Quando finalmente, depois de mais um texto pseudocabeça, Pedro Bial anunciou a vitória mais do que esperada de Fael no Big Brother, o rapaz ficou gritando e gesticulando com a sua natural falta de graça, beijou o chão da casa, abraçou a família e deu a sua primeira declaração como novo milionário: “Amo muito tudo isso”. O slogan do Mac Donalds. A primeira coisa que me ocorreu foi: “Será que esse rapaz já está assinado com o Mac Donalds?”. Seria aquela uma frase já combinada? Nos próximos dias veremos o cowboy devorando Quarteirões na TV? Ou será que a frase foi tudo o que o rapaz conseguiu conceber na emoção da vitória? A minha dúvida reflete a indigência intelectual, dos participantes do programa e do reality show em si. Mas não vou me somar ao coro de rabugentos falando mal do Big Brother e do Fael, picolé de chuchu que ganhou a maratona de fofocas e barracos. Como foi o meu primeiro BBB, confesso que curti o processo, gostei de ver os participantes já com suas Personas transformadas, no palco para receber os finalistas. Era como rever velhos amigos, depois de um longo tempo. Essa deve ser a experiência paradoxal que eles tem quando saem do confinamento: são recebidos como velhos amigos, que há muito frequentam a sala de estar da casa das pessoas.
Quando eu assisti o programa pela primeira vez, simpatizei com a Fabiana, a Mama. Achei que ela tinha arrumado para si uma boa Persona, de mulher um pouco mais velha, casada e com um filho, que tentava falar com o coração. Ela “cuidava” das participantes mais jovens, parecia que seria um ponto de equilíbrio na casa. A minha impressão foi falsa. Fabiana era a mais “TVgênica” do grupo. O sorriso dela era de plástico e em todas as atividades ela pulava na frente como voluntária, como aquela menina chata da escola que sempre queria estar bem com o professor (inclusive caprichando no decote). Não foi eliminada antes porque ganhou todas as últimas provas do líder, inclusive uma em que desestabilizou seus dois amigos com um jogo psicológico de provocação e culpa. Inteligente que é, soube muito bem que naquela prova ela tinha dançado. Ficou deprimida até o final, sabendo que a opinião pública iria toda para o lado de Fael. E foi.
Para quem não assistiu e pouco ou nada se importa com o BBB, uma má notícia: esse programa reflete para onde está indo a Rede Globo, que decididamente virou uma emissora das classes C, D e E. Atendendo a essas camadas da população, normalmente mais moralista e conservadora, montaram um grupo medíocre, não no sentido de pobreza mas de mediana mesmo, um grupo sem grandes polêmicas, sem transexuais ou figuras caricatas, com a molecada bonita e sarada de sempre, as meninas exibindo bundas e peitos como sempre e o Cinderelo do Brasil profundo, nascido e criado nos rincões, que sobreviveu no meio das cobras criadas (até porque era dos poucos do grupo com curso superior completo, o que permitiu a ele entender e traduzir aos amigos o que estava acontecendo dentro e fora da casa) ganhando no happy ending esperado. O Brasil está mais pobre culturalmente e, decididamente, mais sertanejo. E o BBB está dando os seus últimos suspiros na classe média mais abastada.
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sábado, 31 de março de 2012
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Ok, Você venceu, Big Brother
Devo confessar de público que, depois de doze edições, estou finalmente assistindo o Big Brother. Sempre achei que fosse meio que uma tarefa obrigatória, já que os personagens ficam desfilando nas sessões e eu estou sempre por fora do assunto. Ontem ouvi uma longa explanação sobre como uma cliente gosta de Laisa, a gauchinha porreta, por sua personalidade decidida, etc, etc... Hoje já sei quem é Laisa e como deu um belíssimo pé na bunda de seu bombado ficante, Yuri, em cadeia nacional. Veja só, Big Brother também é cultura. Ontem acompanhei o texto chatérrimo de Pedro Bial sobre a evolução dos hominídeos e seus nomes, do Homo sapiens ao Homo ludens, para concluir que a gorduchinha (parecida com a Welma do Scooby Doo), Mayra, estava sendo excluída com 74% dos votos, pois havia parado de jogar. E quem para de jogar, morre. Lindo, filosófico. O que foi estranho é que durante a votação eles fizeram algumas vinhetas destacando cenas do oponente, Fael, sua simplicidade, sua caipirice, sua generosidade com o amigo. Na sala da "casa mais vigiada do país", Mayra estava com um vestido que a fazia ficar parecida com um bombom Sonho de Valsa, enquanto Fael estava ao lado dos amigos, com um vistoso chapéu de caubói. Não precisa ser psicoterapeuta nem antropólogo para saber quem iria ganhar. O Brasil inteiro votaria com o caubói, inclusive com a cena registrada no Inconsciente Coletivo de outro caubói, que ganhou o jogo há poucos anos. Mas não deixo de registrar que Welma, digo, Mayra, foi operada ontem, sem anestesia.
Quando eu fazia Residência, nos anos 90, lembro de um projeto, muito legal de que participei, no setor de Psicoterapia. O problema é que uma das coordenadoras tinha acabado de chegar de uma pós no exterior e estava empolgada com a idéia de filmar as sessões, para embasar melhor a pesquisa. O futuro junguiano que aqui vos tecla deu cinco pulos na cadeira: se for filmado, não é mais psicoterapia. O grupo me olhou com aquela cara de "fazem isso nos Estados Unidos e na Europa e vem um psiquiatrazinho tupiniquim usando fraldas dizer que está errado". Mas é claro que está errado. Se o paciente está diante da câmera, não está mais se dirigindo ao terapeuta, nem a si mesmo. Ele está falando com o mundo espreitando naquela lente. O terapeuta não está mais ouvindo e criando um campo psíquico acolhedor, está desempenhando o papel de terapeuta compenetrado e cheio de habilidades, para os seus pares que vão farejar cada inflexão de voz "errada". Ou seja, deixa de ser um encontro analítico para virar um Big Brother, um show, um encontro humano de plástico. Felizmente para mim, consegui participar do projeto sem a tal câmera, que não fez nenhuma falta.
Comecei a acompanhar essa pantomima por conta de meu filho, que esse ano tomou coragem e assumiu, diante de toda a família, que adora o BBB. Assisto os resumos com ele, o que é uma delícia. Daqui a pouco tempo ele não vai querer o pai assistindo nada do lado dele, então aproveito. Ele aguenta os meus comentários na medida do possível, só me manda calar a boca algumas vezes. Ontem eu expliquei que a morena estonteante, a Laisa, fica fazendo a sua dancinha matinal, com a sua calcinha de renda cavadíssima, olhando o espelho, não por ser uma narcisista irremediável, mas já está criando uma marca que será explorada em alguns meses em uma edição da Playboy. Há pouca ou nenhuma sinceridade naquilo. Aliás, se adotarmos o critério do Pedro Bial, de eliminar quem não está jogando, então é melhor fazer um paredão gigante e mandar todo mundo para casa. Todos estão com o breque de mão puxado, sem se arriscar, sem se queimar, tentando parecer os mais legais e sinceros possíveis.
Conflitos de plástico, intrigas mornas e troca humana zero.
Vou fazer a minha aposta, mesmo sendo um novato em BBBs: quem vai ganhar é a loura, um pouco mais velha, acho que seu nome é Fabiana. Ela é afetiva, carinhosa, já chamou para si a personagem/arquétipo de mãe da casa e quando fala e se coloca, sempre o faz com o coração. Chora com quem está saindo, vibra com o grupo e não arruma encrenca. É a mais sincera e empática. Só não ganha se todos se unirem para derrubá-la. O meu filho está torcendo pelo Yuri. Façam as suas apostas.
Quando eu fazia Residência, nos anos 90, lembro de um projeto, muito legal de que participei, no setor de Psicoterapia. O problema é que uma das coordenadoras tinha acabado de chegar de uma pós no exterior e estava empolgada com a idéia de filmar as sessões, para embasar melhor a pesquisa. O futuro junguiano que aqui vos tecla deu cinco pulos na cadeira: se for filmado, não é mais psicoterapia. O grupo me olhou com aquela cara de "fazem isso nos Estados Unidos e na Europa e vem um psiquiatrazinho tupiniquim usando fraldas dizer que está errado". Mas é claro que está errado. Se o paciente está diante da câmera, não está mais se dirigindo ao terapeuta, nem a si mesmo. Ele está falando com o mundo espreitando naquela lente. O terapeuta não está mais ouvindo e criando um campo psíquico acolhedor, está desempenhando o papel de terapeuta compenetrado e cheio de habilidades, para os seus pares que vão farejar cada inflexão de voz "errada". Ou seja, deixa de ser um encontro analítico para virar um Big Brother, um show, um encontro humano de plástico. Felizmente para mim, consegui participar do projeto sem a tal câmera, que não fez nenhuma falta.
Comecei a acompanhar essa pantomima por conta de meu filho, que esse ano tomou coragem e assumiu, diante de toda a família, que adora o BBB. Assisto os resumos com ele, o que é uma delícia. Daqui a pouco tempo ele não vai querer o pai assistindo nada do lado dele, então aproveito. Ele aguenta os meus comentários na medida do possível, só me manda calar a boca algumas vezes. Ontem eu expliquei que a morena estonteante, a Laisa, fica fazendo a sua dancinha matinal, com a sua calcinha de renda cavadíssima, olhando o espelho, não por ser uma narcisista irremediável, mas já está criando uma marca que será explorada em alguns meses em uma edição da Playboy. Há pouca ou nenhuma sinceridade naquilo. Aliás, se adotarmos o critério do Pedro Bial, de eliminar quem não está jogando, então é melhor fazer um paredão gigante e mandar todo mundo para casa. Todos estão com o breque de mão puxado, sem se arriscar, sem se queimar, tentando parecer os mais legais e sinceros possíveis.
Conflitos de plástico, intrigas mornas e troca humana zero.
Vou fazer a minha aposta, mesmo sendo um novato em BBBs: quem vai ganhar é a loura, um pouco mais velha, acho que seu nome é Fabiana. Ela é afetiva, carinhosa, já chamou para si a personagem/arquétipo de mãe da casa e quando fala e se coloca, sempre o faz com o coração. Chora com quem está saindo, vibra com o grupo e não arruma encrenca. É a mais sincera e empática. Só não ganha se todos se unirem para derrubá-la. O meu filho está torcendo pelo Yuri. Façam as suas apostas.
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