O escritor argentino Jorge Luis Borges escreveu que Freud reduziu o ser humano a um punhado de pulsões desagradáveis. Ele preferia Jung e eu também, mas é com as pulsões freudianas que temos que nos haver no dia a dia. Nos estertores do seu desgoverno, Dilma apela para os circuitos psíquicos freudianos, como se as bestas do Apocalipse estivessem chegando. Ela apela ao Circuito Oral de Biossobrevivência, afirmando que os golpistas vão abolir o Bolsa Família. Apela também ao Circuito Anal de Territorialidade, afirmando que o espaço adquirido pelas pessoas desfavorecidas vai ser retirado: direitos das empregadas domésticas, financiamento de cursos superiores e investimentos sociais, tudo isso vai ser retirado por Michel Temer que, Antonio Carlos Magalhães tinha razão, parece mesmo um mordomo de filme de terror. Finalmente, essa senhora tresloucada vai para a ONU falar que está sendo invadida por uma camarilha sedenta de poder. Eles estão sendo motivados pelos Circuitos Genitais de subjugar e possuir, o mais de gozar da horrenda elite branca. Uma cartilha de pulsões freudianas, usadas a favor de sua manipulação. A manipulação do Medo e da Ira, que é carne de vaca para manobrar as massas.
Jung tinha uma frase terrível sobre a Sombra: Você sempre se torna aquilo que combate. O PT se transformou em tudo aquilo que combateu. Ou pior: o PT de verdade, a militância que vai para a rua com as suas pulsões freudianas ativadas, são pessoas de bem que acreditam bovinamente nos botões de seu Cérebro Emocional que estão sendo maliciosamente apertados. Foi uma minoria sedenta de poder e de vinganças anos 70 que se apossou e aparelhou o estado, tentando, esses sim, controlar tudo, em busca de uma utopia bolivariana e cubana. O preço do controle é o nivelamento por baixo. Na Venezuela, o preço é a falta de papel higiênico nos banheiros. Em Cuba, é a extinção da vida inteligente na vida pública, já que a inteligência implica na contradição.
A despeito de Borges, vivemos num mundo dominado pelas pulsões freudianas. As mídias, a propaganda, os programas dos Datenas, batem o tempo todo em pulsões de Morte, de Medo, de Cobiça. Nos países onde não chegava a televisão foi possível estudar diretamente os efeitos da hipermídia na sociedade. Dispararam os índices de criminalidade e violência. Por outro lado, tomou corpo a conscientização das minorias, como as mulheres e os homossexuais, que passaram a se organizar e lutar por seus direitos. Não há avanço sem perdas, não há liberdade que não incorra em excessos. Mas o pior é a tentativa de controle pulsional das massas através de seus medos.
Lembro de um sonho de um paciente, que estava numa estação de trem, junto com o seu filho pequeno, e, por algum motivo, a criança saiu do vagão e o impediu de voltar. Tomado pela cólera, ele bateu e bateu na criança até que ela se transformou em um feto encolhido. Ele acordou horrorizado. Vivemos num mundo onde somos guiados como manadas para dentro desses trens, onde nos dizem como pensar, o que comer, o que vestir e com quem fantasiar no escuro do cinema. O nascimento de seu filho obrigou o paciente a pular do trem e desenvolver a sua consciência. Não por acaso ele começou a apresentar crises de Pânico algumas semanas depois de trocar a primeira fralda. O ódio que o fez acordar horrorizado foi o de ter que olhar para as próprias feridas e medos, o que começa no momento em que o primeiro exame materializa, que a sua vida mudou e agora você é um pai. A continuação possível do sonho é que aquele feto cresceu dentro de sua Psique, as crises de Pânico foram embora e ele tornou-se um pai melhor do que seu pai tinha conseguido ser. Foi bom ter descido do trem e aprendido a andar com suas pernas.
A revolução possível é a da Consciência. Eu fico realmente abismado em perceber que a presidente Dilma, após seu governo e o de Lula ter destruído tudo o que tocou com as suas mãos, incluindo Economia, Estatais e setor produtivo, tem a clara, cristalina ideia de que o Bem está do seu lado e os Outros são o Mal por trás do pau de arara. Como alguém pode ser possuído pelo trem de suas crenças e não conseguir minimamente, tomar consciência de seus erros de avaliação e de entendimento do mundo? Diria Cazuza que “A sua piscina tá cheia de ratos/Suas ideias não correspondem aos fatos”. Mas o tempo não para.
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sábado, 23 de abril de 2016
sábado, 14 de janeiro de 2012
O Inferno do Eu
Foi nas primeiras décadas do século passado que um neurologista austríaco de nome Sigmund Freud descobriu um tesouro na cura das moléstias ditas “nervosas”: a cura pela fala, que depois foi chamada de Psico-análise. Esse aventureiro psíquico percebeu que alguns sintomas histéricos, como paralisias imaginárias, tinham como fator gerador alguma experiência traumática passada, esse trauma se alojava em uma camada Inconsciente de nossas redes neurais e lá passava a exercer o seu efeito destrutivo, drenando energia de nossa consciência. Alguns anos depois, Freud abandonou a teoria do Trauma e passou a observar que na base de muitos sintomas havia o Conflito, duas vontades, a Consciente e a Inconsciente, brigando em nossa alma gerando bloqueios, medos, disfunções. Veio aí a sua Teoria da Sexualidade. A humanidade fora fundada em torno da repressão às suas pulsões básicas. A sexualidade seria das pulsões mais reprimidas e introjetadas, retornando depois como sintoma. Apesar de dado como cientificamente morto pela moderna neurociência, o que eu pessoalmente acho uma grande bobagem e uma vendetta de décadas, Freud continua exercendo influência com suas idéias a tudo que se pensa sobre a economia psíquica de cada um. É certo que a repressão às pulsões sexuais diminuíram muito no decorrer do século, e o ser humano não tornou-se muito melhor com essa libertação. Pelo contrário, somos hojes prisioneiros de um mundo em que a perversão não é mais reprimir as pulsões, mas ser escravo delas. A pulsão oral virou-se em compulsões alimentares, comer de tudo, o tempo todo, tronou-se uma epidemia ocidental, o que já abordamos em outros posts. A pulsão anal, sobretudo a necessidade de reter, dominar, torturar quem não tem, é moeda de troca de todo sistema capitalista, baseado nas pulsões tornadas perversas. A pulsão genital, por seu lado não anda lá muito bem das pernas, dominada pelas outras pulsões. Sexo hoje é um bem de consumo, regido pela compulsão e necessidades de poder. Está longe do Gozo que o Freudismo e sobretudo o Lacanismo prometiam. O Gozo é solitário, virtual, masturbatório.
Essa é uma característica de nossa geração Autoestima: eu quero, eu mereço, você tem que me dar. Uma solidão coletiva dispersa nas mídias sociais. Essa é a prisão do Ego e da Falta: eles são intermináveis. A Falta se alimenta de mais Falta, que gera mais Falta.
Para não ficar só na impressão de crítica rabugenta, foi recontar uma parábola que está em um livro de Nilton Bonder, outro que, como Freud, recupera as tradições judaicas para nossa pós modernidade. A história é de um rabino, um guia espiritual que depois de uma vida de entrega e devoção ao Outro e à espiritualidade, teve a oportunidade de ver com seus próprios olhos o Purgatório e o Paraíso. Quando foi ao Purgatório, surpreendeu-se com uma mesa farta de banquete, com iguarias e gozo infinito. Nada de demônios ou fogueiras eternas. As pessoas se sentavam à mesa, diante da absoluta abundância, mas choravam e se lamentavam por toda eternidade. O homem santo foi se chegando mais perto, procurando entender a razão de tanta dor. Chegando mais perto, percebeu que as almas tinham as mãos invertidas, voltadas para frente. Estavam diante de toda fartura e toda abundância, mas não conseguiam trazê-las para a própria boca. Quando foi para o Paraíso, teve nova surpresa: havia a mesma mesa, com as mesmas delícias e possibilidades. As pessoas, ao contrário das anteriores, não choravam, pelo contrário, gargalhavam em uma felicidade radiante. Chegando mais perto, teve nova surpresa, de notar as almas com as mãos viradas, exatamente como no Purgatório. Elas não podiam trazer o alimento para a própria boca. A diferença entre o Purgatório e o Paraíso é que, no Paraíso, as mãos eram usadas para alimentar o Outro. Um dava comida na boca do próximo, de modo que ninguém sentia fome, além da alegria adicional de cuidar de alguém.
Essa é uma característica de nossa geração Autoestima: eu quero, eu mereço, você tem que me dar. Uma solidão coletiva dispersa nas mídias sociais. Essa é a prisão do Ego e da Falta: eles são intermináveis. A Falta se alimenta de mais Falta, que gera mais Falta.
Para não ficar só na impressão de crítica rabugenta, foi recontar uma parábola que está em um livro de Nilton Bonder, outro que, como Freud, recupera as tradições judaicas para nossa pós modernidade. A história é de um rabino, um guia espiritual que depois de uma vida de entrega e devoção ao Outro e à espiritualidade, teve a oportunidade de ver com seus próprios olhos o Purgatório e o Paraíso. Quando foi ao Purgatório, surpreendeu-se com uma mesa farta de banquete, com iguarias e gozo infinito. Nada de demônios ou fogueiras eternas. As pessoas se sentavam à mesa, diante da absoluta abundância, mas choravam e se lamentavam por toda eternidade. O homem santo foi se chegando mais perto, procurando entender a razão de tanta dor. Chegando mais perto, percebeu que as almas tinham as mãos invertidas, voltadas para frente. Estavam diante de toda fartura e toda abundância, mas não conseguiam trazê-las para a própria boca. Quando foi para o Paraíso, teve nova surpresa: havia a mesma mesa, com as mesmas delícias e possibilidades. As pessoas, ao contrário das anteriores, não choravam, pelo contrário, gargalhavam em uma felicidade radiante. Chegando mais perto, teve nova surpresa, de notar as almas com as mãos viradas, exatamente como no Purgatório. Elas não podiam trazer o alimento para a própria boca. A diferença entre o Purgatório e o Paraíso é que, no Paraíso, as mãos eram usadas para alimentar o Outro. Um dava comida na boca do próximo, de modo que ninguém sentia fome, além da alegria adicional de cuidar de alguém.
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