Lembro de um curso na minha pós que foi particularmente bacana e ilustrativo: como montar uma seita fundamentalista. Não chegamos ao nível de como montar um homem bomba, pois eram tempos anteriores ao 11 de Setembro. Mas a técnica básica nós aprendemos: isolar as pessoas do convívio exterior, de preferência em lugar ermo, sem muitos recursos. Se não tiver luz elétrica, melhor. Importantíssimo é impedir as pessoas de dormir, ou bagunçar todo o ciclo vigília-sono de seus trainees fundamentalistas. Repita, de diversas formas, as mensagens que você queira incutir nos “alunos”: primeiro sugerindo, depois afirmando, finalmente gritando slogans e memes que vão penetrar, de forma cada vez mais profunda, na cabeça das pessoas. Privações são benvindas: privação de comida, de banho, de luz do sol, tudo o que oferece às pessoas orientação, referência. Finalmente, incentive e premie os neófitos que repetirem as mensagens e a ideologia transmitida e questione, isole e humilhe os dissidentes e os questionadores. Em alguns dias você terá fiéis e fanáticos seguidores após uma boa lavagem cerebral.
Venho atendendo alguns casos que me fizeram lembrar dessas aulas. Não estou atendendo nenhum homem bomba, entretanto. Eles não costumam buscar tratamento. As seitas ou os grupos terroristas não são o único lugar onde as pessoas possam passar por isso. O lugar onde pode ocorrer esse condicionamento é na relação abusiva.
A fórmula é muito parecida com as das seitas. Inicialmente, o parceiro da relação abusiva vai tentar isolar a vítima, digo, o cônjuge, de seu meio social. O marido pode implicar com as aulas de dança, ou as tardes no clube; a esposa vai cismar com a pelada de final de semana ou com as Terças Feiras de carteado. Afaste a cara metade de seus amigos e dos interesses que não seja discutir a relação. Uma técnica eficaz é questionar a natureza e a real intenção das pessoas. A família também deve ser afastada, em nome do amor. Os encontros amorosos devem ser ardentes e intensos. Os desencontros também. Uma característica da relação abusiva é essa: quando é bom, é muito bom; quando é ruim, é intolerável.
A relação abusiva usa os pontos fracos do ser amado. Se a pessoa tem medo da solidão, ameace sempre e cumpra, algumas vezes, com o abandono. Uma técnica consagrada é a Dissonância Cognitiva: puna, desmereça e deixe o ser amado a pão e água, durante a maior parte do tempo. Dê afeto, reconhecimento e bons momentos de forma errática, inconstante. Isso faz que a pessoa busque, sem perceber, pelos poucos momentos agradáveis em meio a um cotidiano de cobranças e privações.
Se o leitor já viveu ou está dentro de uma relação com essas características, procure ajuda. Uma relação a dois não é um passaporte para o Paraíso, mas deve ficar, sempre que possível, longe do Inferno. É que ambos os amantes merecem e devem esperar.
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quarta-feira, 28 de novembro de 2012
domingo, 27 de fevereiro de 2011
A relação Iô Iô
Há alguns anos atrás, melhor nem fazer a conta, dei uma entrevista para uma jovem jornalista que estava concluindo o seu treinamento na Folha Trainee. Não sei por que cargas d´água falávamos de relacionamentos a dois, eu topei falar, já que esse assunto é dos mais presentes em um consultório de psiquiatra e psicoterapeuta (ontem mesmo recomendei a internação de um paciente que vinha bem mas teve a sua psique completamente desestruturada por uma separação). Lá pelas tantas fiz um comentário das relações que ficam quase eternamente nesse vai e volta, termina e volta, acabei chamando esse tipo de relacionamento de Relação IÔIÔ, em alusão ao antiquíssimo brinquedo (que recentemente virou um brinquedo radical e com manobras). O movimento de afastamento e reaproximação do iôiô foi uma imagem forte para esses movimentos de vai e volta das relações. Há dois dias dei a minha terceira entrevista sobre o tema, dessa vez para a revista Gloss para uma compenetrada jornalista, Sílvia Araújo. Não vejo problema em falar sobre o assunto, mas confesso que fico um pouco apavorado de entrar para a história Psi como o descobridor da Relação Iôiô.
Tem um trecho de L. Ron Hubbard, criador da Cientologia, em que ele afirma a incrível capacidade dos seres humanos de localizarem sarnas e mais sarnas para se coçarem. As pessoas precisam de problemas e são viciadas neles, como naqueles cubos mágicos que ficávamos horas tentando decifrar. Os problemas prendem a nossa atenção.
Um bom lugar para arrumarmos problemas insolúveis é a relação a dois. Deixar a tábua do sanitário abaixada ou levantada, notar o novo corte de cabelo ou discutir a relação às duas horas da madrugada são algumas das torturas que podemos construir a dois. Disputa de poder, necessidade de desmistura, busca de oxigênio ou de distância, chantagem pura e simples, todas motivações para os casais que não conseguem ficar juntos nem separados (quando digito isso me ocorre Bono cantando com o U2 - With ou without you/ I can´t live, with ou without you... esticando o yooouuu do final - em tradução livre, eu não vivo com e sem você). Procurar problemas é como uma coceira irresistível, que vai crescendo, crescendo até virar uma briga, uma mágoa, uma acusação boba e infundada. Queremos aceitação. A relação a dois permite ao Outro ver o que temos de melhor e sobretudo, o que temos de pior. Queremos a aceitação de nosso pior sem poder oferecer o mesmo ao parceiro(a). Talvez nas últimas décadas as relações tenham ficado mais guerreiras e os relacionamentos jogos de xadrez verborrágicos e cheios de lenços de papel assoados. Vou terminar o post respondendo com Gilberto Gil para Bono: "O amor da gente é como um grão/ Uma semente de ilusão/ tem que morrer pra germinar". O desencontro pode germinar o encontro (em tradução livre).
Tem um trecho de L. Ron Hubbard, criador da Cientologia, em que ele afirma a incrível capacidade dos seres humanos de localizarem sarnas e mais sarnas para se coçarem. As pessoas precisam de problemas e são viciadas neles, como naqueles cubos mágicos que ficávamos horas tentando decifrar. Os problemas prendem a nossa atenção.
Um bom lugar para arrumarmos problemas insolúveis é a relação a dois. Deixar a tábua do sanitário abaixada ou levantada, notar o novo corte de cabelo ou discutir a relação às duas horas da madrugada são algumas das torturas que podemos construir a dois. Disputa de poder, necessidade de desmistura, busca de oxigênio ou de distância, chantagem pura e simples, todas motivações para os casais que não conseguem ficar juntos nem separados (quando digito isso me ocorre Bono cantando com o U2 - With ou without you/ I can´t live, with ou without you... esticando o yooouuu do final - em tradução livre, eu não vivo com e sem você). Procurar problemas é como uma coceira irresistível, que vai crescendo, crescendo até virar uma briga, uma mágoa, uma acusação boba e infundada. Queremos aceitação. A relação a dois permite ao Outro ver o que temos de melhor e sobretudo, o que temos de pior. Queremos a aceitação de nosso pior sem poder oferecer o mesmo ao parceiro(a). Talvez nas últimas décadas as relações tenham ficado mais guerreiras e os relacionamentos jogos de xadrez verborrágicos e cheios de lenços de papel assoados. Vou terminar o post respondendo com Gilberto Gil para Bono: "O amor da gente é como um grão/ Uma semente de ilusão/ tem que morrer pra germinar". O desencontro pode germinar o encontro (em tradução livre).
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