As mãos trêmulas afastam uma mecha de cabelos tendendo aos grisalhos. A voz treme também. Ela finalmente desabafa a respeito de sua filha, que já passou por vários psiquiatras, terapeutas e outras formas de ajuda, com resultados que não se mantém. Confessa que foi procurar outro profissional, nessa longa peregrinação, e o colega sugeriu aumentar a dose dos medicamentos que eu já havia indicado. Sua filha não tolerou a nova dose e, mais uma vez, interrompeu, ou não seguiu, o tratamento. Alguns dizem que ela é uma Depressiva, ou um nome mais horrível, uma Distímica, outros como eu entendem que os sintomas depressivos derivam de uma severa Fobia Social (o nome atual é Transtorno de Ansiedade Social, mas Fobia Social descreve muito melhor o seu quadro do que uma simples ansiedade). Confesso que fico incomodado com a atitude dessa senhora. Já tenho olhos e ouvidos calejados por mais de duas décadas na estrada, isso vai te ensinando a tolerar esse tipo de autoengano e de projeção, mas continua me causando cansaço ter que sugerir que a dificuldade de sua filha tem a participação de todo o núcleo familiar e não vai melhorar com uma simples mudança da dose da medicação. Precisamos marcar uma conversa a três, com a presença de sua filha, para que ambas melhorem o entendimento do seu quadro clínico e o longo caminho de reconstrução. Ela suspira impacientemente, dizendo que vai marcar um horário, mas ambos sabemos que isso não vai acontecer. Mas não posso deixar de tentar fazer a coisa certa, mesmo que a chance de dar certo não seja muito animadora. Mas a paciente em si, o objeto do meu interesse no caso, foi orientada sobre a natureza dos sintomas e da formação de suas redes neurais baseadas no medo e, sobretudo, da necessidade de enfrentar esses medos todo dia. Algumas semanas ela vai conseguir manter as suas atividades e rotinas, em outras vai ficar em casa, sem energia para sair do quarto, até porque sair do quarto significa enfrentar os gritos de sua mãe.
Está ficando mais difícil ajudar esses pacientes a atravessar a jornada na direção da fase adulta de nossa vida. Jovens apáticos, desmotivados e intoxicados pelos blá blá blás de pais enlouquecidos e pouco eficazes é uma realidade da nossa clínica. A mistura explosiva de regras pouco claras com um assédio constante de críticas e decepções mantém muita gente com o caminho interrompido e restrita à uma vida virtual de jogos online ou gritos animados de youtubers. Um neurotransmissor pouco citado, o Glutamato, tem efeito tóxico na transmissão nervosa. Quando eu vejo essas apatias profundas, a falta de energia em começar qualquer atividade, penso que essas relações tóxicas tem muita ação do Glutamato. A pessoa não consegue sair do lugar e iniciar as atividades mais rotineiras. O mundo exterior parece cheio de predadores e congelar parece a única opção.
Os remédios ajudam mas não tem o efeito mágico esperado pelas pessoas e pela indústria farmacêutica. Não adianta consertar a neurotransmissão se essas redes neurais de medo e repulsa não forem trabalhadas. Elas são profundas e o trabalho é longo e paciente. A senhora de mãos trêmulas tenta dobrar o mundo à própria prepotência e estende a sua filha aos médicos como um aparelho doméstico que precisa ser consertado. Ela quase fala para consertá-la de uma vez. Outro dia houve uma trollagem (termo que demorei a aprender o que significava no mundo virtual) nos comentários desse blog onde uma visitante anônima afirmou que os terapeutas induzem em seus pacientes a dependência, o que gera maior lucro e fidelização. Existe essa situação nas clínicas por aí? Sem dúvida. Um caso como esse me lembra a necessidade de uma profunda reconstrução dos laços pessoais e familiares para tirar essa menina de dentro de seu quarto. Isso leva tempo. Todos, familiares, escola, amigos, terapeutas precisam estar conscientes que são parte do problema e se possível, da solução. Não adianta o jogo de empurra de mandar para alguém que tente consertar o rádio quebrado.
Vejo a senhora ir embora depois de invadir minha sala com sua angústia. Seus dois filhos tem dificuldades em achar um caminho dentro da vida adulta. Você pode educar para evitar o erro ou para perseguir o sucesso. Pode ter uma perspectiva de explorar o futuro ou se agarrar aos medos passados. Para vencer o medo, precisamos mais de mãos dadas do que de dedos apontados.
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segunda-feira, 24 de outubro de 2016
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Codinome Beijaflor
Então lá vou eu selecionar uma cena de um filme que pouca gente viu e se viu, foi há muito tempo. Isso faz parecer que o autor dessas mal tecladas é muito erudito e vê coisas que as outras pessoas não veem. Sorry. Não é a intenção. O fato é que tenho uma memória de elefante para algumas cenas e algumas falas. Só isso. A cena é de “Vanilla Sky”. Cameron Diaz faz a cena com Tom Cruise. Pergunta a ele o que precisa acontecer para ter seu afeto e, sobretudo, a sua atenção. O carro vai ganhando velocidade. Ele responde daquela forma que os homens fazem, de que ela é especial e está exagerando. Ou foge com alguma evasiva, como os homens fazem quando estão diante de um indício de DR (Discussão de Relacionamento). Ela faz a pergunta mais dolorosa, algo como : “Ontem você ejaculou na minha boca não sei quantas vezes e mesmo assim, isso não tem nenhuma importância, nenhum valor? Nada consegue te tocar?”. O carro vai ganhando velocidade e ele percebe que o assunto está ficando sério. Quando fica claro que ela vai destruir o carro e a vida de ambos, o cara grita desesperado: “Mas eu te amo, eu te amoooo...” É a última coisa que ouvimos antes do barulho das ferragens retorcidas, o carro despencando de um viaduto. Ele vai ficar deformado depois desse acidente e sua vida passa a ser definida por isso, pela busca de escape dessa situação terrível dentro de uma vida virtual.
Ontem ouvi um sonho em que o sonhador vê uma menina (que ele rejeitou em sua vida amorosa) olhando fixamente para ele, causando algum desconforto. Interpretamos que esse olhar refletia um pouco a sua atitude diante da vida, que era ficar fora da cena, contemplando a vida dos outros. Poderia dizer também que esse olhar representa a nossa necessidade vital de ter nossa imagem refletida no olho do Outro, ou da Outra. Lacan descreveu a Fase de Espelho, a fase em que o bebê sabe que existe através do olhar amoroso da Mãe, o primeiro incomensurável Outro de nossa vida. A moça, desesperada e suicida, pergunta para o homem que não vira o Outro o que precisa fazer para sair de seu olhar vazio, de sua fria e calculada indiferença. Essa é a maneira que o homem pós moderno encontrou para vencer a Guerra dos Sexos: transformar a mulher em um objeto de consumo sem rosto. Mesmo um ato de fabulosa intimidade, como ela teve com ele entre lençóis, mesmo isso não tira o seu rosto de um anonimato amoroso, onde ela é objeto do gozo, mas não do olhar do homem que ela busca.
Muitas mulheres vagam pelos divãs e pelas redes sociais se fazendo a mesma pergunta: o que é necessário fazer para ser olhada e, sobretudo, ser vista pelo homem beijaflor, aquele que bica os cálices das flores mas não se detém em nenhuma?
Lacan (esse post está bem lacaniano) chamou essa estrutura de “Objeto a”. Isso significa um estado de busca infinita pelo Objeto de meu desejo. Viver em função se ser para esse objeto, de fazer tudo para capturar esse olhar perdido. Um olhar que pode fazê-la especial. E única. É lógico que esse busca vai terminar em lenços de papel lacrimosos e caixas de chocolate. Ou no carro caindo do viaduto. Mas as luluzinhas perguntam, desesperadas: “Mas o que fazer, então?”. Talvez começar pelo mais difícil, que é olhar para si mesma, e gostar do que viu. Sem colocar no Outro a sua própria existência, ou o direito a ela.
Ontem ouvi um sonho em que o sonhador vê uma menina (que ele rejeitou em sua vida amorosa) olhando fixamente para ele, causando algum desconforto. Interpretamos que esse olhar refletia um pouco a sua atitude diante da vida, que era ficar fora da cena, contemplando a vida dos outros. Poderia dizer também que esse olhar representa a nossa necessidade vital de ter nossa imagem refletida no olho do Outro, ou da Outra. Lacan descreveu a Fase de Espelho, a fase em que o bebê sabe que existe através do olhar amoroso da Mãe, o primeiro incomensurável Outro de nossa vida. A moça, desesperada e suicida, pergunta para o homem que não vira o Outro o que precisa fazer para sair de seu olhar vazio, de sua fria e calculada indiferença. Essa é a maneira que o homem pós moderno encontrou para vencer a Guerra dos Sexos: transformar a mulher em um objeto de consumo sem rosto. Mesmo um ato de fabulosa intimidade, como ela teve com ele entre lençóis, mesmo isso não tira o seu rosto de um anonimato amoroso, onde ela é objeto do gozo, mas não do olhar do homem que ela busca.
Muitas mulheres vagam pelos divãs e pelas redes sociais se fazendo a mesma pergunta: o que é necessário fazer para ser olhada e, sobretudo, ser vista pelo homem beijaflor, aquele que bica os cálices das flores mas não se detém em nenhuma?
Lacan (esse post está bem lacaniano) chamou essa estrutura de “Objeto a”. Isso significa um estado de busca infinita pelo Objeto de meu desejo. Viver em função se ser para esse objeto, de fazer tudo para capturar esse olhar perdido. Um olhar que pode fazê-la especial. E única. É lógico que esse busca vai terminar em lenços de papel lacrimosos e caixas de chocolate. Ou no carro caindo do viaduto. Mas as luluzinhas perguntam, desesperadas: “Mas o que fazer, então?”. Talvez começar pelo mais difícil, que é olhar para si mesma, e gostar do que viu. Sem colocar no Outro a sua própria existência, ou o direito a ela.
domingo, 19 de janeiro de 2014
A Espada e a Expectativa
Lembro de uma pequena história de samurai que me ocorre para escrever esse post: “Havia um valente samurai que viajou de muito longe para consultar um velho Mestre. Estava com o espírito carregado por uma dúvida e, depois da jornada, finalmente perguntou ao sábio como saber a diferença e encontrar o Inferno ou o Céu na vida de uma pessoa. O mestre, de maneira estranha, não recebeu bem o Samurai. Pareceu mesmo ignorar a sua pergunta. O guerreiro começou a se sentir incomodado com essa atitude. Repetiu a pergunta, com insistência incomum. O velhinho respondeu com um desaforo, que não iria conversar com um desclassificado. O Samurai puxou a sua espada, pronto a matar o velho desaforado. O sábio olhou em seus olhos e falou: “Esse é o Inferno”. O samurai então, entendeu a mensagem, guardou a espada e se curvou diante do mestre. “Esse é o Paraíso”, completou o homem.
A história não é muito animadora. Podemos concluir, através dela, que estamos no Inferno a maior parte do tempo. Quando o guerreiro se deixa ofender por um desconhecido, está no reino do Ego. O sangue sobe à cabeça e ele está perto de lavar a sua honra também em sangue, quando, envergonhado, entende a lição. Mais surpreendente é o final, quando a atitude de respeito é comparada ao Céu.
Lembrei dessa historieta antes de falar sobre um tema recorrente nesse blog, que é a Obsessão Amorosa, doença que acomete ambos os sexos mas, predominantemente, as mulheres, que não usam armadura nem falam japonês, mas podem se comportar como o samurai. A língua pode ser afiada como uma espada e decepar esperanças. Mas o essencial de nosso inferno pós moderno é sempre, sempre o mesmo: “Eu, eu, eu, eu e mais eu”. Para completar, um pouco mais de Eu. As moças chegam nas relações com uma lista de características que se esperam de seu candidato a Príncipe: beleza, pegada, situação financeira e uma capacidade sobre humana de atender a todas as suas carências. Quando nosso candidato falha em alguns desses quesitos, geralmente em todos, começam as críticas, as cobranças e os desencontros que terminam em uma caixa de chocolates e vários lenços de papel molhados. Como o velho mestre conseguiria dar conta de tanta expectativa e sofrimento?
A atitude que o mestre aponta como o paraíso é do Respeito. Respeito pelo Outro, mas, acima de tudo, respeito pelo aprendizado. Em vez de esticar e puxar o Outro, ou a relação, para cima e para baixo até ela se encaixar no caixão das expectativas, adotar uma atitude de respeito por tudo o que não conseguimos controlar. Lição número um para os samurais do amor: começar pelo respeito ao Outro. Ou à Outra.
A Guerra dos Sexos não existe mais . O que existe são espadas cortando o ar.
A história não é muito animadora. Podemos concluir, através dela, que estamos no Inferno a maior parte do tempo. Quando o guerreiro se deixa ofender por um desconhecido, está no reino do Ego. O sangue sobe à cabeça e ele está perto de lavar a sua honra também em sangue, quando, envergonhado, entende a lição. Mais surpreendente é o final, quando a atitude de respeito é comparada ao Céu.
Lembrei dessa historieta antes de falar sobre um tema recorrente nesse blog, que é a Obsessão Amorosa, doença que acomete ambos os sexos mas, predominantemente, as mulheres, que não usam armadura nem falam japonês, mas podem se comportar como o samurai. A língua pode ser afiada como uma espada e decepar esperanças. Mas o essencial de nosso inferno pós moderno é sempre, sempre o mesmo: “Eu, eu, eu, eu e mais eu”. Para completar, um pouco mais de Eu. As moças chegam nas relações com uma lista de características que se esperam de seu candidato a Príncipe: beleza, pegada, situação financeira e uma capacidade sobre humana de atender a todas as suas carências. Quando nosso candidato falha em alguns desses quesitos, geralmente em todos, começam as críticas, as cobranças e os desencontros que terminam em uma caixa de chocolates e vários lenços de papel molhados. Como o velho mestre conseguiria dar conta de tanta expectativa e sofrimento?
A atitude que o mestre aponta como o paraíso é do Respeito. Respeito pelo Outro, mas, acima de tudo, respeito pelo aprendizado. Em vez de esticar e puxar o Outro, ou a relação, para cima e para baixo até ela se encaixar no caixão das expectativas, adotar uma atitude de respeito por tudo o que não conseguimos controlar. Lição número um para os samurais do amor: começar pelo respeito ao Outro. Ou à Outra.
A Guerra dos Sexos não existe mais . O que existe são espadas cortando o ar.
domingo, 1 de dezembro de 2013
O Amor nos Tempos dos Aplicativos
Uma novidade na indústria da pegação é um aplicativo que permite localizar e interagir com pessoas selecionadas por perfil e interesses, o Tinder, que vai encher ainda mais os consultórios de terapeutas e consumir toneladas de lenços de papel. Ligando o tal radar, as pessoas tem acessos a imagens e perfis, trocam mensagens e se encontram. Os caras querem arrumar uma transa com alguém perto, sem esforço. As mulheres podem ter a mesma intenção, teoricamente, mas não é isso que ocorre. Normalmente ficam decepcionadas de um jeito ou de outro, ficando ou não, transando ou não. Hoje somos todos objetos de consumo, o que inclui o consumo sexual. O excesso de interesse no que é exterior faz as pessoas, de ambos os sexos, perderem a compreensão do que é fazer contato, afetiva e fisicamente. A sexualidade e a sexualização parecem uma manifestação de desespero e de isolamento, uma busca de contato que termina em não-contato.
As meninas arrumaram um novo aplicativo para a sua pouco disfarçada frustração: um tal chamado Lulu, onde avaliam os caras e expõe os seus defeitos. Uma menina suicidou-se no Piauí quando seus vídeos íntimos caíram na Web. Já estou esperando pelas consultas de urgência com esse aplicativo, tentativas suicidas incluídas. Sobretudo, fico imaginando o que vai acontecer depois do revide. As meninas vão colocar que o cara é galinha, não liga no dia seguinte e se acha melhor na cama do que realmente é. Os caras vão revidar dizendo que a menina, quando tira a roupa, tem gorduras localizadas, peitos caídos ou liga dezoito vezes por dia depois do primeiro encontro. Não é difícil de imaginar quem vai sofrer mais com essa prática idiota, não é mesmo? Sobretudo, quando se expõe a intimidade de alguém ao escárnio e à humilhação públicas, além de mágoas profundas, a resultante é que as pessoas evitem cada vez mais se envolver em qualquer tipo de relacionamento. O final desse jogo é a solidão, para ambos os sexos. O que um homem vai pensar, se ficar nú e receber em uma rede social notas e comentários sobre tamanho e perfomance de seu instrumento? E a menina? O que vai achar de ler comentários sobre o que faz ou deixa de fazer entre quatro paredes? O que vai pensar o seu avô quando ler sobre seu beijo e outras coisinhas que serão comentadas abertamente? E pior do que tudo, se alguém realmente quiser enxovalhar o cara que lhe deu um fora, ou a menina que ficou com o seu melhor amigo? Basta escrever todo tipo de barbaridades, pois as pessoas tem uma estranha tendência em acreditar na palavra escrita.
Diante de toda essa barbárie, esse lixo virtual pode ter um estranho efeito colateral: pode devolver as pessoas às relações profundas. Quanto maior a promiscuidade, maior a chance do linchamento nos aplicativos e nos celulares. A chance de tirar a roupa para alguém que não vai usar a sua nudez, corporal e, sobretudo, afetiva como uma arma de vingança ou agressão vai ser somente quem realmente ama. Já pensou? Esses aplicativos podem trazer de volta à moda o sexo feito com amor, aquele que perdoa um pinto pequeno ou uma celulite na barriga. Pode ser o começo do fim da guerra dos sexos. Ou o início da compreensão do valor da intimidade, pessoal e a dois.
As meninas arrumaram um novo aplicativo para a sua pouco disfarçada frustração: um tal chamado Lulu, onde avaliam os caras e expõe os seus defeitos. Uma menina suicidou-se no Piauí quando seus vídeos íntimos caíram na Web. Já estou esperando pelas consultas de urgência com esse aplicativo, tentativas suicidas incluídas. Sobretudo, fico imaginando o que vai acontecer depois do revide. As meninas vão colocar que o cara é galinha, não liga no dia seguinte e se acha melhor na cama do que realmente é. Os caras vão revidar dizendo que a menina, quando tira a roupa, tem gorduras localizadas, peitos caídos ou liga dezoito vezes por dia depois do primeiro encontro. Não é difícil de imaginar quem vai sofrer mais com essa prática idiota, não é mesmo? Sobretudo, quando se expõe a intimidade de alguém ao escárnio e à humilhação públicas, além de mágoas profundas, a resultante é que as pessoas evitem cada vez mais se envolver em qualquer tipo de relacionamento. O final desse jogo é a solidão, para ambos os sexos. O que um homem vai pensar, se ficar nú e receber em uma rede social notas e comentários sobre tamanho e perfomance de seu instrumento? E a menina? O que vai achar de ler comentários sobre o que faz ou deixa de fazer entre quatro paredes? O que vai pensar o seu avô quando ler sobre seu beijo e outras coisinhas que serão comentadas abertamente? E pior do que tudo, se alguém realmente quiser enxovalhar o cara que lhe deu um fora, ou a menina que ficou com o seu melhor amigo? Basta escrever todo tipo de barbaridades, pois as pessoas tem uma estranha tendência em acreditar na palavra escrita.
Diante de toda essa barbárie, esse lixo virtual pode ter um estranho efeito colateral: pode devolver as pessoas às relações profundas. Quanto maior a promiscuidade, maior a chance do linchamento nos aplicativos e nos celulares. A chance de tirar a roupa para alguém que não vai usar a sua nudez, corporal e, sobretudo, afetiva como uma arma de vingança ou agressão vai ser somente quem realmente ama. Já pensou? Esses aplicativos podem trazer de volta à moda o sexo feito com amor, aquele que perdoa um pinto pequeno ou uma celulite na barriga. Pode ser o começo do fim da guerra dos sexos. Ou o início da compreensão do valor da intimidade, pessoal e a dois.
sábado, 23 de novembro de 2013
Entrevista com os Vampiros
O vampiro Edward é uma fraude arquetípica. Ele é completamente o antivampiro. Atencioso, apaixonado, e sobretudo, capaz de atenção e entrega plenas para a mesma mulher, por toda eternidade. Bella é a garota sem graça disputada por um Vampiro e um Lobisomem na saga Crepúsculo. Escolhe desposar o Vampiro, com medo das pulgas. Edward continua fiel, apaixonado e pronto a morrer pelo seu amor. É uma fraude arquetípica porque é exatamente a inversão do que representa o Vampiro na psique e na vida da mulher. O Vampiro é o Andrógino, o masculino pouco diferenciado, o homem que seduz, suga a energia e a vida da moça para depois voltar para o mundo das sombras. Não há nenhum dia no consultório dos terapeutas em que a figura desse Vampiro não apareça, entre lágrimas e decepções. A mulher liga, manda mensagens, implora por sinais quando ele desaparece sem dó, buscando outros pescoços. O Vampiro é um homem imaturo, que quer o desejo e sobretudo o olhar de muitas, mas foge quando a mulher precisa de alguma presença humana, algum cuidado ou sinal de afeto. Quando está presente, ele é um homem apaixonado e intenso. Quando some, seu silêncio é gelado e implacável. Esse é o motivo de eu chamar Edward de fraude arquetípica.
Ganhei o livro da amiga Andréa Perdigão, “Descaso do Acaso”. A personagem principal, Cíntia, é uma jornalista de 38 anos que procura viver em paz com a sua solidão de mulher pós moderna, assediada por amigas e casais que querem apresentá-la ao “Mr Right”, ou o arquétipo por trás do vampiro, que é o do Príncipe Encantado. Cíntia reafirma que não acredita nesse Príncipe, não acredita em livros de autoajuda e sobretudo, passou longe de todos os livros da saga “Crepúsculo”. Ela recebe de sua editora a tarefa difícil de entrevistar pessoas sobre o tema da Felicidade. Cíntia se recusa a acreditar que o Acaso vai lhe proteger enquanto estiver distraída, mas vai sendo atraída por esse Acaso, como um vampiro que vai se instalando gradualmente em sua vida. Todos os seus entrevistados, depois de reafirmar a própria Felicidade, passam por acidentes e tragédias pessoais. Um casal de amigos apresenta um homem recém separado, Caio, que ela reluta em se entregar mas acaba, como Bella da saga Crepúsculo, irremediavelmente apaixonada. Uma sequência de pequenas coincidências vão conduzindo a sua vida exatamente para onde ela jurou que não iria.
Caio não é o vampiro Edward, nem o seu sucessor, o Christian Grey do “Cinquenta Tons de Cinza”. Não é um milionário em busca do amor verdadeiro. Tem dúvidas, está devastado por uma separação recente. Cíntia é a própria heroína pósmoderna tentando desesperadamente lidar com esse homem ferido: tem medo de sufocá-lo com a sua carência ou o peso imenso de sua espera. A idade que Andréa deu à sua personagem também é dramática, pois é a fase em que o tique taque do tempo aparece em sua urgência. Cíntia não tem filhos, não menciona essa lacuna no livro, mas sabe que Caio pode ser uma das últimas chances de ser mãe.
“Descaso do Acaso” fala de um mundo mais cru e menos encantado do que as comédias românticas ou as sagas de vampiros amorosos e lobisomens delicados. Cíntia é a mulher do nosso tempo, tentando lidar com o homem que recebe mas não percebe a sua generosidade. Um homem que se abre e se retrai com a mesma facilidade. E que tem medo de olhar nos olhos da mulher e dizer a sua verdade. Será que ela vai conseguir capturar esse bicho medroso? Será que vai, mais uma vez, constatar a ausência desse homem na vida da mulher descolada e independente?
Quem acompanha esse blog vai ter que comprar o livro, disponível no site da Livraria da Vila (e em todas as livrarias) para descobrir as respostas. Ou se abrir para novas perguntas.
Ganhei o livro da amiga Andréa Perdigão, “Descaso do Acaso”. A personagem principal, Cíntia, é uma jornalista de 38 anos que procura viver em paz com a sua solidão de mulher pós moderna, assediada por amigas e casais que querem apresentá-la ao “Mr Right”, ou o arquétipo por trás do vampiro, que é o do Príncipe Encantado. Cíntia reafirma que não acredita nesse Príncipe, não acredita em livros de autoajuda e sobretudo, passou longe de todos os livros da saga “Crepúsculo”. Ela recebe de sua editora a tarefa difícil de entrevistar pessoas sobre o tema da Felicidade. Cíntia se recusa a acreditar que o Acaso vai lhe proteger enquanto estiver distraída, mas vai sendo atraída por esse Acaso, como um vampiro que vai se instalando gradualmente em sua vida. Todos os seus entrevistados, depois de reafirmar a própria Felicidade, passam por acidentes e tragédias pessoais. Um casal de amigos apresenta um homem recém separado, Caio, que ela reluta em se entregar mas acaba, como Bella da saga Crepúsculo, irremediavelmente apaixonada. Uma sequência de pequenas coincidências vão conduzindo a sua vida exatamente para onde ela jurou que não iria.
Caio não é o vampiro Edward, nem o seu sucessor, o Christian Grey do “Cinquenta Tons de Cinza”. Não é um milionário em busca do amor verdadeiro. Tem dúvidas, está devastado por uma separação recente. Cíntia é a própria heroína pósmoderna tentando desesperadamente lidar com esse homem ferido: tem medo de sufocá-lo com a sua carência ou o peso imenso de sua espera. A idade que Andréa deu à sua personagem também é dramática, pois é a fase em que o tique taque do tempo aparece em sua urgência. Cíntia não tem filhos, não menciona essa lacuna no livro, mas sabe que Caio pode ser uma das últimas chances de ser mãe.
“Descaso do Acaso” fala de um mundo mais cru e menos encantado do que as comédias românticas ou as sagas de vampiros amorosos e lobisomens delicados. Cíntia é a mulher do nosso tempo, tentando lidar com o homem que recebe mas não percebe a sua generosidade. Um homem que se abre e se retrai com a mesma facilidade. E que tem medo de olhar nos olhos da mulher e dizer a sua verdade. Será que ela vai conseguir capturar esse bicho medroso? Será que vai, mais uma vez, constatar a ausência desse homem na vida da mulher descolada e independente?
Quem acompanha esse blog vai ter que comprar o livro, disponível no site da Livraria da Vila (e em todas as livrarias) para descobrir as respostas. Ou se abrir para novas perguntas.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Planeta das Macacas
Estava lendo um estudo em Neuroeconomia. Tudo o que se coloca um “Neuro” ou uma “Neurociência” na frente ganha imediatamente uma aura de respeitabilidade, mas esse é outro assunto. No tal estudo os pesquisadores introduzem a um pequeno grupo de macaquinhos um sistema de trocas: pequenas moedas ou fichas são trocadas por bananas e outras guloseimas símias. Depois de meses em que o nosso pequeno primo evolutivo aprende o valor numérico das fichas, ou seja, quanto mais fichas, mais bananas, vai que um pequeno e safado primata oferece uma ficha para a macaquinha jovem e irresistível. Ela depois de um tempo entende que a troca é por uma transa, rapidinha. Essa é a confirmação científica de que essa é realmente a profissão mais antiga do mundo. O sujeitinho passou fome mas não abriu mão da pegação. E a menina passou a ser remunerada pelos seus dotes.
A Revolução Sexual foi libertária para a mulher, mas tirou dela o poder que a pequena macaquinha descobriu com as suas fichas. O poder do não. O macho da espécie não precisa mais impressionar, declamar poesias, impressionar a fêmea para conseguir, depois de muito esforço, provar do néctar de seu sexo, ou de uma “prova de amor” (quando eu era moleque, lia tudo o que caía em minhas mãos, inclusive uma coleção de revistas femininas das casas das tias. Lá as moças ainda falavam se deviam ou não oferecer uma “prova de amor” para o namorado. Imagina só).
Outro dia eu dava a minha tradicional zapeada na TV a Cabo e me deparei com um documentário meio ginecológico de mulheres falando de sua sexualidade. Close up numa moça bonita que declara, solenemente, que evita dar para o cara nos primeiros encontros. Discutia o poder do não, para fidelizar o cliente, digo, o homem. Muda a câmera, close up na sua irmã gêmea, que declara que a regra é boba, a vida é curta e se ela quer dar de primeira, dá e acabou. Acabou emendando que a irmã passou meses para liberar para um cara, quando finalmente chegou o grande momento, o cara falhou. Muita expectativa para o rapaz. ( Na série do GNT, “Surtadas na Yoga”, uma moça comenta com a outra que as mulheres exigiram tanto que os homens sejam mais sensíveis que eles viraram um bando de mariquinhas. Acho que a moça fez suspense e o cara, na hora H, virou uma mariquinha).
As mulheres de hoje parecem a indústria fonográfica: não sabem direito mais o que e como vender. Perderam o poder da espera, do interesse gerado pela interdição. Amor e sexo em tempos de internet, que canseira. Pois o macaquinho acima citado tinha que passar fome para poder ganhar uma transa extra, já que a mocinha sabia que tinha o que ele queria, e não iria liberar de graça. Será que as feministas leram sobre esse estudo? Talvez seja a hora das revistas femininas darem uma boa olhada nessas pesquisas. Só para constar: estou com a primeira gêmea. Para ganhar a moça, precisa gastar as suas fichinhas.
A Revolução Sexual foi libertária para a mulher, mas tirou dela o poder que a pequena macaquinha descobriu com as suas fichas. O poder do não. O macho da espécie não precisa mais impressionar, declamar poesias, impressionar a fêmea para conseguir, depois de muito esforço, provar do néctar de seu sexo, ou de uma “prova de amor” (quando eu era moleque, lia tudo o que caía em minhas mãos, inclusive uma coleção de revistas femininas das casas das tias. Lá as moças ainda falavam se deviam ou não oferecer uma “prova de amor” para o namorado. Imagina só).
Outro dia eu dava a minha tradicional zapeada na TV a Cabo e me deparei com um documentário meio ginecológico de mulheres falando de sua sexualidade. Close up numa moça bonita que declara, solenemente, que evita dar para o cara nos primeiros encontros. Discutia o poder do não, para fidelizar o cliente, digo, o homem. Muda a câmera, close up na sua irmã gêmea, que declara que a regra é boba, a vida é curta e se ela quer dar de primeira, dá e acabou. Acabou emendando que a irmã passou meses para liberar para um cara, quando finalmente chegou o grande momento, o cara falhou. Muita expectativa para o rapaz. ( Na série do GNT, “Surtadas na Yoga”, uma moça comenta com a outra que as mulheres exigiram tanto que os homens sejam mais sensíveis que eles viraram um bando de mariquinhas. Acho que a moça fez suspense e o cara, na hora H, virou uma mariquinha).
As mulheres de hoje parecem a indústria fonográfica: não sabem direito mais o que e como vender. Perderam o poder da espera, do interesse gerado pela interdição. Amor e sexo em tempos de internet, que canseira. Pois o macaquinho acima citado tinha que passar fome para poder ganhar uma transa extra, já que a mocinha sabia que tinha o que ele queria, e não iria liberar de graça. Será que as feministas leram sobre esse estudo? Talvez seja a hora das revistas femininas darem uma boa olhada nessas pesquisas. Só para constar: estou com a primeira gêmea. Para ganhar a moça, precisa gastar as suas fichinhas.
sábado, 8 de dezembro de 2012
Cinquenta Tons de Alguma Coisa
Eu sei que pode parecer um exagero dedicar dois posts deste prestigioso blog para o fenômeno editorial “Cinquenta Tons de Cinza”. Eu poderia me dedicar a analisar as consequências do DSM V (Manual Estatístico e Diagnóstico da Associação Psiquiátrica Americana – 5ª Edição) ter eliminado o diagnóstico multiaxial nessa edição. Depois de vinte anos usando e uma dissertação de Mestrado dedicadas ao diagnóstico multiaxial, esses expoentes máximos da burrice nosológica eliminaram uma das poucas coisas boas que havia nos manuais, que é a possibilidade de diagnosticar um ser humano que sofre em suas várias dimensões, como o diagnóstico psiquiátrico, a personalidade, a condição médica geral, os estressores envolvidos e o funcionamento social. Era como olhar para alguém por cinco ângulos diferentes, não só como uma coleção de genes disfuncionais ou neurotransmissão danificada. Pois vieram esses expoentes da Psiquiatria mauricinha e burra que nossos queridos ianques praticam e, de uma penada, eliminaram o Diagnóstico Multiaxial. Eu vou continuar usando, ok, Uncle Sam? Viram? Acho melhor falar dos “Cinquenta Tons de Alguma Coisa”. É bem menos irritante.
Quando eu ouvi falar desse livro pela primeira vez, gostei muito da idéia original e achei que a coisa iria rolar de outro jeito. Vou usar um conto de fadas, que está descrito em um livro de Jung para exemplificar o que eu imaginava: Era uma vez uma princesa, que casou com com um belo príncipe. Por muito tempo ela sonhou com seu casamento e noite de núpcias. Finalmente ela estaria com seu amado na alcova. Qual não foi a sua surpresa quando o Príncipe não tocou em um fio de seu cabelo na noite de núpcias. E assim o seu conto de fadas foi para o vinagre. Noite após noite, o homem não mostrava nenhum interesse. O pior, sumia durante a noite e a deixava só em seu leito nupcial. Ela, ao contrário que uma princesa moderna faria, não procurou terapia de casal nem discutiu a relação. Ela preferiu, intuitivamente, esperar em silêncio. Uma noite, ela decidiu seguir o príncipe em sua escapada noturna. Não, ele não estava com um cortesão sarado. É um conto de fadas, não um roteiro pornô gay. O príncipe estava em conluio carnal (esse post está demais, heim?)com a sua própria irmã. A noite toda. A princesa, ao contrário do que se pode imaginar, aguentou firme aquela situação, noite após noite, apenas porque o seu coração mandava. Depois de um bom tempo, o príncipe finalmente veio falar com ela. A sua irmã era uma poderosa bruxa que o havia enfeitiçado a praticar o incesto. Só uma esposa muito, muuiito paciente que aguentasse aquela situação poderia libertá-lo do sortilégio. E foram felizes para sempre. Mas o que isso tem a ver com os “Cinquenta Tons de Cinza”?
O conto tem a ver com a cura de uma ferida. Uma espera pacienciosa e o acolhimento do que temos de pior. É uma ótima alegoria do que é um processo de psicoterapia. A princesa consegue libertar, ou curar a ferida de seu homem através da espera paciente e da tolerância do intolerável. É o que muita gente espera de quem dorme a seu lado na cama: espera, tolerância, continência. Pois eu pensei que a essência desse livro fosse uma mulher que resolve acolher um homem com uma ferida enorme e curá-lo, mesmo sem saber como. Como a princesa do conto. Para isso ela iria tolerar o intolerável por um bom tempo, para curá-lo e, quem sabe, libertá-lo do feitiço da bruxa. O que todo homem espera, meninas, mas não sabe que espera.
A trilogia de E.L. James está bem longe disso. Tudo tem a profundidade dos romances de banca de jornal, tipo “Júlia” ou os livros de Bárbara Cartland, que eu nunca li, mas imagino que seja assim. O trauma de Christian Grey é abordado de uma forma idealizada e sem pegada. Mas por que as meninas não largam esses livros até a última página? Porque o Príncipe Sadomasoca dedica à sua amada, entre uma chicotada e outra, uma atenção plena, incondicional. A princesa, Anastasia (não por acaso, nome de princesa, não é?), aceita e gosta do jogo, mas quer transformar o príncipe num homem capaz de assumir compromisso. Esse é o amor em tempos de cólera (feminina): aguentar firme até o príncipe colocar uma aliança. E leva três livros para isso. Que saudade de “Nove e meia semanas de amor”.
Quando eu ouvi falar desse livro pela primeira vez, gostei muito da idéia original e achei que a coisa iria rolar de outro jeito. Vou usar um conto de fadas, que está descrito em um livro de Jung para exemplificar o que eu imaginava: Era uma vez uma princesa, que casou com com um belo príncipe. Por muito tempo ela sonhou com seu casamento e noite de núpcias. Finalmente ela estaria com seu amado na alcova. Qual não foi a sua surpresa quando o Príncipe não tocou em um fio de seu cabelo na noite de núpcias. E assim o seu conto de fadas foi para o vinagre. Noite após noite, o homem não mostrava nenhum interesse. O pior, sumia durante a noite e a deixava só em seu leito nupcial. Ela, ao contrário que uma princesa moderna faria, não procurou terapia de casal nem discutiu a relação. Ela preferiu, intuitivamente, esperar em silêncio. Uma noite, ela decidiu seguir o príncipe em sua escapada noturna. Não, ele não estava com um cortesão sarado. É um conto de fadas, não um roteiro pornô gay. O príncipe estava em conluio carnal (esse post está demais, heim?)com a sua própria irmã. A noite toda. A princesa, ao contrário do que se pode imaginar, aguentou firme aquela situação, noite após noite, apenas porque o seu coração mandava. Depois de um bom tempo, o príncipe finalmente veio falar com ela. A sua irmã era uma poderosa bruxa que o havia enfeitiçado a praticar o incesto. Só uma esposa muito, muuiito paciente que aguentasse aquela situação poderia libertá-lo do sortilégio. E foram felizes para sempre. Mas o que isso tem a ver com os “Cinquenta Tons de Cinza”?
O conto tem a ver com a cura de uma ferida. Uma espera pacienciosa e o acolhimento do que temos de pior. É uma ótima alegoria do que é um processo de psicoterapia. A princesa consegue libertar, ou curar a ferida de seu homem através da espera paciente e da tolerância do intolerável. É o que muita gente espera de quem dorme a seu lado na cama: espera, tolerância, continência. Pois eu pensei que a essência desse livro fosse uma mulher que resolve acolher um homem com uma ferida enorme e curá-lo, mesmo sem saber como. Como a princesa do conto. Para isso ela iria tolerar o intolerável por um bom tempo, para curá-lo e, quem sabe, libertá-lo do feitiço da bruxa. O que todo homem espera, meninas, mas não sabe que espera.
A trilogia de E.L. James está bem longe disso. Tudo tem a profundidade dos romances de banca de jornal, tipo “Júlia” ou os livros de Bárbara Cartland, que eu nunca li, mas imagino que seja assim. O trauma de Christian Grey é abordado de uma forma idealizada e sem pegada. Mas por que as meninas não largam esses livros até a última página? Porque o Príncipe Sadomasoca dedica à sua amada, entre uma chicotada e outra, uma atenção plena, incondicional. A princesa, Anastasia (não por acaso, nome de princesa, não é?), aceita e gosta do jogo, mas quer transformar o príncipe num homem capaz de assumir compromisso. Esse é o amor em tempos de cólera (feminina): aguentar firme até o príncipe colocar uma aliança. E leva três livros para isso. Que saudade de “Nove e meia semanas de amor”.
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
A Donzela Venenosa
Tem um programa na Rádio CBN em que cronistas fazem comentários sobre assuntos aleatórios. Um deles é o Carlos Heitor Cony, um toque entre divertido e rabugento dentre os outros dois comentaristas. A parte engraçada é que o Cony cita exemplos de casos da Marilyn Monroe ou Getúlio Vargas como se tivessem ocorrido na semana passada. O tempo vai passando e as referências culturais vão se mantendo. Uma vez eu citei uma música da Carmen Miranda para um paciente sexagenário e ele ficou extasiado com a minha cultura geral. Quando eu nasci a Carmen Miranda já tinha partido há muito tempo. Para dizer a verdade, a música citada tinha sido regravada por Caetano Veloso, num show maravilhoso: "Disseram que eu voltei americanizada/Com um burro de um dinheiro/Que estou muito rica...". O fato é que a citação acabou pegando bem e o tiozinho, saturado dessa Psiquiatria em que os médicos ficam horas preenchendo escalas de avaliação, adorou o toque nostálgico, como se tivesse baixado o Carlos Heitor Cony lá na sala.
Faço esse preâmbulo porque vou escrever esse post a pedido de um cliente que pediu para falar um pouco mais da "Prisão Sexual" que se encontrava. Após um divórcio doloroso, conheceu uma moça alguns anos mais nova e se apaixonou. Após um tempo de felicidade, os problemas apareceram, com mudanças de humor, chantagens e abusos da parte da moça que foram levando o relacionamento, apesar de todos os esforços, para um impasse. Infelizmente, então, o relacionamento terminou. Tem uma música belíssima de João Bosco (observem o meu efeito "Carlos Heitor Cony": estou falando de um CD de vinte anos atrás) em que ele descreve como esqueceu da mulher outrora amada, conseguiu superar a separação. Mas quem se lembra da amada dentro do poeta é a Memória da Pele. A metáfora é que a lembrança borbulha na sua cabeça, como o champanhe que tomaram na mesma taça. Bons tempos em que o poeta fazia uma música que fazia o cheiro da mulher amada atravessar nossas narinas, heim? Hoje é tudo cheio de "Ai se eu te pego" para cá e para lá. Os amores estão descritos de forma sempre literal, sem espaço para a Memória da Pele. Pois é essa incrição que faz o homem estremecer de dor de cotovelo quando vê a foto da amada no Facebook (que espia furtivamente) ou recebe uma mensagem diluída no mail list da ex.
Quando ele me pediu para escrever sobre isso, me veio uma referência ainda mais "Carlos Heitor Cony" ainda: uma música dos anos 80, de um obscuro cantor chamado Ritchie, que era "Menina Veneno". Ritchie se inspirou em um trecho de um livro de Carl Jung e seus colaboradores, "O Homem e seus Símbolos", onde era descrito um mito ou lenda, da "Donzela Venenosa", que atacava sexualmente os homens durante a noite, roubando também a sua alma. Ritchie traduziu o mito com os versos "Meia Noite no meu quarto/Ela vai subir/Ouço passos na escada/Vejo a porta abrir (...)/Cortinas de Seda/O seu corpo nú". Veja, uma música brega dos anos 80 parece alta poesia em tempos de "Eu quero tchú, eu quero tchá".
A "Donzela Venenosa" representa a força da Anima, o nome que Jung deu para a nossa Alma, muitas vezes projetada em mulheres merecedoras, ou não, dessa paixão. Como as sereias que arrastavam os marinheiros para a perdição, no fundo do mar. A Donzela Venenosa se aproveita de seu fascínio e sua habilidade, inclusive de envolvimento sexual do parceiro.
Nessa época em que as mulheres chamam para si todo o sofrimento do desencontro amoroso, o homem também sofre em sua pele e sua lembrança a ausência da mulher amada. Como o herói da Odisséia, Ulisses, para se afastar e resistir às sereias, pede para ser amarrado no mastro do navio para não ser arrastado para o canto fatal, o homem deve seguir para longe do amor que o envenena.
Não é um percurso fácil, ainda mais quando as sereias cantam nas redes sociais e nos torpedos.
Faço esse preâmbulo porque vou escrever esse post a pedido de um cliente que pediu para falar um pouco mais da "Prisão Sexual" que se encontrava. Após um divórcio doloroso, conheceu uma moça alguns anos mais nova e se apaixonou. Após um tempo de felicidade, os problemas apareceram, com mudanças de humor, chantagens e abusos da parte da moça que foram levando o relacionamento, apesar de todos os esforços, para um impasse. Infelizmente, então, o relacionamento terminou. Tem uma música belíssima de João Bosco (observem o meu efeito "Carlos Heitor Cony": estou falando de um CD de vinte anos atrás) em que ele descreve como esqueceu da mulher outrora amada, conseguiu superar a separação. Mas quem se lembra da amada dentro do poeta é a Memória da Pele. A metáfora é que a lembrança borbulha na sua cabeça, como o champanhe que tomaram na mesma taça. Bons tempos em que o poeta fazia uma música que fazia o cheiro da mulher amada atravessar nossas narinas, heim? Hoje é tudo cheio de "Ai se eu te pego" para cá e para lá. Os amores estão descritos de forma sempre literal, sem espaço para a Memória da Pele. Pois é essa incrição que faz o homem estremecer de dor de cotovelo quando vê a foto da amada no Facebook (que espia furtivamente) ou recebe uma mensagem diluída no mail list da ex.
Quando ele me pediu para escrever sobre isso, me veio uma referência ainda mais "Carlos Heitor Cony" ainda: uma música dos anos 80, de um obscuro cantor chamado Ritchie, que era "Menina Veneno". Ritchie se inspirou em um trecho de um livro de Carl Jung e seus colaboradores, "O Homem e seus Símbolos", onde era descrito um mito ou lenda, da "Donzela Venenosa", que atacava sexualmente os homens durante a noite, roubando também a sua alma. Ritchie traduziu o mito com os versos "Meia Noite no meu quarto/Ela vai subir/Ouço passos na escada/Vejo a porta abrir (...)/Cortinas de Seda/O seu corpo nú". Veja, uma música brega dos anos 80 parece alta poesia em tempos de "Eu quero tchú, eu quero tchá".
A "Donzela Venenosa" representa a força da Anima, o nome que Jung deu para a nossa Alma, muitas vezes projetada em mulheres merecedoras, ou não, dessa paixão. Como as sereias que arrastavam os marinheiros para a perdição, no fundo do mar. A Donzela Venenosa se aproveita de seu fascínio e sua habilidade, inclusive de envolvimento sexual do parceiro.
Nessa época em que as mulheres chamam para si todo o sofrimento do desencontro amoroso, o homem também sofre em sua pele e sua lembrança a ausência da mulher amada. Como o herói da Odisséia, Ulisses, para se afastar e resistir às sereias, pede para ser amarrado no mastro do navio para não ser arrastado para o canto fatal, o homem deve seguir para longe do amor que o envenena.
Não é um percurso fácil, ainda mais quando as sereias cantam nas redes sociais e nos torpedos.
quarta-feira, 18 de julho de 2012
OK
Há alguns meses passei muito tempo preparando uma aula nesse blog, que teve como base o filme “A Origem”; essa aula foi apresentada em um curso de Terapia de Jogo de Areia, ou de Sand Play. Não gostei muito de minha apresentação mas já purguei essa sensação resumindo a aula aqui mesmo nesse blog, então não vou ficar voltando ao tema. Houve no curso uma aula muito bacana, também sobre um filme, dada por Áurea Caetano. Ela falou sobre o filme “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Eu vi esse filme, que é lento, uma noite em casa e não notei como era bonito até rever algumas cenas na aula.
A história é de um cara, interpretado por Jim Carrey em papel dramático (aliás, impressionante como os comediantes conseguem transmitir uma tristeza profunda quando fazem personagens tristes. Esse personagem de Jim Carrey ou Robin Williams fazendo papel de deprimido, dá para cortar a melancolia e a tristeza com uma faca, de tão densa). Esse cara vai procurar uma empresa que realiza o apagamento de alguma memória que o freguês queira eliminar. Ele quer eliminar a memória de sua namorada, Clementina, interpretada por Kate Winslet. O filme é então sobre Memórias Afetivas e como elas se encadeiam em nossa alma. Eu lembro do nome dela porque ela pede, de cara, para ele não fazer piada com o Dom Quixote, personagem de cartoon de nossa infância que passeava cantando: “Oh, querida, oh querida, oh queriiida Clementina”. Não há ninguém que eu mencione essa música (e que tenha mais de trinta anos, no mínimo) que não esboce um sorriso gostoso, lembrando de um desenho que não passa há décadas. Ela pede para não fazer a piada, o que praticamente induz o outro a lembrar da musiquinha sem cessar. Essas memórias com Clementina vão passando no filme na medida em que vão sendo apagadas. Só que durante o processo, em que o cliente está sedado e não pode pedir para aquilo parar, o casal começa a se esconder nos cantos do Inconsciente de Jim para fugir ao apagamento. As memórias são muito bonitas para serem deletadas como um programa defeituoso. Começa uma brincadeira de esconde esconde entre os funcionários da empresa e os amantes que moram nas memórias e não querem abrir mão do que foi vivido.
A cena que eu gosto de descrever é quando Jim e Clementina recebem as fitas, pois ambos procuraram a empresa para deletar o outro de suas lembranças. Uma funcionária revoltada devolve as entrevistas aos clientes. Clementina ouve a fita do seu namorado falando cobras e lagartos dela e explicando por que iria deletá-la. Confusa, ela sai de seu apartamento, terminando de vez o relacionamento. Ele pede para ela ficar no corredor, para que ele possa pensar no que dizer. Ela vira para ele e fala que aquilo não vai dar certo: ela é chata, irrascível, mau humorada. Vai acabar se enchendo dele como se enche de todos os caras. Vai acabar machucando-o como já machucara todos que se aproximavam dela. Ele olha com muita ternura e responde: “OK”. Ela olha, incrédula. Como? Ele repete: “OK”, como se dissesse: “Você é chata, irrascível, uma hora vai se encher de mim, mas OK”. Ela fica desconcertada e vamos para um happy ending meio torto, porque não vai haver um “felizes para sempre” das comédias adocicadas.
O filme descreve os mecanismos que nós, pósmodernos, temos de tentar evitar, a todo custo, o sofrimento, a frustração a rejeição real ou imaginada. O “OK” do amante é uam profunda e bela aceitação de tudo o que vem no pacote dos amores: frustração, medo, raiva, alegria, abandono e um banco de lembranças que é melhor não tentar apagar. Nessa época de pessoas muito zelosas de sua autoestima e imagem, viver o amor é tão cheio de senões e de medos.
Aquele “OK” representa a aceitação do devir, seja ele qual for. Não é para qualquer um.
A história é de um cara, interpretado por Jim Carrey em papel dramático (aliás, impressionante como os comediantes conseguem transmitir uma tristeza profunda quando fazem personagens tristes. Esse personagem de Jim Carrey ou Robin Williams fazendo papel de deprimido, dá para cortar a melancolia e a tristeza com uma faca, de tão densa). Esse cara vai procurar uma empresa que realiza o apagamento de alguma memória que o freguês queira eliminar. Ele quer eliminar a memória de sua namorada, Clementina, interpretada por Kate Winslet. O filme é então sobre Memórias Afetivas e como elas se encadeiam em nossa alma. Eu lembro do nome dela porque ela pede, de cara, para ele não fazer piada com o Dom Quixote, personagem de cartoon de nossa infância que passeava cantando: “Oh, querida, oh querida, oh queriiida Clementina”. Não há ninguém que eu mencione essa música (e que tenha mais de trinta anos, no mínimo) que não esboce um sorriso gostoso, lembrando de um desenho que não passa há décadas. Ela pede para não fazer a piada, o que praticamente induz o outro a lembrar da musiquinha sem cessar. Essas memórias com Clementina vão passando no filme na medida em que vão sendo apagadas. Só que durante o processo, em que o cliente está sedado e não pode pedir para aquilo parar, o casal começa a se esconder nos cantos do Inconsciente de Jim para fugir ao apagamento. As memórias são muito bonitas para serem deletadas como um programa defeituoso. Começa uma brincadeira de esconde esconde entre os funcionários da empresa e os amantes que moram nas memórias e não querem abrir mão do que foi vivido.
A cena que eu gosto de descrever é quando Jim e Clementina recebem as fitas, pois ambos procuraram a empresa para deletar o outro de suas lembranças. Uma funcionária revoltada devolve as entrevistas aos clientes. Clementina ouve a fita do seu namorado falando cobras e lagartos dela e explicando por que iria deletá-la. Confusa, ela sai de seu apartamento, terminando de vez o relacionamento. Ele pede para ela ficar no corredor, para que ele possa pensar no que dizer. Ela vira para ele e fala que aquilo não vai dar certo: ela é chata, irrascível, mau humorada. Vai acabar se enchendo dele como se enche de todos os caras. Vai acabar machucando-o como já machucara todos que se aproximavam dela. Ele olha com muita ternura e responde: “OK”. Ela olha, incrédula. Como? Ele repete: “OK”, como se dissesse: “Você é chata, irrascível, uma hora vai se encher de mim, mas OK”. Ela fica desconcertada e vamos para um happy ending meio torto, porque não vai haver um “felizes para sempre” das comédias adocicadas.
O filme descreve os mecanismos que nós, pósmodernos, temos de tentar evitar, a todo custo, o sofrimento, a frustração a rejeição real ou imaginada. O “OK” do amante é uam profunda e bela aceitação de tudo o que vem no pacote dos amores: frustração, medo, raiva, alegria, abandono e um banco de lembranças que é melhor não tentar apagar. Nessa época de pessoas muito zelosas de sua autoestima e imagem, viver o amor é tão cheio de senões e de medos.
Aquele “OK” representa a aceitação do devir, seja ele qual for. Não é para qualquer um.
sábado, 14 de julho de 2012
O Sonho e Sofia
Vou fazer um post rápido, sobre um sonho de um cliente que aqui reproduzo mediante autorização prévia, mudando o nome dos personagens. Esse sonho levantou questões interessantes sobre relacionamentos, pelo ângulo dos homens e pode dar um bom caldo. Lá vai:
"O sonho começa com um clarão de luz, que vem por detrás de um rosto, que não se lembra dos traços mas tem certeza que é o rosto de Sofia. Percebe que ela é uma espécie de Oráculo e que a sua presença lhe transmite uma sensação de paz muito profunda".
Ele vem de um rompimento amoroso muito duro, há cerca de um ano. A moça aqui chamada de Sofia é a sua atual "ficante". As suas associações mostram que a principal característica dessa relação é o espanto de encontrar uma mulher que é naturalmente generosa e atenta com ele. O encontro amoroso está num crescendo e vai nesse crescendo de uma forma orgânica, o que é mais um fator de espanto. Eles se falam, se procuram e desfrutam um do outro sem a necessidade de monitoramento online do que o Outro está vivendo, pensando ou se devem ir "Mais Devagar" ou mais depressa. Simplesmente, vão.A estranheza do moço é a falta de costume em viver uma relação com uma menina sem ser torturado por disputas e Drs (Discussão de Relacionamentos) diárias.No sonho, a imagem de Sofia mostra a ativação amorosa de um arquétipo, o da Anima. Anima é o aspecto feminino da Psique Masculina. Ela aparece ao homem como amiga, conselheira e guia nos momentos de transformação. Sofia não é a Anima do rapaz, mas está ativando a imagem por suas qualidades, principalmente por sua feminilidade franca e gostosa.Muito se fala sobre o Narcisismo e a ausência dos homens de sua própria masculinidade. As mulheres acusam os homens de se recusarem a crescer e a criar vínculos. Pois saibam, meninas, que as mulheres padecem das mesmas ciladas narcísicas: eles não querem se amarrar, elas querem amarrá-los na base da cobrança infinita.O sonho e as associações que se seguiram foram muito bonitos, pois mostram um cara abrindo a sua Alma para uma moça que o surprendeu profundamente por duas características muito "incomuns": ela é generosa e profundamente feminina.
Quem tiver ouvidos, que ouça.
"O sonho começa com um clarão de luz, que vem por detrás de um rosto, que não se lembra dos traços mas tem certeza que é o rosto de Sofia. Percebe que ela é uma espécie de Oráculo e que a sua presença lhe transmite uma sensação de paz muito profunda".
Ele vem de um rompimento amoroso muito duro, há cerca de um ano. A moça aqui chamada de Sofia é a sua atual "ficante". As suas associações mostram que a principal característica dessa relação é o espanto de encontrar uma mulher que é naturalmente generosa e atenta com ele. O encontro amoroso está num crescendo e vai nesse crescendo de uma forma orgânica, o que é mais um fator de espanto. Eles se falam, se procuram e desfrutam um do outro sem a necessidade de monitoramento online do que o Outro está vivendo, pensando ou se devem ir "Mais Devagar" ou mais depressa. Simplesmente, vão.A estranheza do moço é a falta de costume em viver uma relação com uma menina sem ser torturado por disputas e Drs (Discussão de Relacionamentos) diárias.No sonho, a imagem de Sofia mostra a ativação amorosa de um arquétipo, o da Anima. Anima é o aspecto feminino da Psique Masculina. Ela aparece ao homem como amiga, conselheira e guia nos momentos de transformação. Sofia não é a Anima do rapaz, mas está ativando a imagem por suas qualidades, principalmente por sua feminilidade franca e gostosa.Muito se fala sobre o Narcisismo e a ausência dos homens de sua própria masculinidade. As mulheres acusam os homens de se recusarem a crescer e a criar vínculos. Pois saibam, meninas, que as mulheres padecem das mesmas ciladas narcísicas: eles não querem se amarrar, elas querem amarrá-los na base da cobrança infinita.O sonho e as associações que se seguiram foram muito bonitos, pois mostram um cara abrindo a sua Alma para uma moça que o surprendeu profundamente por duas características muito "incomuns": ela é generosa e profundamente feminina.
Quem tiver ouvidos, que ouça.
sábado, 16 de junho de 2012
Sushi Woman
Quando acontece uma tragédia, as pessoas correm aos especialistas para explicações tranquilizadoras. Algo que nos ofereça a impressão que aquilo poderia ter sido facilmente evitado, mediante as medidas adequadas.
Marcos, o executivo da Yoki, foi morto por sua esposa com um tiro e depois teve seu corpo esquartejado na tentativa de ocultação do cadáver. Foi o assunto da semana. Em nossa civilização viciada em Reality Shows, o crime foi comentado, a intimidade das pessoas exposta e os detalhes mórbidos multiplicados nos jornais e internet. Os especialistas de plantão, alguns da minha área, saíram caçando explicações. As pessoas me perguntavam, nas consultas, como uma coisa dessas pode acontecer na casa vizinha.
“Uma Linda Mulher” foi o filme que lançou Julia Roberts como Cinderela moderna. Fez o papel de uma prostituta que se apaixona pelo seu cliente, um rico executivo encastelado no mundo dos negócios. Tentaram fazer outros filmes com Richard Gere e Julia Roberts tentando recuperar a química quase perfeita de “Pretty Woman”, mas não rolou. O fato é que o arquétipo do homem bem sucedido que se apaixona pela prostituta e decide tirá-la “da vida”. A mocinha tira o executivo de seu castelo solitário. O Príncipe transforma a Gata Borralheira em Princesa. E vivem felizes para sempre.
Engraçado como as pessoas não empatizaram com a vítima nesse reality da semana. Pelo contrário. Ontem, uma cliente que passou várias vezes por abusos morais de chefes, familiares e, sobretudo, marido, disse entender muito bem o que Elize, a assassina confessa de Marcos, sentiu. Tem um livro que eu gosto muito: “Homens Maus fazem o que Os Homens Bons Sonham”. O título já é autoexplicativo. A diferença entre a pessoa dita normal, ou portadora de Juízo Moral e a outra, dita Perversa está justamente na capacidade de simbolização. Às vezes temos vontade de matar alguém. Ou precisamos “matar” simbolicamente uma ordem, uma fase de nossa vida ou um relacionamento que só traz sofrimento. O trabalho simbólico é longo e doloroso e vivemos antes o que está morrendo, sem certeza do que irá nascer depois. A pessoa que não tem ou perde a capacidade de Simbolização passa ao ato. Precisa matar o relacionamento, ou o que ele representa, mas acaba matando o Outro, ou a si mesma.
Elize encontrou o Príncipe que, encantado, tirou-a “Da Vida”. O sonho logo virou em pesadelo, sem “felizes para sempre”. Richard Gere perdeu o seu interesse, passou a ser distante, sempre irritado com a sua perseguição ciumenta. Julia-Elize engravidou quando o divórcio estava sendo discutido, o que não é nem um pouco incomum. Nenhum casamento é salvo assim, antes, é definitivamente condenado. O resto da história é conhecido: a traição, a nova amante candidata a Cinderela, a discussão, o tiro, a morte revelada em cadeia nacional pelos advogados da família em seus detalhes bizarros.
É engraçado dizer que não precisamos de salvadores, nem salvadoras, para redimir nossas falhas, nossos medos, nossas pobrezas. Não precisamos de Príncipes nem de Cinderelas. No entanto, não há nenhum dia que não sejamos salvos, às vezes por pessoas que nem conhecemos.
Marcos, o executivo da Yoki, foi morto por sua esposa com um tiro e depois teve seu corpo esquartejado na tentativa de ocultação do cadáver. Foi o assunto da semana. Em nossa civilização viciada em Reality Shows, o crime foi comentado, a intimidade das pessoas exposta e os detalhes mórbidos multiplicados nos jornais e internet. Os especialistas de plantão, alguns da minha área, saíram caçando explicações. As pessoas me perguntavam, nas consultas, como uma coisa dessas pode acontecer na casa vizinha.
“Uma Linda Mulher” foi o filme que lançou Julia Roberts como Cinderela moderna. Fez o papel de uma prostituta que se apaixona pelo seu cliente, um rico executivo encastelado no mundo dos negócios. Tentaram fazer outros filmes com Richard Gere e Julia Roberts tentando recuperar a química quase perfeita de “Pretty Woman”, mas não rolou. O fato é que o arquétipo do homem bem sucedido que se apaixona pela prostituta e decide tirá-la “da vida”. A mocinha tira o executivo de seu castelo solitário. O Príncipe transforma a Gata Borralheira em Princesa. E vivem felizes para sempre.
Engraçado como as pessoas não empatizaram com a vítima nesse reality da semana. Pelo contrário. Ontem, uma cliente que passou várias vezes por abusos morais de chefes, familiares e, sobretudo, marido, disse entender muito bem o que Elize, a assassina confessa de Marcos, sentiu. Tem um livro que eu gosto muito: “Homens Maus fazem o que Os Homens Bons Sonham”. O título já é autoexplicativo. A diferença entre a pessoa dita normal, ou portadora de Juízo Moral e a outra, dita Perversa está justamente na capacidade de simbolização. Às vezes temos vontade de matar alguém. Ou precisamos “matar” simbolicamente uma ordem, uma fase de nossa vida ou um relacionamento que só traz sofrimento. O trabalho simbólico é longo e doloroso e vivemos antes o que está morrendo, sem certeza do que irá nascer depois. A pessoa que não tem ou perde a capacidade de Simbolização passa ao ato. Precisa matar o relacionamento, ou o que ele representa, mas acaba matando o Outro, ou a si mesma.
Elize encontrou o Príncipe que, encantado, tirou-a “Da Vida”. O sonho logo virou em pesadelo, sem “felizes para sempre”. Richard Gere perdeu o seu interesse, passou a ser distante, sempre irritado com a sua perseguição ciumenta. Julia-Elize engravidou quando o divórcio estava sendo discutido, o que não é nem um pouco incomum. Nenhum casamento é salvo assim, antes, é definitivamente condenado. O resto da história é conhecido: a traição, a nova amante candidata a Cinderela, a discussão, o tiro, a morte revelada em cadeia nacional pelos advogados da família em seus detalhes bizarros.
É engraçado dizer que não precisamos de salvadores, nem salvadoras, para redimir nossas falhas, nossos medos, nossas pobrezas. Não precisamos de Príncipes nem de Cinderelas. No entanto, não há nenhum dia que não sejamos salvos, às vezes por pessoas que nem conhecemos.
domingo, 29 de abril de 2012
Maridos e Transtornos de Humor
Recebi nessa semana mais alguns encaminhamentos domésticos para tratamento. Um que está ficando cada vez mais frequente é de maridos ameaçados de abandono se não passarem pelo psiquiatra. Nessas consultas ouço a famosa e recorrente frase: “Nunca pensei que um dia viria parar aqui”. Levando em conta que há poucos séculos as pessoas eram queimadas em fogueiras ou encerradas em masmorras por apresentarem sintomas neurológicos ou psiquiátricos, não é de se estranhar o preconceito e a sensação de derrota ao se “precisar” de ajuda de um profissional de saúde mental. Sobretudo se o paciente for do sexo masculino. Homens tem um estranho mecanismo evolutivo de não pedirem ajuda. Um homem pode passar horas perdido no trânsito, mas, parar e pedir informações, nem pensar. Pode ser atacado por um predador a qualquer momento. Mas como o instinto de não pedir ajuda é sobrepujado pelo medo de ficar sozinho ou as consequências nefastas de uma greve de sexo, então lá vem os maridos com aquela cara de “o que estou fazendo aqui?”Não há semana em que os jornais, mais ou menos sérios, publicam matérias sobre os excessos de medicação e medicalização dos sentimentos humanos. A vovozinha está chorando porque ficou viúva após sessenta anos de casamento? Taca um Prozac nela, ora. Estudos e mais estudos dedicados a desmascarar a máfia psiquiátrica, esses mauricinhos engravatados distribuindo remédios desnecessários e cheios de efeitos colaterais. Aliás, uma forma de manifestação de hostilidades inconscientes contra o psiquiatra é trazer essas matérias impressas para serem discutidas na sessão. Metade da minha Tese de Mestrado foi sobre a Filosofia da Ciência da Psiquiatria, ou, em termos menos acadêmicos, que P... mesmo estamos fazendo? Portanto, esse debate me é muito agradável, sempre com aquela picuinha inconsciente com o papai, representado pelo psiquiatra-que-fica-me-medicando (vou sentir muita, muita falta do hífen na minha vida) e aonde-ele-quer-chegar? Não, não é agradável chegar à consulta e sair com uma prescrição. Muitos pagam a consulta, jogam a receita no lixo e saem pela vida com um monstro debaixo do travesseiro: os quadros subclínicos.Os quadros subclínicos são um debate surdo nas últimas décadas no establishment psiquiátrico. Um exemplo? Uma pessoa cronicamente mau humorada, é uma chata ou tem um Transtorno de Humor? E a Fadiga Crônica? Uma paciente que tem um humor deprimido constante, depois de ter se aposentado, a família se despedaçado e as limitações ortopédicas tirado a sua capacidade de movimentação, ela vai se animar com uns remedinhos?O fato é que um parâmetro seguro de que as alterações de humor estão demais é a rebelião das esposas. Elas podem descer do carro se o marido não pedir informação ou elas podem descer do casamento se o marido estiver chato demais. O cara chega no consultório com aquela expressão de “qual é a desse cara?” e saem com uma medicação em baixa dose. De quebra, ganham uma explicação sobre os estressores e os mecanismos que levam à exaustão uma parte valiosa de seu Cérebro, que é o Cérebro Emocional (termo utilizado para fins didáticos). Os que não jogam a prescrição fora e experimentam o tratamento por algumas semanas conseguem constatar uma melhora de disposição e de paciência. O cachorrinho de estimação não foge mais quando ele entra na sala. Ele consegue dar bom dia aos seus funcionários ou colegas antes de reclamar de alguma coisa. Ele passa a esperar pela velhinha atravessando a faixa de pedestres em uma eternidade. Ele dá até passagem para o motoboy sem medo de tomar um chute no retrovisor. No retorno, observa que está muito melhor, provavelmente por ter eliminado a lactose da dieta. E pergunta quando seu tratamento vai acabar.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
O Amor em Tempos de Facebook
Aquele ditado "Longe dos olhos, longe do coração", ficou completamente obsoleto em tempos de Facebook. Hoje você pode acompanhar em tempo real todas as peripécias amorosas de seu ex. Isso acrescenta alguns mililitros de lágrimas aos nossos divãs, pois as pessoas podem experimentar uma dupla ou uma tripla rejeição, tudo isso mediante um click. Sabe aquele cara que te fez sofrer, apareceu e desapareceu de sua vida umas trinta vezes e, ao ouvir um dá-ou-desce salta fora com aquelas frases clichê, tipo "Não é você, sou eu", ou "Não consigo me ligar a ninguém, não consigo me entregar"? Pois o cara fica embaçando a vida de uma mulher bonita, interessante e com questões de autoestima por meses e vai embora dizendo que não sabe amar. Duas semanas e várias caixas de lenço de papel e de chocolate depois, a moça resolve dar uma rápida e fatal espiada no Facebook do cara, só para tentar detectar algum sinal de tristeza pela quase relação encerrada. Lá está o Mister "Não consigo amar ninguém" com a sua nova namorada, cheio de posts repletos de arrulhos de amor. Nossa querida obsessiva amorosa vai entrar no Facebook da tal namorada, onde tem infinitos posts de amor e um "Relacionamento Sério" cravado na tela. Muitas vezes nosso candidato a Romeu estava já saindo com a atual pombinha enquanto enrolava a pombinha anterior. Isso é que é humilhação.
Estamos na era da genômica. Daqui a alguns anos, os pacientes vão preencher a ficha de admissão apenas colocando o dedo no scaner, onde vai aparecer todos os dados dele, inclusive o seu genoma. O médico já vai saber quais as doenças hereditárias que podem estar desenhadas e qual o perfil de medicamento mais adequado ao paciente. Pelo menos é isso que as pessoas fantasiam, um determinismo genético absoluto. Isso é, claro, uma bobagem. Um estudo que eu li mostra que o genoma pode prever muito pouco do que vai acontecer com o paciente, pois a interação entre genes e meio ambiente é que é a alma do negócio. Conversar com o paciente não vai sair de moda, felizmente, embora seja prática em desuso em alguns consultórios. Mas esse não é o assunto do post.
O que seria realmente legal seria a Genômica estudar a compatibilidade genética dos candidatos a namorados. Vivo pensando em formas de ficar rico no mole, então podemos captar investidores para esse projeto: vamos fazer um site de encontros em que as pessoas coloquem o rosto dos pais, ou das figuras parentais e dos últimos parceiros. Colhemos um gota de sangue para examinar a compatibilidade genética dos casais e marcamos encontro, baseados em características físicas e cheiros, gostos e genes comuns. No livro (que eu adoro) "O Analista de Bagé", Luís Fernando Veríssimo imagina um churrasco de final de ano dos pacientes do analista de Bagé. A pelada, por exemplo, não vai ser entre casados e solteiros, mas entre sádicos e masoquistas, que aí ninguém reclama. Podemos parear em nossos site de encontro essas "compatibilidades", então.
Tem um cliente meu, engenheiro, que soltou em uma sessão: "A vida é um mistério, não uma linha de montagem". Pois os casais se encontram, e desencontram, dentro desse campo de mistério. Mas quando alguém chora na sessão se perguntando por que o amado e a amada nunca deu certo com eles e se amarrou com a primeira ou o primeiro que apareceu, postando imediamente seu amor nas redes sociais, eu respondo, na maior cara de pau: "É uma questão de compatibilidade genética".
Estamos na era da genômica. Daqui a alguns anos, os pacientes vão preencher a ficha de admissão apenas colocando o dedo no scaner, onde vai aparecer todos os dados dele, inclusive o seu genoma. O médico já vai saber quais as doenças hereditárias que podem estar desenhadas e qual o perfil de medicamento mais adequado ao paciente. Pelo menos é isso que as pessoas fantasiam, um determinismo genético absoluto. Isso é, claro, uma bobagem. Um estudo que eu li mostra que o genoma pode prever muito pouco do que vai acontecer com o paciente, pois a interação entre genes e meio ambiente é que é a alma do negócio. Conversar com o paciente não vai sair de moda, felizmente, embora seja prática em desuso em alguns consultórios. Mas esse não é o assunto do post.
O que seria realmente legal seria a Genômica estudar a compatibilidade genética dos candidatos a namorados. Vivo pensando em formas de ficar rico no mole, então podemos captar investidores para esse projeto: vamos fazer um site de encontros em que as pessoas coloquem o rosto dos pais, ou das figuras parentais e dos últimos parceiros. Colhemos um gota de sangue para examinar a compatibilidade genética dos casais e marcamos encontro, baseados em características físicas e cheiros, gostos e genes comuns. No livro (que eu adoro) "O Analista de Bagé", Luís Fernando Veríssimo imagina um churrasco de final de ano dos pacientes do analista de Bagé. A pelada, por exemplo, não vai ser entre casados e solteiros, mas entre sádicos e masoquistas, que aí ninguém reclama. Podemos parear em nossos site de encontro essas "compatibilidades", então.
Tem um cliente meu, engenheiro, que soltou em uma sessão: "A vida é um mistério, não uma linha de montagem". Pois os casais se encontram, e desencontram, dentro desse campo de mistério. Mas quando alguém chora na sessão se perguntando por que o amado e a amada nunca deu certo com eles e se amarrou com a primeira ou o primeiro que apareceu, postando imediamente seu amor nas redes sociais, eu respondo, na maior cara de pau: "É uma questão de compatibilidade genética".
sábado, 31 de março de 2012
Mais uma Palavra sobre o Big Brother
Quando finalmente, depois de mais um texto pseudocabeça, Pedro Bial anunciou a vitória mais do que esperada de Fael no Big Brother, o rapaz ficou gritando e gesticulando com a sua natural falta de graça, beijou o chão da casa, abraçou a família e deu a sua primeira declaração como novo milionário: “Amo muito tudo isso”. O slogan do Mac Donalds. A primeira coisa que me ocorreu foi: “Será que esse rapaz já está assinado com o Mac Donalds?”. Seria aquela uma frase já combinada? Nos próximos dias veremos o cowboy devorando Quarteirões na TV? Ou será que a frase foi tudo o que o rapaz conseguiu conceber na emoção da vitória? A minha dúvida reflete a indigência intelectual, dos participantes do programa e do reality show em si. Mas não vou me somar ao coro de rabugentos falando mal do Big Brother e do Fael, picolé de chuchu que ganhou a maratona de fofocas e barracos. Como foi o meu primeiro BBB, confesso que curti o processo, gostei de ver os participantes já com suas Personas transformadas, no palco para receber os finalistas. Era como rever velhos amigos, depois de um longo tempo. Essa deve ser a experiência paradoxal que eles tem quando saem do confinamento: são recebidos como velhos amigos, que há muito frequentam a sala de estar da casa das pessoas.
Quando eu assisti o programa pela primeira vez, simpatizei com a Fabiana, a Mama. Achei que ela tinha arrumado para si uma boa Persona, de mulher um pouco mais velha, casada e com um filho, que tentava falar com o coração. Ela “cuidava” das participantes mais jovens, parecia que seria um ponto de equilíbrio na casa. A minha impressão foi falsa. Fabiana era a mais “TVgênica” do grupo. O sorriso dela era de plástico e em todas as atividades ela pulava na frente como voluntária, como aquela menina chata da escola que sempre queria estar bem com o professor (inclusive caprichando no decote). Não foi eliminada antes porque ganhou todas as últimas provas do líder, inclusive uma em que desestabilizou seus dois amigos com um jogo psicológico de provocação e culpa. Inteligente que é, soube muito bem que naquela prova ela tinha dançado. Ficou deprimida até o final, sabendo que a opinião pública iria toda para o lado de Fael. E foi.
Para quem não assistiu e pouco ou nada se importa com o BBB, uma má notícia: esse programa reflete para onde está indo a Rede Globo, que decididamente virou uma emissora das classes C, D e E. Atendendo a essas camadas da população, normalmente mais moralista e conservadora, montaram um grupo medíocre, não no sentido de pobreza mas de mediana mesmo, um grupo sem grandes polêmicas, sem transexuais ou figuras caricatas, com a molecada bonita e sarada de sempre, as meninas exibindo bundas e peitos como sempre e o Cinderelo do Brasil profundo, nascido e criado nos rincões, que sobreviveu no meio das cobras criadas (até porque era dos poucos do grupo com curso superior completo, o que permitiu a ele entender e traduzir aos amigos o que estava acontecendo dentro e fora da casa) ganhando no happy ending esperado. O Brasil está mais pobre culturalmente e, decididamente, mais sertanejo. E o BBB está dando os seus últimos suspiros na classe média mais abastada.
Quando eu assisti o programa pela primeira vez, simpatizei com a Fabiana, a Mama. Achei que ela tinha arrumado para si uma boa Persona, de mulher um pouco mais velha, casada e com um filho, que tentava falar com o coração. Ela “cuidava” das participantes mais jovens, parecia que seria um ponto de equilíbrio na casa. A minha impressão foi falsa. Fabiana era a mais “TVgênica” do grupo. O sorriso dela era de plástico e em todas as atividades ela pulava na frente como voluntária, como aquela menina chata da escola que sempre queria estar bem com o professor (inclusive caprichando no decote). Não foi eliminada antes porque ganhou todas as últimas provas do líder, inclusive uma em que desestabilizou seus dois amigos com um jogo psicológico de provocação e culpa. Inteligente que é, soube muito bem que naquela prova ela tinha dançado. Ficou deprimida até o final, sabendo que a opinião pública iria toda para o lado de Fael. E foi.
Para quem não assistiu e pouco ou nada se importa com o BBB, uma má notícia: esse programa reflete para onde está indo a Rede Globo, que decididamente virou uma emissora das classes C, D e E. Atendendo a essas camadas da população, normalmente mais moralista e conservadora, montaram um grupo medíocre, não no sentido de pobreza mas de mediana mesmo, um grupo sem grandes polêmicas, sem transexuais ou figuras caricatas, com a molecada bonita e sarada de sempre, as meninas exibindo bundas e peitos como sempre e o Cinderelo do Brasil profundo, nascido e criado nos rincões, que sobreviveu no meio das cobras criadas (até porque era dos poucos do grupo com curso superior completo, o que permitiu a ele entender e traduzir aos amigos o que estava acontecendo dentro e fora da casa) ganhando no happy ending esperado. O Brasil está mais pobre culturalmente e, decididamente, mais sertanejo. E o BBB está dando os seus últimos suspiros na classe média mais abastada.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Mulheres e Fúrias
Tem uma passagem da Mitologia Grega em que Hércules, em um de seus Doze Trabalhos, segura o Minotauro pelos chifres, empregando uma força descomunal até que o bicho se tranquilizou e perdeu a sua fúria. Essa imagem é muito bonita e na prática clínica representa a força e a determinação que às vezes temos que mobilizar para conter os nossos instintos, as nossas fúrias. Hércules hoje em dia iria terceirizar os Doze Trabalhos com algumas empresas coreanas e indianas, deixaria o touro solto destruindo as cidades e pediria um recall dos chifres do Minotauro, mal ajustados em alguma fábrica de Taiwan.
A imagem de Hércules não é muito fácil de criar empatia com as mulheres. A idéia de segurar as próprias fúrias pelos chifres é meio masculina, mesmo nessa época de mulheres saradas e bombadas. Gosto mais de outro mito, mais feminino, que é o mito de Eros e Psiquê. Nós junguianos falamos dele como se fosse de domínio público, não é. Vou resumir um pouco o seu enredo para abordar o tema desse post.
Psiquê era a mais bela das mulheres, uma beleza louvada e famosa em toda o seu país. A sua beleza era comparada com a própria Afrodite (veja bem, é sempre mal negócio ter um atributo louvado e comparado a um deus do Olimpo. Isso sempre vai gerar excessos e, depois, consequências). Pois de tanto se falar em Psiquê, Afrodite enviou o seu filho, Eros em pessoa, para lançar as suas flechas e fazer a moça cair em desgraça, apaixonando-se por um monstro. O correspondente disso na vida real são as moças belíssimas e idealizadas que acabam se envolvendo com amores bandidos e monstruosos, que podem levá-las à ruína. Eros foi cumprir as ordens de mamãe, mas acidentalmente se picou em uma de suas flechas, apaixonando-se perdidamente por Psiquê. Isso que é o feitiço virando-se contra o feiticeiro, ou feiticeira no caso. Eros acaba desposando Psiquê, mas todos acham que ela se casou com um monstro. Ele a visita toda noite, com a condição de que não pode ser visto, nem seu rosto revelado. Psiquê mora no alto de uma colina, recebe toda a noite o deus do Amor em pessoa, mas o leitor imagina que isso é suficiente? Claro que não. Ela é instigada pelas irmãs a quebrar seu juramento e iluminar o seu marido misterioso. Quando o faz, percebe que casou com um deus de infinita beleza, mas derruba óleo quente de seu candeeiro em seu ombro. Machuca profundamente seu marido com essa traição, ele vai embora, numa época que não havia terapeutas de casal. Psiquê pensa em morrer, mas é impedida pela sogrona, Afrodite, que vai lhe dar quatro grandes tarefas para recuperar o seu amor. A segunda tarefa é que me interessa. Psiquê deveria tosquiar carneiros violentíssimos e gigantes cuja lã era feita de ouro. Como de hábito, ela pensa em suicídio, mas é salva por criaturas mágicas que a ensinam um estratagema: ela deve pegar um caniço oco e se esconder sob as águas de um lago, respirando pelo canudo/caniço até o sol se pôr, quando os terríveis carneiros estão cansados e na sombra. Nessa hora ela pode colher a lã de ouro presa nos arbustos sem ser dilacerada pelas feras.
As mulheres indagam nas revistas femininas e nos divãs por que os homens estão tão ensaboados e ausentes dos relacionamentos. Não percebem que muitas vezes entram na relação com um quantum absurdo de energia e de expectativas, como carneiros furiosos prontos a dilacerar a sua presa por uma pequena falha ou desatenção. Os homens, que também se lamentam nos divãs, fogem embasbacados dessa mulher pósmoderna, já chamada nesse blog da “Mulher-que-surta”. Não é à toa que vemos muitas delas encontrando uma relação mais generosa e tranquila depois da maturidade. Só depois que baixa o sol do meio dia e as expectativas desmedidas, as fúrias de abandono e as ameaças chantagistas que algumas pessoas de ambos os sexos estão prontas para consolidar um relacionamento. Tem gente, infelizmente, que pode adoecer gravemente nesse processo, que pode durar muito tempo. Em alguns casos, as feras nunca se acalmam.
Guimarães Rosa, em uma das várias frases maravilhosas do “Grande Sertâo: Veredas” proclama que ”Deus é paciência. Tudo o que for contrário disso é o Diabo”.
A imagem de Hércules não é muito fácil de criar empatia com as mulheres. A idéia de segurar as próprias fúrias pelos chifres é meio masculina, mesmo nessa época de mulheres saradas e bombadas. Gosto mais de outro mito, mais feminino, que é o mito de Eros e Psiquê. Nós junguianos falamos dele como se fosse de domínio público, não é. Vou resumir um pouco o seu enredo para abordar o tema desse post.
Psiquê era a mais bela das mulheres, uma beleza louvada e famosa em toda o seu país. A sua beleza era comparada com a própria Afrodite (veja bem, é sempre mal negócio ter um atributo louvado e comparado a um deus do Olimpo. Isso sempre vai gerar excessos e, depois, consequências). Pois de tanto se falar em Psiquê, Afrodite enviou o seu filho, Eros em pessoa, para lançar as suas flechas e fazer a moça cair em desgraça, apaixonando-se por um monstro. O correspondente disso na vida real são as moças belíssimas e idealizadas que acabam se envolvendo com amores bandidos e monstruosos, que podem levá-las à ruína. Eros foi cumprir as ordens de mamãe, mas acidentalmente se picou em uma de suas flechas, apaixonando-se perdidamente por Psiquê. Isso que é o feitiço virando-se contra o feiticeiro, ou feiticeira no caso. Eros acaba desposando Psiquê, mas todos acham que ela se casou com um monstro. Ele a visita toda noite, com a condição de que não pode ser visto, nem seu rosto revelado. Psiquê mora no alto de uma colina, recebe toda a noite o deus do Amor em pessoa, mas o leitor imagina que isso é suficiente? Claro que não. Ela é instigada pelas irmãs a quebrar seu juramento e iluminar o seu marido misterioso. Quando o faz, percebe que casou com um deus de infinita beleza, mas derruba óleo quente de seu candeeiro em seu ombro. Machuca profundamente seu marido com essa traição, ele vai embora, numa época que não havia terapeutas de casal. Psiquê pensa em morrer, mas é impedida pela sogrona, Afrodite, que vai lhe dar quatro grandes tarefas para recuperar o seu amor. A segunda tarefa é que me interessa. Psiquê deveria tosquiar carneiros violentíssimos e gigantes cuja lã era feita de ouro. Como de hábito, ela pensa em suicídio, mas é salva por criaturas mágicas que a ensinam um estratagema: ela deve pegar um caniço oco e se esconder sob as águas de um lago, respirando pelo canudo/caniço até o sol se pôr, quando os terríveis carneiros estão cansados e na sombra. Nessa hora ela pode colher a lã de ouro presa nos arbustos sem ser dilacerada pelas feras.
As mulheres indagam nas revistas femininas e nos divãs por que os homens estão tão ensaboados e ausentes dos relacionamentos. Não percebem que muitas vezes entram na relação com um quantum absurdo de energia e de expectativas, como carneiros furiosos prontos a dilacerar a sua presa por uma pequena falha ou desatenção. Os homens, que também se lamentam nos divãs, fogem embasbacados dessa mulher pósmoderna, já chamada nesse blog da “Mulher-que-surta”. Não é à toa que vemos muitas delas encontrando uma relação mais generosa e tranquila depois da maturidade. Só depois que baixa o sol do meio dia e as expectativas desmedidas, as fúrias de abandono e as ameaças chantagistas que algumas pessoas de ambos os sexos estão prontas para consolidar um relacionamento. Tem gente, infelizmente, que pode adoecer gravemente nesse processo, que pode durar muito tempo. Em alguns casos, as feras nunca se acalmam.
Guimarães Rosa, em uma das várias frases maravilhosas do “Grande Sertâo: Veredas” proclama que ”Deus é paciência. Tudo o que for contrário disso é o Diabo”.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
O "Gente Boa"
No início dos anos 90 eu era Preceptor do Instituto de Psiquiatria, o que significava que eu organizava, dava aulas e notas no curso do quinto ano da Faculdade de Medicina da USP. O curso era bem avaliado, fazendo o professor responsável bater no peito nas reuniões da Congregação, orgulhoso e chamando para si o mérito de um Curso que ele nem sabia do que se tratava. Mas essa é outra história. A lembrança dessa época me ocorreu por um pequeno experimento que fiz com meus alunos. Comecei a testar qual o tipo de preceptor traria os melhores resultados: o Paizão, o Gente Fina, o Colega (afinal, eu era uns três, quatro anos mais velho que aqueles alunos) e, finalmente, o Nazista, o Superexigente. Eu apresentava o personagem junto com o curso, na hora de colocar como seria a avaliação e o que eu esperava deles como grupo. O estágio era composto por doze grupos diferentes que passavam um mês lá comigo, então deu para testar muitas fórmulas com as minhas cobaias. Lamento dizer que o melhor rendimento era nas turmas onde eu era o Nazista e o Superexigente. Melhores provas, melhores trabalhos finais. Felizmente não havia sido lançado “O Monge e o Executivo” ou outro best seller exaltando líderes servidores ou “só o amor constrói”. Obviamente que ninguém saiu do estágio direto para a internação na Psiquiatria, a pressão era dosada e adequada para fazer os caras se interessarem por uma matéria que tradicionalmente gostariam de cabular. Mas lamento dizer que o Chegado e o Gente Boa produzia boas avaliações de minha pessoa e aproveitamento pior da matéria. Que me perdoem os Construtivistas.
Estava lendo sobre formas de manipulação das pessoas usando técnicas de impressão de idéias, algo que deve ser matéria obrigatória em cursos de Publicidade. Um tipo de condicionamento muito utilizado é o condicionamento por Dissonância Cognitiva. Para resumir, esse método cria pessoas dóceis através da pressão e do desconforto. Não conheço mas tenho uma forte impressão que as técnicas ensinadas aos “Vendedores Pitbull” passam por esse tipo de estratégia. É como se a pessoa comprasse por medo do vendedor. A Dissonância Cognitiva toca em um mecanismo evolutivo profundo, o Módulo de Dominação e o de Submissão incrustrado em nosso Cérebro Emocional. Em situações de fragilidade esse módulo é ativado, fazendo o sujeito virar um autêntico fanático em algumas semanas. As lavagens cerebrais passam exatamente por esse princípio: isolamento, privação de sono, estímulos desagradáveis e assustadores até o “discípulo” apegar-se profundamente a um grupo ou a um líder que vão salvá-lo do medo e do horror.
Na prática clínica, ouço muita gente se perguntando por que continuam em relacionamentos disfuncionais e desagradáveis, seja no casamento, seja em empregos onde aceitam maus tratos e humilhações nunca antes imaginadas. Estou lá por coragem ou por covardia? – perguntam. Lamento dizer que por habituação. Ou, se eu tiver que escolher um termo, por covardia. Nosso Cérebro aprende pela formação de hábitos e gosta de um ambiente previsível. Outro dia o Zé Simão (jornalista e comediante da Folha de São Paulo) perguntou para sua empregada o que ela faria com o prêmio da Megasena, ela respondeu que compraria um ônibus só seu, para não ir mais apertada. Essa é a força da habituidade na nossa vida: não chegamos nem a imaginar cenários diferentes, a vida parece ser aquilo, sempre.
Como tudo o que precisamos mudar necessita de Aprendizagem e criação de outros campos cognitivos, o que eu posso sugerir é que as pessoas procurem novas experiências, novos empreendimentos e explorações de possibilidades, começando por reagir a todo tipo de abuso. No final do curso eu apontava para os meus alunos que o aprendizado é um prazer e uma exploração de novas fronteiras. Eles estavam quase completando o curso e não era mais necessário um Preceptor fascista para melhorar o seu rendimento. Eles deveriam ser o líder que estabelece os seus próprios objetivos. Mas concordo que os líderes e os parceiros que mais nos cobram tiram mais de nosso esforço. Deve ser por isso que os líderes e namorados “bonzinhos” acabam se dando mal. E as mulheres "boazinhas" terminam abandonadas. Eu sei que o tema é polêmico e convido os leitores(as) a opinarem.
Estava lendo sobre formas de manipulação das pessoas usando técnicas de impressão de idéias, algo que deve ser matéria obrigatória em cursos de Publicidade. Um tipo de condicionamento muito utilizado é o condicionamento por Dissonância Cognitiva. Para resumir, esse método cria pessoas dóceis através da pressão e do desconforto. Não conheço mas tenho uma forte impressão que as técnicas ensinadas aos “Vendedores Pitbull” passam por esse tipo de estratégia. É como se a pessoa comprasse por medo do vendedor. A Dissonância Cognitiva toca em um mecanismo evolutivo profundo, o Módulo de Dominação e o de Submissão incrustrado em nosso Cérebro Emocional. Em situações de fragilidade esse módulo é ativado, fazendo o sujeito virar um autêntico fanático em algumas semanas. As lavagens cerebrais passam exatamente por esse princípio: isolamento, privação de sono, estímulos desagradáveis e assustadores até o “discípulo” apegar-se profundamente a um grupo ou a um líder que vão salvá-lo do medo e do horror.
Na prática clínica, ouço muita gente se perguntando por que continuam em relacionamentos disfuncionais e desagradáveis, seja no casamento, seja em empregos onde aceitam maus tratos e humilhações nunca antes imaginadas. Estou lá por coragem ou por covardia? – perguntam. Lamento dizer que por habituação. Ou, se eu tiver que escolher um termo, por covardia. Nosso Cérebro aprende pela formação de hábitos e gosta de um ambiente previsível. Outro dia o Zé Simão (jornalista e comediante da Folha de São Paulo) perguntou para sua empregada o que ela faria com o prêmio da Megasena, ela respondeu que compraria um ônibus só seu, para não ir mais apertada. Essa é a força da habituidade na nossa vida: não chegamos nem a imaginar cenários diferentes, a vida parece ser aquilo, sempre.
Como tudo o que precisamos mudar necessita de Aprendizagem e criação de outros campos cognitivos, o que eu posso sugerir é que as pessoas procurem novas experiências, novos empreendimentos e explorações de possibilidades, começando por reagir a todo tipo de abuso. No final do curso eu apontava para os meus alunos que o aprendizado é um prazer e uma exploração de novas fronteiras. Eles estavam quase completando o curso e não era mais necessário um Preceptor fascista para melhorar o seu rendimento. Eles deveriam ser o líder que estabelece os seus próprios objetivos. Mas concordo que os líderes e os parceiros que mais nos cobram tiram mais de nosso esforço. Deve ser por isso que os líderes e namorados “bonzinhos” acabam se dando mal. E as mulheres "boazinhas" terminam abandonadas. Eu sei que o tema é polêmico e convido os leitores(as) a opinarem.
domingo, 22 de janeiro de 2012
O Vampiro
Estava vendo ontem um telefilme sobre a vida de Jo Rowling, autora da saga de Harry Potter. Eu li três dos sete livros da saga, infelizmente, pois já expressei em outros posts meu apreço pela mesma. Fico muito impressionado com a descrição dos sentimentos de Harry quando atacado pelos Dementadores, monstros que tiram da pessoa a vontade de viver. Só alguém que passou por um quadro depressivo maior pode descrever aquelas sensações. O telefilme deu uma amaciada nessa passagem, não mostrando claramente o período em que a futura autora de Harry Potter ficou em um pequeno apartamento com a filha bebê, vivendo de cheques da Previdência local.
O que o filme mostrou, ou delineou, foi o relacionamento que acabou levando à fuga e ao isolamento depressivo de Jo. Ela se apaixonou por um jornalista português e, apesar de todos os sinais e alertas de suas amigas e atitudes do sujeito, foi entrando numa espiral de abusos até ter que fugir de sua casa no meio da noite depois de ter sido espancada pelo homem que parecia ser o príncipe encantado.
Já mencionei em vários posts a influência maléfica dos filmes da Disney e das comédias românticas na vida das mocinhas. A fantasia da saga e do sofrimento que vai ser coroado com o grande encontro da grande felicidade consome muitas caixas de chocolate e de Prozac aqui, na vida real. Na mesma vida real, a busca do homem encantador leva as luluzinhas para a porta do castelo do Vampiro, onde o fascínio e o encanto vai terminar no inferno da ambiguidade, a grande arma do falso príncipe. Afetivo, caliente, apaixonado, o discurso do vampiro é sempre o mesmo, de inteira paixão pela mocinha, mas algo está sempre obstruindo o amor. Até o nosso vampiro mais recente, o magrelo e pálido Edward, da saga "Crepúsculo" é inteiramente delicado e apaixonado por Bella, mas está sempre indeciso na hora de bater o penalti, se é que me entendem. O Vampiro é uma promessa que não se cumpre, mas está sempre perto de se cumprir. O contraste das horas de completa paixão e entrega, seguida de sumiços, de perdidos e de ausências injustificadas é o inferno que tortura as nossa Bellas (namorada de Edward) na vida real.
Jo Rowling foi descobrindo que aquele homem apaixonado e apaixonante era na verdade um fraco, dado a bebedeiras e sem a estrutura mínima para construir um casamento e criar uma filha. Com a ajuda de amigas, fugiu do ciclo em que era espancada e abusada pelo mesmo homem que a amava e jurava que iria se corrigir, que o seu amor era infinito e que nunca mais cometeria aqueles abusos. Romper com aquilo custou anos de solidão e depressão, que felizmente viraram os livros de Harry Potter, ele mesmo vítima de muitos abusos e abandonos com a morte de seus pais (Jo Rowling foi profundamente abalada pela morte de sua mãe, figura central de sua vida). Melhor do que ninguém, ela pôde descrever a saga de um herói que supera intuitivamente esses abandonos e abusos para construir uma vida íntegra, inteira. Talvez esteja na hora dela escrever um romance sobre uma mulher que está presa na gangorra emocional do relacionamento com um Vampiro, e de como é difícil romper com isso.
O que o filme mostrou, ou delineou, foi o relacionamento que acabou levando à fuga e ao isolamento depressivo de Jo. Ela se apaixonou por um jornalista português e, apesar de todos os sinais e alertas de suas amigas e atitudes do sujeito, foi entrando numa espiral de abusos até ter que fugir de sua casa no meio da noite depois de ter sido espancada pelo homem que parecia ser o príncipe encantado.
Já mencionei em vários posts a influência maléfica dos filmes da Disney e das comédias românticas na vida das mocinhas. A fantasia da saga e do sofrimento que vai ser coroado com o grande encontro da grande felicidade consome muitas caixas de chocolate e de Prozac aqui, na vida real. Na mesma vida real, a busca do homem encantador leva as luluzinhas para a porta do castelo do Vampiro, onde o fascínio e o encanto vai terminar no inferno da ambiguidade, a grande arma do falso príncipe. Afetivo, caliente, apaixonado, o discurso do vampiro é sempre o mesmo, de inteira paixão pela mocinha, mas algo está sempre obstruindo o amor. Até o nosso vampiro mais recente, o magrelo e pálido Edward, da saga "Crepúsculo" é inteiramente delicado e apaixonado por Bella, mas está sempre indeciso na hora de bater o penalti, se é que me entendem. O Vampiro é uma promessa que não se cumpre, mas está sempre perto de se cumprir. O contraste das horas de completa paixão e entrega, seguida de sumiços, de perdidos e de ausências injustificadas é o inferno que tortura as nossa Bellas (namorada de Edward) na vida real.
Jo Rowling foi descobrindo que aquele homem apaixonado e apaixonante era na verdade um fraco, dado a bebedeiras e sem a estrutura mínima para construir um casamento e criar uma filha. Com a ajuda de amigas, fugiu do ciclo em que era espancada e abusada pelo mesmo homem que a amava e jurava que iria se corrigir, que o seu amor era infinito e que nunca mais cometeria aqueles abusos. Romper com aquilo custou anos de solidão e depressão, que felizmente viraram os livros de Harry Potter, ele mesmo vítima de muitos abusos e abandonos com a morte de seus pais (Jo Rowling foi profundamente abalada pela morte de sua mãe, figura central de sua vida). Melhor do que ninguém, ela pôde descrever a saga de um herói que supera intuitivamente esses abandonos e abusos para construir uma vida íntegra, inteira. Talvez esteja na hora dela escrever um romance sobre uma mulher que está presa na gangorra emocional do relacionamento com um Vampiro, e de como é difícil romper com isso.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Terezinha
Outro dia estava citando numa sessão uma música de Chico Buarque, Terezinha. A cliente, na faixa dos trinta anos, não conhecia a música. Mandei youtubá-la. Chico Buarque deveria ser matéria obrigatória. A tal geração Y está perdendo-o de vista. O fato é que, particularmente, as músicas do Chico falam da alma feminina como ninguém. Um junguiano diria que ele faz música com a sua Anima. Terezinha fala das três fases de desenvolvimento do Animus, ou seja, da relação da mulher com o Masculino. Chico inspirou-se numa cantiga de roda: “O primeiro foi seu pai, o segundo seu irmão, o terceiro foi aquele que a Tereza deu a mão”. Chico escreveu, Betânea cantou: “O primeiro, me chegou/ Como quem vem do florista/Trouxe um bicho de pelúcia/Trouxe um broche de ametista”. Esse homem é o primeiro da cantiga de roda. O Homem Bonzinho. Ele é protetor, cuida e é o genro que toda sogra quer. Dá segurança e está sempre por lá quando a mulher precisa. Chico conclui essa estrofe assim “Me encontrou tão desarmada, que tocou meu coração/ Mas ele não me negava nada/ E assustada eu disse não”. O Homem Bonzinho tem todos os predicados, está sempre atento, demonstra o tempo todo a sua perfeição. Entediada, a mulher diz não. Continua a música : “ O segundo, me chegou/ Como quem chega do bar/ Trouxe um litro de água ardente/ Tão amarga de tragar/ Indagou o meu passado/ E cheirou a minha comida/ Vasculhou minha gaveta/ Me chamava de perdida”. Se o primeiro é um homem Pai/Mãe, o segundo é o bad boy. É o que vai fazer a mulher sofrer. É anti-Pai e a anti-Mãe. As mulheres de alcoólatras e de homens feridos em geral conhecem bem essa versão. O homem que agride, que duvida, que pune a mulher pelo que sua mamãe fez e deixou de fazer. A estrofe termina com: “Me encontrou tão desarmada/que arranhou meu coração/ Mas ele não entregava nada/ E assustada eu disse não.”
Não são poucas as mulheres que ficam presas nessas duas fases. As meninas que casam com homens-paizões, tendo chiliques por bolsas de cinco mil reais e morrendo de tédio no meio de um conforto desértico; ou as que se fixam na relação com os bad boys e vivem caçando as suas infidelidades e a absoluta falta de generosidade com a companheira; choram, deprimem, se entristecem sem perceber que estão presas apenas pela sua dependência do sofrimento. Basta dar as costas ao infinito egoísmo desse homem e seguir em frente. Mas como deixar a identidade de ser aquela-que-sofre? A quem ela irá culpar pela sua infelicidade?
Chico termina essa música belíssima com o terceiro homem de Terezinha: “O terceiro, me chegou/ Como quem chega do nada/ Ele não me trouxe nada/ Também nada perguntou/ Mal eu sei como se chama/ Mas eu sei o que ele quer/ Se deitou na minha cama/ E me chama de mulher”. O terceiro, o que vem para ser o cara, ao contrário dos outros, não tenta ifantilizar a mulher. Ela já não é mais a menina assustada, de coração arranhado. É uma mulher adulta, pronta para receber o seu homem: “Foi chegando sorrateiro/ E antes que eu dissesse não/ Se instalou feitou um posseiro/ Dentro do meu coração”.
Acho que vou distribuir a letra dessa música a todas as pacientes obsessivas amorosas, que procuram no escuro, sem saber o que estão procurando num homem. Ou deveria entregá-la aos homens que querem aprender a ser homem?
Não são poucas as mulheres que ficam presas nessas duas fases. As meninas que casam com homens-paizões, tendo chiliques por bolsas de cinco mil reais e morrendo de tédio no meio de um conforto desértico; ou as que se fixam na relação com os bad boys e vivem caçando as suas infidelidades e a absoluta falta de generosidade com a companheira; choram, deprimem, se entristecem sem perceber que estão presas apenas pela sua dependência do sofrimento. Basta dar as costas ao infinito egoísmo desse homem e seguir em frente. Mas como deixar a identidade de ser aquela-que-sofre? A quem ela irá culpar pela sua infelicidade?
Chico termina essa música belíssima com o terceiro homem de Terezinha: “O terceiro, me chegou/ Como quem chega do nada/ Ele não me trouxe nada/ Também nada perguntou/ Mal eu sei como se chama/ Mas eu sei o que ele quer/ Se deitou na minha cama/ E me chama de mulher”. O terceiro, o que vem para ser o cara, ao contrário dos outros, não tenta ifantilizar a mulher. Ela já não é mais a menina assustada, de coração arranhado. É uma mulher adulta, pronta para receber o seu homem: “Foi chegando sorrateiro/ E antes que eu dissesse não/ Se instalou feitou um posseiro/ Dentro do meu coração”.
Acho que vou distribuir a letra dessa música a todas as pacientes obsessivas amorosas, que procuram no escuro, sem saber o que estão procurando num homem. Ou deveria entregá-la aos homens que querem aprender a ser homem?
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
O Que os Homens Dizem
Já mencionei em outros posts que a busca de um parceiro ou de um grande amor virou uma grande jornada arquetípica da mulher pós moderna. As comédias românticas, onde a mocinha sofre todo tipo de desilusão para encontrar o grande amor no final, também aumentam o sofrimento, pois fica gravado no Inconsciente da moça que, apesar de todos os pesares, tem um happy ending à sua espera, não importa o que possa acontecer ou parecer.
Óbvio que eu não ouço só a versão das Luluzinhas, enlouquecidas pela ausência dos meninos. Os rapazes também sentam no meu sofá e falam da perplexidade de serem medidos de cabo a rabo desde o primeiro encontro, com vistas ao meio fraque e ao altar da igreja. Tinha um particularmente engraçado que cunhou o termo DRI, em oposição à tradicional DR. DR são as intermináveis (para os homens) e as insuficientes (para as mulheres) Discussão de Relacionamento. As mulheres tem as áreas da Fala mais desenvolvidas, por isso que as meninas normalmente falam antes e melhor do que os meninos, quando são bebês (e quando são crescidas, também). Por isso que em qualquer DR conseguem pulverizar os argumentos de seu oponente, listando meticulosamente todas as suas incoerências. A DRI é uma Discussão de Relacionamento Inexistente. Dentro da selva atual de classificações, com Peguetes, Periguetes, Ficantes Eventuais, Ficantes Fixos e por aí vai, a DRI é quando uma Peguete muito eventual vem cobrar coisas e assuntos como se o casal inexistente estivesse perto das Bodas de Prata. O cara olha com aquela cara e some. Do que ela está falando? -perguntam, e somem.
Os homens também tem uma classificação para a mulher a ser evitada: é a Mulher que Surta.
Além das DRIs, a Mulher que Surta faz um esforço hercúleo para parecer descolada, independente e vitaminada, mas uma hora não aguenta a falta de consistência masculina do rapaz e explode, geralmente com uma miscelânea de queixas imaginárias. O cara olha com aquela expressão embasbacada e se sai com o tradicional- "Não te prometi nada", o que deixa a Mulher que Surta ainda mais surtada.
Outra dica para as meninas: não puxem um arquivo de frases amorosas e promessas que o candidato a Romeu falou antes do, como poderia dizer sem chocar, conluio carnal. Os machos de diversas espécies usam vários artifícios de sedução, como cantos maravilhosos dos pássaros e caudas de pavão abertas para impressionar as fêmeas. Não se iludam, eles estão pensando "naquilo". Atingido o objetivo, as promessas, as frases bonitas, as juras, perdem a sua importância. A Mulher-que-ainda-Não-Surtou começa a procurar por aquele macho da espécie que trinou belos cânticos de amor na véspera, para descobrir que o nosso galã faz parte de outro grupo de homens, o Cara-que-Some. O cara que some, depois de concluída a noite de paixão (ou os quinze minutos de paixão, dependendo do cara), some no deserto de celulares na caixa postal, facebooks indeterminados e montanhas de compromissos de trabalho. A Mulher-que-Não-Tinha-Surtado começa, após alguns dias de silêncio, a ficar muito perto de se tornar uma Mulher-que-Surta, sobretudo quando o Dito Cujo aparece algumas semanas depois, como se nada tivesse acontecido e indaga: "Oi, sumida. E aí?", com aquela cara lustrada em óleo de peroba.
E ainda falam que as psicoterapias profundas vão deixar de existir. Haja divã para esse povo, perdido nas selvas das redes sociais.
Óbvio que eu não ouço só a versão das Luluzinhas, enlouquecidas pela ausência dos meninos. Os rapazes também sentam no meu sofá e falam da perplexidade de serem medidos de cabo a rabo desde o primeiro encontro, com vistas ao meio fraque e ao altar da igreja. Tinha um particularmente engraçado que cunhou o termo DRI, em oposição à tradicional DR. DR são as intermináveis (para os homens) e as insuficientes (para as mulheres) Discussão de Relacionamento. As mulheres tem as áreas da Fala mais desenvolvidas, por isso que as meninas normalmente falam antes e melhor do que os meninos, quando são bebês (e quando são crescidas, também). Por isso que em qualquer DR conseguem pulverizar os argumentos de seu oponente, listando meticulosamente todas as suas incoerências. A DRI é uma Discussão de Relacionamento Inexistente. Dentro da selva atual de classificações, com Peguetes, Periguetes, Ficantes Eventuais, Ficantes Fixos e por aí vai, a DRI é quando uma Peguete muito eventual vem cobrar coisas e assuntos como se o casal inexistente estivesse perto das Bodas de Prata. O cara olha com aquela cara e some. Do que ela está falando? -perguntam, e somem.
Os homens também tem uma classificação para a mulher a ser evitada: é a Mulher que Surta.
Além das DRIs, a Mulher que Surta faz um esforço hercúleo para parecer descolada, independente e vitaminada, mas uma hora não aguenta a falta de consistência masculina do rapaz e explode, geralmente com uma miscelânea de queixas imaginárias. O cara olha com aquela expressão embasbacada e se sai com o tradicional- "Não te prometi nada", o que deixa a Mulher que Surta ainda mais surtada.
Outra dica para as meninas: não puxem um arquivo de frases amorosas e promessas que o candidato a Romeu falou antes do, como poderia dizer sem chocar, conluio carnal. Os machos de diversas espécies usam vários artifícios de sedução, como cantos maravilhosos dos pássaros e caudas de pavão abertas para impressionar as fêmeas. Não se iludam, eles estão pensando "naquilo". Atingido o objetivo, as promessas, as frases bonitas, as juras, perdem a sua importância. A Mulher-que-ainda-Não-Surtou começa a procurar por aquele macho da espécie que trinou belos cânticos de amor na véspera, para descobrir que o nosso galã faz parte de outro grupo de homens, o Cara-que-Some. O cara que some, depois de concluída a noite de paixão (ou os quinze minutos de paixão, dependendo do cara), some no deserto de celulares na caixa postal, facebooks indeterminados e montanhas de compromissos de trabalho. A Mulher-que-Não-Tinha-Surtado começa, após alguns dias de silêncio, a ficar muito perto de se tornar uma Mulher-que-Surta, sobretudo quando o Dito Cujo aparece algumas semanas depois, como se nada tivesse acontecido e indaga: "Oi, sumida. E aí?", com aquela cara lustrada em óleo de peroba.
E ainda falam que as psicoterapias profundas vão deixar de existir. Haja divã para esse povo, perdido nas selvas das redes sociais.
sábado, 15 de outubro de 2011
Obsessões Amorosas, De Novo
Acabei dando a tal entrevista para a jornalista, que me encontrou na internet em entrevista que falei da Relação Iô iô. Vai ser triste depois de tantas décadas de estudo e de síntese de Psiquatria Clínica, Psicoterapia Junguiana, Neurociência, sem mencionar a Medicina Chinesa que eu ando sapeando, vou ficar conhecido como o descobridor da Relação Iô iô.
Esse blog atrai mais leitoras e comentários quando fala de relacionamentos. Já recebi longos e pungentes relatos de leitoras em meu e-mail relatando os horrores dos relacionamentos dos quais não conseguem se libertar. Já usei personagens da Mitologia Grega e de Nelson Rodrigues. Diariamente atendo mulheres bonitas, inteligentes, sofisticadas, se descabelando por homens que, se bater no liquidificador, não dão meio copo de suco. O que está acontecendo? É uma epidemia?
Os homens ganharam a guerra dos sexos. A vitória não se deu por enfrentamento direto, muito pelo contrário, mas pela guerrilha da ausência, de transformar a mulher e as relações em objeto de consumo. Surtou, eu troco. As mulheres ficam aterrorizadas de serem classificadas nessa classe de "mulher que surta", então ficam tateando, às cegas, uma forma de firmar o relacionamento, na fronteira gigantesca entre a "ficância" e o namoro. Amarradas pelo medo de explodirem, atropelarem a relação com a própria insegurança, com alguma cobrança fora de hora que faça o rapaz bloqueá-la nas redes sociais. Toneladas de pipoca, chocolate e lenços de papel são consumidas em meio às comédias românticas em que o bonitão sempre acaba persuadido pela mocinha a abandonar a feliz vida de solteiro e finalmente assumir um relacionamento, um vínculo, uma família. Procuram pelos príncipes pós modernos, que sempre olham com aquela cara quando a mulher aponta a atenção pouco diferenciada que dedicam a si e à relação.
O que eu posso dizer no espaço de um post? Antes de mais nada: é preciso um espaço de interiorização. As pessoas estão mais loucas do que jamais estiveram porque vivem em permanente angústia de exteriorização: os homens querem uma Ferrari, as mulheres querem ser uma Ferrari. A vida, a consciência evolue em ciclos de Tentativa-Erro-Interiorização-Elaboração-Aprendizagem. Quando a candidata a Jennifer Anniston (cuja vida amorosa, segundo os tablóides, só dá certo nas telas de cinema) tem uma decepção, uma perda, uma rejeição, é melhor que não saia colecionando ficantes, ou repetindo o padrão, de relação em relação. Acolha os sentimentos, recolha as pressas, interiorize que tipo de homem ou relacionamento gostaria de ter em sua vida. Se os homens fogem das "mulheres que surtam", fujam dos "homens difusos", os que colecionam mulheres ou estão sempre com a atenção em outro lugar que não seja a mulher. Sobretudo, fujam dos caras que não cumprem as suas promessas e não param de fazê-las. Os caras que fazem do some/reaparece uma arma para manter a mulher enlouquecida. Outro dia ouvi no rádio que a militância feminista de um país africano conclamou as mulheres à uma greve de sexo se os homens não tomassem determinada posição. Já pensou se a moda pega? Os homens vão ficar românticos, apaixonados, atenciosos, quase cavalheiros. Quandos as pernas se fecham, os olhos se abrem. Espero que a minha mulher não leia esse post.
Esse blog atrai mais leitoras e comentários quando fala de relacionamentos. Já recebi longos e pungentes relatos de leitoras em meu e-mail relatando os horrores dos relacionamentos dos quais não conseguem se libertar. Já usei personagens da Mitologia Grega e de Nelson Rodrigues. Diariamente atendo mulheres bonitas, inteligentes, sofisticadas, se descabelando por homens que, se bater no liquidificador, não dão meio copo de suco. O que está acontecendo? É uma epidemia?
Os homens ganharam a guerra dos sexos. A vitória não se deu por enfrentamento direto, muito pelo contrário, mas pela guerrilha da ausência, de transformar a mulher e as relações em objeto de consumo. Surtou, eu troco. As mulheres ficam aterrorizadas de serem classificadas nessa classe de "mulher que surta", então ficam tateando, às cegas, uma forma de firmar o relacionamento, na fronteira gigantesca entre a "ficância" e o namoro. Amarradas pelo medo de explodirem, atropelarem a relação com a própria insegurança, com alguma cobrança fora de hora que faça o rapaz bloqueá-la nas redes sociais. Toneladas de pipoca, chocolate e lenços de papel são consumidas em meio às comédias românticas em que o bonitão sempre acaba persuadido pela mocinha a abandonar a feliz vida de solteiro e finalmente assumir um relacionamento, um vínculo, uma família. Procuram pelos príncipes pós modernos, que sempre olham com aquela cara quando a mulher aponta a atenção pouco diferenciada que dedicam a si e à relação.
O que eu posso dizer no espaço de um post? Antes de mais nada: é preciso um espaço de interiorização. As pessoas estão mais loucas do que jamais estiveram porque vivem em permanente angústia de exteriorização: os homens querem uma Ferrari, as mulheres querem ser uma Ferrari. A vida, a consciência evolue em ciclos de Tentativa-Erro-Interiorização-Elaboração-Aprendizagem. Quando a candidata a Jennifer Anniston (cuja vida amorosa, segundo os tablóides, só dá certo nas telas de cinema) tem uma decepção, uma perda, uma rejeição, é melhor que não saia colecionando ficantes, ou repetindo o padrão, de relação em relação. Acolha os sentimentos, recolha as pressas, interiorize que tipo de homem ou relacionamento gostaria de ter em sua vida. Se os homens fogem das "mulheres que surtam", fujam dos "homens difusos", os que colecionam mulheres ou estão sempre com a atenção em outro lugar que não seja a mulher. Sobretudo, fujam dos caras que não cumprem as suas promessas e não param de fazê-las. Os caras que fazem do some/reaparece uma arma para manter a mulher enlouquecida. Outro dia ouvi no rádio que a militância feminista de um país africano conclamou as mulheres à uma greve de sexo se os homens não tomassem determinada posição. Já pensou se a moda pega? Os homens vão ficar românticos, apaixonados, atenciosos, quase cavalheiros. Quandos as pernas se fecham, os olhos se abrem. Espero que a minha mulher não leia esse post.
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