Estava andando na rua, apressado para pegar um taxi, já que sou um homem tradicional que gosta de pegar taxis de maneira também tradicional, que é esticando a mão e aguardando por aqueles segundos de suspense quando não sabemos se o cara vai parar ou passar batido. Danem-se os aplicativos. O meu passo apertado ainda me permitiu ouvir uma mulher subindo a avenida na faixa de ônibus, com um vira-lata preso na coleira. Ela falava com o cachorro em alto tom, como que tendo uma discussão de relacionamento sobre algo que o cachorro fizera e que ela não gostara. As pessoas espiavam com o rabicho do olho com aquela complacência de quem sabe que a mulher está longe de seu normal, mas todo mundo está muito ocupado com a própria solidão para se preocupar com aquela senhora e seu pet. Eu fiquei preocupado se ela estava surtada e iria fazer algo com o bicho. Já deixei claro em outros posts que, com o colapso das ideologias e a morte dos partidos políticos, que viraram uma confraria de achacadores, o cerne da discussão ideológica vai ser a distinção entre o partido dos cachorros, o partido dos gatos e o partido de quem tem alergia a ambos. Eu sou do partido dos cachorros.
Desapertei o passo para observar melhor se havia algum indício de maus tratos, se a senhora iria bater no seu bicho. Fora um puxão mais forte ou outro, ela não insinuava violência. Discutia sobre algum comportamento do dog como uma mãe ralhando com o filho, ou uma namorada cobrando mais atenção do namorado. Olhei melhor: suas roupas surradas e sujas indicavam que ela era uma moradora de rua. A já descrita inadequação puxava o seu diagnóstico para o espectro da Esquizofrenia. Não era uma esquizo em surto e o bichinho parecia bem cuidado, e não dava a mínima para a bronca dada em altos brados. Na minha cabeça começou a tocar uma velha canção dos Beatles: “I look at all the lonely people... I look at all the lonely people...” (Os violinos da versão original de Eleanor Rigby tornam a solidão ainda mais desesperadora).
No último post citei um poema de Adélia Prado em que ela descrevia uma cena igualmente desesperada: Uma criança subia a escada de sua escola com uma muleta, amparada em outra criança. A poeta falou: “Homem é a muleta de Deus/ Não há descanso aqui/Estamos no exílio”. Entendo que esse verso é muito familiar a um junguiano: ele descreve a nossa imensa desproteção diante da vida, a ferida do humano refletida por aquela criança subindo a escada amparada na outra, uma fragilidade amparando a outra fragilidade. E subimos e descemos essas escadas todo dia, mesmo ignorando nossas muletas. Nossa labuta e nossa aflição nos aproximam ou nos distanciam de Deus. Pois se o homem é a muleta de uma divindade sedenta de nossas preces, o cachorro é a muleta do homem. Aquela mulher estava apartada de toda experiência de um Outro que seja humano e que consiga refletir o seu olhar. Quase tudo da experiência humana lhe foi subtraído, mas lá estava o vira-lata indiferente ao debate relacional andando ao seu lado, sem mordê-la ou tentar fugir. Temos tanto orgulho do nosso Cérebro Racional que não aprendemos com esses bichos e sua profunda e irracional presença onde todos os outros já abandonaram o barco.
Na Mitologia Grega, Homero descreve uma cena atroz quando Ulisses regressa à sua Ítaca após vinte anos perdido, na saga cantada na Odisséia e na Ilíada, e Ulisses se disfarça de mendigo para descobrir o que acontecera com seu Reino e sua família. O único que reconhece a sua voz é seu cachorro, que durante os vinte anos esperou por ele no alpendre. Ao ouvir a voz de Ulisses, o cachorro dá um profundo suspiro e morre, em sua alegria.
Chamei o taxi, que finalmente parou, e fui embora para mais um dia de trabalho e de escadas para se subir e se descer. Olhei para o bicho que subia desengonçado com aquela senhora. De longe, parecia um anjo.
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domingo, 26 de abril de 2015
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Sobre Príncipes e Prozac
Hoje em dia não há mais as mitologias transmitidas envolta das fogueiras. Não há mais os anciãos contando as epopéias. A nossa vida continua carente de mitologias, que nos são impostas pela mídia e pelo cinema. Ainda me lembro de meu filho com uma pá de brinquedo, ou uma espada nas costas cantando “Eu vou, eu vou, para casa agora eu vou...” dos sete anões, imitando a fita VHS de clássicos Disney, com dublagem bem anos quarenta. Era emocionante porque a Branca de Neve da Disney atravessou as gerações, da avó até os netos, o vestidinho retrô da Branca de Neve é um ícone cultural que todos conseguem identificar, setenta anos depois. O problema é que a idéia do Príncipe que coroa, literalmente, toda a jornada da heroína vira um imprinting poderosos nas redes neurais das meninas. Isso geralmente vai terminar nos divãs ou nos prozacs, pois há uma escassez de príncipes no mercado. Não há nem muitos anões acolhedores quando a floresta fica muito escura.
Somos de uma época de literalidades. As músicas agora são repetidas nas rádios por décadas, pois lançar um novo álbum virou uma raridade para todos os artistas. Ouço há quase uma década o Akon cantando (?) : “I wanna fuck you...”. As meninas continuam esperando pelo romance, os meninos cantam romanticamente, eu quero te f... Haja terapia.
O pior dessa mitologia imposta pelas comédias românticas é a sensação de isolamento e exclusão de quem não encontra o príncipe nem o plebeu no final da jornada. Engraçado como temos tantas mídias sociais para impor às pessoas a sensação profunda de solidão. Talvez exista um sentimento ainda pior que o da solidão, que é o da exclusão. Parece para os rapazes, que há um festim de liberdade sexual e de mulheres prontas a servirem os homens, que aparecem nos vídeos pornôs, todos com a mesma sequência de atividades que eu não vou citar aqui, mas que mostram mulheres proporcionando prazer sem nenhuma reciprocidade de seus parceiros. Para as moças, há uma profusão de homens atenciosos, fortes e companheiros que abandonam a sua vida sem sentido para serem “felizes para sempre” com a sua amada.
Não há sentimento mais profundo, numa depressão, do que a sensação de estar fora da experiência humana. A sensação de desconexão com a vida. Vivendo no mundo do Certo e do Errado, necessariamente temos um sistema de exclusão dos “inaptos”, que já começa no quarto ano primário. O trabalho com a depressão é de trazer os excluídos para dentro de novo da experiência humana. Os medicamentos são uma parte desse processo, mas na verdade apenas um instrumento de reconstrução do Sentido para quem a busca perdeu o sentido.
Somos de uma época de literalidades. As músicas agora são repetidas nas rádios por décadas, pois lançar um novo álbum virou uma raridade para todos os artistas. Ouço há quase uma década o Akon cantando (?) : “I wanna fuck you...”. As meninas continuam esperando pelo romance, os meninos cantam romanticamente, eu quero te f... Haja terapia.
O pior dessa mitologia imposta pelas comédias românticas é a sensação de isolamento e exclusão de quem não encontra o príncipe nem o plebeu no final da jornada. Engraçado como temos tantas mídias sociais para impor às pessoas a sensação profunda de solidão. Talvez exista um sentimento ainda pior que o da solidão, que é o da exclusão. Parece para os rapazes, que há um festim de liberdade sexual e de mulheres prontas a servirem os homens, que aparecem nos vídeos pornôs, todos com a mesma sequência de atividades que eu não vou citar aqui, mas que mostram mulheres proporcionando prazer sem nenhuma reciprocidade de seus parceiros. Para as moças, há uma profusão de homens atenciosos, fortes e companheiros que abandonam a sua vida sem sentido para serem “felizes para sempre” com a sua amada.
Não há sentimento mais profundo, numa depressão, do que a sensação de estar fora da experiência humana. A sensação de desconexão com a vida. Vivendo no mundo do Certo e do Errado, necessariamente temos um sistema de exclusão dos “inaptos”, que já começa no quarto ano primário. O trabalho com a depressão é de trazer os excluídos para dentro de novo da experiência humana. Os medicamentos são uma parte desse processo, mas na verdade apenas um instrumento de reconstrução do Sentido para quem a busca perdeu o sentido.
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