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domingo, 1 de novembro de 2015

Curas "Espontâneas"

Uma característica de nossa Consciência que a Ciência reproduz é a capacidade de simplesmente ignorar tudo aquilo que não entendemos ou não podemos explicar. Vou dar em exemplo óbvio: as curas expontâneas, ou ditas expontâneas. Um conhecido me descreveu emocionado a consulta de seu pai com a sua Oncologista, a mesma que meses atrás comunicara o diagnóstico de um Câncer Pulmonar inoperável que teria um péssimo prognóstico. Tecnicamente falando, o tratamento não deveria ter um bom resultado e poderia tanto prolongar quanto encurtar a vida de seu pai. O homem reagiu da maneira estranha, pois sempre foi uma espécie de polo transmissor de negatividade e pessimismo. Diante da morte próxima, afirmou entre dentes que não iria se entregar e que se recusava em acreditar naquele diagnóstico/veredicto. Meses depois, a médica dizia com a voz tremida de emoção que o Tumor tinha regredido completamente, contrariando todas as estatísticas. Foram atrás da biópsia, para checar se aquele tumor era aquele mesmo. Era. O homem chorou como quando recebeu a notícia pela primeira vez. Desta vez ele sussurrou: "Eu sabia". No dia seguinte já estava entregue à sua chatice habitual. E o seu caso deve ter ido para as estatísticas como de "Ótima Resposta"à quimioterapia.
Durante esses anos de prática clínica, não é a primeira vez que ouço uma história assim. Esses relatos criam um espectro moralista de que o "Pensamento Positivo"pode curar todas as doenças. O seu contraponto é a ideia que as pessoas morrem de Câncer porque não conseguem modificar os seus "Pensamentos Negativos". Isso se soma à já inconsciente culpabilização que muita gente tem de ter a sensação de ter "fabricado"a própria doença. Nos anos 90 eu participei de uma pesquisa em Oncologia, em uma Enfermaria de Transplante de Medula Óssea que tinha essa pergunta: havia mesmo uma relação mensurável entre o estresse recente e a doença oncológica? Haveria mais gente deprimida e "negativa"nesta enfermaria do que nas outras? O que encontrei naquela pesquisa foi uma amostra de mais da metade dos pacientes avaliados de pessoas sem traços patológicos de personalidade, gente boa, legal e de bem com a vida que um belo dia tropeçaram no diagnóstico de uma Leucemia. Na outra metade da amostra dava para recuperar trauma nos últimos anos, como perda de entes queridos ou demissão/perda de status profissional. Havia também uma alta incidência de quadros depressivos antecedendo a doença oncológica. O que ficou muito claro já naquele estudo mas que ainda hoje está longe de ser um consenso é que a atitude diante da doença parecia se correlacionar claramente com a resposta ao tratamento. Sobretudo essas pessoas que prometem para si mesmas que não vão ceder e não vão morrer daquela bosta de doença. As estatísticas que se danem. Uma atitude iconoclástica em relação a essa religião fundamentalista que são as estatísticas e as evidências: os médicos ficam emocionados e envergonhados com essas curas inexplicáveis. Para a Ciência, os casos vão para as gavetas empoeiradas das "Curas Expontâneas". Ou seja, aquelas que não tem explicação, então elas simplesmente não existem, ou o establishment médico se recusa a dar muita atenção. Já pensou se a moda pega? Os bilhões de prejuízo?
Vou arriscar alguns critérios para essas curas "milagrosas", a saber:
1 Antes de mais nada, aceitar a realidade de que se tem uma doença, ela é grave e vai demandar todo o cuidado e atenção possível. Negar ou fingir que não está acontecendo não costuma ajudar muito;
2 Ter uma atitude de enfrentamento, mas não de uma guerra. Guerrear não costuma trazer bons resultados. Aquilo que está lá é uma parte de nosso corpo, uma parte da vida, criada pelo Mistério inerente à ela. É importante lidar com a doença e se recusar terminantemente a entregar a rapadura, mas com tranquilidade;
3 Essa é a parte difícil, a mais de todas: aceitar que a morte faz parte do acordo, ela pode ser o final do tratamento, aliás, costuma ser o final de nossa vida biológica e pode ser o desfecho da doença grave. Aceito, mas não concordo, este é o babado;
4 Há um campo de energia na resposta à doença e ao tratamento que aparece durante a jornada que ajuda na busca da cura, que deve sempre ser considerada. Essa é a tal da "Energia Positiva"que deve ser considerada. Tem a ver com a sensação de que o corpo sempre quer se curar e para isso precisa de harmonia energética, não de terrorismo;
Isto quer dizer que o processo é uma corrida de fundo, não de velocidade. A virtude está na resistência, não na pressa.
Posto isso, quando a cura vier, curve-se diante dela e agradeça.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Efeito Placebo e a Fé

Recebi um e-mail de uma nova leitora, estudante de Psicologia, chamada Maria Beatriz, que gostou de um post antigo, em que falo sobre Placebo e Sistema de Crenças. Mas o que seria o tal do efeito Placebo?
Há um episódio de House em que ele está em um avião e um dos passageiros começa a apresentar sintomas do que parecia uma doença infectocontagiosa grave, com febre, dores e vômitos. Após algum tempo, várias pessoas no avião começam a sentir os mesmos sintomas, parecendo uma epidemia alastrando-se rapidamente. O médico vivido por Hugh Laurie pega o interfone da aeromoça e vai perguntando pelos sintomas mais absurdos e todos começam a sentí-los, até serem "desmascarados". Eles não estão doentes, só reproduzindo os sintomas do coreano por autosugestão. A epidemia verdadeira no avião é de sintomas histéricos, não há doença nenhuma. Todos suspiram e vão voltando ao normal. Esse mecanismo ilustra um pouco o Efeito Placebo. Uma forte sugestão, uma crença em algum medicamento e procedimento pode provocar reações positivas ou negativas em pessoas mais ou menos sugestionáveis. Outro dia li uma crítica à Medicina Alopática, a que eu pratico, dizendo que a mesma faz com que as pessoas acreditem mais no doença do que na saúde. Seria um efeito placebo ao contrário, como no episódio de House. As pessoas vão acreditando em doenças cada vez mais complexas e com o discurso "olha que o jacaré te abraça" incorporado à Medicina. Nessa semana perdemos um grande escritor brasileiro, Moacir Sclyar, que teve um AVC durante um procedimento cirúrgico para eliminação de pólipos. Sabe-se que os pólipos podem se malignizar e se transformar em temíveis tumores de Intestino. O AVC do Moacir provavelmente aconteceria em outra situação. Mas não há como se negar que ele faleceu pela complicação de um procedimento simples para prevenir um problema futuro. A necessidade de prevenir esse problema futuro gera morbidade e complicações no presente, por uma Medicina cada vez mais agressiva.
A estudante de Psicologia estará estudando um tema complexo, que se estende pela Psiconeuroimunologia e Psiconeuroendocrinologia. Nem sei se ela imagina a fria. O fato é que a crença do paciente no tratamento já é meio caminho andado. A crença do médico, também, por isso que milhões de dólares são gastos para divulgar os efeitos de determinado medicamento para a classe médica. Devemos então fugir dos médicos, dos procedimentos e dos medicamentos? É claro que não. Mas devemos investigar mais a fundo os mecanismos em que o organismo humano reage como um sistema de autoreparação apenas pelo fato do paciente acreditar que vai melhorar, que o remédio é bom e, mais ainda, que o médico sabe o que está fazendo. Isso faz toda a diferença e explica porque os médicos não foram substituídos por computadores. A relação humana e entre humanos produz mais curas impressionantes do que a Ciência possa imaginar. Boa sorte na sua pesquisa, Beatriz.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Efeito Placebo e o Sistema de Crenças

Em nossos tempos de divórcio entre Ciência e Religião, com a primeira substituindo a última como portadora da Verdade, mesmo que uma verdade móvel e não definitiva, pode parecer um sacrilégio para a nova Inquisição falar do Novo Testamento. Questiona-se a existência histórica de um pregador que viveu na Galiléia há mais de vinte séculos, que pregava o amor, a experiência direta da Divindade ("Eu e meu Pai somos Um") e realizava frequentemente curas milagrosas usando a própria voz, o toque da mão ou misturas singelas como a própria saliva e um punhado da terra arenosa da região. Uma fala sempre se repetia após essas curas : "A tua fé te curou". Isso quer dizer que, não importa a capacidade energética do curador, se o curado não dá passagem a essa energia, a cura é quase impossível (como ficou demonstrado quando esse rabino de nome Jesus não conseguiu curar ninguém em sua terra natal, Nazaré, pois ninguém acreditou que o filho do carpinteiro pudesse curar alguém ).
Não é fato raro na crôncia hospitalar as curas espontâneas, as melhoras inexplicáveis de alguns casos, a participação de fatores extra tratamento médico levando pacientes a uma melhor ou pior evolução. Dentre esses acontecimentos que virtualmente optamos por ignorar todo dia (Uma atitude de muita iluminação: "Se eu não posso explicar então não existe")é o Efeito Placebo. Estudos vivem por contornar o famigerado efeito Placebo e sabe por que? O efeito Placebo representa a ativação de um processo natural de reparação de nosso organismo, ativado por nosso sistema de crenças. Não queremos saber disso, só do efeito de nossas balinhas mágicas. Ativar defesas naturais, baseadas em nossa fé? Que horror!
O efeito Placebo pode ser usado melhor em nossa prática: se existe a crença na medicação e no curador que a está administrando, o resultado tende, quase sempre a ser melhor do que a descrença. Eu costumava dizer em aulas que os médicos deveriam sair da faculdade com um zíper na boca, para tomar muito cuidado com as palavras, sobretudo com as frases supostamente "realistas" que tiram do paciente toda esperança. A esperança pode curar e ficamos corados de tentar interferir na relação do paciente e sua crença no tratamento. Podemos ser defensivamente "realistas" ou pessimistas, esvaziando a esperança que pode ativar defesas orgânicas invisíveis, inexplicáveis pela nossa Ciência "Objetiva". Posso recomendar aos leitores: se precisar de ajuda, prefira os otimistas aos pessimistas. E não hesite em querer o que parece improvável.