas embaraçosas. Se a paciente tinha tendências autoagressivas, por que o médico não a internou? O fato de estar trabalhando demais prejudicou o seu julgamento? Como ele não valorizou os episódios anteriores de sonambulismo da paciente? Ele não estava atualizado sobre esses efeitos colaterais?
Para piorar o meu já avançado mal estar, a vida do bem intencionado psiquiatra se dissolve completamente: a mídia o persegue e ele não pode se defender, para não comprometer o Sigilo Profissional. Seus colegas o expulsam do consultório, seus pacientes desaparecem. Pensei em parar de ver o filme. Infelizmente, ou felizmente, para mim, o filme dá uma virada nesse ponto. As questões levantadas, tão importantes quanto delicadas, ficam meio largadas, para o filme virar uma investigação de uma teoria de conspiração. Que pena.
Algumas questões importantes que ficaram abandonadas nessa virada do filme: há uma excessiva ênfase na medicalização dos transtornos depressivos. A paciente pergunta em uma consulta se não haveria um caminho diferente, ou complementar ao medicamentoso, para conseguir a melhora. O cara disse que não. Não é verdade. Os medicamentos podem gerar efeitos imprevisíveis, aumentando a impulsividade dos pacientes. Geralmente, não a ponto de gerar uma tragédia, mas esses efeitos precisam ser monitorados e corrigidos pelo médico quando aparecem. Finalmente, uma Psiquiatria só baseada na coleta de sintomas pode fazer um Zé Mané ignorar um sinal claro que está diante de um caso de Simulação (em inglês, Malingering) e não diante de uma verdadeira alteração de humor. O sinal vem de dentro de seus intestinos (do médico), quando a Depressão se manifesta de forma não linear, bem como as alterações de sono.Fica faltando um pedaço, o que o rapaz ignorou por um bom tempo.
Finalmente, o psiquiatra tenta e deve tentar, sempre, evitar uma internação. Isso o expõe a riscos, assim como expõe o paciente. Uma internação psiquiátrica tem muitas implicações imediatas e tardias na vida de uma pessoa. É um procedimento guardado para proteção de vidas. O filme mostra um psiquiatra que decide correr o risco, pelo o que imagina ser o melhor para a sua paciente. Várias condutas médicas podem ter bons e maus resultados. A diferença está na Atenção Plena do médico aos mesmos, para poder corrigir ou mudar o curso das coisas, quando necessário.
sábado, 1 de junho de 2013
O Herói e o Trickster
Ontem estava me perguntando ao final do terceiro episódio da franquia “Homem de Ferro” (filmes não são mais filmes, mas franquias em vários episódios e possibilidades de consumo), o que eu estava fazendo lá e como gastei mais de duas horas da minha vida com aquilo. Além da falta impressionante de opções, acho que estava afim de ver Robert Downey Jr e sua perspectiva torta/irônica que nos salva dos heróis musculosos e inquebrantáveis do cinemão americano. Olhando para ele sem pressa, podemos notar que é o completo antiherói: não é musculoso como o Capitão América, não é indestrutível como o SuperHomem, não tem a beleza nórdica do Thor.
Robert Downey Jr é um cinquentão bonitão e malhado, mas está longe da Testosterona exigida para ser um superherói. Ele tinha tudo para ser tragado, como tantas jovens promessas, pelo labirinto de drogas, escândalos e prisões que tornou-o personagem mais comum em páginas policiais do que nos cadernos de Cinema ou Entretenimento. Depois de muitos anos lutando contra a dependência química e os problemas com a justiça, que lhe valeram alguns períodos na prisão, Robert voltou com o dobro do ímpeto para virar um ator de um tipo só: o Tony Stark do Homem de Ferro muito se parece com o Sherlock Holmes, que se parece com o bonitão folgado de outros filmes que eu não vou citar porque não merecem ser recordados. Os personagens de Robert Downey Jr são viris, mas desengonçados com as mulheres, são inteligentíssimos, mas temerários e sempre fazem lambanças por desconsiderarem qualquer norma de segurança. Na Mitologia Grega, que talvez seja a maior base arquetípica do Inconsciente Holywoodiano, seus personagens significam a troca do modelo apolíneo por um herói mais dionisíaco. Isso significa a troca do herói reto e proporcionado pelo herói dado a excessos e erros, sempre pronto a enxergar a verdade na franja desses erros e derrotas. Parece pouco, mas representa a troca do indestrutível Aquiles pelo safo e não tão belo Ulisses, que tira da astúcia mais vitórias do que da força física. Para quem não sabe, na Guerra de Tróia, Aquiles era o mais forte e imbatível dos guerreiros, mas sua condição humana lhe reservava uma fragilidade, que era no seu calcanhar. Os heróis fortões sempre vão ter essa fragilidade oculta, que vai ser mais perigosa na medida que não for considerada. Quando Aquiles foi morto em batalha, Ulisses se aproveitou da sensação de vitória dos troianos para fazer o Cavalo de Tróia. Venceu a guerra com um artifício pouco heróico, mas muito malicioso.
Vivemos num mundo em que a padronização da subjetividade humana é atroz. Os filmes que os cinemas de circuito passam, as cores das roupas que a moda impõe, os check lists de procedimentos em todas as profissões obrigam as pessoas a essa passividade bovina diante do que é ditado pelo “Grande Irmão”. Pouco nos apercebemos, mas vivemos sob a bota dessa subjetividade. Robert Downey Jr voltou das cinzas para ser o herói manhoso, o Trickster arquetípico porque provou do sucesso, do ocaso, da derrota e da tragédia pessoal para voltar pleno de sua capacidade de ser o bom ator que é, mas capaz de traduzir com malícia o cara que aparentemente se rende e representa o Sistema, ao mesmo tempo que ri e despreza os cordeiros que acreditam nesse mesmo Sistema.
O filme começa com um aforisma que caberia muito bem em um texto junguiano: Tony Stark,o bilionário do bem que é assumidamente o Homem de Ferro, afirma que somos sempre os criadores de nossos próprios monstros. Nossa vaidade e nossos medos produzem as dificuldades que teremos que enfrentar todo santo dia. Sua necessidade de multiplicar a força humana através da estrutura de metal vai produzir um inimigo criador de aberrações em sua busca pelo superhumano. O Herói brincalhão vai demorar muito para ele descobrir que o que nos torna superhumanos é nossa própria fragilidade. Aquiles não sabia disso e se deu mal.
Robert Downey Jr é um cinquentão bonitão e malhado, mas está longe da Testosterona exigida para ser um superherói. Ele tinha tudo para ser tragado, como tantas jovens promessas, pelo labirinto de drogas, escândalos e prisões que tornou-o personagem mais comum em páginas policiais do que nos cadernos de Cinema ou Entretenimento. Depois de muitos anos lutando contra a dependência química e os problemas com a justiça, que lhe valeram alguns períodos na prisão, Robert voltou com o dobro do ímpeto para virar um ator de um tipo só: o Tony Stark do Homem de Ferro muito se parece com o Sherlock Holmes, que se parece com o bonitão folgado de outros filmes que eu não vou citar porque não merecem ser recordados. Os personagens de Robert Downey Jr são viris, mas desengonçados com as mulheres, são inteligentíssimos, mas temerários e sempre fazem lambanças por desconsiderarem qualquer norma de segurança. Na Mitologia Grega, que talvez seja a maior base arquetípica do Inconsciente Holywoodiano, seus personagens significam a troca do modelo apolíneo por um herói mais dionisíaco. Isso significa a troca do herói reto e proporcionado pelo herói dado a excessos e erros, sempre pronto a enxergar a verdade na franja desses erros e derrotas. Parece pouco, mas representa a troca do indestrutível Aquiles pelo safo e não tão belo Ulisses, que tira da astúcia mais vitórias do que da força física. Para quem não sabe, na Guerra de Tróia, Aquiles era o mais forte e imbatível dos guerreiros, mas sua condição humana lhe reservava uma fragilidade, que era no seu calcanhar. Os heróis fortões sempre vão ter essa fragilidade oculta, que vai ser mais perigosa na medida que não for considerada. Quando Aquiles foi morto em batalha, Ulisses se aproveitou da sensação de vitória dos troianos para fazer o Cavalo de Tróia. Venceu a guerra com um artifício pouco heróico, mas muito malicioso.
Vivemos num mundo em que a padronização da subjetividade humana é atroz. Os filmes que os cinemas de circuito passam, as cores das roupas que a moda impõe, os check lists de procedimentos em todas as profissões obrigam as pessoas a essa passividade bovina diante do que é ditado pelo “Grande Irmão”. Pouco nos apercebemos, mas vivemos sob a bota dessa subjetividade. Robert Downey Jr voltou das cinzas para ser o herói manhoso, o Trickster arquetípico porque provou do sucesso, do ocaso, da derrota e da tragédia pessoal para voltar pleno de sua capacidade de ser o bom ator que é, mas capaz de traduzir com malícia o cara que aparentemente se rende e representa o Sistema, ao mesmo tempo que ri e despreza os cordeiros que acreditam nesse mesmo Sistema.
O filme começa com um aforisma que caberia muito bem em um texto junguiano: Tony Stark,o bilionário do bem que é assumidamente o Homem de Ferro, afirma que somos sempre os criadores de nossos próprios monstros. Nossa vaidade e nossos medos produzem as dificuldades que teremos que enfrentar todo santo dia. Sua necessidade de multiplicar a força humana através da estrutura de metal vai produzir um inimigo criador de aberrações em sua busca pelo superhumano. O Herói brincalhão vai demorar muito para ele descobrir que o que nos torna superhumanos é nossa própria fragilidade. Aquiles não sabia disso e se deu mal.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Good, Will Hunting
Os leitores desse blog devem ter notado que eu curto uma TV a Cabo. A TV a Cabo é como um Congresso de Psiquiatria: muita porcaria, muita redundância, várias reprises entediantes e, de vez em quando, uma apresentação legal, desconcertante, um debate que vale a pena, um documentário incrível. Eu gosto de garimpar congressos, livrarias e programas de TV a Cabo. Outro dia encontrei um amigo no Congresso, ele me viu antes e não conseguiu me alcançar. Foi direto até a livraria, onde me encontrou. Não foi difícil de adivinhar.
Pois estava garimpando a TV a cabo ontem, bem naquele horário que a música do Fantástico desencadeia o blues de final do Domingo, quadro depressivo sazonal e que começa quando soam os primeiros acordes da música do Fantástico, antigamente chamado de “O Show da Vida”. Pois a TV a Cabo me salvou também dessa. Estava vendo, de novo, o “Gênio Indomável”, “Good Will Hunting”, o filme que lançou, no final dos anos 90, Matt Damon e Ben Affleck ao estrelato. Já escrevi posts sobre esse filme e talvez até algum diálogo da Vovó; a velha meio adocicada tentava explicar para a netinha o trocadilho com o nome do personagem principal, Will Hunting, um jovem órfão, vindo de um lar disfuncional, com o pai alcoólatra e espancador (enquanto estava vivo). Will tinha tudo para ser mais um jovem do South Boston a seguir o comportamento violento de seu pai e terminar no sistema prisional americano, não fosse por uma característica peculiar: ele é portador de habilidades especiais, antigamente chamado de superdotado (Superdotado é um adjetivo mais utilizado na divulgação de filmes pornô hoje em dia). Will é um gênio matemático natural, que trabalha como faxineiro em uma Universidade renomada. Ele resolve um problema extremamente complexo deixado na lousa da disciplina de Matemática avançada. Ele tem uma capacidade prodigiosa de leitura e aprendizagem e, como muitos portadores dessa capacidade intelectual assombrosa, tem dificuldade de adaptação às regras de pessoas que pensam mais devagar que eles. Ele é um solitário e tem amigos da classe operária se Boston que não são exatamente brilhantes.
Esse personagem de Matt Damon se envolve em mais uma encrenca, recebe como sentença a obrigação de se submeter a tratamento psicológico. Ele vai desestruturando todos os que tentam tratá-lo, em cenas bem engraçadas. Até cair nas mãos de um psicoterapeuta fracassado, deprimido e com métodos muito esquisitos. Robin Williams faz esse terapeuta incrivelmente triste. Já falei isso no post sobre o filme “Brilho de Uma Mente Sem Lembranças”: só os comediantes deveriam fazer os papéis de deprimidos (lembre de um Jim Carrey incrivelmente triste nesse filme). Incrível a tristeza desse personagem do engraçadíssimo e por vezes chato Robin Williams. O embate terapêutico entre os dois é um ponto alto do filme. Em um desses diálogos, o pequeno gênio conta de um encontro que teve com uma garota especial e divertida. Ele não ligou no dia seguinte, como tantos caras depois de um primeiro encontro, para desespero das meninas. O terapeuta esfrega os olhos e sussurra: “Você é um amador, caramba”. Na relação terapêutica, o terapeuta vai dar o testemunho de ter amado profundamente uma pessoa, uma mulher que ele viu morrer depois de poucos anos de casamento. Ele dá o seu testemunho do risco de se amar alguém. Não que terapeutas devam se usar como exemplos para a vida de qualquer pessoa, mas nessa relação romanceada, até que vale o exemplo. Amar é, sobretudo, correr riscos. Risco do amor acabar, do outro ir embora, ou adoecer. Mas nada em nossa vida resuma mais o significado de nossa passagem por esse mundo do que a nossa capacidade de amar e correr o risco de perder o que amamos.
Pois estava garimpando a TV a cabo ontem, bem naquele horário que a música do Fantástico desencadeia o blues de final do Domingo, quadro depressivo sazonal e que começa quando soam os primeiros acordes da música do Fantástico, antigamente chamado de “O Show da Vida”. Pois a TV a Cabo me salvou também dessa. Estava vendo, de novo, o “Gênio Indomável”, “Good Will Hunting”, o filme que lançou, no final dos anos 90, Matt Damon e Ben Affleck ao estrelato. Já escrevi posts sobre esse filme e talvez até algum diálogo da Vovó; a velha meio adocicada tentava explicar para a netinha o trocadilho com o nome do personagem principal, Will Hunting, um jovem órfão, vindo de um lar disfuncional, com o pai alcoólatra e espancador (enquanto estava vivo). Will tinha tudo para ser mais um jovem do South Boston a seguir o comportamento violento de seu pai e terminar no sistema prisional americano, não fosse por uma característica peculiar: ele é portador de habilidades especiais, antigamente chamado de superdotado (Superdotado é um adjetivo mais utilizado na divulgação de filmes pornô hoje em dia). Will é um gênio matemático natural, que trabalha como faxineiro em uma Universidade renomada. Ele resolve um problema extremamente complexo deixado na lousa da disciplina de Matemática avançada. Ele tem uma capacidade prodigiosa de leitura e aprendizagem e, como muitos portadores dessa capacidade intelectual assombrosa, tem dificuldade de adaptação às regras de pessoas que pensam mais devagar que eles. Ele é um solitário e tem amigos da classe operária se Boston que não são exatamente brilhantes.
Esse personagem de Matt Damon se envolve em mais uma encrenca, recebe como sentença a obrigação de se submeter a tratamento psicológico. Ele vai desestruturando todos os que tentam tratá-lo, em cenas bem engraçadas. Até cair nas mãos de um psicoterapeuta fracassado, deprimido e com métodos muito esquisitos. Robin Williams faz esse terapeuta incrivelmente triste. Já falei isso no post sobre o filme “Brilho de Uma Mente Sem Lembranças”: só os comediantes deveriam fazer os papéis de deprimidos (lembre de um Jim Carrey incrivelmente triste nesse filme). Incrível a tristeza desse personagem do engraçadíssimo e por vezes chato Robin Williams. O embate terapêutico entre os dois é um ponto alto do filme. Em um desses diálogos, o pequeno gênio conta de um encontro que teve com uma garota especial e divertida. Ele não ligou no dia seguinte, como tantos caras depois de um primeiro encontro, para desespero das meninas. O terapeuta esfrega os olhos e sussurra: “Você é um amador, caramba”. Na relação terapêutica, o terapeuta vai dar o testemunho de ter amado profundamente uma pessoa, uma mulher que ele viu morrer depois de poucos anos de casamento. Ele dá o seu testemunho do risco de se amar alguém. Não que terapeutas devam se usar como exemplos para a vida de qualquer pessoa, mas nessa relação romanceada, até que vale o exemplo. Amar é, sobretudo, correr riscos. Risco do amor acabar, do outro ir embora, ou adoecer. Mas nada em nossa vida resuma mais o significado de nossa passagem por esse mundo do que a nossa capacidade de amar e correr o risco de perder o que amamos.
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Quentin Tarantino e o Espelho
Hoje estava ouvindo no rádio um debate no programa Talk Show da CBN, com especulações sobre o Oscar, que terá a sua cerimônia amanhã. Nessa época da sociedade do espetáculo tudo o que vale ou tem validade é o espetáculo em si, portanto eu entendo essa cerimônia muito mais como um espetáculo autopromocional da indústria do cinema do que como uma premiação com alguma credibilidade. Isso sou eu falando de forma analítica e lúcida. Por baixo desse jovem senhor existe um torcedor que gostaria de ver seu time ganhando, mesmo sabendo que os caras por trás dos bastidores estão fabricando os resultados. Fiquei, portanto, algumas vezes irritado com o debate dos “especialistas”. Para começar com um babaca que foi ao debate e saiu logo dizendo que não havia assistido a três dos principais candidatos ao Oscar. Estava fazendo o que nesse programa, cara pálida? Vivemos num mundo encharcado pela autoindulgência, os achismos e as opiniões despejadas com pouca reflexão em todos os lugares. O cara se propõe a ir a um programa que vai debater os indicados ao Oscar e não viu três dos filmes candidatos à estatueta. Se fosse um debate mediado pela Capitão Nascimento, ele já ouviria um “Pede para sair!!” explodindo os seus tímpanos. Finalmente, um dos debatedores, com um forte colorido de petulância, afirmou que Quentin Tarantino era o grande ausente das indicações para Melhor Diretor, pela sua “incrível liberdade narrativa” em “Django Livre” (título brasileiro. O original, em tradução livre, é “Django Desacorrentado”). Uma palavrinha sobre isso: “Django Livre” é uma bosta de filme. Quem está escrevendo isso é um fã de carteirinha de Quentin Tarantino, então vou desenvolver o tema.
Os rapazes de outro programa de rádio (passar tanto tempo no trânsito me dá realmente um expertise sobre os programas de rádio) observou que “Django Livre” era o terceiro filme dessa fase Tarantínica da “vingança dos oprimidos”: “Kill Bill” é a vingança da mulher abusada, “Bastardos Inglórios” é a revanche dos judeus contra os nazistas e “Django” é o herói arquetípico negro, matando os brancos racistas do Mississipi. Discordo. Kill Bill é um pastiche de mangás ultraviolentos, um gibi gigante de uma heroína buscando vingança em um improvável macacão amarelo. “Django” tem uma filiação clara aos “Bastardos Inglórios”, com a vingança, sim, dos oprimidos diante de seus opressores.
Aqui em casa temos uma séria questão conjugal envolvendo Quentin Tarantino. A minha mulher o classifica como um lixo violento com ares de Cult. Temos vários debates infrutíferos a respeito do assunto. Tarantino é um criador pop, uma metralhadora de referências. Basta observar a trilha sonora do “Django” que mistura músicas assobiadas de filmes Western Spaghetti misturados com raps, hip hops e uma salada de referências musicais. Tarantino zomba de opressores e oprimidos, cria paradoxos de assassinos profissionais engraçados e humanos e vilões pândegos, incompetentes, sentimentais, como Leo di Caprio nesse filme. Ele mostra o ridículo do racismo e da violência justamente criando cenas de ultraviolência e de banalização humorística da morte. Posso afirmar que Tarantino tem uma questão importante com a mortalidade e dela se defende com um mecanismo psicanalítico contrafóbico, tornando a morte banal, ridícula, coreografada. Mas se “Django” repete todos os componentes de seu antecessor, o “Bastardos Inglórios”, por que eu gostei tanto de um e tão pouco do outro?
“Bastardos Inglórios” é uma sinfonia para o ator alemão Cristopher Waltz. Diálogos longos, intermináveis, onde ele despeja astúcia, elegância, ironia em sua caça às suas vítimas. É o grande personagem desse filme. Os diálogos são espertos, a tensão crescente, a ironia com o nazismo é inclemente. Django tenta repetir a fórmula: lá estão os diálogos infindáveis, a violência banalizada e a redenção do oprimido na figura de um negro altivo, arrogante que, de escravo humilhado vira um atirador exímio, imbatível. Tudo dentro do figurino delirante de Tarantino. O problema é que dessa vez, o pastiche foi demais, a necessidade de rir do próprio narcisismo tornou o filme bobo, pretensioso, longo demais, maneirístico demais. A tal “liberdade narrativa” que se referiu o tal especialista, virou uma caricatura de estilo. E de autoindulgência. Tarantino sempre riu de sua própria megalomania. Vai ganhar algum Oscar secundário, como de Roteiro Original, mas dessa vez, perdeu a mão.
Os rapazes de outro programa de rádio (passar tanto tempo no trânsito me dá realmente um expertise sobre os programas de rádio) observou que “Django Livre” era o terceiro filme dessa fase Tarantínica da “vingança dos oprimidos”: “Kill Bill” é a vingança da mulher abusada, “Bastardos Inglórios” é a revanche dos judeus contra os nazistas e “Django” é o herói arquetípico negro, matando os brancos racistas do Mississipi. Discordo. Kill Bill é um pastiche de mangás ultraviolentos, um gibi gigante de uma heroína buscando vingança em um improvável macacão amarelo. “Django” tem uma filiação clara aos “Bastardos Inglórios”, com a vingança, sim, dos oprimidos diante de seus opressores.
Aqui em casa temos uma séria questão conjugal envolvendo Quentin Tarantino. A minha mulher o classifica como um lixo violento com ares de Cult. Temos vários debates infrutíferos a respeito do assunto. Tarantino é um criador pop, uma metralhadora de referências. Basta observar a trilha sonora do “Django” que mistura músicas assobiadas de filmes Western Spaghetti misturados com raps, hip hops e uma salada de referências musicais. Tarantino zomba de opressores e oprimidos, cria paradoxos de assassinos profissionais engraçados e humanos e vilões pândegos, incompetentes, sentimentais, como Leo di Caprio nesse filme. Ele mostra o ridículo do racismo e da violência justamente criando cenas de ultraviolência e de banalização humorística da morte. Posso afirmar que Tarantino tem uma questão importante com a mortalidade e dela se defende com um mecanismo psicanalítico contrafóbico, tornando a morte banal, ridícula, coreografada. Mas se “Django” repete todos os componentes de seu antecessor, o “Bastardos Inglórios”, por que eu gostei tanto de um e tão pouco do outro?
“Bastardos Inglórios” é uma sinfonia para o ator alemão Cristopher Waltz. Diálogos longos, intermináveis, onde ele despeja astúcia, elegância, ironia em sua caça às suas vítimas. É o grande personagem desse filme. Os diálogos são espertos, a tensão crescente, a ironia com o nazismo é inclemente. Django tenta repetir a fórmula: lá estão os diálogos infindáveis, a violência banalizada e a redenção do oprimido na figura de um negro altivo, arrogante que, de escravo humilhado vira um atirador exímio, imbatível. Tudo dentro do figurino delirante de Tarantino. O problema é que dessa vez, o pastiche foi demais, a necessidade de rir do próprio narcisismo tornou o filme bobo, pretensioso, longo demais, maneirístico demais. A tal “liberdade narrativa” que se referiu o tal especialista, virou uma caricatura de estilo. E de autoindulgência. Tarantino sempre riu de sua própria megalomania. Vai ganhar algum Oscar secundário, como de Roteiro Original, mas dessa vez, perdeu a mão.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
O Lado Não Tão Bom, da Vida
Talvez eu devesse comentar a grande notícia do dia, que é a renúncia do papa Bento XVI ao seu pontificado, bem no início da Quaresma. Mas vou pular esse assunto. Ele alega a idade avançada e a saúde combalida. Um sujeito que assume o Pontificado aos 78 anos poderia imaginar que uma hora a idade iria pesar. Deixo então as teorias de conspiração aos teóricos do assunto. Imagino que as fofocas serão muitas. De resto, essa renúncia faz sentido como um mandato tampão, que visava impedir um papa mais moderno e mais investigativo, pode-se assim dizer. A poeira baixou e após um papado pífio, o cardeal Ratzinger pode pedir o boné. Mas não é sobre isso que vou falar.
Estava matando a minha curiosidade nesse Carnaval sobre os filmes que aparecem nos divãs e nos prêmios. Estava muito curioso sobre esse “O Lado Bom da Vida”(Silver Linnings Playbook), que rendeu prêmios de melhor atriz para a jovem Jennifer Laurence e indicação para o Oscar para o queridinho das comédias Bradley Cooper. Algumas críticas favoráveis e um tema psiquiátrico no meio da conversa e lá fui eu dispender algumas horas do feriado para ver o filme, que conta a história de um paciente bipolar não diagnosticado que está saindo de alta hospitalar após internação forçada e judicial de oi. O personagem de Bradley Cooper encontra a mulher no banho transando com um professor, ao som da música de seu casamento. Ele sai da internação com duas obsessões: a música, que não para de tocar na sua cabeça e a ideia prevalente de refazer o seu casamento, o que é improvável já que há um mandato de restrição contra ele, da parte da ex. No meio do caminho, ele encontra com uma moça, também bipolar, que apresenta comportamento sexual compulsivo. Veja que, para uma comédia romântica, é um tema espinhoso. O pai do sujeito é representado por Robert de Niro, que faz um pai obsessivo compulsivo, jogador patológico que acredita que o filho maluquete pode lhe dar sorte em suas apostas. Não é um retrato em molduras douradas da América, pode-se assim dizer.
Tentando tirar graça desses temas pesados, o filme é pouco ou nada engraçado. Pode ser classificado como mais um filme adoçado em que todos os malucos em questão são transformados e salvos pela força do amor. Jennifer Laurence faz a menina bipolar que vai curar o seu comportamento sexual compulsivo e restauras a autoestima perdida do herói através de sua esperteza e determinação, usando para isso todos os meios. Pelo andar do post, pode-se imaginar que eu não gostei do filme, o que não é verdade. Achei o filme sobrevalorizado, sim, mas também corajoso de criar uma comédia açucarada bem no meio da falência da família americana e da fantasia narcísica que funda essa família.
O filme me leva à reflexão dessa miséria gerada pelo “wishful thinking”, da cultura do “Pensamento Positivo”. Todos os personagens estão procurando, aos pedaços, alcançar os seus objetivos improváveis através dessa tal “positividade”. A menina quer ganhar um concurso de dança para o qual não tem formação ou preparo. O cara quer encontrar a linha prateada da transformação de toda a sua agressividade e desespero; o velho pai quer fazer fortunas em apostas em jogos de futebol americano ou em qualquer assunto que pode gerar aposta. O final quase feliz critica mas mantém a farsa do pensamento positivo, sobretudo a ideia que tudo podemos alcançar com os pensamento corretos. Um budista na direção diria que a cura começa quando paramos de alimentar, o tempo todo, nossas obsessões que queremos realizar e vivemos, em profundidade, cada momento de nossa vida. Deixamos de lado nossa obsessão com o passado que se perdeu e com o futuro ideal, que só vai se cumprir nas comédias românticas.
Estava matando a minha curiosidade nesse Carnaval sobre os filmes que aparecem nos divãs e nos prêmios. Estava muito curioso sobre esse “O Lado Bom da Vida”(Silver Linnings Playbook), que rendeu prêmios de melhor atriz para a jovem Jennifer Laurence e indicação para o Oscar para o queridinho das comédias Bradley Cooper. Algumas críticas favoráveis e um tema psiquiátrico no meio da conversa e lá fui eu dispender algumas horas do feriado para ver o filme, que conta a história de um paciente bipolar não diagnosticado que está saindo de alta hospitalar após internação forçada e judicial de oi. O personagem de Bradley Cooper encontra a mulher no banho transando com um professor, ao som da música de seu casamento. Ele sai da internação com duas obsessões: a música, que não para de tocar na sua cabeça e a ideia prevalente de refazer o seu casamento, o que é improvável já que há um mandato de restrição contra ele, da parte da ex. No meio do caminho, ele encontra com uma moça, também bipolar, que apresenta comportamento sexual compulsivo. Veja que, para uma comédia romântica, é um tema espinhoso. O pai do sujeito é representado por Robert de Niro, que faz um pai obsessivo compulsivo, jogador patológico que acredita que o filho maluquete pode lhe dar sorte em suas apostas. Não é um retrato em molduras douradas da América, pode-se assim dizer.
Tentando tirar graça desses temas pesados, o filme é pouco ou nada engraçado. Pode ser classificado como mais um filme adoçado em que todos os malucos em questão são transformados e salvos pela força do amor. Jennifer Laurence faz a menina bipolar que vai curar o seu comportamento sexual compulsivo e restauras a autoestima perdida do herói através de sua esperteza e determinação, usando para isso todos os meios. Pelo andar do post, pode-se imaginar que eu não gostei do filme, o que não é verdade. Achei o filme sobrevalorizado, sim, mas também corajoso de criar uma comédia açucarada bem no meio da falência da família americana e da fantasia narcísica que funda essa família.
O filme me leva à reflexão dessa miséria gerada pelo “wishful thinking”, da cultura do “Pensamento Positivo”. Todos os personagens estão procurando, aos pedaços, alcançar os seus objetivos improváveis através dessa tal “positividade”. A menina quer ganhar um concurso de dança para o qual não tem formação ou preparo. O cara quer encontrar a linha prateada da transformação de toda a sua agressividade e desespero; o velho pai quer fazer fortunas em apostas em jogos de futebol americano ou em qualquer assunto que pode gerar aposta. O final quase feliz critica mas mantém a farsa do pensamento positivo, sobretudo a ideia que tudo podemos alcançar com os pensamento corretos. Um budista na direção diria que a cura começa quando paramos de alimentar, o tempo todo, nossas obsessões que queremos realizar e vivemos, em profundidade, cada momento de nossa vida. Deixamos de lado nossa obsessão com o passado que se perdeu e com o futuro ideal, que só vai se cumprir nas comédias românticas.
sábado, 29 de dezembro de 2012
A Jornada de Pi
Ontem fui ver “As Aventuras de Pi”, aproveitando a cidade vazia nessa época. É uma experiência sensorial, um parque temático em forma de cinema. Nem sou tão fã de filmes 3D, mas não consigo imaginar esse filme sem a projeção em tela gigante e 3D.
Nessa época do ano, é muito comum pensarmos o que queremos para nosso próximo ano, o que vai continuar, do que vamos desistir, o que vale a pena insistir ou deixar no caminho. A narrativa do filme é toda em flash back, então sabemos que Piscine, autoalcunhado de Pi, sobreviveu à jornada que se inicia num naufrágio. Durante semanas, ele vai vagar no Oceano Pacífico dividindo um bote com um tigre de Bengala chamado Richard Parker. Pi vai passar por todo tipo de dificuldade e tem todas as oportunidades de se deixar morrer, ou de se entregar para o tigre ou o mar. O filme, que é baseado em um livro que eu espero que lancem por aqui lembra em muito o bíblico Livro de Jó. Pi é um Jó moderno, que não se queixa nem amaldiçoa a própria vida ou o seu destino. Pacientemente, ele tenta extrair de tudo aprendizado para manter-se vivo, manter-se são na sua jornada à deriva.
Pi é cristão, muçulmano, hinduísta. O diálogo que ele tem no mar é com a experiência de Deus e o valor intrínseco da vida. Não é uma coisa que se prove cientificamente. Pi não vai sobreviver para salvar seu patrimônio genético e passá-lo a seus filhos. Nem é o seu instinto de sobrevivência que vai prevalecer. Pi vai enfrentar a mais profunda solidão simplesmente porque é isso que a sua alma demanda, é isso que que o mantém inteiro nessa jornada.
Eu tenho um ofício em que o valor da vida, ou da jornada, é questionada todo dia. Para que estamos nesse planeta estranho? Para que aguentar os rigores da caminhada? Qual o significado de tanta luta? Como na peça de Shakespeare, é uma sinfonia de som e fúria, que não significa nada?
A vida de um médico permite que ele testemunhe o que há de melhor (e pior) na natureza humana. Histórias de resiliência incrível, paciência e aprendizado. A jornada de Pi é uma metáfora da vida humana, em que sobrevive e cresce quem é capaz de aprender e valorizar o aprendizado. Mas o difícil mesmo é encontrar o valor intrínseco da vida e agradecer por ele. É isso que Pi vai encontrar debaixo de um céu muito estrelado.
Nessa época do ano, é muito comum pensarmos o que queremos para nosso próximo ano, o que vai continuar, do que vamos desistir, o que vale a pena insistir ou deixar no caminho. A narrativa do filme é toda em flash back, então sabemos que Piscine, autoalcunhado de Pi, sobreviveu à jornada que se inicia num naufrágio. Durante semanas, ele vai vagar no Oceano Pacífico dividindo um bote com um tigre de Bengala chamado Richard Parker. Pi vai passar por todo tipo de dificuldade e tem todas as oportunidades de se deixar morrer, ou de se entregar para o tigre ou o mar. O filme, que é baseado em um livro que eu espero que lancem por aqui lembra em muito o bíblico Livro de Jó. Pi é um Jó moderno, que não se queixa nem amaldiçoa a própria vida ou o seu destino. Pacientemente, ele tenta extrair de tudo aprendizado para manter-se vivo, manter-se são na sua jornada à deriva.
Pi é cristão, muçulmano, hinduísta. O diálogo que ele tem no mar é com a experiência de Deus e o valor intrínseco da vida. Não é uma coisa que se prove cientificamente. Pi não vai sobreviver para salvar seu patrimônio genético e passá-lo a seus filhos. Nem é o seu instinto de sobrevivência que vai prevalecer. Pi vai enfrentar a mais profunda solidão simplesmente porque é isso que a sua alma demanda, é isso que que o mantém inteiro nessa jornada.
Eu tenho um ofício em que o valor da vida, ou da jornada, é questionada todo dia. Para que estamos nesse planeta estranho? Para que aguentar os rigores da caminhada? Qual o significado de tanta luta? Como na peça de Shakespeare, é uma sinfonia de som e fúria, que não significa nada?
A vida de um médico permite que ele testemunhe o que há de melhor (e pior) na natureza humana. Histórias de resiliência incrível, paciência e aprendizado. A jornada de Pi é uma metáfora da vida humana, em que sobrevive e cresce quem é capaz de aprender e valorizar o aprendizado. Mas o difícil mesmo é encontrar o valor intrínseco da vida e agradecer por ele. É isso que Pi vai encontrar debaixo de um céu muito estrelado.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Indiana Jones e o Dalai Lama
Há uma passagem curiosa do Dalai Lama, que estava sendo entrevistado por um grupo de psicanalistas. Eles tentavam “salvar”o Desejo, numa tentativa de aproximação entre o Budismo e a Psicanálise moderna. Freud construiu um edifício teórico em torno da recuperação do Ser e de sua capacidade desejante. O Budismo, pelo contrário, traz em suas nobres verdades a existência do Sofrimento como condição comum de nossa passagem por esse planeta esquisito. Para interromper esse ciclo eterno de desejo-frustração- dor, Buda sugere a interrupção do desejo. Vamos combinar que são dois sistemas de crença difíceis de serem harmonizados. O Dalai Lama lembrou, finalmente, de um desejo que não vai trazer o Sofrimento. Os psicanalistas se apressaram em perguntar qual seria esse desejo: o Desejo de Renúncia, respondeu Sua Santidade.
Eu pessoalmente fui contra a realização do quarto filme após a trilogia de Indiana Jones. O terceiro filme da série, “A Última Cruzada” é disparado o melhor de todos e nunca deveria ter sido sucedido por aquele pastelão de soviéticos e ETs que é “Indiana Jones e a Caveira de Cristal”. Há uma cena nesse filme (“A Última Cruzada”) que talvez trouxesse uma luz a esse debate. Para quem não lembra ou não era nascido, Indiana Jones passa o filme todo procurando por duas coisas: o seu pai e o Santo Graal. Ele vai descobrir que seu pai, Dr Jones, foi feito prisioneiro de nazistas. Os inevitáveis nazis querem encontrar o Santo Graal e precisam do conhecimento do Jones pai e dos músculos do Jones filho para darem cabo da tarefa. Posso escrever vários posts sobre esse filme, se os leitores quiserem e se manifestarem. A cena que eu vou pinçar, em particular é das mais importantes do filme: o templo onde está escondido o Santo Graal (Cálice onde Jesus celebrou a Última Ceia e que recolheu o sangue vertido na cruz) começa a desmoronar, é aquele corre corre. A vagaba alemã, que pegou os dois membros (no bom sentido, é claro) da família Jones escorrega e está caindo no precipício. Indiana Jones, como bom herói que é, joga-se para salvá-la. Ela é pega pela mão e enxerga o Graal repousando numa fenda. Tentando alcançá-lo, ela cai no precipício. A terra se move e Indiana Jones também escorrega, sendo pego por seu pai (Sean Connery, impagável nesse filme). Quando ele se vira, lá está o Graal. Indiana tenta alcançá-lo, já escorregando. O seu pai alerta para o perigo. Está por um dedo. De repente, ouve-se uma voz grave: “Indiana!” Ele responde sem pensar: “Sim, senhor”. “Deixa para lá”. “Mas pai”. “Deixa”. Indiana obedece e seu pai consegue puxá-lo para longe do perigo. No final ele pergunta a seu pai, que buscara pelo Santo Graal durante toda a sua vida, o que ele ganhou depois de tanta busca, para deixar o Graal no deserto. “Iluminação”, respondeu o velho Dr Jones.
Acho que esse é o Desejo de Renúncia que o Dalai Lama mencionou. Na vida, estamos todos procurando pelo Santo Graal de cada um: dinheiro, sucesso, poder, amor incondicional, atenção, mensalão, por aí vai. Muitas vezes parece que estamos a um dedo de alcançar o que sempre desejamos e buscamos e, de uma forma estranha, a vida diz que não, ou a coisa desejada escorrega entre os dedos. Dr Jones sabe que seu filho precisa abrir mão da Ânsia, que é o Desejo cego e insaciável que os budistas tem razão, é o pai de todo Sofrimento. O Graal não é algo que se possa agarrar, pois está em nosso mundo interno.
Indiana Jones é um herói ocidental, obstinado, emputecido (Harrison Ford está sempre com cara de emputecido quando veste o personagem). A coisa mais difícil para ele é desistir de algo que custou tanto a ser encontrado. Quando ele abre mão e deixa ir, sente-se estranhamente iluminado, leve. Tenho a impressão que essa é a tarefa tanto dos budistas quanto dos psicanalistas: deixar o Ego despreocupado de sua eterna insatisfação, sua eterna e dolorosa ânsia. Na hora que abrimos mão dessa tirania, uma luz se manifesta.
Eu pessoalmente fui contra a realização do quarto filme após a trilogia de Indiana Jones. O terceiro filme da série, “A Última Cruzada” é disparado o melhor de todos e nunca deveria ter sido sucedido por aquele pastelão de soviéticos e ETs que é “Indiana Jones e a Caveira de Cristal”. Há uma cena nesse filme (“A Última Cruzada”) que talvez trouxesse uma luz a esse debate. Para quem não lembra ou não era nascido, Indiana Jones passa o filme todo procurando por duas coisas: o seu pai e o Santo Graal. Ele vai descobrir que seu pai, Dr Jones, foi feito prisioneiro de nazistas. Os inevitáveis nazis querem encontrar o Santo Graal e precisam do conhecimento do Jones pai e dos músculos do Jones filho para darem cabo da tarefa. Posso escrever vários posts sobre esse filme, se os leitores quiserem e se manifestarem. A cena que eu vou pinçar, em particular é das mais importantes do filme: o templo onde está escondido o Santo Graal (Cálice onde Jesus celebrou a Última Ceia e que recolheu o sangue vertido na cruz) começa a desmoronar, é aquele corre corre. A vagaba alemã, que pegou os dois membros (no bom sentido, é claro) da família Jones escorrega e está caindo no precipício. Indiana Jones, como bom herói que é, joga-se para salvá-la. Ela é pega pela mão e enxerga o Graal repousando numa fenda. Tentando alcançá-lo, ela cai no precipício. A terra se move e Indiana Jones também escorrega, sendo pego por seu pai (Sean Connery, impagável nesse filme). Quando ele se vira, lá está o Graal. Indiana tenta alcançá-lo, já escorregando. O seu pai alerta para o perigo. Está por um dedo. De repente, ouve-se uma voz grave: “Indiana!” Ele responde sem pensar: “Sim, senhor”. “Deixa para lá”. “Mas pai”. “Deixa”. Indiana obedece e seu pai consegue puxá-lo para longe do perigo. No final ele pergunta a seu pai, que buscara pelo Santo Graal durante toda a sua vida, o que ele ganhou depois de tanta busca, para deixar o Graal no deserto. “Iluminação”, respondeu o velho Dr Jones.
Acho que esse é o Desejo de Renúncia que o Dalai Lama mencionou. Na vida, estamos todos procurando pelo Santo Graal de cada um: dinheiro, sucesso, poder, amor incondicional, atenção, mensalão, por aí vai. Muitas vezes parece que estamos a um dedo de alcançar o que sempre desejamos e buscamos e, de uma forma estranha, a vida diz que não, ou a coisa desejada escorrega entre os dedos. Dr Jones sabe que seu filho precisa abrir mão da Ânsia, que é o Desejo cego e insaciável que os budistas tem razão, é o pai de todo Sofrimento. O Graal não é algo que se possa agarrar, pois está em nosso mundo interno.
Indiana Jones é um herói ocidental, obstinado, emputecido (Harrison Ford está sempre com cara de emputecido quando veste o personagem). A coisa mais difícil para ele é desistir de algo que custou tanto a ser encontrado. Quando ele abre mão e deixa ir, sente-se estranhamente iluminado, leve. Tenho a impressão que essa é a tarefa tanto dos budistas quanto dos psicanalistas: deixar o Ego despreocupado de sua eterna insatisfação, sua eterna e dolorosa ânsia. Na hora que abrimos mão dessa tirania, uma luz se manifesta.
sábado, 3 de novembro de 2012
James Bond em Tebas
Ontem fui assistir o novo filme de 007, “Operação Skyfall”. Adoro essa fase Daniel Craig do personagem, depois de anos de canastrice e humor tipo chanchada de Pierce Brosnan. O fato é que vamos dar um tempo na Neurociência nesse post. Vamos voltar a Jung, que já estou cheio dos quatro Cérebros.
O James Bond de Craig é um herói ferido. Encontra o amor no primeiro filme dessa nova fase, “Casino Royale”, vê a amada traí-lo e morrer afogada na sua frente, sem poder salvá-la. No segundo filme, “Quantum of Solace”, Bond é um vingador enfurecido, insone, que não hesita em sacrificar amigos e Bond Girls para perpetrar a sua vingança contra os matadores da mulher amada. Nos dois filmes ele passa a maior parte do tempo levando pito de M, inesquecível na pele de Judi Dench. A relação do filho rebelde com a mãe supostamente rigorosa, mas que acoberta e deixa o traquinas fazer o que bem entende, fica bem clara nesses filmes da saga Bond. M está sempre ralhando com Bond enquanto o filhinho rebelde trucida suspeitos e usa as mulheres para atingir os seus objetivos.
Este novo filme brinca muito com essa característica chauvinista e old fashioned do Bond de Daniel Craig. Ele é chamado de tiozinho pelos superiores e o seu apoio nerd, G, que lembram a Bond que ele não é mais o mesmo. Um tiro no ombro no início deixa o seu braço trêmulo. Ele é reprovado em todos os testes e, mais uma vez, acobertado por M. Ele vai voltar à ação para protegê-la, pois dessa vez o Serviço Secreto está sob ataque para atingi-la. Ela está exposta e fragilizada, acusada de estar, também, superada.
O filme vai mostrar o embate arquetípico entre os dois filhos da Mãe poderosa: os dois foram feridos por ela. Um vai usar a sua ferida para se voltar contra a mãe Inglaterra na figura da chefe do MI 6. O outro, que foi igualmente rifado por M, 007, vai protegê-la e caçar o irmão monstruoso.
Esse é um tema já visto na tragédia grega. Na Trilogia Tebana, de Sófocles, é muito conhecida a história do Édipo Rei, já mencionada em posts antigos desse blog. Édipo cumpre o seu destino trágico, matando o seu pai e desposando a própria mãe de forma não intencional. Édipo arranca os próprios olhos e passa a vagar pelo mundo guiado por Antígona, filha de seu casamento incestuoso. Na última peça da trilogia, “Antígona”, Édipo já foi engolido pela terra. Tebas passou a ser governada por Creonte, tio de Antígona. Ela enfrenta publicamente Creonte, pois ele proibiu o sepultamento de seu irmão. E esse é o ponto de James Bond. Após a morte trágica de Édipo, os seus filhos se dividem. Um se junta aos inimigos de Tebas e tenta derrubar o rei Creonte. O outro toma a defesa da cidade mãe. Os irmãos se matam mutuamente na batalha, um golpeando o outro. Creonte quer sepultar o aliado como um Herói de Guerra e deixar o outro aos cuidados dos urubús. Esse é o embate que está no novo filme de James Bond. Para o Serviço Secreto, James Bond e Silva, os irmãos arquetípicos da Mãe Incestuosa, Jocasta, digo, M, estão mortos. Ambos vão voltar da morte para honrar e encontrar, profundamente, a sua própria identidade perdida. Faltou ao filme uma Antígona para dizer que Bond e Silva, o arquivilão, são faces da mesma moeda.
O James Bond de Craig é um herói ferido. Encontra o amor no primeiro filme dessa nova fase, “Casino Royale”, vê a amada traí-lo e morrer afogada na sua frente, sem poder salvá-la. No segundo filme, “Quantum of Solace”, Bond é um vingador enfurecido, insone, que não hesita em sacrificar amigos e Bond Girls para perpetrar a sua vingança contra os matadores da mulher amada. Nos dois filmes ele passa a maior parte do tempo levando pito de M, inesquecível na pele de Judi Dench. A relação do filho rebelde com a mãe supostamente rigorosa, mas que acoberta e deixa o traquinas fazer o que bem entende, fica bem clara nesses filmes da saga Bond. M está sempre ralhando com Bond enquanto o filhinho rebelde trucida suspeitos e usa as mulheres para atingir os seus objetivos.
Este novo filme brinca muito com essa característica chauvinista e old fashioned do Bond de Daniel Craig. Ele é chamado de tiozinho pelos superiores e o seu apoio nerd, G, que lembram a Bond que ele não é mais o mesmo. Um tiro no ombro no início deixa o seu braço trêmulo. Ele é reprovado em todos os testes e, mais uma vez, acobertado por M. Ele vai voltar à ação para protegê-la, pois dessa vez o Serviço Secreto está sob ataque para atingi-la. Ela está exposta e fragilizada, acusada de estar, também, superada.
O filme vai mostrar o embate arquetípico entre os dois filhos da Mãe poderosa: os dois foram feridos por ela. Um vai usar a sua ferida para se voltar contra a mãe Inglaterra na figura da chefe do MI 6. O outro, que foi igualmente rifado por M, 007, vai protegê-la e caçar o irmão monstruoso.
Esse é um tema já visto na tragédia grega. Na Trilogia Tebana, de Sófocles, é muito conhecida a história do Édipo Rei, já mencionada em posts antigos desse blog. Édipo cumpre o seu destino trágico, matando o seu pai e desposando a própria mãe de forma não intencional. Édipo arranca os próprios olhos e passa a vagar pelo mundo guiado por Antígona, filha de seu casamento incestuoso. Na última peça da trilogia, “Antígona”, Édipo já foi engolido pela terra. Tebas passou a ser governada por Creonte, tio de Antígona. Ela enfrenta publicamente Creonte, pois ele proibiu o sepultamento de seu irmão. E esse é o ponto de James Bond. Após a morte trágica de Édipo, os seus filhos se dividem. Um se junta aos inimigos de Tebas e tenta derrubar o rei Creonte. O outro toma a defesa da cidade mãe. Os irmãos se matam mutuamente na batalha, um golpeando o outro. Creonte quer sepultar o aliado como um Herói de Guerra e deixar o outro aos cuidados dos urubús. Esse é o embate que está no novo filme de James Bond. Para o Serviço Secreto, James Bond e Silva, os irmãos arquetípicos da Mãe Incestuosa, Jocasta, digo, M, estão mortos. Ambos vão voltar da morte para honrar e encontrar, profundamente, a sua própria identidade perdida. Faltou ao filme uma Antígona para dizer que Bond e Silva, o arquivilão, são faces da mesma moeda.
domingo, 29 de julho de 2012
Batman e Bin Laden
Disse em outro post que não iria ver o novo filme do Batman tão cedo. Metade da família estava viajando e acabei indo com meu filho ao Batman e ao Homem Aranha. Os heróis estão em clara crise de identidade, já que nos dois filmes nunca vi tanta gente conhecendo a verdadeira identidade do Herói. No Homem Aranha, até o sogro sabe a verdadeira identidade do Spider Man. Em nossa época de difusão de identidade, nem os super heróis se aguentam e fazem um perfil no Facebook.
Meti o pau no último Batman, "O Cavaleiro das Trevas", uma massaroca moralistóide e algo maluca, em que o Coringa, que sempre se caracterizou pelo bom humor, tinha virado um terrorista ultraviolento, disparando no vazio, como um rapaz em provável surto acabou fazendo em um cinema de uma cidade do Colorado. Coringa disparava a esmo, contra o "Sistema".
O novo filme da série, "O Cavaleiro das Trevas Ressurge", encontramos um Batman mais deprimido do que o habitual, isolado do mundo, amargurado com a morte da mulher amada, em explosão planejada pelo Coringa. Ele vai ser retirado de seu período sabático pela Mulher Gato, sem dúvida o melhor desse filme. Ann Hathaway, que está magrela, mas muito bonita e com umas falas bacanas no meio daqueles diálogos estereotipados, vai entrar na vida do bilionário atormentado Bruce Wayne e vai forçá-lo a abandonar o seu retiro.
Vamos então a o que me interessa nesta saga, mais fiel ao HQ original: o filme anterior para mim representava a loucura generalizada dos anos Bush, onde a fronteira do bem e do mal tinha se apagado na América: o mocinho virava vilão e ameaçava uma criança, o Batman quebrava a barreira da liberdade e da privacidade das pessoas, violando o sigilo dos celulares para encontrar o terrorista, no caso, o Coringa. Isso me sugeria uma justificativa à abolição dos direitos Civis que se seguiu ao Onze de Setembro. As pessoas podem ser investigadas, presas e torturadas em nome da Guerra ao Terror. O Batman justificava essa "nova desordem" mundial. Um dos procuradores que está relatando o processo do Mensalão comentou a forma absolutamente despudorada que o esquema de corrupção utilizou recursos para amaciar deputados. Isso ocorre desde que o mundo é mundo, mas agora é feito às claras, sem pudor. "O Cavaleiro das Trevas" justificava a violência dos anos Bush, feita também às claras e sem pudor.
O Batman dos anos Obama é mais light: evita matar as pessoas, faz pesquisa com energia limpa e sustentável e parece mais interessado em Ecologia do que no combate ao Terrorismo. Vai enfrentar o mais terrível dos vilões, um Darth Vader repaginado chamado Bane. Ele vive nos esgotos e vai tomar conta de Gothan City como qualquer terrorista sempre sonhou: prende a força policial, isola a cidade e a toma conta do Mercado Financeiro. Bane quer destruir Gothan City. Ele é o continuador de um mestre, da "Liga das Sombras", que treinou Bruce Wayne para destruir a Gothan-New York, a cidade do pecado e da corrupção. Parece má vontade, mas quem quer destruir a civilização ocidental, por ela representar a corrupção absoluta? O terrorista é alusão clara a Al Qaeda, os ataques se dão contra os símbolos da civilização decadente: as pontes, o jogo de futebol americano, o prefeito, a polícia. O terrorista volta para vingar o seu mestre morto. Seria uma alusão à morte de Bin Laden e a sua retaliação?
Batman, que era o vilão para a população, vai ter uma chance de deixar de ser um fora da lei procurado para defender os nossos pecados e nossa alucinação.
Meti o pau no último Batman, "O Cavaleiro das Trevas", uma massaroca moralistóide e algo maluca, em que o Coringa, que sempre se caracterizou pelo bom humor, tinha virado um terrorista ultraviolento, disparando no vazio, como um rapaz em provável surto acabou fazendo em um cinema de uma cidade do Colorado. Coringa disparava a esmo, contra o "Sistema".
O novo filme da série, "O Cavaleiro das Trevas Ressurge", encontramos um Batman mais deprimido do que o habitual, isolado do mundo, amargurado com a morte da mulher amada, em explosão planejada pelo Coringa. Ele vai ser retirado de seu período sabático pela Mulher Gato, sem dúvida o melhor desse filme. Ann Hathaway, que está magrela, mas muito bonita e com umas falas bacanas no meio daqueles diálogos estereotipados, vai entrar na vida do bilionário atormentado Bruce Wayne e vai forçá-lo a abandonar o seu retiro.
Vamos então a o que me interessa nesta saga, mais fiel ao HQ original: o filme anterior para mim representava a loucura generalizada dos anos Bush, onde a fronteira do bem e do mal tinha se apagado na América: o mocinho virava vilão e ameaçava uma criança, o Batman quebrava a barreira da liberdade e da privacidade das pessoas, violando o sigilo dos celulares para encontrar o terrorista, no caso, o Coringa. Isso me sugeria uma justificativa à abolição dos direitos Civis que se seguiu ao Onze de Setembro. As pessoas podem ser investigadas, presas e torturadas em nome da Guerra ao Terror. O Batman justificava essa "nova desordem" mundial. Um dos procuradores que está relatando o processo do Mensalão comentou a forma absolutamente despudorada que o esquema de corrupção utilizou recursos para amaciar deputados. Isso ocorre desde que o mundo é mundo, mas agora é feito às claras, sem pudor. "O Cavaleiro das Trevas" justificava a violência dos anos Bush, feita também às claras e sem pudor.
O Batman dos anos Obama é mais light: evita matar as pessoas, faz pesquisa com energia limpa e sustentável e parece mais interessado em Ecologia do que no combate ao Terrorismo. Vai enfrentar o mais terrível dos vilões, um Darth Vader repaginado chamado Bane. Ele vive nos esgotos e vai tomar conta de Gothan City como qualquer terrorista sempre sonhou: prende a força policial, isola a cidade e a toma conta do Mercado Financeiro. Bane quer destruir Gothan City. Ele é o continuador de um mestre, da "Liga das Sombras", que treinou Bruce Wayne para destruir a Gothan-New York, a cidade do pecado e da corrupção. Parece má vontade, mas quem quer destruir a civilização ocidental, por ela representar a corrupção absoluta? O terrorista é alusão clara a Al Qaeda, os ataques se dão contra os símbolos da civilização decadente: as pontes, o jogo de futebol americano, o prefeito, a polícia. O terrorista volta para vingar o seu mestre morto. Seria uma alusão à morte de Bin Laden e a sua retaliação?
Batman, que era o vilão para a população, vai ter uma chance de deixar de ser um fora da lei procurado para defender os nossos pecados e nossa alucinação.
quarta-feira, 18 de julho de 2012
OK
Há alguns meses passei muito tempo preparando uma aula nesse blog, que teve como base o filme “A Origem”; essa aula foi apresentada em um curso de Terapia de Jogo de Areia, ou de Sand Play. Não gostei muito de minha apresentação mas já purguei essa sensação resumindo a aula aqui mesmo nesse blog, então não vou ficar voltando ao tema. Houve no curso uma aula muito bacana, também sobre um filme, dada por Áurea Caetano. Ela falou sobre o filme “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Eu vi esse filme, que é lento, uma noite em casa e não notei como era bonito até rever algumas cenas na aula.
A história é de um cara, interpretado por Jim Carrey em papel dramático (aliás, impressionante como os comediantes conseguem transmitir uma tristeza profunda quando fazem personagens tristes. Esse personagem de Jim Carrey ou Robin Williams fazendo papel de deprimido, dá para cortar a melancolia e a tristeza com uma faca, de tão densa). Esse cara vai procurar uma empresa que realiza o apagamento de alguma memória que o freguês queira eliminar. Ele quer eliminar a memória de sua namorada, Clementina, interpretada por Kate Winslet. O filme é então sobre Memórias Afetivas e como elas se encadeiam em nossa alma. Eu lembro do nome dela porque ela pede, de cara, para ele não fazer piada com o Dom Quixote, personagem de cartoon de nossa infância que passeava cantando: “Oh, querida, oh querida, oh queriiida Clementina”. Não há ninguém que eu mencione essa música (e que tenha mais de trinta anos, no mínimo) que não esboce um sorriso gostoso, lembrando de um desenho que não passa há décadas. Ela pede para não fazer a piada, o que praticamente induz o outro a lembrar da musiquinha sem cessar. Essas memórias com Clementina vão passando no filme na medida em que vão sendo apagadas. Só que durante o processo, em que o cliente está sedado e não pode pedir para aquilo parar, o casal começa a se esconder nos cantos do Inconsciente de Jim para fugir ao apagamento. As memórias são muito bonitas para serem deletadas como um programa defeituoso. Começa uma brincadeira de esconde esconde entre os funcionários da empresa e os amantes que moram nas memórias e não querem abrir mão do que foi vivido.
A cena que eu gosto de descrever é quando Jim e Clementina recebem as fitas, pois ambos procuraram a empresa para deletar o outro de suas lembranças. Uma funcionária revoltada devolve as entrevistas aos clientes. Clementina ouve a fita do seu namorado falando cobras e lagartos dela e explicando por que iria deletá-la. Confusa, ela sai de seu apartamento, terminando de vez o relacionamento. Ele pede para ela ficar no corredor, para que ele possa pensar no que dizer. Ela vira para ele e fala que aquilo não vai dar certo: ela é chata, irrascível, mau humorada. Vai acabar se enchendo dele como se enche de todos os caras. Vai acabar machucando-o como já machucara todos que se aproximavam dela. Ele olha com muita ternura e responde: “OK”. Ela olha, incrédula. Como? Ele repete: “OK”, como se dissesse: “Você é chata, irrascível, uma hora vai se encher de mim, mas OK”. Ela fica desconcertada e vamos para um happy ending meio torto, porque não vai haver um “felizes para sempre” das comédias adocicadas.
O filme descreve os mecanismos que nós, pósmodernos, temos de tentar evitar, a todo custo, o sofrimento, a frustração a rejeição real ou imaginada. O “OK” do amante é uam profunda e bela aceitação de tudo o que vem no pacote dos amores: frustração, medo, raiva, alegria, abandono e um banco de lembranças que é melhor não tentar apagar. Nessa época de pessoas muito zelosas de sua autoestima e imagem, viver o amor é tão cheio de senões e de medos.
Aquele “OK” representa a aceitação do devir, seja ele qual for. Não é para qualquer um.
A história é de um cara, interpretado por Jim Carrey em papel dramático (aliás, impressionante como os comediantes conseguem transmitir uma tristeza profunda quando fazem personagens tristes. Esse personagem de Jim Carrey ou Robin Williams fazendo papel de deprimido, dá para cortar a melancolia e a tristeza com uma faca, de tão densa). Esse cara vai procurar uma empresa que realiza o apagamento de alguma memória que o freguês queira eliminar. Ele quer eliminar a memória de sua namorada, Clementina, interpretada por Kate Winslet. O filme é então sobre Memórias Afetivas e como elas se encadeiam em nossa alma. Eu lembro do nome dela porque ela pede, de cara, para ele não fazer piada com o Dom Quixote, personagem de cartoon de nossa infância que passeava cantando: “Oh, querida, oh querida, oh queriiida Clementina”. Não há ninguém que eu mencione essa música (e que tenha mais de trinta anos, no mínimo) que não esboce um sorriso gostoso, lembrando de um desenho que não passa há décadas. Ela pede para não fazer a piada, o que praticamente induz o outro a lembrar da musiquinha sem cessar. Essas memórias com Clementina vão passando no filme na medida em que vão sendo apagadas. Só que durante o processo, em que o cliente está sedado e não pode pedir para aquilo parar, o casal começa a se esconder nos cantos do Inconsciente de Jim para fugir ao apagamento. As memórias são muito bonitas para serem deletadas como um programa defeituoso. Começa uma brincadeira de esconde esconde entre os funcionários da empresa e os amantes que moram nas memórias e não querem abrir mão do que foi vivido.
A cena que eu gosto de descrever é quando Jim e Clementina recebem as fitas, pois ambos procuraram a empresa para deletar o outro de suas lembranças. Uma funcionária revoltada devolve as entrevistas aos clientes. Clementina ouve a fita do seu namorado falando cobras e lagartos dela e explicando por que iria deletá-la. Confusa, ela sai de seu apartamento, terminando de vez o relacionamento. Ele pede para ela ficar no corredor, para que ele possa pensar no que dizer. Ela vira para ele e fala que aquilo não vai dar certo: ela é chata, irrascível, mau humorada. Vai acabar se enchendo dele como se enche de todos os caras. Vai acabar machucando-o como já machucara todos que se aproximavam dela. Ele olha com muita ternura e responde: “OK”. Ela olha, incrédula. Como? Ele repete: “OK”, como se dissesse: “Você é chata, irrascível, uma hora vai se encher de mim, mas OK”. Ela fica desconcertada e vamos para um happy ending meio torto, porque não vai haver um “felizes para sempre” das comédias adocicadas.
O filme descreve os mecanismos que nós, pósmodernos, temos de tentar evitar, a todo custo, o sofrimento, a frustração a rejeição real ou imaginada. O “OK” do amante é uam profunda e bela aceitação de tudo o que vem no pacote dos amores: frustração, medo, raiva, alegria, abandono e um banco de lembranças que é melhor não tentar apagar. Nessa época de pessoas muito zelosas de sua autoestima e imagem, viver o amor é tão cheio de senões e de medos.
Aquele “OK” representa a aceitação do devir, seja ele qual for. Não é para qualquer um.
domingo, 18 de março de 2012
Um Método (Muito) Perigoso
Esse vai ser um final de semana cinematográfico nesse blog. Depois volto para a Psiquiatria Compreensiva e a Neurociência. Está chegando o novo filme de David Cronenberg, “Um Método Muito Perigoso”, que relata o início, os primeiros anos da aplicação do método psicanalítico, a “Cura pela Fala”(Talking Cure), a amizade e posterior rompimento entre Freud e Jung. Óbvio que o foco vai ser os segredos de alcova e não a contribuição gigantesca desses dois médicos e pensadores para a nossa Cultura e Saber Humano. Há alguns anos já havia sido feito um filme com o mesmo tema, “Jornada da Alma”. De novo há uma ênfase no envolvimento amoroso e sexual do psiquiatra Carl Jung com a primeira paciente em quem aplicou o nascente tratamento psicanalítico: Sabine Spielrein. Há tantas e profusas imprecisões que eu, que não sou historiador, posso detectar que nem vale a pena me estender nesse ponto. Em determinado momento, Jung discorre sobre um conceito freudiano, de Transferência e Contratransferência, nos idos de 1906-7, algumas décadas antes dos mesmos terem sido estabelecidos teoricamente. Em um determinado momento, Sabine descreve o desenvolvimento psíquico como a resultante do choque violento de tendências opostas que se atritam e se fundem em nosso mundo interno. Esse é o núcleo de um conceito central do pensamento junguiano, o da Função Trancendente, que ele estabeleceria duas décadas depois. Pelo menos o filme não estabelece Sabine como uma heroína feminista no meio de dois porcos chauvinistas, Freud e Jung. Ela participa, opina, seduz e coloca os dois otários um contra o outro. Foi ela que causou o rompimento dos dois gigantes? Claro que não. Apesar de toda fofoca edípica envolvendo a relação de Freud e Jung, era bastante óbvio que eles teriam que, necessariamente, separar os seus caminhos. Cada um descreveu uma parte importante da Psique humana. Não dava para, naquele momento histórico, eles perceberem isso.
Mostrar Sigmund Freud como um líder neurótico, autoritário e impermeável a críticas, assim como mostrar Jung como um amante sadomasoquista de sua paciente, bem, não contribui muito para o entendimento da obra colossal de ambos. Não é incomum que pessoas com esse nível de criatividade sejam assolados por vários e profundos demônios em sua busca. O filme fala de alguns desses demônios. Quando o terapeuta se abre à escuta de uma ferida psíquica, recebe a carga de dor, esperança e desejo que todo ser humano traz em seu mundo interno. Com o decorrer das décadas e o aprimoramento do método “perigoso”, foram sendo desenvolvidos mecanismos de proteção de terapeuta e paciente nessa empreitada, muitas vezes heróica, que é uma psicoterapia profunda.
Talvez a maior falha desse filme seja essa excessiva ênfase no aspecto humano, demasiado humano de Freud e Jung, em vez de aprofundar em como uma moça promissora, diagnosticada como esquizofrênica e destinada, na época, a viver e a morrer num hospital psiquiátrico, conseguiu se organizar, compreender a própria dor e recuperar a sua capacidade de gerir a própria vida, graças a um jovem psiquiatra que arriscou a própria carreira para aplicar um método experimental, depois conhecido como Psicanálise, para ajudá-la. Esse processo, que transformou Sabine Spielrein de candidata a doente mental crônica em médica, psicanalista e mulher extraordinária que foi, até ser fuzilada por nazistas na Segunda Guerra. Se eu virasse um cineasta, seria essa a história para se contar.
Mostrar Sigmund Freud como um líder neurótico, autoritário e impermeável a críticas, assim como mostrar Jung como um amante sadomasoquista de sua paciente, bem, não contribui muito para o entendimento da obra colossal de ambos. Não é incomum que pessoas com esse nível de criatividade sejam assolados por vários e profundos demônios em sua busca. O filme fala de alguns desses demônios. Quando o terapeuta se abre à escuta de uma ferida psíquica, recebe a carga de dor, esperança e desejo que todo ser humano traz em seu mundo interno. Com o decorrer das décadas e o aprimoramento do método “perigoso”, foram sendo desenvolvidos mecanismos de proteção de terapeuta e paciente nessa empreitada, muitas vezes heróica, que é uma psicoterapia profunda.
Talvez a maior falha desse filme seja essa excessiva ênfase no aspecto humano, demasiado humano de Freud e Jung, em vez de aprofundar em como uma moça promissora, diagnosticada como esquizofrênica e destinada, na época, a viver e a morrer num hospital psiquiátrico, conseguiu se organizar, compreender a própria dor e recuperar a sua capacidade de gerir a própria vida, graças a um jovem psiquiatra que arriscou a própria carreira para aplicar um método experimental, depois conhecido como Psicanálise, para ajudá-la. Esse processo, que transformou Sabine Spielrein de candidata a doente mental crônica em médica, psicanalista e mulher extraordinária que foi, até ser fuzilada por nazistas na Segunda Guerra. Se eu virasse um cineasta, seria essa a história para se contar.
sábado, 17 de março de 2012
O Concerto
Estava vendo um DVD desses filmes que ficam perdidos nas prateleiras das locadoras e não passam pelo circuito comercial. Chama-se "O Concerto", uma produção russa-francesa bem bacaninha, uma fábula sobre o tempo das coisas e as segundas chances que procuramos pela vida. O filme, apesar desses temas, ou da minha leitura, é uma comédia sobre um esquecido maestro russo que caiu em desgraça com o regime comunista nos anos 80 e vive no ostracismo, como faxineiro do teatro onde toca a orquestra do Bolshoi, famosíssima Companhia de Balé russa. Ele pega, por acaso, um fax vindo da França, pedindo uma apresentação na Chatelet, em Paris. Ele rouba o fax e monta uma orquestra "fake", a partir dos seus antigos colegas, que viraram trabalhadores braçais, como ele. O filme me lembra "O Exército de Brancaleone", um filme italiano dos anos 70 sobre um grupo quixotesco, sobrevivendo na Itália medieval apesar de todo tipo de precariedade. O maetro vai reunir uma orquestra improvável e exigir que a violonista seja a jovem e famosa Anne Marie Jacquet . Andrei Filipov, o maestro, vai enfrentando todo tipo de dificuldade e de situações cômicas para reunir e montar a sua orquestra. No decorrer do filme, vamos descobrindo por que o maestro é obcecado pelo "Concerto para Violino e Orquestra" de Tchaikovsky e pela presença de Anne Marie. Filipov fez de sua vida na música a busca da Harmonia Absoluta. Durante a execução desse concerto, nos anos 80, emissários da KGB interromperam o concerto e fecharam a sua orquestra, caindo todos, ele e seus músicos, na desgraça e no esquecimento. Durante trinta anos o maestro regeu essa sinfonia dentro de sua cabeça, até ter a chance de, finalmente, terminá-la.
Gostei particularmente desse filme pelo profundo amor pela música que está em todas as suas cenas. Vou estragar um pouco o final de quem quiser assistí-lo, mas acho que vai valer a pena. Na hora em que a orquestra finalmente se posiciona e começa a tocar a Sinfonia, é lógico que os primeiros acordes são ruins e desencontrados. Quando entra o violino de Anne Marie Jacquet, uma espantosa transformação ocorre: ela incorpora a sua parte com uma emoção tão profunda que contagia a orquestra de Brancaleone, que vai se encontrando a partir de seus acordes. Mesmo quem não gosta ou, mais provavelmente, não conhece a música clássica vai se emocionar com a força da obra de Tchaikovsky e como ela vai se impondo nas cenas finais.
O filme fala de coisas muito caras aos terapeutas e às terapias: a Verdade que, mesmo soterrada por trinta anos, sempre dá um jeito de vir à tona; a busca permanente que temos pelas oportunidades perdidas e pela reparação das injustiças; finalmente, olhamos no olho dos nossos medos, até que eles se mudem de endereço. É uma fábula improvável e inpiradora sobre as nossas jornadas temerárias e como, realmente, o caminho se faz ao caminhar. Ou seja, o dia a dia de qualquer curador ou terapeuta, caminhando por caminhos tortuosos e por fracassos, diários, mas não definitivos.
O fracasso só é definitivo quando nos rendemos a ele.
Gostei particularmente desse filme pelo profundo amor pela música que está em todas as suas cenas. Vou estragar um pouco o final de quem quiser assistí-lo, mas acho que vai valer a pena. Na hora em que a orquestra finalmente se posiciona e começa a tocar a Sinfonia, é lógico que os primeiros acordes são ruins e desencontrados. Quando entra o violino de Anne Marie Jacquet, uma espantosa transformação ocorre: ela incorpora a sua parte com uma emoção tão profunda que contagia a orquestra de Brancaleone, que vai se encontrando a partir de seus acordes. Mesmo quem não gosta ou, mais provavelmente, não conhece a música clássica vai se emocionar com a força da obra de Tchaikovsky e como ela vai se impondo nas cenas finais.
O filme fala de coisas muito caras aos terapeutas e às terapias: a Verdade que, mesmo soterrada por trinta anos, sempre dá um jeito de vir à tona; a busca permanente que temos pelas oportunidades perdidas e pela reparação das injustiças; finalmente, olhamos no olho dos nossos medos, até que eles se mudem de endereço. É uma fábula improvável e inpiradora sobre as nossas jornadas temerárias e como, realmente, o caminho se faz ao caminhar. Ou seja, o dia a dia de qualquer curador ou terapeuta, caminhando por caminhos tortuosos e por fracassos, diários, mas não definitivos.
O fracasso só é definitivo quando nos rendemos a ele.
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