Estava lendo uma matéria publicada na Carta Capital, se não me engano, já que a matéria foi impressa por um amigo que queria me provocar, no bom sentido de uma provocação: aquela que estimula o debate. A jornalista se baseou em dois livros que atacavam a atual epidemia de doenças, diagnósticos e tratamentos psiquiátricos. Na primeira metade da matéria, discutiu-se longamente o efeito dos medicamentos, notadamente os antidepressivos, comparando-os com os placebos. Na verdade, chega a propor que uma grande parte dos efeitos dessas medicações sejam Placebo, isto é, reações que derivam na crença que as pessoas tem nas medicações. Na segunda parte, a argumentação era mais devastadora: se os medicamentos psicotrópicos mudam o funcionamento cerebral, então quem garante que uma parte importante das atuais doenças psiquiátricas não sejam causadas pelos medicamentos em si, em vez de melhoradas por eles?
Eu poderia inverter a brincadeira e a provocação: e se fizéssemos um levantamento de quantas pessoas adoecem e morrem pelos efeitos colaterais da hipermídia? Os meios de comunicação estimulam muito mais os sentimentos tóxicos do que os bons. Exploração do Medo e do Desejo é o que vemos em todos os lados. As pessoas estão cada vez mais medrosas e cada vez consomem com mais ferocidade, graças aos estímulos onipresentes da Mídia. Essa matéria mesmo está estimulando o leitor a acreditar numa máfia de avental que está à espreita nos consultórios para prescrever remédios desnecessários, que vão te fazer engordar e ficar sem libido e dos quais você nunca vai se libertar. E o pior: apesar dos bilhões de dólares gastos na indústria dos transtornos psiquiátricos, as pessoas estão cada vez mais doentes e infelizes. Podemos retrucar que, apesar de estarmos na época de maior disponibilidade e acesso à informação, as pessoas nunca foram tão preguiçosas intelectualmente e desinformadas do que acontece em nosso mundo. Estou fazendo esse exercício apenas para demonstrar que essa coisa de ficar apontando dedos não leva o debate muito longe.
Nesta semana atendi o retorno de uma moça, empregada doméstica, cuja patroa cansou de ver sofrendo com crises de Pânico e sofrimento recorrente por meses. Em vez de trocar de empregada, teve a bondade e a compaixão de pedir a indicação de um psiquiatra e mandar a moça para uma consulta. Ela tinha passado por consulta em hospital público e a médica deu-lhe um remédio que já havia tomado, para tomar antes de dormir. O remédio em questão não deve ser tomado à noite, porque atrapalha o sono. Muitos dos sintomas, então, eram causados pela privação do sono. Trocando o horário da medicação, ela já melhorou bastante. Depois de alguns meses, a patroa está querendo marcar consulta, pelas melhoras que está vendo em sua empregada. Uso este exemplo para responder às questões levantadas nesta matéria: venha o jornalista, que nunca tratou nem unha encravada, observar o que aconteceu na vida dessa moça quando tinha crises de Pânico todo dia, e agora. Placebo é a pqp. Se não é para pressupor que os médicos são sociopatas e os pacientes idiotas e crédulos, a melhor medida de qualquer diagnóstico e tratamento é de extrema simplicidade: o paciente tem um sintoma que lhe causa incômodo e atrapalha toda a sua vida; ele dirige-se a um profissional que deve conhecer a natureza do quadro e do tratamento para melhorá-lo. Inicia-se um tratamento que visa aliviar os sintomas e devolver o paciente â sua vida normal. Se isso não acontecer, troca-se o profissional, a abordagem, os medicamentos. Até o paciente se sentir melhor.
Acredito, sim, na mitificação da doença e no uso exagerado de medicamentos em quase todas as especialidades. Em Psiquiatria, padecemos, como em outras especialidades, de profissionais que prescrevem demais, prescrevem de menos, prescrevem errado. Mas as doenças são melhor e mais facilmente identificadas e vida das pessoas melhora com os tratamentos, que ninguém é burro de usar uma medicação cara que não traga nenhum benefício.
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domingo, 8 de dezembro de 2013
sexta-feira, 4 de março de 2011
Efeito Placebo e a Fé
Recebi um e-mail de uma nova leitora, estudante de Psicologia, chamada Maria Beatriz, que gostou de um post antigo, em que falo sobre Placebo e Sistema de Crenças. Mas o que seria o tal do efeito Placebo?
Há um episódio de House em que ele está em um avião e um dos passageiros começa a apresentar sintomas do que parecia uma doença infectocontagiosa grave, com febre, dores e vômitos. Após algum tempo, várias pessoas no avião começam a sentir os mesmos sintomas, parecendo uma epidemia alastrando-se rapidamente. O médico vivido por Hugh Laurie pega o interfone da aeromoça e vai perguntando pelos sintomas mais absurdos e todos começam a sentí-los, até serem "desmascarados". Eles não estão doentes, só reproduzindo os sintomas do coreano por autosugestão. A epidemia verdadeira no avião é de sintomas histéricos, não há doença nenhuma. Todos suspiram e vão voltando ao normal. Esse mecanismo ilustra um pouco o Efeito Placebo. Uma forte sugestão, uma crença em algum medicamento e procedimento pode provocar reações positivas ou negativas em pessoas mais ou menos sugestionáveis. Outro dia li uma crítica à Medicina Alopática, a que eu pratico, dizendo que a mesma faz com que as pessoas acreditem mais no doença do que na saúde. Seria um efeito placebo ao contrário, como no episódio de House. As pessoas vão acreditando em doenças cada vez mais complexas e com o discurso "olha que o jacaré te abraça" incorporado à Medicina. Nessa semana perdemos um grande escritor brasileiro, Moacir Sclyar, que teve um AVC durante um procedimento cirúrgico para eliminação de pólipos. Sabe-se que os pólipos podem se malignizar e se transformar em temíveis tumores de Intestino. O AVC do Moacir provavelmente aconteceria em outra situação. Mas não há como se negar que ele faleceu pela complicação de um procedimento simples para prevenir um problema futuro. A necessidade de prevenir esse problema futuro gera morbidade e complicações no presente, por uma Medicina cada vez mais agressiva.
A estudante de Psicologia estará estudando um tema complexo, que se estende pela Psiconeuroimunologia e Psiconeuroendocrinologia. Nem sei se ela imagina a fria. O fato é que a crença do paciente no tratamento já é meio caminho andado. A crença do médico, também, por isso que milhões de dólares são gastos para divulgar os efeitos de determinado medicamento para a classe médica. Devemos então fugir dos médicos, dos procedimentos e dos medicamentos? É claro que não. Mas devemos investigar mais a fundo os mecanismos em que o organismo humano reage como um sistema de autoreparação apenas pelo fato do paciente acreditar que vai melhorar, que o remédio é bom e, mais ainda, que o médico sabe o que está fazendo. Isso faz toda a diferença e explica porque os médicos não foram substituídos por computadores. A relação humana e entre humanos produz mais curas impressionantes do que a Ciência possa imaginar. Boa sorte na sua pesquisa, Beatriz.
Há um episódio de House em que ele está em um avião e um dos passageiros começa a apresentar sintomas do que parecia uma doença infectocontagiosa grave, com febre, dores e vômitos. Após algum tempo, várias pessoas no avião começam a sentir os mesmos sintomas, parecendo uma epidemia alastrando-se rapidamente. O médico vivido por Hugh Laurie pega o interfone da aeromoça e vai perguntando pelos sintomas mais absurdos e todos começam a sentí-los, até serem "desmascarados". Eles não estão doentes, só reproduzindo os sintomas do coreano por autosugestão. A epidemia verdadeira no avião é de sintomas histéricos, não há doença nenhuma. Todos suspiram e vão voltando ao normal. Esse mecanismo ilustra um pouco o Efeito Placebo. Uma forte sugestão, uma crença em algum medicamento e procedimento pode provocar reações positivas ou negativas em pessoas mais ou menos sugestionáveis. Outro dia li uma crítica à Medicina Alopática, a que eu pratico, dizendo que a mesma faz com que as pessoas acreditem mais no doença do que na saúde. Seria um efeito placebo ao contrário, como no episódio de House. As pessoas vão acreditando em doenças cada vez mais complexas e com o discurso "olha que o jacaré te abraça" incorporado à Medicina. Nessa semana perdemos um grande escritor brasileiro, Moacir Sclyar, que teve um AVC durante um procedimento cirúrgico para eliminação de pólipos. Sabe-se que os pólipos podem se malignizar e se transformar em temíveis tumores de Intestino. O AVC do Moacir provavelmente aconteceria em outra situação. Mas não há como se negar que ele faleceu pela complicação de um procedimento simples para prevenir um problema futuro. A necessidade de prevenir esse problema futuro gera morbidade e complicações no presente, por uma Medicina cada vez mais agressiva.
A estudante de Psicologia estará estudando um tema complexo, que se estende pela Psiconeuroimunologia e Psiconeuroendocrinologia. Nem sei se ela imagina a fria. O fato é que a crença do paciente no tratamento já é meio caminho andado. A crença do médico, também, por isso que milhões de dólares são gastos para divulgar os efeitos de determinado medicamento para a classe médica. Devemos então fugir dos médicos, dos procedimentos e dos medicamentos? É claro que não. Mas devemos investigar mais a fundo os mecanismos em que o organismo humano reage como um sistema de autoreparação apenas pelo fato do paciente acreditar que vai melhorar, que o remédio é bom e, mais ainda, que o médico sabe o que está fazendo. Isso faz toda a diferença e explica porque os médicos não foram substituídos por computadores. A relação humana e entre humanos produz mais curas impressionantes do que a Ciência possa imaginar. Boa sorte na sua pesquisa, Beatriz.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
O Efeito Placebo e o Sistema de Crenças
Em nossos tempos de divórcio entre Ciência e Religião, com a primeira substituindo a última como portadora da Verdade, mesmo que uma verdade móvel e não definitiva, pode parecer um sacrilégio para a nova Inquisição falar do Novo Testamento. Questiona-se a existência histórica de um pregador que viveu na Galiléia há mais de vinte séculos, que pregava o amor, a experiência direta da Divindade ("Eu e meu Pai somos Um") e realizava frequentemente curas milagrosas usando a própria voz, o toque da mão ou misturas singelas como a própria saliva e um punhado da terra arenosa da região. Uma fala sempre se repetia após essas curas : "A tua fé te curou". Isso quer dizer que, não importa a capacidade energética do curador, se o curado não dá passagem a essa energia, a cura é quase impossível (como ficou demonstrado quando esse rabino de nome Jesus não conseguiu curar ninguém em sua terra natal, Nazaré, pois ninguém acreditou que o filho do carpinteiro pudesse curar alguém ).
Não é fato raro na crôncia hospitalar as curas espontâneas, as melhoras inexplicáveis de alguns casos, a participação de fatores extra tratamento médico levando pacientes a uma melhor ou pior evolução. Dentre esses acontecimentos que virtualmente optamos por ignorar todo dia (Uma atitude de muita iluminação: "Se eu não posso explicar então não existe")é o Efeito Placebo. Estudos vivem por contornar o famigerado efeito Placebo e sabe por que? O efeito Placebo representa a ativação de um processo natural de reparação de nosso organismo, ativado por nosso sistema de crenças. Não queremos saber disso, só do efeito de nossas balinhas mágicas. Ativar defesas naturais, baseadas em nossa fé? Que horror!
O efeito Placebo pode ser usado melhor em nossa prática: se existe a crença na medicação e no curador que a está administrando, o resultado tende, quase sempre a ser melhor do que a descrença. Eu costumava dizer em aulas que os médicos deveriam sair da faculdade com um zíper na boca, para tomar muito cuidado com as palavras, sobretudo com as frases supostamente "realistas" que tiram do paciente toda esperança. A esperança pode curar e ficamos corados de tentar interferir na relação do paciente e sua crença no tratamento. Podemos ser defensivamente "realistas" ou pessimistas, esvaziando a esperança que pode ativar defesas orgânicas invisíveis, inexplicáveis pela nossa Ciência "Objetiva". Posso recomendar aos leitores: se precisar de ajuda, prefira os otimistas aos pessimistas. E não hesite em querer o que parece improvável.
Não é fato raro na crôncia hospitalar as curas espontâneas, as melhoras inexplicáveis de alguns casos, a participação de fatores extra tratamento médico levando pacientes a uma melhor ou pior evolução. Dentre esses acontecimentos que virtualmente optamos por ignorar todo dia (Uma atitude de muita iluminação: "Se eu não posso explicar então não existe")é o Efeito Placebo. Estudos vivem por contornar o famigerado efeito Placebo e sabe por que? O efeito Placebo representa a ativação de um processo natural de reparação de nosso organismo, ativado por nosso sistema de crenças. Não queremos saber disso, só do efeito de nossas balinhas mágicas. Ativar defesas naturais, baseadas em nossa fé? Que horror!
O efeito Placebo pode ser usado melhor em nossa prática: se existe a crença na medicação e no curador que a está administrando, o resultado tende, quase sempre a ser melhor do que a descrença. Eu costumava dizer em aulas que os médicos deveriam sair da faculdade com um zíper na boca, para tomar muito cuidado com as palavras, sobretudo com as frases supostamente "realistas" que tiram do paciente toda esperança. A esperança pode curar e ficamos corados de tentar interferir na relação do paciente e sua crença no tratamento. Podemos ser defensivamente "realistas" ou pessimistas, esvaziando a esperança que pode ativar defesas orgânicas invisíveis, inexplicáveis pela nossa Ciência "Objetiva". Posso recomendar aos leitores: se precisar de ajuda, prefira os otimistas aos pessimistas. E não hesite em querer o que parece improvável.
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