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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A Obra em Negro

A velha senhora se ajeitou na cadeira, como se preparando para uma batalha intelectual. A menina olhava para ela, muito séria mas também divertida, pois conseguiu o que queria, continuar a conversa.
- Agora eu vou começar a falar e você vai escutar, tá bom, mocinha? Vou falar dessa folha que você surrupiou das minhas anotações, sua aplicação ao tratamento das doenças e depois eu vou embora, que Edward está me esperando.(Para quem não leu o último post, Edward é o gato da senhora). Estamos combinadas?
Levantou a mão. A senhora bufou.
- Fale.
- Posso fazer perguntas?
- Claro que pode.
- O que significa surrupiou?
- (Risos) Você pegou a minha anotação sem que eu percebesse, certo? Isso é surrupiar, afanar, passar a mão no que não é seu... Entendeu?
Assentiu com a cabeça.
- Então vamos lá. Qual o significado de trazer para um simpósio esse conhecimento milenar gerado por homens simples, que, ao nosso ver, ficavam tateando no escuro as ligações e as propriedades das diferentes substâncias químicas? Para a Ciência Moderna, a religião que está em voga em nossos dias, aqueles escritos em latim não tem nada a acrescentar ao que foi descoberto desde a Tabela Periódica, quando os homens aprenderam a conhecer e manipular as substâncias e os elementos químicos. Os alquimistas continuariam perdidos no esquecimento de seus livros empoeirados se um psiquiatra suíço, chamado Carl Jung, não tivesse descoberto um valor oculto naqueles trabalhos. Para esse senhor, os alquimistas, na sua busca pela Pedra Filosofal e o Elixir da Longa Vida, acabaram descobrindo a maneira intrínseca que faz funcionar a natureza da matéria e da psique humana. Você está entendendo o que estou falando?
Balançou a cabeça, num “mais ou menos” ressabiado. A senhora não se impacientou.
- Os alquimistas eram pessoas que, desde a China Antiga e do Egito procuravam, através de experiências em seus laboratórios, entender e conhecer as propriedades da matéria. Eles queriam fabricar remédios e extrair das plantas e das substâncias químicas uma forma de curar doenças e deter o processo de envelhecimento.
Levantou a mão.
- Pode fazer a pergunta sem levantar a mão.
- O que os Alquimistas queriam descobrir é a mesma coisa que a Medicina e a Farmacologia modernas tentam fazer, que é controlar as doenças e prolongar a vida, certo?
Olhou para a menina com espanto, e teve que aturar aquela cara de “estou sempre te surpreendendo”.
- Muito bem, mocinha. Você levantou uma bela de uma lebre. Os alquimistas procuravam pelo que o homem procura desde que desceu das árvores: conhecer e dominar as forças da Vida e da Morte. Vou anotar essa sua ideia para a minha próxima aula. Só tem uma boa diferença: a Ciência procura por formas de atuar diretamente na matéria, mofificando-a. Os alquimistas procuravam pelo conhecimento do Oculto, o que não aparece na experiência.
- Os alquimistas procuravam por Bob.
- Exatamente! Os alquimistas procuravam pela ordem profunda que existe na matéria e, quer saber, no envelhecimento, na doença e na morte. Tanto que a primeira fase da Obra, do Opus Alquímico sempre tinha a ver com a morte. Mas você está me fazendo correr muito com a aula. Deixe-me voltar ao ponto da minha anotação...(Folheando as anotações)...Deixe-me ver... Ah, aqui está: o que Jung descobriu é que muito o que aqueles escritos antigos descreviam era a mesma coisa que ele via, todo dia, no seu consultório. A obra alquímica e o desenvolvimento psíquico tinham muitas coisas em comum.
A menina olhava com cara de paisagem.
- Vou te dar um exemplo. Uma pessoa chega para tratamento. Está deprimida. Perdeu o emprego, ou o casamento, ou teve uma decepção muito profunda com a vida. Tudo parece morto naquela depressão. Nada parece ter significado mais para aquela pessoa. O alquimista, isso é, o terapeuta, começa ficando perto daquele sofrimento.
Os seus olhos se acenderam.
- Ficando perto como?
- Simplesmente ficando perto do sofrimento sem opor resistência. Muitas vezes, o que estava morto fica ainda mais morto. As pessoas ficam muito assustadas quando alguém está nessa situação. Gritam: você precisa reagir! Você não está se ajudando! Seja uma pessoa positiva! E aí? Aí, nada. A imobilidade vai durar o tempo que durar. O terapeuta fica lá, do lado, esperando pela hora que a coisa vai começar a gerar energia. O terapeuta, como os alquimistas, precisa ser paciente. Esperar a hora certa para atacar, para arrancar a pessoa da imobilidade. Senão, nada acontece: pode entupir o sujeito de remédios, pode fritar a cabeça com choques e pulsos magnéticos, pode passar vinte e oito filmes de autoajuda, nada vai fazer o que está parado voltar a andar enquanto a energia não vier de dentro.
A menina falou com voz quase imperceptível:
- Isso é como uma quimio?
A senhora voltou-se para ela, em espanto.
- Perdão, querida, o que você falou?
- A quimioterapia não é exatamente assim? A pessoa fica cansada, parece que passou um caminhão por cima, não quer fazer nada e, de repente, acorda melhor, começa a ter vontade de sair, de ver o sol, de comer pudim... É assim, não é?
- Querida, como é que você sabe disso?
- Não se preocupe. Eu sei. Volte para a sua aula.
Obedeceu.
- Essa é a fase inicial da Obra, querida. A Obra em Negro. Os alquimistas sabiam que, para o novo surgir, é preciso que o velho antes. Por isso as células morrem, as fases da vida mudam e o que tem que acabar, acaba.
A menina abaixou os olhos, digerindo tudo aquilo. Nos seus olhos, havia uma estranha compreensão.
- Ao contrário do que as pessoas pensam, meu bem, a morte é só um começo.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Jung para Crianças: o Visível e o Invisível

O cenário é um salão de jogos de um hotel, com alguns videogames antiquados que as crianças usam meio que por falta de opção. São poucas crianças e elas são observadas por uma velha senhora que tenta passar despercebida no canto da sala, perto da porta de saída. As crianças brincam sem percebê-la e ela não parece se importar com isso. Finalmente, uma menina acaba por notá-la e se aproxima, hesitante. A senhora está com os olhos baixos, lendo uma espécie de programa de curso e demora a levantar os olhos para não assustá-la ou desencorajá-la. Finalmente, depois dessa lenta aproximação, os olhares se cruzam, num “oi” silencioso. A menina acaba por quebrar o silêncio.
- Você é daqui?
- Daqui, aonde? – respondeu com olhos risonhos.
- Daqui, ué...
- Da sala de jogos?
- É.
- Não sou, não. Estou aqui no evento.
- A minha mãe também está nesse tal de evento.
A senhora sorriu uma espécie de “ok” e voltou a baixar os olhos.
- Você veio dar aula?
- Acho que sim. Vim dar uma aula e assistir outras aulas. É isso que a gente faz nos eventos.
- Mas você não é velha?
Dessa vez ela realmente levantou os olhos, fazendo força para segurar o riso.
- A gente pode continuar assistindo aula depois que fica velha, meu bem.
A menina não se deu por vencida.
- E você veio dar aula do que?
- Vim falar sobre Alquimia.
Olhou com uma cara de “o que é isso?”.
- Alquimia é uma coisa que gente muito, muito antiga, fazia no passado. Eram pessoas muito sábias que passaram uma grande parte de sua vida no laboratório, para descobrir coisas.
- Que coisas?
Limpou a garganta para responder. As perguntas estavam ficando difíceis.
- Essas pessoas ficavam escondidas nos laboratórios para tentar encontrar remédios, e substâncias para curar as doenças das pessoas e deixá-las sempre jovens.
Pensou um pouco antes de responder.
- Isso a minha mãe tem no banheiro.
- O que a sua mãe tem no banheiro?
- Ela tem uns remédios e uns cremes para não ficar velha. É isso que eles faziam?
Teve que fazer força, de novo, para não rir.
- De certa forma, sim. Eles queriam encontrar uma espécie de suco, de elixir, para curar todas as doenças e fazer o tempo parar dentro das células. E olha que eles nem sabia que existiam as células.
- Eu sei o que são células (tomou um ar de menina sabida): as células são os tijolinhos que se juntam para formar os tecidos, como a nossa pele.
- Muito bem!
- O meu pai me ensinou o que são células.
- Parabéns para você e seu pai.
- Mas quando você vai dar aula?
- (Suspirando) Acho que daqui a algumas horas.
- Você não sabe se vai dar aula?
- Não.
- Por que?
- Porque eu acho que eles esqueceram de me colocar no programa do evento.
- Como assim?
- Eles me mandaram um programa inicial, eu preparei a aula, cheguei aqui no hotel, a aula não estava mais. Acho que foi um erro da menina que mandou o programa para a gráfica. As pessoas da minha mesa redonda também ficaram de fora. Algumas já ficaram bravas e foram embora, inclusive.
- E você não ficou brava?
- (Coçando a cabeça) Como você já notou, eu estou um pouco velha. Já aprendi a enxergar a dificuldade de outro jeito.
- Como assim?
- Quando acontece alguma coisa assim eu me pergunto: onde isso vai me levar? O que vai acontecer agora? O que eu vou aprender com isso?
- Você aprende?
Olhou para ela com ar travesso.
- Eu sou velha mas estou sempre aprendendo, viu, sua folgada? Não quero nunca parar de aprender.
- E o que v ocê está aprendendo agora?
- Estou aprendendo a conversar com você. Estou aprendendo a esperar o que vai acontecer e a ter mais e mais paciência. Isso era uma coisa muito importante para os alquimistas: esperar, compreender, aprender com os erros. Essas coisas que estão fora de moda.
- Você está fora de moda?
Pensou mais longamente antes de responder.
- Para muita gente, eu estou fora de moda. Sim senhora. Mas ainda tem muita gente que quer aprender como usar o fogão.
- Que fogão?
- O fogão dos alquimistas.
- Eles cozinhavam?
- E como...
- O que eles cozinhavam?
- Cozinhavam coisas do mundo invisível para trazer o invisível para o mundo visível.
Fez uma cara de nada entender, uma espécie de careta engraçada.
- Eu sei que você não entendeu, mas não se preocupe. Aqui nesse evento, quase ninguém acredita no invisível.
- Eu tenho um amigo invisível.
- (Flexionou a sobrancelha) É mesmo?
Baixou os olhos, como se estivesse dito algo impróprio.
- Pois isso é muito bom. Você já está mais preparada para a minha aula que muita gente por aqui. Eles não acreditam em nada que não apareça em seus aparelhos.
- Você acredita no meu amigo?
- Claro que acredito.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Blogstórias - A Flor e o Tempo

Foi depois de muito tempo que ele finalmente entendeu, ou achou que entendeu. Lembrou de uma história antiga, que ouviu numa palestra de um monge budista. Depois de atingir a iluminação, o príncipe Sidarta atingiu o estado de iluminação. Um estado chamado de estado de Buda. Foi o fim de uma longa busca e de um mergulho em profundezas psíquicas nunca antes exploradas. Mas o jovem Buda não achava possível transmitir o que havia aprendido. Não havia palavras humanas que pudessem traduzir a beleza e a imensidão que ele havia presenciado. Foi preciso um coro de iluminados que implorassem para ele ao menos tentar transmitir um pouco do que vislumbrara. Foi essa história que lhe ocorreu em meio a mais uma madrugada quente e insone. Depois de atingir a iluminação, Sidarta reuniu os seus discípulos para fazer a sua exposição. A sua apresentação foi bastante sucinta e até hoje nunca igualada: apanhou uma flor e fez com ela um movimento suave, quase infinito. Foi como se o tempo tivesse parado enquanto a flor se movia em sua mão. Diz a lenda que só um dos discípulos, cujo nome me foge, atingiu a iluminação diante dessa exposição.
Ele sempre achou essa história uma daquelas charadas zen sem resposta. Talvez Sidarta tivesse descoberto o Existencialismo, vinte e cinco séculos antes. A existência precede a essência. A existência da flor é algo absoluto e se justifica por si. Os terapeutas existencialistas de vinte e cinco séculos depois devem ter aproveitado essa cena, para repetirem, como um mantra: “Uma rosa é uma rosa é uma rosa”. E assim por diante. A rosa existe e só. Não há rosa significante, só uma rosa existente. Os psicanalistas discordam, mas esse não foi o tema de sua compreensão. A questão não é a rosa, nunca foi a rosa. A questão é o movimento, extremamente lento, que tornou a flor infinita. Sidarta atingiu um tempo fora do tempo, desdobrou o tempo, apenas movendo a flor.
Foi essa a sensação de profunda compreensão que o atingiu como um raio. Ele entendeu que o movimento da flor, em sua infinita consciência, conectava quem compreendesse com um tempo fora do tempo, onde a consciência poderia se expandir e se espreguiçar, para fora das preocupações do dia a dia, da infinita mesquinhez de nossos pensamentos. Depois disso, sempre que ele quer soltar uma frase agressiva, ou destratar a sua esposa com seu infinito mau humor de marido, ou quando tem uma tarefa chatérrima que ele gostaria de adiar ao dia de São Nunca, ele faz um movimento com a sua flor imaginária e se sente desprendido do maldito tiquetaque do tempo. Finalmente, a partir dessa nova percepção, ele começou a se aproximar da ideia da compaixão. Compaixão não é sentir pena, nem sentir a dor que o Outro sente. Compaixão é entrar nessa outra frequência e observar o correcorre dos homens formiga, sempre indo para lugar nenhum.