Foi depois de muito tempo que ele finalmente entendeu, ou achou que entendeu. Lembrou de uma história antiga, que ouviu numa palestra de um monge budista. Depois de atingir a iluminação, o príncipe Sidarta atingiu o estado de iluminação. Um estado chamado de estado de Buda. Foi o fim de uma longa busca e de um mergulho em profundezas psíquicas nunca antes exploradas. Mas o jovem Buda não achava possível transmitir o que havia aprendido. Não havia palavras humanas que pudessem traduzir a beleza e a imensidão que ele havia presenciado. Foi preciso um coro de iluminados que implorassem para ele ao menos tentar transmitir um pouco do que vislumbrara. Foi essa história que lhe ocorreu em meio a mais uma madrugada quente e insone. Depois de atingir a iluminação, Sidarta reuniu os seus discípulos para fazer a sua exposição. A sua apresentação foi bastante sucinta e até hoje nunca igualada: apanhou uma flor e fez com ela um movimento suave, quase infinito. Foi como se o tempo tivesse parado enquanto a flor se movia em sua mão. Diz a lenda que só um dos discípulos, cujo nome me foge, atingiu a iluminação diante dessa exposição.
Ele sempre achou essa história uma daquelas charadas zen sem resposta. Talvez Sidarta tivesse descoberto o Existencialismo, vinte e cinco séculos antes. A existência precede a essência. A existência da flor é algo absoluto e se justifica por si. Os terapeutas existencialistas de vinte e cinco séculos depois devem ter aproveitado essa cena, para repetirem, como um mantra: “Uma rosa é uma rosa é uma rosa”. E assim por diante. A rosa existe e só. Não há rosa significante, só uma rosa existente. Os psicanalistas discordam, mas esse não foi o tema de sua compreensão. A questão não é a rosa, nunca foi a rosa. A questão é o movimento, extremamente lento, que tornou a flor infinita. Sidarta atingiu um tempo fora do tempo, desdobrou o tempo, apenas movendo a flor.
Foi essa a sensação de profunda compreensão que o atingiu como um raio. Ele entendeu que o movimento da flor, em sua infinita consciência, conectava quem compreendesse com um tempo fora do tempo, onde a consciência poderia se expandir e se espreguiçar, para fora das preocupações do dia a dia, da infinita mesquinhez de nossos pensamentos. Depois disso, sempre que ele quer soltar uma frase agressiva, ou destratar a sua esposa com seu infinito mau humor de marido, ou quando tem uma tarefa chatérrima que ele gostaria de adiar ao dia de São Nunca, ele faz um movimento com a sua flor imaginária e se sente desprendido do maldito tiquetaque do tempo. Finalmente, a partir dessa nova percepção, ele começou a se aproximar da ideia da compaixão. Compaixão não é sentir pena, nem sentir a dor que o Outro sente. Compaixão é entrar nessa outra frequência e observar o correcorre dos homens formiga, sempre indo para lugar nenhum.
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domingo, 6 de janeiro de 2013
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Blogstórias 1 As Asas de Ícaro
Crucial para a história de Ícaro é a figura de seu pai, Dédalo. Quando a rainha traiu o rei Minos com uma divindade do Olimpo, nasceu uma figura monstruosa, o Minotauro. Meio homem, meio touro, o Minotauro era um ser de força das bestas, impossível de ser enfrentado. Mas foi Dédalo, engenheiro e conselheiro do rei, que propôs tirar proveito da situação. Construindo um labirinto perfeito, Minos poderia ter em sua vergonha uma grande arma para oprimir o povo. Na realidade, a maior arma de um tirano, o medo. Todo ano os atenienses mandariam seus belos jovens para alimentar o apetite infinito do monstro, ou dos dois monstros, Minos e seu touro. Dédalo, tão sedento de poder quanto, usava de sua astúcia para agradar os poderosos na mesma medida em que, bajulando-os ou ocultando a sua monstruosidade, acabava por dominá-los. Diz um ditado mineiro que esperteza, quando é muita, acaba engolindo o seu dono, e foi o que aconteceu com Dédalo. O labirinto era tão perfeito que acabou prendendo em suas entranhas o perverso engenheiro e seu filho, Ícaro. Os dois acabariam por se tornar as primeiras ovelhas de sacrifício do Minotauro.
Dédalo, entretanto, continuava sendo astuto e engenhoso, conseguiu construir para si e para o seu filho asas de cera e penas dos pássaros que caíam no labirinto. As asas permitiriam voar por sobre a própria maldade e vencer o destino. O pai pediu a Ícaro que não voasse para perto do sol, pois as asas de cera poderiam derreter e o filho, preso dentro da prisão construída pela sede de poder de seu pai, prometeu ser cuidadoso. Mas quando conseguiu finalmente alçar o vôo, Ícaro ficou completamente embriagado pelo vôo. Nunca um homem gozara daquela sensação, a mesma dos pássaros. Ícaro voou cada vez mais alto, insensível ao desespero de seu pai, que implorava para que voltasse. Chegando perto do sol, percebeu que não era um pássaro, que as suas asas eram muito frágeis para sustentar o seu vôo. O sol derreteu a cera e Ícaro caiu, para nunca mais se levantar, nas profundezas do mar.
Nosso Ícaro moderno há muito não falava com seu pai. Dele se ressentia por sua ausência e, sobretudo, por seu desinteresse. O seu pai nunca teve nos filhos algo diferente de uma boa moldura para a foto de homem respeitável, homem público, chefe de família sedento de poder, mas aparentemente um homem amoroso e atencioso aos seus. Com os anos, a sua carreira não foi tão longe, a família se desmanchou e o jovem Ícaro foi morar com os avós, estudar e trabalhar, tentando construir uma vida de verdade, longe da loucura de seu pai. Da fortuna que o mesmo juntara, seja por quais meios, ele recebera apenas um carro importado, dos mais caros e possantes. Sensível à nossa época de aparências, Dédalo recebeu o carro como parte de uma de suas negociatas. Sabia que aquele carro impressionaria as meninas e os colegas de seu filho, além de ser um símbolo de seu poder. Pedia para o filho que o usasse com cuidado, era um carro muito caro e possante (ao contrário dele próprio).
Foi no meio de uma balada que Ícaro viu a luz do sol. Um sol enganador. Misturou álcool e balas que um amigo levou, umas balas que crianças não chupam. A mistura de álcool e drogas deixou-o exaltado, logo ele saiu, depois de levar um toco da menina desejada, que não se impressionava com suas asas de cera. Logo na primeira avenida, bateu em alta velocidade em três carros, tentando enfiar o carro num vão que só a sua imaginação exaltada viu. Fugiu em desespero, correndo à esmo pelas ruas da cidade. Ninguém poderia alcançá-lo com aquele carro. Depois de muitos e muitos quilômetros de ferocidade, fez mais um strike em um cruzamento, batendo em vários carros. O Ícaro moderno, ao contrário do mitológico, não morreu. Matou um senhor em sua van que saía para o trabalho de madrugada. Foi ele que morreu queimado. Ícaro teve a assistência de advogados caros e pagou uma fiança astronômica. Mas leva, para toda a sua vida, a imagem do homem gritando entre as ferragens e labaredas. Disso ele não vai conseguir fugir.
Dédalo, entretanto, continuava sendo astuto e engenhoso, conseguiu construir para si e para o seu filho asas de cera e penas dos pássaros que caíam no labirinto. As asas permitiriam voar por sobre a própria maldade e vencer o destino. O pai pediu a Ícaro que não voasse para perto do sol, pois as asas de cera poderiam derreter e o filho, preso dentro da prisão construída pela sede de poder de seu pai, prometeu ser cuidadoso. Mas quando conseguiu finalmente alçar o vôo, Ícaro ficou completamente embriagado pelo vôo. Nunca um homem gozara daquela sensação, a mesma dos pássaros. Ícaro voou cada vez mais alto, insensível ao desespero de seu pai, que implorava para que voltasse. Chegando perto do sol, percebeu que não era um pássaro, que as suas asas eram muito frágeis para sustentar o seu vôo. O sol derreteu a cera e Ícaro caiu, para nunca mais se levantar, nas profundezas do mar.
Nosso Ícaro moderno há muito não falava com seu pai. Dele se ressentia por sua ausência e, sobretudo, por seu desinteresse. O seu pai nunca teve nos filhos algo diferente de uma boa moldura para a foto de homem respeitável, homem público, chefe de família sedento de poder, mas aparentemente um homem amoroso e atencioso aos seus. Com os anos, a sua carreira não foi tão longe, a família se desmanchou e o jovem Ícaro foi morar com os avós, estudar e trabalhar, tentando construir uma vida de verdade, longe da loucura de seu pai. Da fortuna que o mesmo juntara, seja por quais meios, ele recebera apenas um carro importado, dos mais caros e possantes. Sensível à nossa época de aparências, Dédalo recebeu o carro como parte de uma de suas negociatas. Sabia que aquele carro impressionaria as meninas e os colegas de seu filho, além de ser um símbolo de seu poder. Pedia para o filho que o usasse com cuidado, era um carro muito caro e possante (ao contrário dele próprio).
Foi no meio de uma balada que Ícaro viu a luz do sol. Um sol enganador. Misturou álcool e balas que um amigo levou, umas balas que crianças não chupam. A mistura de álcool e drogas deixou-o exaltado, logo ele saiu, depois de levar um toco da menina desejada, que não se impressionava com suas asas de cera. Logo na primeira avenida, bateu em alta velocidade em três carros, tentando enfiar o carro num vão que só a sua imaginação exaltada viu. Fugiu em desespero, correndo à esmo pelas ruas da cidade. Ninguém poderia alcançá-lo com aquele carro. Depois de muitos e muitos quilômetros de ferocidade, fez mais um strike em um cruzamento, batendo em vários carros. O Ícaro moderno, ao contrário do mitológico, não morreu. Matou um senhor em sua van que saía para o trabalho de madrugada. Foi ele que morreu queimado. Ícaro teve a assistência de advogados caros e pagou uma fiança astronômica. Mas leva, para toda a sua vida, a imagem do homem gritando entre as ferragens e labaredas. Disso ele não vai conseguir fugir.
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