Eu sei que pode parecer um exagero dedicar dois posts deste prestigioso blog para o fenômeno editorial “Cinquenta Tons de Cinza”. Eu poderia me dedicar a analisar as consequências do DSM V (Manual Estatístico e Diagnóstico da Associação Psiquiátrica Americana – 5ª Edição) ter eliminado o diagnóstico multiaxial nessa edição. Depois de vinte anos usando e uma dissertação de Mestrado dedicadas ao diagnóstico multiaxial, esses expoentes máximos da burrice nosológica eliminaram uma das poucas coisas boas que havia nos manuais, que é a possibilidade de diagnosticar um ser humano que sofre em suas várias dimensões, como o diagnóstico psiquiátrico, a personalidade, a condição médica geral, os estressores envolvidos e o funcionamento social. Era como olhar para alguém por cinco ângulos diferentes, não só como uma coleção de genes disfuncionais ou neurotransmissão danificada. Pois vieram esses expoentes da Psiquiatria mauricinha e burra que nossos queridos ianques praticam e, de uma penada, eliminaram o Diagnóstico Multiaxial. Eu vou continuar usando, ok, Uncle Sam? Viram? Acho melhor falar dos “Cinquenta Tons de Alguma Coisa”. É bem menos irritante.
Quando eu ouvi falar desse livro pela primeira vez, gostei muito da idéia original e achei que a coisa iria rolar de outro jeito. Vou usar um conto de fadas, que está descrito em um livro de Jung para exemplificar o que eu imaginava: Era uma vez uma princesa, que casou com com um belo príncipe. Por muito tempo ela sonhou com seu casamento e noite de núpcias. Finalmente ela estaria com seu amado na alcova. Qual não foi a sua surpresa quando o Príncipe não tocou em um fio de seu cabelo na noite de núpcias. E assim o seu conto de fadas foi para o vinagre. Noite após noite, o homem não mostrava nenhum interesse. O pior, sumia durante a noite e a deixava só em seu leito nupcial. Ela, ao contrário que uma princesa moderna faria, não procurou terapia de casal nem discutiu a relação. Ela preferiu, intuitivamente, esperar em silêncio. Uma noite, ela decidiu seguir o príncipe em sua escapada noturna. Não, ele não estava com um cortesão sarado. É um conto de fadas, não um roteiro pornô gay. O príncipe estava em conluio carnal (esse post está demais, heim?)com a sua própria irmã. A noite toda. A princesa, ao contrário do que se pode imaginar, aguentou firme aquela situação, noite após noite, apenas porque o seu coração mandava. Depois de um bom tempo, o príncipe finalmente veio falar com ela. A sua irmã era uma poderosa bruxa que o havia enfeitiçado a praticar o incesto. Só uma esposa muito, muuiito paciente que aguentasse aquela situação poderia libertá-lo do sortilégio. E foram felizes para sempre. Mas o que isso tem a ver com os “Cinquenta Tons de Cinza”?
O conto tem a ver com a cura de uma ferida. Uma espera pacienciosa e o acolhimento do que temos de pior. É uma ótima alegoria do que é um processo de psicoterapia. A princesa consegue libertar, ou curar a ferida de seu homem através da espera paciente e da tolerância do intolerável. É o que muita gente espera de quem dorme a seu lado na cama: espera, tolerância, continência. Pois eu pensei que a essência desse livro fosse uma mulher que resolve acolher um homem com uma ferida enorme e curá-lo, mesmo sem saber como. Como a princesa do conto. Para isso ela iria tolerar o intolerável por um bom tempo, para curá-lo e, quem sabe, libertá-lo do feitiço da bruxa. O que todo homem espera, meninas, mas não sabe que espera.
A trilogia de E.L. James está bem longe disso. Tudo tem a profundidade dos romances de banca de jornal, tipo “Júlia” ou os livros de Bárbara Cartland, que eu nunca li, mas imagino que seja assim. O trauma de Christian Grey é abordado de uma forma idealizada e sem pegada. Mas por que as meninas não largam esses livros até a última página? Porque o Príncipe Sadomasoca dedica à sua amada, entre uma chicotada e outra, uma atenção plena, incondicional. A princesa, Anastasia (não por acaso, nome de princesa, não é?), aceita e gosta do jogo, mas quer transformar o príncipe num homem capaz de assumir compromisso. Esse é o amor em tempos de cólera (feminina): aguentar firme até o príncipe colocar uma aliança. E leva três livros para isso. Que saudade de “Nove e meia semanas de amor”.
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sábado, 8 de dezembro de 2012
segunda-feira, 7 de março de 2011
O Discurso do Rei
Ontem finalmente fui assistir o oscarizado "O Discurso do Rei", um filme bem feitinho para o Oscar pela história de superação pessoal e esperança bem ao gosto da Academia. Confesso que fui com uma certa má vontade por ter gostado muito do "A Origem", que me gerou um post há alguns meses. "A Origem" é um filme complexo, que exige muita atenção e participação do espectador. Merecia o Oscar.
Para quem ainda não viu, "O Discurso do Rei" narra uma saga do Príncipe Albert, pai da atual Rainha da Inglaterra, Elizabeth, às voltas com uma gagueira desde a sua primeira infância. A primeira cena é particularmente angustiante, quando o Príncipe recebe a incumbência de seu pai, o Rei George V, de fazer um discurso ao vivo no estádio de Wembley para todo o reino, na época um Império. Ele gagueja dolorosamente, para constrangimento de todos (se fosse hoje em dia, seria vaiado).
O filme narra a sua busca pela cura, com a intervenção amorosa de sua esposa (aliás, meninas que se queixam dos homens e de sua ausência, nos Transtornos Obsessivos Amorosos: onde estão as mulheres que ficam ao lado de um homem em sua fragilidade como aquela esposa, heim, heim?). Por intervenção de sua esposa ele procura um Terapeuta que usa métodos pouco convencionais para recuperar os transtornos da fala. É bem difícil um terapeuta não se identificar com o personagem de Geoffrey Rush, Lionel. Ele faz tudo que um bom terapeuta deve fazer: humaniza o paciente (aqui você não é o Duque de York: aqui você é Bertie), faz o enquadre correto (recusa-se a atendê-lo no palácio, delimita as regras do processo e faz o futuro rei cumprí-los), faz apostas com ele para mostrar que consegue desempenhar as tarefas, vai trazendo um homem traumatizado e ferido para o centro do processo terapêutico. É tarefa do terapeuta, entre outras coisas, mostrar para o paciente que a sua capacidade está ali, intacta, pronta para ser usada se o medo for apenas enfrentado.
Há uma cena particularmente bonita, em que Bertie, minutos antes de seu coroamento, confronta Lionel, que não tem nenhuma formação acadêmica para tratar transtornos da fala. O futuro rei sente-se traído, mas Lionel não se dá por achado. Ele começara em seu ofício após a Primeira Grande Guerra, recuperando soldados que não conseguiam mais falar depois da experiência do horror da guerra. Ele foi aprendendo do jeito que aprendemos, na raça, errando, revendo, reconstruindo uma trajetória e várias feridas. Lionel sabe que a gagueira de Bertie tem uma origem mais profunda do que uma dificuldade funcional ou neurológica.
"O Discurso de Rei" vem em boa hora para os terapeutas, nesses tempos em que a tecnologia, a indústria farmacêutica e a manipulação genética tentam substituir a relação entre humanos. A cura se dá por um ato de encontro, o encontro será possível após muitos e muitos desencontros, como o filme mostra de forma magistral. É fácil perceber o trabalho de Colin Firth predestinado ao Oscar. O que não dá para entender é que Geoffrey Rush não tenha levado mais uma estatueta para casa.
Para quem ainda não viu, "O Discurso do Rei" narra uma saga do Príncipe Albert, pai da atual Rainha da Inglaterra, Elizabeth, às voltas com uma gagueira desde a sua primeira infância. A primeira cena é particularmente angustiante, quando o Príncipe recebe a incumbência de seu pai, o Rei George V, de fazer um discurso ao vivo no estádio de Wembley para todo o reino, na época um Império. Ele gagueja dolorosamente, para constrangimento de todos (se fosse hoje em dia, seria vaiado).
O filme narra a sua busca pela cura, com a intervenção amorosa de sua esposa (aliás, meninas que se queixam dos homens e de sua ausência, nos Transtornos Obsessivos Amorosos: onde estão as mulheres que ficam ao lado de um homem em sua fragilidade como aquela esposa, heim, heim?). Por intervenção de sua esposa ele procura um Terapeuta que usa métodos pouco convencionais para recuperar os transtornos da fala. É bem difícil um terapeuta não se identificar com o personagem de Geoffrey Rush, Lionel. Ele faz tudo que um bom terapeuta deve fazer: humaniza o paciente (aqui você não é o Duque de York: aqui você é Bertie), faz o enquadre correto (recusa-se a atendê-lo no palácio, delimita as regras do processo e faz o futuro rei cumprí-los), faz apostas com ele para mostrar que consegue desempenhar as tarefas, vai trazendo um homem traumatizado e ferido para o centro do processo terapêutico. É tarefa do terapeuta, entre outras coisas, mostrar para o paciente que a sua capacidade está ali, intacta, pronta para ser usada se o medo for apenas enfrentado.
Há uma cena particularmente bonita, em que Bertie, minutos antes de seu coroamento, confronta Lionel, que não tem nenhuma formação acadêmica para tratar transtornos da fala. O futuro rei sente-se traído, mas Lionel não se dá por achado. Ele começara em seu ofício após a Primeira Grande Guerra, recuperando soldados que não conseguiam mais falar depois da experiência do horror da guerra. Ele foi aprendendo do jeito que aprendemos, na raça, errando, revendo, reconstruindo uma trajetória e várias feridas. Lionel sabe que a gagueira de Bertie tem uma origem mais profunda do que uma dificuldade funcional ou neurológica.
"O Discurso de Rei" vem em boa hora para os terapeutas, nesses tempos em que a tecnologia, a indústria farmacêutica e a manipulação genética tentam substituir a relação entre humanos. A cura se dá por um ato de encontro, o encontro será possível após muitos e muitos desencontros, como o filme mostra de forma magistral. É fácil perceber o trabalho de Colin Firth predestinado ao Oscar. O que não dá para entender é que Geoffrey Rush não tenha levado mais uma estatueta para casa.
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