Uma estratégia de marketing eficaz para um médico é se tornar referência em algum assunto ou doença. Uma espécie de Top of Mind é sempre boa maneira de ser lembrado ou referendado. Durante um curto espaço de tempo, há mais de uma década, eu tive uma assessora de imprensa que ficava meio louca com a minha falta de definição de produto. No que eu era especialista, afinal? Bom, eu faço uma psiquiatria junguiana e não tem muita gente disposta a aproximar essas áreas de conhecimento. Ela percebeu, meio horrorizada, que Jung não era popular nem entre os psicoterapeutas, quanto mais no respeitável público. Eu era e continuo sendo um generalista, como se pode perceber pelo leque de assuntos desse blog Uma das delícias de ser generalista é atender diversas faixas de idade, dos 15 aos 90 anos.
Lembro de uma interconsulta, isto é uma consulta de um especialista em outra clínica que não a sua de origem; no caso, estava atendendo um velhinho na UTI. O pedido de interconsulta, como de costume, era vago e impreciso, o tal senhor estava depressivo por conta de seu estado clínico. Falava constantemente que preferia morrer. Fui atendê-lo e não era nada disso. Este senhor apresentava uma Insuficiência Renal que a equipe tentava reverter. Um dos tratamentos era a restrição hídrica, ou seja, ele não podia beber nenhum líquido, apenas molhava os lábios quando o desconforto era demais. Ele era o mais doce dos suicidas: disse para mim que queria morrer afogado numa piscina de água mineral, que queria beber água gelada até morrer, mas não aguentava mais aquela restrição. Logo ficou claro que o paciente não estava deprimido e não tinha ideias de morte. Se o colega tivesse dedicado cinco minutos de seu precioso tempo para fazer algumas perguntas, saberia que o vozinho estava poeticamente desejando se afogar em água fresca, precioso líquido. Como eu já estava lá aproveitei para esticar a conversa com o objeto de minha interconsulta. Papo vem, papo vai, ele me contou que a sua esposa havia falecido recentemente, após décadas de casamento feliz. Ele já estava sem ela há cerca de três anos. Subitamente o psiquiatra retornou à conversa. Perguntei para ele se a sua ideia de morrer bebendo uma piscina não tinha a ver com o desejo de reencontrar a sua esposa. Ele olhou para mim com o mais doce dos sorrisos e me perguntou “Como eu posso reencontrar alguém de quem nunca me separei?”. Fiquei com aquela cara de bobo, com a caneta pendurada na mão e o carimbo dentro do bolso. Quase pedi para ele me atender. O seu assunto não era a morte, mas a vida. Para ele, a sua esposa era uma experiência viva. Como uma piscina de água fresca.
Uma senhora, que veio ao consultório por um quadro de luto complicado após a morte de um companheiro de décadas, ficou embasbacada quando o seu filho, depois de alguns casamentos, avaliou o seu casamento de Bodas de Ouro como neurótico. Ela ficou com o mesmo homem durante todo aquele tempo porque teve o azar de casar antes da Revolução Sexual, senão teria tido a liberdade de casar mais vezes. O casamento dura enquanto dura o tesão, disse ele.
Nossa sociedade de hiperconsumo criou um bem de consumo, que é o sexo de consumo. Uma vantagem de atender diversas idades é aprender com esses pacientes de pele vincada pelo tempo o que acontece com a incidência do tempo em sua vida e vivência. Falei para aquela senhora que seu filho talvez fosse muito jovem para entender um amor que resiste ao teste do tempo, que se aprofunda e cresce dentro da alma do jeito que ela sentiu. O seu amor não era um sintoma neurótico. “Psicologizar” o amor é um sintoma neurótico. Uma queixa das pessoas de ambos os sexos no consultório é exatamente a falta de tempo para uma relação crescer e se desenvolver. Estão todos muito ocupados com sua autoestima. Não dá para provar de um amor que cresça em si, sob os efeitos dos anos.
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domingo, 27 de julho de 2014
domingo, 20 de julho de 2014
Amor de Proveta
Uma cliente, com seu humor deliciosamente ácido citou, há alguns anos, um estudo europeu que mostrava uma alta incidência de crianças que não tinham compatibilidade genética com seus pais, ou, no caso, com os homens que as criavam. Ela observou, entre boas risadas, que aquela era a prova científica de que as mulheres escolhiam um homem para engravidar e outro para criar o seu filho. O pior é que a ironia procede. Escolher o doador do material genético e o homem que cuida dos filhotes podem ser processos bem diferentes do ponto de vista evolutivo.
As moças não sabem, mas se queixam, nesses tempos de amor virtual e encontros no Tinder, que procuram um tipo e encontram o outro, e o que é pior, demoram muito para saber a diferença entre um e outro tipo. Saem nas baladas e encontram caras prontos a chamá-las de maravilhosas e ressaltar todas as suas qualidades, existentes e inexistentes, para conseguir a aproximação e o sucesso amoroso de uma noite de amor, que, na verdade, é uma noite de sexo. O romance termina rápido, assim como a paixão de pipoca de micro ondas, que termina após três minutos de barulho. E um gosto de isopor no céu da boca, no dia seguinte.
As espécies onde os filhotes precisam decisivamente da presença do macho para a sua sobrevivência contam com as maiores taxas de Ocitocina, um Neuro hormônio cada vez mais estudado pela Neurociência. Um ovo de pinguim, por exemplo, pode ser chocado durante semanas por um papai congelado e faminto, mas que com suas altas taxas de Ocitocina fica grudado em seu futuro bebê, mesmo que isso lhe custe a vida. Não sei como dizer isso, mas aparentemente o valor evolutivo da fidelidade masculina se restringe a esse tipo de filhote altamente dependente da presença do papi. Em primatas, nossos primos, é mais comum ver as fêmeas defendendo sua prole com a própria vida, enquanto os machos ficam catando piolhos. Os níveis de Testosterona e Ocitocina não devem ser, necessariamente, proporcionais. A minha cliente e o estudo tem toda razão: as mulheres tendem a procriar com machos ricos em Testosterona, mas vão querer criar os filhotes com os ricos em Ocitocina. Por isso que os “bad boys” costumam fazer mais sucesso do que os “bonzinhos”. Na noite e na cama. Os que sabem ser galantes, então, ganham de goleada dos caras “legais”.
Se eu ganhar da Megasena, pretendo me dedicar a vários projetos. Um deles é desenvolver uma testagem imediata dos níveis de Ocitocina para avaliar candidatos na balada. O cara chegou na menina, disse que ela é maravilhosa, dança bem, coloca o seu desejo de forma encantadora e vai ganhando a confiança da presa, digo, da pretendente, ela já está perto de sair com ele para um “lugar mais tranquilo”. Antes de dizer sim, entre um beijo ardente e outro, imagine que ela coloca um cotonete na boca do nosso candidato e, para a sua surpresa, coloca numa máquina para medida da sua Ocitocina. Já pensou? Detectar in loco o chavequeiro e diferenciá-lo do cara que realmente liga no dia seguinte e não tem dificuldade de ficar dentro de uma relação? Para ganhar dos dois lados, poderíamos fazer também um spray de Ocitocina, para o candidato se aplicar antes do “Bafômetro do Amor”.
Não está longe o dia, senhoras e senhores, que o amor vai ter um diagnóstico laboratorial.
As moças não sabem, mas se queixam, nesses tempos de amor virtual e encontros no Tinder, que procuram um tipo e encontram o outro, e o que é pior, demoram muito para saber a diferença entre um e outro tipo. Saem nas baladas e encontram caras prontos a chamá-las de maravilhosas e ressaltar todas as suas qualidades, existentes e inexistentes, para conseguir a aproximação e o sucesso amoroso de uma noite de amor, que, na verdade, é uma noite de sexo. O romance termina rápido, assim como a paixão de pipoca de micro ondas, que termina após três minutos de barulho. E um gosto de isopor no céu da boca, no dia seguinte.
As espécies onde os filhotes precisam decisivamente da presença do macho para a sua sobrevivência contam com as maiores taxas de Ocitocina, um Neuro hormônio cada vez mais estudado pela Neurociência. Um ovo de pinguim, por exemplo, pode ser chocado durante semanas por um papai congelado e faminto, mas que com suas altas taxas de Ocitocina fica grudado em seu futuro bebê, mesmo que isso lhe custe a vida. Não sei como dizer isso, mas aparentemente o valor evolutivo da fidelidade masculina se restringe a esse tipo de filhote altamente dependente da presença do papi. Em primatas, nossos primos, é mais comum ver as fêmeas defendendo sua prole com a própria vida, enquanto os machos ficam catando piolhos. Os níveis de Testosterona e Ocitocina não devem ser, necessariamente, proporcionais. A minha cliente e o estudo tem toda razão: as mulheres tendem a procriar com machos ricos em Testosterona, mas vão querer criar os filhotes com os ricos em Ocitocina. Por isso que os “bad boys” costumam fazer mais sucesso do que os “bonzinhos”. Na noite e na cama. Os que sabem ser galantes, então, ganham de goleada dos caras “legais”.
Se eu ganhar da Megasena, pretendo me dedicar a vários projetos. Um deles é desenvolver uma testagem imediata dos níveis de Ocitocina para avaliar candidatos na balada. O cara chegou na menina, disse que ela é maravilhosa, dança bem, coloca o seu desejo de forma encantadora e vai ganhando a confiança da presa, digo, da pretendente, ela já está perto de sair com ele para um “lugar mais tranquilo”. Antes de dizer sim, entre um beijo ardente e outro, imagine que ela coloca um cotonete na boca do nosso candidato e, para a sua surpresa, coloca numa máquina para medida da sua Ocitocina. Já pensou? Detectar in loco o chavequeiro e diferenciá-lo do cara que realmente liga no dia seguinte e não tem dificuldade de ficar dentro de uma relação? Para ganhar dos dois lados, poderíamos fazer também um spray de Ocitocina, para o candidato se aplicar antes do “Bafômetro do Amor”.
Não está longe o dia, senhoras e senhores, que o amor vai ter um diagnóstico laboratorial.
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