Ontem estávamos num jantar de amigos. Um sobrinho da aniversariante está fazendo Faculdade de Psicologia e veio conversar sobre o assunto, meio ruim para degustar entre pedaços de pizza e cerveja em bom ponto. Ele pensa em se aprofundar em Terapia Comportamental e Cognitiva e terminar seus estudos na Itália. Segundo ele, Freud já era. Fiquei mordendo os lábios e recarregando a minha cerveja uruguaia. Se a minha língua algo solta se soltasse, diria para ele fazer um curso de coaching e abandonar a faculdade, pois é um trabalho muito baseado na TCC (Terapia Comportamental e Cognitiva). Igualmente, diria que a psicologia na Itália não é lá grande coisa e talvez no Brasil ele tivesse uma formação melhor. Finalmente, diria que Freud já era apenas na opinião de alguns professores que, ou não leram, ou não entenderam o que leram, ou, pior, dão aula de Psicologia mas não clinicam. Felizmente eu engoli esses pensamentos junto com uma fatia de pizza de mussarela. Ele logo levantou e foi postar as fotos da comida em alguma Rede Social.
Já postei anteriormente nesse blog que a psique tem várias camadas, como as camadas de uma cebola. Por alguma razão estranha, as camadas mais profundas foram descobertas e exploradas antes das camadas mais superficiais. A Psicologia do Inconsciente foi explorada e descrita pelos pioneiros. Freud descreveu o Inconsciente Pessoal, Jung o Inconsciente Coletivo e muito latim já se gastou para se falar nesses assuntos. A Psicologia Comportamental e Cognitiva não se baseia no que está gravado no Inconsciente. Procura operar no Sistema de Crenças e nos Esquemas Mentais que geram doenças. É um bom trabalho que beneficia muita gente. Não é excludente com a exploração do Inconsciente, embora muita gente pense assim.
O que Freud descobriu e que hoje em dia anda muito fora de moda é que o nosso mundo interno é gravado com várias impressões profundas, antigas, inconscientes que rodam dentro de nossa vida como um vírus dentro de um computador, atrapalhando os programas e criando pensamentos e ações que nem sempre são as que a gente mais gostaria.
Ando meio que viciado nos vídeos dos TED Talks (disponíveis no TED.com). Hoje assisti a um vídeo de seis minutos de uma moça bonita e com olhar triste que contou a sua trajetória dentro da Depressão, com quadros depressivos que vinham de sua adolescência e de sua infância carregada de abusos de um pai. Ela procurou tratamento e fez uma TCC para tentar dar conta de seus pensamentos e crenças destrutivas. O quadro só fez piorar, e piorou muito. Quando ela procurou outros tipos de ajuda e de cura, começou sua jornada interior. Na exploração do que poderíamos chamar de seu Inconsciente, descobriu que o seu pior problema não eram os abusos físicos e sexuais que sofreu de seu pai, mas a absoluta falta de qualquer tipo de escuta, dela e de quem a cercava, para seu próprio sofrimento e as coisas que gostaria de expressar. A sua jornada passou pelo reconhecimento dessa dor e elaboração de novas formas de ser e de estar no mundo, não só como uma mulher deprimida e sedenta de aprovação, mas como alguém que visita seu Mundo Interno para poder transformar o Externo.
Usar medicamentos ou mudar as suas formas de pensar ajuda muita gente. Não ajudou essa moça porque as pessoas continuavam dizendo para ela como deveria viver ou pensar, em vez de tentar entender onde e como se manifestava a sua Ferida. Ela fez a sua Jornada Interior para colher a verdade que estava lá. Freud foi um pioneiro em achar este caminho. Isso o garoto não vai aprender na faculdade. Nem muito menos nas Redes Sociais.
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segunda-feira, 13 de outubro de 2014
domingo, 18 de março de 2012
Um Método (Muito) Perigoso
Esse vai ser um final de semana cinematográfico nesse blog. Depois volto para a Psiquiatria Compreensiva e a Neurociência. Está chegando o novo filme de David Cronenberg, “Um Método Muito Perigoso”, que relata o início, os primeiros anos da aplicação do método psicanalítico, a “Cura pela Fala”(Talking Cure), a amizade e posterior rompimento entre Freud e Jung. Óbvio que o foco vai ser os segredos de alcova e não a contribuição gigantesca desses dois médicos e pensadores para a nossa Cultura e Saber Humano. Há alguns anos já havia sido feito um filme com o mesmo tema, “Jornada da Alma”. De novo há uma ênfase no envolvimento amoroso e sexual do psiquiatra Carl Jung com a primeira paciente em quem aplicou o nascente tratamento psicanalítico: Sabine Spielrein. Há tantas e profusas imprecisões que eu, que não sou historiador, posso detectar que nem vale a pena me estender nesse ponto. Em determinado momento, Jung discorre sobre um conceito freudiano, de Transferência e Contratransferência, nos idos de 1906-7, algumas décadas antes dos mesmos terem sido estabelecidos teoricamente. Em um determinado momento, Sabine descreve o desenvolvimento psíquico como a resultante do choque violento de tendências opostas que se atritam e se fundem em nosso mundo interno. Esse é o núcleo de um conceito central do pensamento junguiano, o da Função Trancendente, que ele estabeleceria duas décadas depois. Pelo menos o filme não estabelece Sabine como uma heroína feminista no meio de dois porcos chauvinistas, Freud e Jung. Ela participa, opina, seduz e coloca os dois otários um contra o outro. Foi ela que causou o rompimento dos dois gigantes? Claro que não. Apesar de toda fofoca edípica envolvendo a relação de Freud e Jung, era bastante óbvio que eles teriam que, necessariamente, separar os seus caminhos. Cada um descreveu uma parte importante da Psique humana. Não dava para, naquele momento histórico, eles perceberem isso.
Mostrar Sigmund Freud como um líder neurótico, autoritário e impermeável a críticas, assim como mostrar Jung como um amante sadomasoquista de sua paciente, bem, não contribui muito para o entendimento da obra colossal de ambos. Não é incomum que pessoas com esse nível de criatividade sejam assolados por vários e profundos demônios em sua busca. O filme fala de alguns desses demônios. Quando o terapeuta se abre à escuta de uma ferida psíquica, recebe a carga de dor, esperança e desejo que todo ser humano traz em seu mundo interno. Com o decorrer das décadas e o aprimoramento do método “perigoso”, foram sendo desenvolvidos mecanismos de proteção de terapeuta e paciente nessa empreitada, muitas vezes heróica, que é uma psicoterapia profunda.
Talvez a maior falha desse filme seja essa excessiva ênfase no aspecto humano, demasiado humano de Freud e Jung, em vez de aprofundar em como uma moça promissora, diagnosticada como esquizofrênica e destinada, na época, a viver e a morrer num hospital psiquiátrico, conseguiu se organizar, compreender a própria dor e recuperar a sua capacidade de gerir a própria vida, graças a um jovem psiquiatra que arriscou a própria carreira para aplicar um método experimental, depois conhecido como Psicanálise, para ajudá-la. Esse processo, que transformou Sabine Spielrein de candidata a doente mental crônica em médica, psicanalista e mulher extraordinária que foi, até ser fuzilada por nazistas na Segunda Guerra. Se eu virasse um cineasta, seria essa a história para se contar.
Mostrar Sigmund Freud como um líder neurótico, autoritário e impermeável a críticas, assim como mostrar Jung como um amante sadomasoquista de sua paciente, bem, não contribui muito para o entendimento da obra colossal de ambos. Não é incomum que pessoas com esse nível de criatividade sejam assolados por vários e profundos demônios em sua busca. O filme fala de alguns desses demônios. Quando o terapeuta se abre à escuta de uma ferida psíquica, recebe a carga de dor, esperança e desejo que todo ser humano traz em seu mundo interno. Com o decorrer das décadas e o aprimoramento do método “perigoso”, foram sendo desenvolvidos mecanismos de proteção de terapeuta e paciente nessa empreitada, muitas vezes heróica, que é uma psicoterapia profunda.
Talvez a maior falha desse filme seja essa excessiva ênfase no aspecto humano, demasiado humano de Freud e Jung, em vez de aprofundar em como uma moça promissora, diagnosticada como esquizofrênica e destinada, na época, a viver e a morrer num hospital psiquiátrico, conseguiu se organizar, compreender a própria dor e recuperar a sua capacidade de gerir a própria vida, graças a um jovem psiquiatra que arriscou a própria carreira para aplicar um método experimental, depois conhecido como Psicanálise, para ajudá-la. Esse processo, que transformou Sabine Spielrein de candidata a doente mental crônica em médica, psicanalista e mulher extraordinária que foi, até ser fuzilada por nazistas na Segunda Guerra. Se eu virasse um cineasta, seria essa a história para se contar.
sábado, 14 de janeiro de 2012
O Inferno do Eu
Foi nas primeiras décadas do século passado que um neurologista austríaco de nome Sigmund Freud descobriu um tesouro na cura das moléstias ditas “nervosas”: a cura pela fala, que depois foi chamada de Psico-análise. Esse aventureiro psíquico percebeu que alguns sintomas histéricos, como paralisias imaginárias, tinham como fator gerador alguma experiência traumática passada, esse trauma se alojava em uma camada Inconsciente de nossas redes neurais e lá passava a exercer o seu efeito destrutivo, drenando energia de nossa consciência. Alguns anos depois, Freud abandonou a teoria do Trauma e passou a observar que na base de muitos sintomas havia o Conflito, duas vontades, a Consciente e a Inconsciente, brigando em nossa alma gerando bloqueios, medos, disfunções. Veio aí a sua Teoria da Sexualidade. A humanidade fora fundada em torno da repressão às suas pulsões básicas. A sexualidade seria das pulsões mais reprimidas e introjetadas, retornando depois como sintoma. Apesar de dado como cientificamente morto pela moderna neurociência, o que eu pessoalmente acho uma grande bobagem e uma vendetta de décadas, Freud continua exercendo influência com suas idéias a tudo que se pensa sobre a economia psíquica de cada um. É certo que a repressão às pulsões sexuais diminuíram muito no decorrer do século, e o ser humano não tornou-se muito melhor com essa libertação. Pelo contrário, somos hojes prisioneiros de um mundo em que a perversão não é mais reprimir as pulsões, mas ser escravo delas. A pulsão oral virou-se em compulsões alimentares, comer de tudo, o tempo todo, tronou-se uma epidemia ocidental, o que já abordamos em outros posts. A pulsão anal, sobretudo a necessidade de reter, dominar, torturar quem não tem, é moeda de troca de todo sistema capitalista, baseado nas pulsões tornadas perversas. A pulsão genital, por seu lado não anda lá muito bem das pernas, dominada pelas outras pulsões. Sexo hoje é um bem de consumo, regido pela compulsão e necessidades de poder. Está longe do Gozo que o Freudismo e sobretudo o Lacanismo prometiam. O Gozo é solitário, virtual, masturbatório.
Essa é uma característica de nossa geração Autoestima: eu quero, eu mereço, você tem que me dar. Uma solidão coletiva dispersa nas mídias sociais. Essa é a prisão do Ego e da Falta: eles são intermináveis. A Falta se alimenta de mais Falta, que gera mais Falta.
Para não ficar só na impressão de crítica rabugenta, foi recontar uma parábola que está em um livro de Nilton Bonder, outro que, como Freud, recupera as tradições judaicas para nossa pós modernidade. A história é de um rabino, um guia espiritual que depois de uma vida de entrega e devoção ao Outro e à espiritualidade, teve a oportunidade de ver com seus próprios olhos o Purgatório e o Paraíso. Quando foi ao Purgatório, surpreendeu-se com uma mesa farta de banquete, com iguarias e gozo infinito. Nada de demônios ou fogueiras eternas. As pessoas se sentavam à mesa, diante da absoluta abundância, mas choravam e se lamentavam por toda eternidade. O homem santo foi se chegando mais perto, procurando entender a razão de tanta dor. Chegando mais perto, percebeu que as almas tinham as mãos invertidas, voltadas para frente. Estavam diante de toda fartura e toda abundância, mas não conseguiam trazê-las para a própria boca. Quando foi para o Paraíso, teve nova surpresa: havia a mesma mesa, com as mesmas delícias e possibilidades. As pessoas, ao contrário das anteriores, não choravam, pelo contrário, gargalhavam em uma felicidade radiante. Chegando mais perto, teve nova surpresa, de notar as almas com as mãos viradas, exatamente como no Purgatório. Elas não podiam trazer o alimento para a própria boca. A diferença entre o Purgatório e o Paraíso é que, no Paraíso, as mãos eram usadas para alimentar o Outro. Um dava comida na boca do próximo, de modo que ninguém sentia fome, além da alegria adicional de cuidar de alguém.
Essa é uma característica de nossa geração Autoestima: eu quero, eu mereço, você tem que me dar. Uma solidão coletiva dispersa nas mídias sociais. Essa é a prisão do Ego e da Falta: eles são intermináveis. A Falta se alimenta de mais Falta, que gera mais Falta.
Para não ficar só na impressão de crítica rabugenta, foi recontar uma parábola que está em um livro de Nilton Bonder, outro que, como Freud, recupera as tradições judaicas para nossa pós modernidade. A história é de um rabino, um guia espiritual que depois de uma vida de entrega e devoção ao Outro e à espiritualidade, teve a oportunidade de ver com seus próprios olhos o Purgatório e o Paraíso. Quando foi ao Purgatório, surpreendeu-se com uma mesa farta de banquete, com iguarias e gozo infinito. Nada de demônios ou fogueiras eternas. As pessoas se sentavam à mesa, diante da absoluta abundância, mas choravam e se lamentavam por toda eternidade. O homem santo foi se chegando mais perto, procurando entender a razão de tanta dor. Chegando mais perto, percebeu que as almas tinham as mãos invertidas, voltadas para frente. Estavam diante de toda fartura e toda abundância, mas não conseguiam trazê-las para a própria boca. Quando foi para o Paraíso, teve nova surpresa: havia a mesma mesa, com as mesmas delícias e possibilidades. As pessoas, ao contrário das anteriores, não choravam, pelo contrário, gargalhavam em uma felicidade radiante. Chegando mais perto, teve nova surpresa, de notar as almas com as mãos viradas, exatamente como no Purgatório. Elas não podiam trazer o alimento para a própria boca. A diferença entre o Purgatório e o Paraíso é que, no Paraíso, as mãos eram usadas para alimentar o Outro. Um dava comida na boca do próximo, de modo que ninguém sentia fome, além da alegria adicional de cuidar de alguém.
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