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domingo, 9 de fevereiro de 2014

Bruta Flor do Querer

Tem um trecho de uma carta de Jung que eu gosto muito, em que ele fala sobre ser possuído pelo demônio do Desejo. Eu fico sempre resistente em fazer a tradução do Desejo como algo doentio ou gerador de sofrimento. Não vivemos sem o desejo, nem que seja o desejo de superar os desejos. A questão não é deixar de desejar, mas de cuidar do Desejo Fixado, da energia psíquica drenada e estagnada pela obsessão desejosa. Vou transcrever um trecho dessa carta: “Quando você se abandona ao desejo, seu desejo se volta para o céu ou para o inferno, você dá um objeto à sua Anima; e esse objeto se volta para o mundo, em vez de ficar no interior, seu lugar próprio...”. Do que ele está falando? De tudo. Vou explicar.
Somos bombardeados o tempo todo pela subjetividade inflamatória do “Vai,vai,vai, vai”. Viva muito, coma muito, corra muito, faça tudo em intensidade o tempo todo. Corre, corre, corre. Nossa pós modernidade foi anunciada pelo coelho de Alice: “É tarde, é tarde, é muito tarde”. Estamos sempre em déficit com o tempo, sempre um passo atrás de sua marcha. Pelo menos, é essa a nossa sensação. O estímulo é de desejar mais, mais rápido. Correndo atrás do tempo, estamos sempre perdendo algo. E querendo mais. Essa é a mágica. O Desejo procura algo onde possa se fixar. Por exemplo, falamos muito nesse blog sobre obsessões amorosas. Bom exemplo de desejo fixado. Começa com a percepção da falta: preciso de alguém. Como o coelho de Alice, preciso encontrar alguém rápido, senão vou ficar sem ninguém, como no jogo da Dança das Cadeiras. Aparece um candidato, ou candidata. Nesse ponto, vai começar a possessão pelo diabo da Anima ou do Animus: tudo passa a girar em torno do ser desejado. Jung não tinha ideia, quando escreveu esse texto, do poder fixador de loucuras das redes sociais. Posta-se um comentário, ou uma foto na rede social. O objeto do desejo não clica uma mísera curtida. Por que não curtiu? Uma broaca curtiu uma foto do quase amado. Quem é essa? O estado de possessão vai num crescendo que, quase invariavelmente, vai terminar em lágrimas a sofrimento. A fixação termina, lógico, com o objeto do desejo fugindo apavorado. Daí passamos para a fase seguinte, que é a perseguição. Agora vou perseguir o ser amado e obrigá-lo a me amar. No caso de homens, pode terminar num “não vai ser minha não vai ser de ninguém”.
O trecho mais difícil dessa citação é a frase final: “ O objeto se volta para o mundo, em vez de ficar no interior, seu lugar próprio...”. Esse pedaço é realmente o mais difícil de se entender, nessa época de literalidades: não adianta virar o mundo atrás do ser amado, sacrificar tudo em função de seus planos e desejo, se o mesmo não for vivido internamente.
Há uma cena em um filme sobre a infância do Dalai Lama, em que ele negocia com os invasores chineses, e o militar tenta tranquilizá-lo, a China vai salvar os tibetanos, trazer o desenvolvimento para aqueles simplórios. O jovem líder responde que nem ele nem ninguém pode salvá-lo. O único que pode salvá-lo é ele próprio.
Quando colocamos a vida nas mãos do Outro, fazemos exatamente o contrário do que o jovem Kundum tentou ensinar ao chinês: a salvação é uma tarefa pessoal, não pode ser terceirizada. Tentar encostar em alguém, ou se fixar num salvador, é o caminho do Inferno.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A Relação Abusiva

Lembro de um curso na minha pós que foi particularmente bacana e ilustrativo: como montar uma seita fundamentalista. Não chegamos ao nível de como montar um homem bomba, pois eram tempos anteriores ao 11 de Setembro. Mas a técnica básica nós aprendemos: isolar as pessoas do convívio exterior, de preferência em lugar ermo, sem muitos recursos. Se não tiver luz elétrica, melhor. Importantíssimo é impedir as pessoas de dormir, ou bagunçar todo o ciclo vigília-sono de seus trainees fundamentalistas. Repita, de diversas formas, as mensagens que você queira incutir nos “alunos”: primeiro sugerindo, depois afirmando, finalmente gritando slogans e memes que vão penetrar, de forma cada vez mais profunda, na cabeça das pessoas. Privações são benvindas: privação de comida, de banho, de luz do sol, tudo o que oferece às pessoas orientação, referência. Finalmente, incentive e premie os neófitos que repetirem as mensagens e a ideologia transmitida e questione, isole e humilhe os dissidentes e os questionadores. Em alguns dias você terá fiéis e fanáticos seguidores após uma boa lavagem cerebral.
Venho atendendo alguns casos que me fizeram lembrar dessas aulas. Não estou atendendo nenhum homem bomba, entretanto. Eles não costumam buscar tratamento. As seitas ou os grupos terroristas não são o único lugar onde as pessoas possam passar por isso. O lugar onde pode ocorrer esse condicionamento é na relação abusiva.
A fórmula é muito parecida com as das seitas. Inicialmente, o parceiro da relação abusiva vai tentar isolar a vítima, digo, o cônjuge, de seu meio social. O marido pode implicar com as aulas de dança, ou as tardes no clube; a esposa vai cismar com a pelada de final de semana ou com as Terças Feiras de carteado. Afaste a cara metade de seus amigos e dos interesses que não seja discutir a relação. Uma técnica eficaz é questionar a natureza e a real intenção das pessoas. A família também deve ser afastada, em nome do amor. Os encontros amorosos devem ser ardentes e intensos. Os desencontros também. Uma característica da relação abusiva é essa: quando é bom, é muito bom; quando é ruim, é intolerável.
A relação abusiva usa os pontos fracos do ser amado. Se a pessoa tem medo da solidão, ameace sempre e cumpra, algumas vezes, com o abandono. Uma técnica consagrada é a Dissonância Cognitiva: puna, desmereça e deixe o ser amado a pão e água, durante a maior parte do tempo. Dê afeto, reconhecimento e bons momentos de forma errática, inconstante. Isso faz que a pessoa busque, sem perceber, pelos poucos momentos agradáveis em meio a um cotidiano de cobranças e privações.
Se o leitor já viveu ou está dentro de uma relação com essas características, procure ajuda. Uma relação a dois não é um passaporte para o Paraíso, mas deve ficar, sempre que possível, longe do Inferno. É que ambos os amantes merecem e devem esperar.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sobre Príncipes e Prozac

Hoje em dia não há mais as mitologias transmitidas envolta das fogueiras. Não há mais os anciãos contando as epopéias. A nossa vida continua carente de mitologias, que nos são impostas pela mídia e pelo cinema. Ainda me lembro de meu filho com uma pá de brinquedo, ou uma espada nas costas cantando “Eu vou, eu vou, para casa agora eu vou...” dos sete anões, imitando a fita VHS de clássicos Disney, com dublagem bem anos quarenta. Era emocionante porque a Branca de Neve da Disney atravessou as gerações, da avó até os netos, o vestidinho retrô da Branca de Neve é um ícone cultural que todos conseguem identificar, setenta anos depois. O problema é que a idéia do Príncipe que coroa, literalmente, toda a jornada da heroína vira um imprinting poderosos nas redes neurais das meninas. Isso geralmente vai terminar nos divãs ou nos prozacs, pois há uma escassez de príncipes no mercado. Não há nem muitos anões acolhedores quando a floresta fica muito escura.
Somos de uma época de literalidades. As músicas agora são repetidas nas rádios por décadas, pois lançar um novo álbum virou uma raridade para todos os artistas. Ouço há quase uma década o Akon cantando (?) : “I wanna fuck you...”. As meninas continuam esperando pelo romance, os meninos cantam romanticamente, eu quero te f... Haja terapia.
O pior dessa mitologia imposta pelas comédias românticas é a sensação de isolamento e exclusão de quem não encontra o príncipe nem o plebeu no final da jornada. Engraçado como temos tantas mídias sociais para impor às pessoas a sensação profunda de solidão. Talvez exista um sentimento ainda pior que o da solidão, que é o da exclusão. Parece para os rapazes, que há um festim de liberdade sexual e de mulheres prontas a servirem os homens, que aparecem nos vídeos pornôs, todos com a mesma sequência de atividades que eu não vou citar aqui, mas que mostram mulheres proporcionando prazer sem nenhuma reciprocidade de seus parceiros. Para as moças, há uma profusão de homens atenciosos, fortes e companheiros que abandonam a sua vida sem sentido para serem “felizes para sempre” com a sua amada.
Não há sentimento mais profundo, numa depressão, do que a sensação de estar fora da experiência humana. A sensação de desconexão com a vida. Vivendo no mundo do Certo e do Errado, necessariamente temos um sistema de exclusão dos “inaptos”, que já começa no quarto ano primário. O trabalho com a depressão é de trazer os excluídos para dentro de novo da experiência humana. Os medicamentos são uma parte desse processo, mas na verdade apenas um instrumento de reconstrução do Sentido para quem a busca perdeu o sentido.

sábado, 15 de outubro de 2011

Obsessões Amorosas, De Novo

Acabei dando a tal entrevista para a jornalista, que me encontrou na internet em entrevista que falei da Relação Iô iô. Vai ser triste depois de tantas décadas de estudo e de síntese de Psiquatria Clínica, Psicoterapia Junguiana, Neurociência, sem mencionar a Medicina Chinesa que eu ando sapeando, vou ficar conhecido como o descobridor da Relação Iô iô.
Esse blog atrai mais leitoras e comentários quando fala de relacionamentos. Já recebi longos e pungentes relatos de leitoras em meu e-mail relatando os horrores dos relacionamentos dos quais não conseguem se libertar. Já usei personagens da Mitologia Grega e de Nelson Rodrigues. Diariamente atendo mulheres bonitas, inteligentes, sofisticadas, se descabelando por homens que, se bater no liquidificador, não dão meio copo de suco. O que está acontecendo? É uma epidemia?
Os homens ganharam a guerra dos sexos. A vitória não se deu por enfrentamento direto, muito pelo contrário, mas pela guerrilha da ausência, de transformar a mulher e as relações em objeto de consumo. Surtou, eu troco. As mulheres ficam aterrorizadas de serem classificadas nessa classe de "mulher que surta", então ficam tateando, às cegas, uma forma de firmar o relacionamento, na fronteira gigantesca entre a "ficância" e o namoro. Amarradas pelo medo de explodirem, atropelarem a relação com a própria insegurança, com alguma cobrança fora de hora que faça o rapaz bloqueá-la nas redes sociais. Toneladas de pipoca, chocolate e lenços de papel são consumidas em meio às comédias românticas em que o bonitão sempre acaba persuadido pela mocinha a abandonar a feliz vida de solteiro e finalmente assumir um relacionamento, um vínculo, uma família. Procuram pelos príncipes pós modernos, que sempre olham com aquela cara quando a mulher aponta a atenção pouco diferenciada que dedicam a si e à relação.
O que eu posso dizer no espaço de um post? Antes de mais nada: é preciso um espaço de interiorização. As pessoas estão mais loucas do que jamais estiveram porque vivem em permanente angústia de exteriorização: os homens querem uma Ferrari, as mulheres querem ser uma Ferrari. A vida, a consciência evolue em ciclos de Tentativa-Erro-Interiorização-Elaboração-Aprendizagem. Quando a candidata a Jennifer Anniston (cuja vida amorosa, segundo os tablóides, só dá certo nas telas de cinema) tem uma decepção, uma perda, uma rejeição, é melhor que não saia colecionando ficantes, ou repetindo o padrão, de relação em relação. Acolha os sentimentos, recolha as pressas, interiorize que tipo de homem ou relacionamento gostaria de ter em sua vida. Se os homens fogem das "mulheres que surtam", fujam dos "homens difusos", os que colecionam mulheres ou estão sempre com a atenção em outro lugar que não seja a mulher. Sobretudo, fujam dos caras que não cumprem as suas promessas e não param de fazê-las. Os caras que fazem do some/reaparece uma arma para manter a mulher enlouquecida. Outro dia ouvi no rádio que a militância feminista de um país africano conclamou as mulheres à uma greve de sexo se os homens não tomassem determinada posição. Já pensou se a moda pega? Os homens vão ficar românticos, apaixonados, atenciosos, quase cavalheiros. Quandos as pernas se fecham, os olhos se abrem. Espero que a minha mulher não leia esse post.

sábado, 10 de setembro de 2011

O Nó

Tem um livro adorável de uma velha sábia chamada Alice Howell. Ele se chama "O Simbolismo Junguiano na Astrologia". Uma amiga, astróloga amadora, me deu de presente há muito tempo. Vivem me puxando para a Astrologia e o Tarô, mas eu não vou, não por não gostar, mas juntar Jung, Psicanálise, Neurociência e Psiquiatria já é trampo suficiente. Não vou colocar mais coisa nessa saladeira. Mas o livro de Alice, mesmo que eu não entenda muito de Astrologia, é uma delícia.Os capítulos são em forma de cartas que a velha senhora escreve para uma amiga querida, terapeuta junguiana. Em uma dessas cartas, Alice descreve uma brincadeira de infância, dessas de Natal ou de Páscoa, onde as crianças recebiam um longo fio, cheio de nós, amarrados em árvores, pedras e arames. A tarefa de cada criança era a de ir desatando esses nós, um por um, até chegar ao fim da trilha desse fio de Ariadne (tema recorrente desse blog nesses últimos tempos). No final desse fio, havia um presente. A autora fez uma alusão à essa brincadeira como uma metáfora da própria vida: vamos seguindo o caminho, geralmente escrito em linhas tortas e nem sempre certo, temos que desatar milhares de nós em todo o percurso. Diz o Dalai Lama que a vida é uma sequência de ciclos de problemas, acabou um, lá vamos para o próximo e quem sou eu para discordar. Procuramos desatar nó por nó, alguns melhor, outros ficam pelo caminho. O presente final, qual será? A sabedoria, alguma paz de espírito, a morte? Na dúvida, vamos desatando, um nó após o outro. Mas tem sempre um que é o mais difícil, o mais duro, o mais teimoso dos nós. É o grande Nó. Todos temos um. Uma pedra no sapato, uma questão que não conseguimos resolver, um sonho que teima em não se realizar, uma dor que fica escondida em nossa alma que não dá para sanar. Por exemplo, um nó muito abordado nesse blog, que é o nó do encontro amoroso. Mulheres bonitas, inteligentes, cheirosas, que passam anos procurando um encontro verdadeiro, que desate o nó da solidão. É uma longa e muitas vezes infrutífera jornada, cheia de caixas de chocolate e lenços de papel usados em sua passagem. A busca do encontro, da sorte, dos nós que finalmente sejam desatados.
Não é incomum ter apenas o silêncio para oferecer quando, de tanto arrochar os nós, eles se tornam mais e mais apertados. Quanto maior o desespero, o esforço cego, a tristeza em torno do tema, mais forte e impenetrável fica o nó. Quanto maior a expectativa de um encontro de verdade, mais os candidatos a Mr Right batem em retirada, deixando a candidata aos papéis de Jennifer Aniston nas comédias românticas em frangalhos, com mais caixas de bombom e de lenços de papel consumidas e jogadas envolta da cama.
Não tenho uma fórmula que se aplique a todos os casos, mas algumas sugestões dá para fazer:
1 - O Nó é fascinante. Apegar-se a ele é muito fácil. Fixar-se em um amor impossível, ficar amarga e cuspindo ódio são atitudes que pioram o nó, muito. A vida e a energia precisam de movimento. A energia fixada precisa ser convertida em afeto. Coloque amor em tudo, até na espera. Fácil de fazer? Não. Nelson Rodrigues criou uma categoria humana, a dos Idiotas da Objetividade. Há as Idiotas Realistas, cheias de estatísticas para provarem que os homens legais estão casados e os avulsos não valem a pena. A chance ponderal de se encontrar uma pessoa legal é baixa e por aí vai. O Outro é fonte de sofrimento e desencanto, então o Nó é apertado pelo medo. Então lá vai uma observação infrutífera: não se fixe. Não passe o tempo todo falando nisso, não solte piadas de autocrueldade e autocomiseração em torno do tema. Mantenha em estado de abertura, estado de aprendizagem, respirando forte na fenda entre o desejo e o tempo que ele leva para se manifestar. Não lamente, não implore e sobretudo, não fique reclamando. Que todo dia seja um dia de abertura, de afrouxamento desses nós, atés eles se desatem por si mesmos. Parece impossível, dane-se o impossível (quase usei outro verbo).
Vou falar um pouco mais disso no próximo post. Não percam.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Expectativas, de novo.

Já vou me desculpando com as meninas, maioria entre os leitores desse blog, mas vou falar de futebol de novo. Mas por uma boa causa.
Tenho alguns clientes gaúchos, todos umas figuras, portadores daquele senso de humor tão devastador quanto engraçado e característico de seu povo. A maioria aqui é colorada, apelido dado à camisa vermelhíssima do Internacional de Porto Alegre. Com certeza, as cores e a rivalidade trazem ecos de Ximangos e Maragatos peleando nas paisagens gaúchas. Pois nessa semana o Colorado foi para o mundo árabe jogar o Campeonato Mundial de Clubes. Fizeram uma grande festa, jogadores pegaram nos microfones cercados de foguetório para prometer raça e suor na busca da vitória e de mais uma estrela encima de seu glorioso escudo. Com meu ouvido seletivo de psicoterapeuta eu separei duas frases proferidas antes do jogo semifinal (é um campeonato que o time sulamericano já entra na semifinal). O jogo era contra um time africano, do Congo, chamado Mazembe. Um jogador do Mazembe falava que quando o time entrava em campo alegre e unido ele tinha a sensação de que nada de ruim poderia acontecer com eles. Já o técnico do Colorado, Celso Roth, trovejava a importância de se respeitar os africanos (cujo time que teria muita dificuldade de jogar a série B no Brasil). Celso Roth vaticinava: "É um jogo que precisamos atingir o erro zero". Ai, ai, aquilo me doeu nos ouvidos. Não existe erro zero, em nenhuma esfera de atividade humana. No dia seguinte, o Mazembe fez o primeiro gol quando seu atacante dominou a bola, ajeitou o corpo e bateu no ângulo do goleiro Renan apenas observado por uma zaga catatônica. Ninguém se moveu para pelo menos ficar na frente, dificultar o chute. Pareciam pregados no chão. Quando o time brasileiro tentou reagir, deu de cara com um goleiro francamente presepeiro, que pula de frente em algumas bolas e comemora os gols dando pulinhos encima da própria bunda. O cara parecia se agigantar diante dos atacantes. No final do jogo, o segundo gol dos africanos, o golpe de misericórdia. Mais pulinhos para o goleiro. Impressionante como a história sempre se repete e não tem nenhum manual de Psicologia Esportiva que ensine isso: quando você cria uma expectativa de perfeição, do tem que ganhar, todas as engrenagens do Inconsciente trazem a dúvida, o será? Temos falado muito disso nos quadros obsessivos amorosos. Quando o outro vira a razão de ser de alguém, o "tem que dar certo" desencadeia uma comédia de erros e desencontros, frequentemente terminando em lágrimas e caixas de bomboms na frente da TV a cabo. Não há situação que queremos que dê certo que não possa dar errado. Isso tem que estar na nossa consciência, ou volta como um fantasma, na pior hora.
Tem uma história zen que eu adoro, que ilustra bem o nosso assunto: Havia no mosteiro um grande mestre, admirado e amado pelos monges. Esse homem tido como iluminado pediu a seus discípulos que deixassem a sala de meditação "perfeita" para a sua volta. Durante alguns dias, os jovens aprendizes se esmeraram em limpar cada milímetro da sala, buscando durante esse processo a perfeição da limpeza, harmonia, equilíbrio no recinto de suas meditações. Quando o mestre chegou de viagem, pôde ver que a sala estava fechada há algum tempo, para que nada perturbasse a sua perfeição. Entrou no recinto, observou os detalhes e, subitamente, saiu. Voltou com um punhado de terra, de folhas e de sujeira que os homens trazem para dentro de suas casas, e espalhou-as pela sala. Alguns monges correram para impedí-lo, ele sorriu e falou: "Agora ela está perfeita".
As vidas, as relações, as dietas e os times de fiutebol são cheios de defeitos, de erros, de imperfeições. As nossas tentativas de diminuir, cuidar, observar os erros são legítimas. Mas o melhor método não é buscar o "Erro Zero", mas antes estarmos atentos a eles, prontos para corrigí-los, em vez de ocultá-los. Os jogadores africanos cometeram vários erros, alguns quase infantis. Mas, na sua alegria, acreditavam que nada de ruim poderia acontecer com eles.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Barreira de Silêncio

A Mitologia Grega tem vários temas muito caros aos terapeutas, desde o mais famoso, o de Édipo, secundado pelo de Narciso. Vários personagens da mesma emprestam o nome para síndromes e doenças. Um mito que me deixa um tanto quanto desconfortável é o de Tântalo, cozinheiro dos deuses do Olimpo. Tântalo, como muitos mortais, cobiçava o poder e a glória de atingir o panteão dos deuses e tentou fazê-lo de mais sórdida maneira que a Mitologia ousou contar: ele matou o próprio filho, cortou-o em pedaços e o serviu no banquete, almejando com isso ser elevado à condição de semi-deus pela participação na carne de sua própria carne. Os Deuses perceberam enojados o ardil e não comeram daquela comida, com uma exceção, se não me engano de Héstia, que era muito distraída e ensimesmada. Tântalo foi condenado a uma eternidade de fome e sede, no calor dos infernos, ao lado de uma árvore frutífera repleta de frutos e ao alcance de suas mãos, mas toda hora em que ele estica a mão para fartar a sua fome e sede, a árvore se movimenta, longe de seu alcance.
Eu me lembrei desse mito terrível para falar do sentimento de uma pessoa em pleno quadro de obsessão amorosa na época da Internet e das Redes Sociais. De todas as ilusões que nos castigam nesses tempos bicudos e apressados, a ilusão de que o Outro está ao alcance da mão nos colocam sempre na posição de Tântalo, sobretudo no caso dos Obsessivos Amorosos.
Já dissemos em outros posts que para o homem pós moderno, o silêncio virou uma barreira profunda, insondável para evitar o que mais teme, o vínculo. Circula entre a molecada uma camiseta com a imagem de um noivo e uma noiva com o sigelo título : Game Over. Em Fortaleza encontrei uma variante nordestina da camiseta, com o título mais simpático de "Lascou-se". Casamento significa estar fora do jogo, ser solteiro é estar dentro do jogo de colecionar mais um e outro caso, para não usar outro termo. Uma técnica para manter o jogo é sumir ou impor o silêncio. A mulher fica congelada dentro do silêncio, tentando interpretar cada sinal de fumaça, cada foto na rede social, cada pequena notícia do ser desejado que indique que ele vai voltar, vai romper o silêncio e o final feliz dos contos de fada vai se cumprir, com algum atraso. Como na árvore de Tântalo, o desejo arde e parece ao alcance da mão, ou ao alcance de um click. Mas é o silêncio que está por lá, sempre com alguns disfarces de "estou na correria", "já ia te ligar" ou um "que bom que você está aqui".
Tântalo, na sua ânsia de lograr os deuses para virar um semi-deus de forma ilegítima me lembra da nossa condição humana de fugir da própria dor, do sentimento de falta e abandono que nos acompanha. Acho que ele não sabe que, se parar de estender a mão em desespero, talvez o fruto caia em suas mãos, naturalmente. Mas há sempre aquela esperança de que, se eu usar a técnica da mão trocada, ou aparecer por acaso, ou tiver mais paciência, dessa vez, a árvore não vai se afastar.

domingo, 14 de novembro de 2010

Perto de um Final Feliz

Estava lembrando de um filme antigo durante uma sessão. O filme é "O Fio da Navalha", com Bill Murray, acho que do final dos anos 70, começo dos 80, baseado no livro de Somerseth Maughan (não sei se a grafia está correta). O livro é sobre uma jornada espiritual de um homem, criado em meio à aristocracia inglesa que vai para a Índia, trabalha em condições de extrema pobreza enquanto lê os Upanishads, espécie de Bíblia hinduísta. Duas cenas desse filme me ficaram, embora já tenha visto há anos: numa delas, um homem simples e com traços claramente hindús tenta explicar para o personagem inglês como ele vivencia a sua relação com Deus. Ele está lavando pratos em um bote e ilustra que para ele, lavar aqueles pratos é como falar com a própria divindade. Em outra cena, ele volta para a Inglaterra do começo do século passado e se apaixona por uma antiga conhecida, que também passara por poucas e boas. Essa moça perdera o marido e filho em acidente e virou uma prostituta, tentava reiniciar a sua vida através desse amor reencontrado. Ela acaba assassinada por alguém de seu passado, no auge de sua felicidade. O personagem principal, crispado pela perda mas com uma profunda serenidade, afirma antes de partir que, depois de tudo o que passara e virado o mundo de ponta cabeça, pensou que aquele amor era uma recompensa. Agora ele sabia que não havia recompensa. E seguiu am frente, liberto do amanhã.
Essas cenas vieram ao caso por conta de uma vivência dolorosa de uma pessoa, que, depois de anos atribulados, finalmente encontrou um amor que parecia vivo, finalmente tudo o que esperava, imaginou e lutou tomava forma nesse amor que, depois de um período de explosão e outro de dúvida, acabou por desmanchar-se no ar, com muita dor, é claro. Não é difícil de pensar o quanto somos assombrados pelo Futuro, tanto ou mais do que o Passado. Sempre somos acalentados pela esperança de que vamos encontrar a recompensa, seja ela representada por um Príncipe Encantado ou pelo Reconhecimento ou Sucesso. Sempre esperamos que o Amanhã será pleno. Será que isso está errado? Certamente que não. Pobre de quem não tem planos, ou esperança. Mas as cenas de "O Fio da Navalha" me oferecem uma visão alternativa. Na primeira cena, o sábio hindú sente a Presença de Deus nos pratos que está lavando. Nossas máquinas de lavar pratos nos impedem de um encontro místico? Acho que não. A nossa mente presa ao futuro, sim. Lavar os pratos como um encontro profundo é estar em estado de Presença, no estado de Aqui Agora tão difícil para a nossa mente tagarela. Mais difícil ainda é entender as linhas tortas que a vida usa para escrever o nosso destino. O personagem de Maughan segue em frente, repetindo para si mesmo que esperar por uma recompensa é uma forma de prisão, uma forma de nos mantermos fixados em apenas um objetivo possível. Como no caso desse personagem, esta pessoa a quem me refiro seguiu em frente, sem ficar presa ao medo de novas decepções, ou lamentando que "as coisas não dão certo para mim". Ela segue porque a vida é feita do momento presente e da fruição do tempo.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Dama do Lotação

Estava arrumando as prateleiras de livros em casa quando caiu um livreto com pequenas histórias de Nelson Rodrigues, dentre elas um pequeno conto chamado "A Dama do Lotação". Acho que Nelson foi nosso primeiro blogueiro, criando personagens imortais em pequenos textos e historietas como essa. A personagem principal é uma mulher de classe média carioca, casada e respeitável que começa a ter uma estranha compulsão sexual, a fantasia de todo usuário de transporte coletvivo: o ônibus lotado, a proximidade dos corpos, ela começa a se insinuar para um desses suarentos passageiros, a coisa vai num crescendo até que descem do ônibus e se fartavam da própria lascívia nos motéis da época, as "garçonieres", pequenos quartos e apartamentos para as escapulidas dos vetustos pais de família. Dia após dia essa mulher multiplicava as suas aventuras para depois voltar para casa, com o sonolento e desinteressado marido que a tudo ignorava em seu orgulho de machão.
Após um tempo, esse homem acaba descobrindo que sua mulher tem essa vida dupla e, ao contrário do homem da época, não decide lavar a própria honra em sangue. Não mata a mulher e nem chega a ser verbalmente agressivo, apenas resolve retirar-se da própria vida. O marido opta por ser um vivo-morto, abandona o emprego e fica prostrado, em casa, deitado sobre a mesa como um cadáver, com a vela nas mãos. A esposa, extremada, passa os dias com as suas aventuras sexuais mas à noite vela o corpo do marido-cadáver-vivo, rezando por ele de forma incansável madrugada adentro.
Nessas útimas semanas temos falado das obsessões amorosas, a distância amorosa como uma forma de dominação, a espera de um companheiro como um sofrimento e quase desespero. Há quase 50 anos o gênio de Nelson Rodrigues já captara essa tendência, vinda com a revolução sexual que na época só se insinuava: a mulher tentando encontrar e manter o homem através da sexualização prematura, as compulsões sexuais e a distância ressentida do homem, cada vez mais despido de seu desejo e virilidade, como o vivo-morto desse conto. A mulher espera e vela por esse homem, esperando por seu despertar.