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domingo, 19 de junho de 2016

A Inveja do Útero

Estou voltando de um evento que gosto muito e já citei em alguns posts passados: o Congresso de Cérebro, Comportamento e Emoções. É um Congresso multidisciplinar, que tenta fazer pontes entre Psiquiatria, Neurologia, Neuropsicologia e outras áreas do que se está se firmando como uma tendência: todas essas disciplinas se fundirem na Neurociência Cognitiva. Uma coisa que para mim era particularmente atraente era a aproximação da Psiquiatria careta com as Artes e com visões não ditadas pelos laboratórios, que pagam a conta do convescote e vendem seus peixes. Esse Congresso propaga essas mensagens, claro, mas fornece outras, muitas outras.
Neste ano o Congresso foi em Buenos Aires, que é sempre agradável de visitar e desagradável de retornar e medir na balança os efeitos da estadia. A Argentina vive hoje os mesmos efeitos de terra arrasada que se observa nas chamadas economias bolivarianas, como observamos aqui no Brasil. Não são os coxinhas que sofrem, nem os mortadelas que ainda se agarram às suas mamatas, mas os mais pobres mesmo, que ficaram mais pobres depois de anos de farra distributivista. Mas não vou me deter nesse assunto. Estava falando do Congresso, que neste ano foi menor e mais pobre, muito pelo paradoxo de se fazer um congresso brasileiro em solo argentino. A verba foi menor e a programação sofreu com isso, embora com muito esforço para segurar a pose. Hoje a Folha traz uma matéria sobre o Congresso e dois filmes que foram objetos de algumas mesas redondas animadas: os fabulosos “Relatos Selvagens” e “Divertida Mente”. Como já escrevi alguns posts sobre o segundo filme, vou fazer um comentário sobre o primeiro.
“Relatos Selvagens”, ou “Contos Selvagens” é um excepcional filme argentino de 2014, que apresenta seis pequenas historietas sobre pessoas no limite que reagem de maneira violentíssima e trágica diante dos absurdos da vida moderna. O filme antecipou de maneira impressionante o episódio de um piloto da Lufthansa, onde o piloto se trancou na cabine e jogou o avião contra os Alpes. Espero que não o tenha inspirado. O filme mostra os passageiros tentando em vão bater na porta e implorar ao enlouquecido piloto que não faça aquilo. Como não é o cinemão americano, não há ninguém dentro ou fora do avião com superpoderes, e ele acaba caindo. O episódio do filme mais comentado é o de um casamento, onde a noiva percebe, meio por acaso, que seu noivo está tendo um caso com uma das convidadas, uma morena maravilhosa que trabalha em seu escritório. Ao perceber que está sendo enganada, a pequena e enfurecida noiva inicia uma sequência de atos enlouquecidos de vingança, como transar com o maitre e arremessar a tal sirigaita em espelhos do salão. O comentarista/pesquisador que falou sobre o filme fez uma leitura pobre da personagem, afirmando que ela seria uma Borderline incapaz de modular ou comandar os próprios impulsos, destruindo assim a festa, o noivo e a suposta amante.
Para começo de conversa, o filme sintoniza com o momento fabulosamente grave que estamos vivendo em nosso mundo. As pessoas estão acometidas pelo desespero e por uma sensação difusa de não saída; explodem em qualquer lugar ou situação. A palavra “surtar” ou “surto” está incorporada ao nosso dia a dia. Está todo mundo surtando. Basta dar uma olhada no noticiário da semana: estupro coletivo, assassinato em massa em boate gay, deputada assassinada na Inglaterra, um candidato à presidência como Donald Trump, sempre visto como piada e agora com chances reais de se eleger o homem mais poderoso do mundo, gente, o que está acontecendo?
Fui acusado delicadamente de machismo após o post “O que Os Homens Querem”, em que na verdade descrevi uma imagem de Anima numa personagem de filme. Que é o que os homens querem, mas não levam. Mas, de novo, não é o assunto do post. Essa cena do casamento no “Relatos Selvagens” não descreve só uma mocinha surtada em ciúmes destruindo o próprio casamento. É uma cena profundamente feminista, muito além dessas feministas militantes que em tudo se sentem agredidas pelo desejo masculino. É uma reação extremada ao pior machismo, que é desposar uma mulher bonita, interessante e inteligente para tratá-la como um bibelô ou uma retardada. O orgulho boçal de levar a namoradinha e deixá-la a poucos metros da mulher a quem acabou de jurar o seu amor, essa é a agressão do “tudo pode” de nossa falta coletiva de bússola ética. A moça faz o noivo vomitar, chorar e implorar que pare com aquilo. O seu falso orgulho de machinho calhorda é pulverizado pela força uterina de ser mulher. Isso é que é Feminismo, meninas. Por favor não façam isso comigo, mas isso sim é que é a força do Feminino. O colega leu mal a personagem. Ela não é uma Borderline. É uma mulher no topo de seu desejo e integridade. Para além das boas maneiras que as vovós ensinavam e, pior, o politicamente correto perpetua. Seria o filme um vômito contra a camisa de força do Politicamente Correto?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O Que Os Homens Querem

Acho que neste post vou conseguir comprar muitas brigas: com militantes feministas, admiradores de Futebol Americano e fãs de cinema no Brasil. Não necessariamente nesta ordem.
Há uma palestra de uma terapeuta de casal e estudiosa das relações a dois, Esther Perel, em que ela faz uma deliciosa provocação, na minha opinião com um alvo certeiro: uma certa moral pós feminista. Esther fala de infidelidade conjugal com acidez e argúcia, e nas entrelinhas vai desenhando que não é uma pulada de cerca que vai obrigatoriamente encerrar uma história de amor. Ela surpreende ao dizer que, hoje em dia, a vergonha é ficar. Hillary Clinton está se havendo com esse novo moralismo, com pós feministas se descabelando por ela não ter abandonado o marido safado, autor de traições e mentiras que comprometeram o país, a história e sua família. Como não abandoná-lo? A vergonha é perdoar, ou, na ausência do perdão, não abandonar o sacana. O Feminismo, neste ponto, exclui e tolhe o Feminino. Freud desistiu de entender, afinal, o que querem as mulheres? Eu posso sugerir sobre o que querem os homens... Querem mulheres que exerçam a feminilidade.
Não gosto particularmente de Futebol Americano. Parece um bom pretexto para marmanjos ficarem de agarro. Sem falar dos uniformes colantes e das ombreiras. Macheza quando é muita acaba dando a volta e virando outra coisa. Mas tudo bem. Já cutuquei as feministas, agora os gorilas do Football.
Adoro o “Football Movie” “A Grande Escolha”. Cuidado para não confundir com “A Grande Aposta” filme atual e oscarizável. Nunca duvide da falta de imaginação dos títulos de filmes em Português. “A Grande Escolha” é um filme sobre o Draft Day do Futebol Americano, onde os times profissionais vão escolher novos atletas para a temporada, geralmente egressos dos times universitários. O filme é sobre o manager do Cleveland Browns, Sonny Weaver Jr, que é o cara que vai fazer as escolhas e as trocas de jogadores e de tudo o que se pode imaginar. Para quem não é acostumado com o esporte e o Draft, é um filme quase incompreensível. É melhor assistir um filme iraniano.
Pois o filme é bem legal e fala, basicamente, de um homem dividido entre as suas intuições profundas e as opiniões enlouquecidas de torcida, presidente, técnico e até de sua mãe. Mas tem alguém que se destaca nesta bagunça: a namorada do manager, que começa o dia contando para ele que está grávida, mas compreende sua reação sem graça no dia do Draft. Se as meninas, e as feministas, quiserem saber o que querem os homens, prestem atenção na namorada de Sonny, Ali. Está tudo lá. Ela é a escuta profunda, que entende quando o seu homem fraqueja, e erra, mas sobretudo, acredita o tempo todo em sua intuição e astúcia. Ela sabe que ele pode inventar um jeito paradoxal de sair do buraco que ele próprio cavou.
Ali, que é interpretada com segurança e delicadeza por Jennifer Garner, tem uma beleza pouco óbvia, é suave, delicada e, sobretudo, absolutamente atenta ao homem que ama, ajudando em sua travessia e entendendo, ao contrário de sua mãe mocréia, tudo o que se passa com ele no dia mais difícil do ano. Ela é a personificação da Anima de Sonny, o Feminino que acolhe, regenera e mostra as linhas tortas que levam o homem a encontrar o seu caminho. E, além de tudo, gosta e entende de Futebol. Só no cinema, mesmo.