Ontem finalmente fui assistir o oscarizado "O Discurso do Rei", um filme bem feitinho para o Oscar pela história de superação pessoal e esperança bem ao gosto da Academia. Confesso que fui com uma certa má vontade por ter gostado muito do "A Origem", que me gerou um post há alguns meses. "A Origem" é um filme complexo, que exige muita atenção e participação do espectador. Merecia o Oscar.
Para quem ainda não viu, "O Discurso do Rei" narra uma saga do Príncipe Albert, pai da atual Rainha da Inglaterra, Elizabeth, às voltas com uma gagueira desde a sua primeira infância. A primeira cena é particularmente angustiante, quando o Príncipe recebe a incumbência de seu pai, o Rei George V, de fazer um discurso ao vivo no estádio de Wembley para todo o reino, na época um Império. Ele gagueja dolorosamente, para constrangimento de todos (se fosse hoje em dia, seria vaiado).
O filme narra a sua busca pela cura, com a intervenção amorosa de sua esposa (aliás, meninas que se queixam dos homens e de sua ausência, nos Transtornos Obsessivos Amorosos: onde estão as mulheres que ficam ao lado de um homem em sua fragilidade como aquela esposa, heim, heim?). Por intervenção de sua esposa ele procura um Terapeuta que usa métodos pouco convencionais para recuperar os transtornos da fala. É bem difícil um terapeuta não se identificar com o personagem de Geoffrey Rush, Lionel. Ele faz tudo que um bom terapeuta deve fazer: humaniza o paciente (aqui você não é o Duque de York: aqui você é Bertie), faz o enquadre correto (recusa-se a atendê-lo no palácio, delimita as regras do processo e faz o futuro rei cumprí-los), faz apostas com ele para mostrar que consegue desempenhar as tarefas, vai trazendo um homem traumatizado e ferido para o centro do processo terapêutico. É tarefa do terapeuta, entre outras coisas, mostrar para o paciente que a sua capacidade está ali, intacta, pronta para ser usada se o medo for apenas enfrentado.
Há uma cena particularmente bonita, em que Bertie, minutos antes de seu coroamento, confronta Lionel, que não tem nenhuma formação acadêmica para tratar transtornos da fala. O futuro rei sente-se traído, mas Lionel não se dá por achado. Ele começara em seu ofício após a Primeira Grande Guerra, recuperando soldados que não conseguiam mais falar depois da experiência do horror da guerra. Ele foi aprendendo do jeito que aprendemos, na raça, errando, revendo, reconstruindo uma trajetória e várias feridas. Lionel sabe que a gagueira de Bertie tem uma origem mais profunda do que uma dificuldade funcional ou neurológica.
"O Discurso de Rei" vem em boa hora para os terapeutas, nesses tempos em que a tecnologia, a indústria farmacêutica e a manipulação genética tentam substituir a relação entre humanos. A cura se dá por um ato de encontro, o encontro será possível após muitos e muitos desencontros, como o filme mostra de forma magistral. É fácil perceber o trabalho de Colin Firth predestinado ao Oscar. O que não dá para entender é que Geoffrey Rush não tenha levado mais uma estatueta para casa.
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segunda-feira, 7 de março de 2011
segunda-feira, 14 de junho de 2010
O Inconsciente Criativo
O psicanalista francês Lacan colocou em seus seminários que uma das grandes revoluções trazidas pelo pensamento de Freud tenha sido a reversão do Cartesianismo. Após o "Penso, logo existo" de Descartes, veio o "Isso pensa dentro de mim" com a descoberta do Inconsciente. Vamos abordar isso em outro momento, mas essa é a enunciação do nosso Quarto Cérebro, um campo psíquico de produção de pensamento, imagens, sensações e percepções fora de nosso campo habitual de consciência. O Inconsciente Freudiano pensa e traz à tona os nossos conteúdos deletados, excluídos de consciência que retornam em nossos sonhos e atos falhos. Jung, porém, não contente em explorar esse aspecto do Inconsciente, foi muito além.
Voltando para a frase " Os sonhos são manifestações não falsificadas da atividade criativa do Inconsciente", que abordamos na postagem anterior, vamos dar uma olhada agora na segunda parte da frase: ...são manifestações da ATIVIDADE CRIATIVA do Inconsciente". Depois do "Isso pensa dentro de mim", um "Isso cria dentro de mim". Não é à toa que os psicanalistas fazem chacota de nós, junguianos. Essa parte da frase aponta para um conceito ainda mais vertiginoso: temos dentro de nós um núcleo produtor de Consciência e de criatividade. Como explicar isso? Nessa hora me ocorre uma resposta de Pablo Picasso quando alguém lhe perguntou onde procurava por aquelas imagens fantásticas que apareciam em suas pinturas. Ele respondeu: "Eu não procuro, eu acho". Em bom "junguianês" Picasso estava descrevendo o seu processo de captar a criação que vem de dentro, de sua alma, de sua Psique Inconsciente. Quando isso era encontrado, poderia ir para a tela.
Na mitologia Hindu somos todos sonhos de uma figura mítica, que quando acordar desapareceremos. Seria esse o Inconsciente Coletivo, O Self?
Somos a criação de nosso mundo, nosso momento histórico, mas temos uma psique atemporal que sonha o nosso destino e cria sempre novos caminhos e oportunidades, mesmo quando tudo parece perdido ou no escuro. A Psique Inconsciente tem a força criativa da própria vida, sempre procurando por crescer e multiplicar. Isso aparece sempre quando conseguimos uma sintonia, o problema é que hoje, estamos sob o jugo da ditadura do Ego, que se agarra à matéria e sente-se controlador do mundo. Além do Ego temos uma Supraconsciência sutil mas presente que ajuda a criar e a pensar a nossa vida. Ela aparece em sonhos, visões, imaginações e intuições que nos assaltam, nos iluminam e desorientam. Ego, você não está só no campo da psique. Tem alguém querendo se fazer ouvir. Ouça. Pena que muita gente ache graça ou pense que isso é "místico" demais para o seu gosto.
Voltando para a frase " Os sonhos são manifestações não falsificadas da atividade criativa do Inconsciente", que abordamos na postagem anterior, vamos dar uma olhada agora na segunda parte da frase: ...são manifestações da ATIVIDADE CRIATIVA do Inconsciente". Depois do "Isso pensa dentro de mim", um "Isso cria dentro de mim". Não é à toa que os psicanalistas fazem chacota de nós, junguianos. Essa parte da frase aponta para um conceito ainda mais vertiginoso: temos dentro de nós um núcleo produtor de Consciência e de criatividade. Como explicar isso? Nessa hora me ocorre uma resposta de Pablo Picasso quando alguém lhe perguntou onde procurava por aquelas imagens fantásticas que apareciam em suas pinturas. Ele respondeu: "Eu não procuro, eu acho". Em bom "junguianês" Picasso estava descrevendo o seu processo de captar a criação que vem de dentro, de sua alma, de sua Psique Inconsciente. Quando isso era encontrado, poderia ir para a tela.
Na mitologia Hindu somos todos sonhos de uma figura mítica, que quando acordar desapareceremos. Seria esse o Inconsciente Coletivo, O Self?
Somos a criação de nosso mundo, nosso momento histórico, mas temos uma psique atemporal que sonha o nosso destino e cria sempre novos caminhos e oportunidades, mesmo quando tudo parece perdido ou no escuro. A Psique Inconsciente tem a força criativa da própria vida, sempre procurando por crescer e multiplicar. Isso aparece sempre quando conseguimos uma sintonia, o problema é que hoje, estamos sob o jugo da ditadura do Ego, que se agarra à matéria e sente-se controlador do mundo. Além do Ego temos uma Supraconsciência sutil mas presente que ajuda a criar e a pensar a nossa vida. Ela aparece em sonhos, visões, imaginações e intuições que nos assaltam, nos iluminam e desorientam. Ego, você não está só no campo da psique. Tem alguém querendo se fazer ouvir. Ouça. Pena que muita gente ache graça ou pense que isso é "místico" demais para o seu gosto.
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