Uma palavra mágica hoje nas terapias comportamentais é Regulação Emocional, e isso tem bons motivos. A primeira vantagem do termo é substituir a fantasia de Controle. Muita gente chega em terapia com a queixa: “Eu não consigo me controlar”. Isso deriva de décadas de observações do tipo: “Controle-se; Calma!; Engole o choro”. Os Afetos e as Emoções são animais ariscos, e quando alguém tenta controlá-los ou engoli-los, os resultados não costumam ser bons. E olha que tem uma grande parcela da humanidade tentando. Tem um ditado oriental que diz: “Você quer controlar o seu rebanho? Dê um pasto grande para ele”. Esse é um ótimo ditado para nossas Emoções e Sentimentos: eles dão menos coices se encontram um espaço interno de desenvolvimento. Um espaço para serem observados, cuidados, de preferência alimentados, para que não sejam animais no cativeiro. Nossa cultura darwiniana pode muitas vezes entender sentimentos como fraquezas; a funcionária “espanou”, o gerente “surtou”, fulano “não dá conta”. Sentimentos são pontos fracos a serem controlados, e tome ansiolíticos e indutores de sono para aguentar o tranco.
Outro aspecto do lidar com os afetos é a cegueira emocional. Muitos chefes focados apenas em resultados estão perdendo seus empregos, não porque as empresas se incomodem tanto assim com os maus tratos, mas antes pelo aumento de custos de processos de assédio moral que estão começando a receber. E os caras tem razão de reclamar quando demitidos: na hora da cobrança e da pressão, o que vale são os números, na hora da demissão, você deveria ter sido mais humano com as pessoas? Não é incomum que chefes não se lembrem ou não consigam notar a sua própria rispidez, ou ter gritado durante uma reunião. A cegueira emocional não permite perceber as alterações no seu próprio estado de humor ou o impacto das palavras nos olhos das pessoas. A cultura do “Apenas faça!”gera prejuízos humanos, recalls e contabilidade criativa, o que já levou empresas grandes à quebradeira. Investir em Atenção e Regulação Emocional gera lucro pessoal e coletivo. Mas como regular afetos?
O primeiro passo já foi mencionado: um bom jeito de regular afetos é percebendo-os em mim e no outro. Dar espaço não significa fazer reuniões em que todo mundo dê gritos primais ou esmurre travesseiros, nem chore gritando pela mamãe. Dar espaço é dar validação aos sentimentos. Tem uma cena no filme da Pixar já tão mencionado nesse blog, Divertida Mente, em que a Tristeza se aproxima de Bing Bong, o amigo imaginário da menina Riley. Ele começa a lembrar de como era divertido ser o amiguinho daquela menina alegre e amada. A Tristeza, para desespero da chatinha Alegria, vai dando validação para os sentimentos de luto e saudade da época em que Bing Bong era uma figura central na Psique de Riley. Bing Bong chora lágrimas de balas e caramelos. Após manifestar e ter seu choro validado, ele “enxuga” as lágrimas e volta para a jornada. A Alegria pergunta para a Tristeza: “Como você fez isso?”. A dona Tristeza responde: “Eu só deixei ele falar”.
Vivemos numa ditadura da Alegria que torna a modulação de afetos uma tarefa e tanto: as mães querem que a infância seja um paraíso de brincadeiras e boas lembranças, evitando o grande vilão que espreita todas as cabeças maternas, e que não está no Divertida Mente: o espectro do Trauma. Nenhuma criança pode sofrer traumas, a infância tem que ser um oásis de alegrias e divertimento. Isso gera outra consequência futura, que é muita gente não querer virar gente grande por medo da terrível responsabilidade. Ou dos trancos que a vida dá em todo mundo. Se eu não crescer, não sofrerei traumas. Esse é o trauma por medo do trauma.
Na vida corporativa, temos outro fantasma, a Motivação: funcionários tristes ou insatisfeitos ganham a pecha de desmotivados, ou, pior, criadores de problemas. Não dão conta. Em tempos de degola de empregos, como os atuais, isso pode fazer muita diferença. Nos feedbacks, a palavra de ordem: “Você precisa se controlar”.
Regular emoções é antes de tudo, lidar com elas.Envolve identificá-las, manifestá-las, elaborá-las. Vamos precisar disso em família, no trabalho, nas relações. Como tudo o que propomos, é mais fácil falar do que fazer. Mas para fazer é preciso praticar. A partir de aqui e agora.
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segunda-feira, 1 de agosto de 2016
domingo, 10 de julho de 2016
Bom Dia, Tristeza
Meus filhos cresceram com os filmes da Pixar, e eu, claro, virei um fã. Os filmes invariavelmente tem um tema junguiano da Jornada Arquetípica, do herói de origem humilde que, por acaso ou por cometer um pequeno erro, é lançado numa jornada heróica onde vai enfrentar monstros e perigos nunca imaginados. Não assisti o “Procurando Dory”, devo reparar essa falha na minha filmografia até a próxima semana, mas posso usar o primeiro filme da série, o Nemo, como um bom exemplo de Jornada Arquetípica. Nemo desenvolve um Estresse Pós Traumático quando perde a sua companheira e filhotes num ataque de barracuda. Ele vira um pai superprotetor e neurótico de seu único filho, Nemo. O Erro Fundamental ocorre durante uma brincadeira de Nemo com seus amigos, que o faz sair dos limites protegidos pelos corais. Ele é capturado por um mergulhador e seu pai vai ter que superar seus medos e traumas para atravessar o mar infinito atrás de seu filho perdido. Ele vai ser ajudado por muitos amigos e situações onde pequenas coincidência e acasos vão indicando o caminho até Nemo. Essa é a Jornada Arquetípica, uma metáfora da nossa vida e desenvolvimento.
A última obra prima da Pixar foi o Divertida Mente. O filme contou com a assessoria de um time de Neurocientistas para criar o mundo interno de uma menina de 11 anos, Riley, que passa por uma difícil transição em sua vida. As Emoções Básicas comandam sua Cognição na Sala de Controle. Como nos outros filmes, ocorre um Erro, e a Alegria e Tristeza se perdem dentro do Cérebro da menina. As suas reações passam a ser comandadas pela Raiva, o Medo e o Tédio. Ela se torna claramente uma pré adolescente, portanto. Alegria comete o erro fundamental, quando tenta a todo custo controlar a Tristeza que está contaminando a Psique de Riley. No meio da briga, elas são sugadas para as zonas de Memória e vão precisar atravessar um longo caminho para voltar à Sala de Controle. O problema é que as pontes que poderiam levá-las de volta também estão desmoronando: as relações com a Família, a Amizade, a Brincadeira e o Hóquei sobre o gelo, que fundamentavam a identidade de Riley, começam a desmoronar no meio da desadaptação à nova vida em San Francisco.
O filme fala sobre muita coisa interessante e poderia gerar uma dezena de posts, mas hoje vou falar sobre a função estruturante da Tristeza. Como o pai de Nemo tem a ajuda da desmiolada Dory e através de suas trapalhadas vai achando o caminho até seu filho, a decidida e algo obsessiva Alegria vai precisar rebocar a Tristeza no começo, mas no decorrer da jornada vai ser aconselhada e algumas vezes salva pela Tristeza. Uma cena particularmente bonita é quando a Alegria revê uma cena muito alegre de Riley sendo jogada para cima por sua equipe de Hóquei, em triunfo. Com a ajuda da Tristeza, ela recupera a cena inteira. Riley tinha errado a última jogada e seu time perdeu o jogo. Ela estava sobre o galho de uma árvore chorando e seus pais se aproximaram, acolhendo a Tristeza. Foi aí que seu time chegou e a jogou para cima, reconhecendo a sua importância. Dona Alegria percebe que só entrou em cena pela função estruturante da Tristeza e a interiorização da perda e do luto. Ninguém começou a cena comemorando uma derrota ou uma frustração.
Acho que as crianças são muito pressionadas em nossos dias pela tirania da Alegria. As mães ficam como cães de caça vigiando o tempo todo se as crianças são suficientemente felizes e surtam completamente quando as outras emoções tomam conta da Sala de Controle de seus filhos. Um de meus consultórios tem uma criança na vizinha que chora desconsolado por horas. A sua mãe varia o lidar com a situação com gritos que aumentam a choradeira até a perfeita apatia de simplesmente não fazer nada para acolher a Tristeza. Ele chora, chora, e ninguém faz nada. Do lado de um consultório de Psiquiatria e Psicoterapia. Quando a cena é dominada pela Alegria, aí tudo dá certo, todos brincam e se divertem no quintal. Mas a Tristeza, o Cansaço e a Raiva desencadeiam uma profunda intolerância e Raiva silenciosa em sua mãe. A criança fica abandonada no meio desses sentimentos. Parece que ela só será amada se estiver alegre. Essa é a tirania da Alegria, que aparece nas famílias esfuziantes dos comerciais de Margarina (esse deve ser outro efeito colateral da margarina, além da gordura Trans).
Jung pensou a nossa Psique como um sistema continuamente em Equilíbrio/Desequilíbrio, onde o Caos demanda muita energia para sua Organização. Não existe nesse sistema uma emoção boa ou ruim em si. Há lugar para a Alegria, a Tristeza, o Medo, a Raiva, a Repulsa e a Atração: todas tem a sua função Estruturante/Desestruturante dependendo da ocasião. Acho que ele estaria muito incomodado com a ditadura da Puerilidade que determina o nosso tempo.
A última obra prima da Pixar foi o Divertida Mente. O filme contou com a assessoria de um time de Neurocientistas para criar o mundo interno de uma menina de 11 anos, Riley, que passa por uma difícil transição em sua vida. As Emoções Básicas comandam sua Cognição na Sala de Controle. Como nos outros filmes, ocorre um Erro, e a Alegria e Tristeza se perdem dentro do Cérebro da menina. As suas reações passam a ser comandadas pela Raiva, o Medo e o Tédio. Ela se torna claramente uma pré adolescente, portanto. Alegria comete o erro fundamental, quando tenta a todo custo controlar a Tristeza que está contaminando a Psique de Riley. No meio da briga, elas são sugadas para as zonas de Memória e vão precisar atravessar um longo caminho para voltar à Sala de Controle. O problema é que as pontes que poderiam levá-las de volta também estão desmoronando: as relações com a Família, a Amizade, a Brincadeira e o Hóquei sobre o gelo, que fundamentavam a identidade de Riley, começam a desmoronar no meio da desadaptação à nova vida em San Francisco.
O filme fala sobre muita coisa interessante e poderia gerar uma dezena de posts, mas hoje vou falar sobre a função estruturante da Tristeza. Como o pai de Nemo tem a ajuda da desmiolada Dory e através de suas trapalhadas vai achando o caminho até seu filho, a decidida e algo obsessiva Alegria vai precisar rebocar a Tristeza no começo, mas no decorrer da jornada vai ser aconselhada e algumas vezes salva pela Tristeza. Uma cena particularmente bonita é quando a Alegria revê uma cena muito alegre de Riley sendo jogada para cima por sua equipe de Hóquei, em triunfo. Com a ajuda da Tristeza, ela recupera a cena inteira. Riley tinha errado a última jogada e seu time perdeu o jogo. Ela estava sobre o galho de uma árvore chorando e seus pais se aproximaram, acolhendo a Tristeza. Foi aí que seu time chegou e a jogou para cima, reconhecendo a sua importância. Dona Alegria percebe que só entrou em cena pela função estruturante da Tristeza e a interiorização da perda e do luto. Ninguém começou a cena comemorando uma derrota ou uma frustração.
Acho que as crianças são muito pressionadas em nossos dias pela tirania da Alegria. As mães ficam como cães de caça vigiando o tempo todo se as crianças são suficientemente felizes e surtam completamente quando as outras emoções tomam conta da Sala de Controle de seus filhos. Um de meus consultórios tem uma criança na vizinha que chora desconsolado por horas. A sua mãe varia o lidar com a situação com gritos que aumentam a choradeira até a perfeita apatia de simplesmente não fazer nada para acolher a Tristeza. Ele chora, chora, e ninguém faz nada. Do lado de um consultório de Psiquiatria e Psicoterapia. Quando a cena é dominada pela Alegria, aí tudo dá certo, todos brincam e se divertem no quintal. Mas a Tristeza, o Cansaço e a Raiva desencadeiam uma profunda intolerância e Raiva silenciosa em sua mãe. A criança fica abandonada no meio desses sentimentos. Parece que ela só será amada se estiver alegre. Essa é a tirania da Alegria, que aparece nas famílias esfuziantes dos comerciais de Margarina (esse deve ser outro efeito colateral da margarina, além da gordura Trans).
Jung pensou a nossa Psique como um sistema continuamente em Equilíbrio/Desequilíbrio, onde o Caos demanda muita energia para sua Organização. Não existe nesse sistema uma emoção boa ou ruim em si. Há lugar para a Alegria, a Tristeza, o Medo, a Raiva, a Repulsa e a Atração: todas tem a sua função Estruturante/Desestruturante dependendo da ocasião. Acho que ele estaria muito incomodado com a ditadura da Puerilidade que determina o nosso tempo.
domingo, 6 de setembro de 2015
Divertidamente, ou Quase
O filme "Divertida Mente"já deu um post nesse blog, bastante visto e comentado. E ainda tem gente que pensa que os desenhos da Pixar são para crianças. O filme se passa dentro do Cérebro de uma pré adolescente, Riley, que atravessa uma dura transformação em sua vida, interior e exterior. Dentro da Sala de Controle do seu Cérebro existem cinco personagens: Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojo, que eu preferiria chamar de Tédio, ou de Bode. Iniciar a adolescência exige uma grande modificação na bioquímica de nosso Cérebro, transformando aquelas crianças animadas e encantadas naqueles seres permanentemente mal humorados e bodeados com tudo. Provavelmente uma mudança profunda na Neurotransmissão, com diminuição de Dopamina. Tudo vira um imenso tédio. Riley está só começando essa fase. No final do filme, tudo parece bem, e a líder da gangue, a Alegria, percebe que há um novo botão no painel, chamado "Puberdade". Será que teremos a sequência do D"ivertida Mente na incrível jornada da puberdade de Riley? Tomara. "
A Sala de Controle mostra o desequilíbrio entre o Positivo e o Negativo nas várias camadas de nossa Psique. Medo, Raiva, Tristeza e Nojo são todas processadas em nosso Cérebro Emocional, particularmente em uma estrutura do tamanho de uma ervilha, chamada Amígdala (não confundir com as Amígdalas da Garganta, que vendem muito antibiótico quando infeccionam). Pois a pequena Amígdala pode causar muita confusão para todos, como o filme mostra, sobretudo quando Alegria e Tristeza são ejetadas para fora da Sala de Controle. Riley, como uma boa pré adolescente, passa a ser comandada pelos remanescentes, Medo, Raiva e Nojo, ou Tédio. Isso parece familiar? Um ser percorrido por explosões de raiva, que se esforça muito para esconder seu medo de tudo, e que acha tudo absolutamente um porre, o tempo todo? Me parece uma boa descrição do humor na difícil transição da infância para a idade adulta, que muitos não conseguem completar.
A Alegria, por sua vez, tenta o tempo todo organizar aquela bagunça e proteger a menina dos traumas da transição. A Alegria é chata, controladora e obsessiva em tentar controlar os outros sentimentos ditos "negativos". A Alegria parece com a mãe de Riley e isso não é por acaso. A Alegria é o nosso Córtex Pré Frontal, e suas funções são muito formatadas, ou não, pelas mães. Uma das "Leis de Spinelli", acho que a 34 (os números são aleatórios) diz que "O primeiro Pai é a Mãe". Quem vai conter as explosões de Raiva, acolher a Tristeza, apaziguar o Medo e tolerar o Bode vai ser a mãe, ou quem desempenhar a função gigantesca. A mãe é quem vai estruturar o Córtex Pré Frontal, e se a tarefa não for bem realizada, vai determinar o futuro psiquiátrico da pessoa.
No final do filme, a Alegria vai conseguir um salto junguiano de perceber o valor dos outros sentimentos, sobretudo da Tristeza, no Todo da psique. Incorporar as emoções e os afetos ditos "negativos"não criam a fraqueza, mas a verdadeira força. Muita gente acha essa ideia incompreensível.
Tem uma história que eu acho encantadora em um livro de Bert Hellinger. Ele usa muitas parábolas para captar a essência da Psique, que está sempre no Paradoxo, e o Paradoxo não pode caber dentro de escalas de avaliação ou equações lineares. Na pequena história, Jesus se debruça sobre um aleijado e se compadece de seu sofrimento. Pergunta para ele se não prefere receber uma de suas curas milagrosas e ficar livre de seu aleijão. O homem se vira para o rabi e gentilmente recusa essa ajuda. Jesus se volta a seus apóstolos e diz que "Em Verdade vos digo que há mais entre esse homem e Deus do que todos nós". Viu? Um paradoxo. O paradoxo da aceitação total e incondicional da totalidade da experiência da vida, que inclue toda a experiência da vida, que inclue Alegria, Tristeza, Dor , Gozo, Luz e Sombra. A aceitação, sobretudo, de nosso Aleijão.
Jung acreditava que a doença estava na unilateralidade, em acreditar apenas no Bem, tentando extirpar o Mal, como na tentativa obsessiva da Alegria tentando apagar todas as lembranças de Tristeza de Riley para construir uma Infância maravilhosa e sem dor, o que, sabemos, não é possível nem compatível com a vida. O aleijado da parábola, entretanto, fala de um degrau mais profundo de integração, que é a aceitação radical de nossa limitação e nosso destino. Isso não é para amadores.
A Sala de Controle mostra o desequilíbrio entre o Positivo e o Negativo nas várias camadas de nossa Psique. Medo, Raiva, Tristeza e Nojo são todas processadas em nosso Cérebro Emocional, particularmente em uma estrutura do tamanho de uma ervilha, chamada Amígdala (não confundir com as Amígdalas da Garganta, que vendem muito antibiótico quando infeccionam). Pois a pequena Amígdala pode causar muita confusão para todos, como o filme mostra, sobretudo quando Alegria e Tristeza são ejetadas para fora da Sala de Controle. Riley, como uma boa pré adolescente, passa a ser comandada pelos remanescentes, Medo, Raiva e Nojo, ou Tédio. Isso parece familiar? Um ser percorrido por explosões de raiva, que se esforça muito para esconder seu medo de tudo, e que acha tudo absolutamente um porre, o tempo todo? Me parece uma boa descrição do humor na difícil transição da infância para a idade adulta, que muitos não conseguem completar.
A Alegria, por sua vez, tenta o tempo todo organizar aquela bagunça e proteger a menina dos traumas da transição. A Alegria é chata, controladora e obsessiva em tentar controlar os outros sentimentos ditos "negativos". A Alegria parece com a mãe de Riley e isso não é por acaso. A Alegria é o nosso Córtex Pré Frontal, e suas funções são muito formatadas, ou não, pelas mães. Uma das "Leis de Spinelli", acho que a 34 (os números são aleatórios) diz que "O primeiro Pai é a Mãe". Quem vai conter as explosões de Raiva, acolher a Tristeza, apaziguar o Medo e tolerar o Bode vai ser a mãe, ou quem desempenhar a função gigantesca. A mãe é quem vai estruturar o Córtex Pré Frontal, e se a tarefa não for bem realizada, vai determinar o futuro psiquiátrico da pessoa.
No final do filme, a Alegria vai conseguir um salto junguiano de perceber o valor dos outros sentimentos, sobretudo da Tristeza, no Todo da psique. Incorporar as emoções e os afetos ditos "negativos"não criam a fraqueza, mas a verdadeira força. Muita gente acha essa ideia incompreensível.
Tem uma história que eu acho encantadora em um livro de Bert Hellinger. Ele usa muitas parábolas para captar a essência da Psique, que está sempre no Paradoxo, e o Paradoxo não pode caber dentro de escalas de avaliação ou equações lineares. Na pequena história, Jesus se debruça sobre um aleijado e se compadece de seu sofrimento. Pergunta para ele se não prefere receber uma de suas curas milagrosas e ficar livre de seu aleijão. O homem se vira para o rabi e gentilmente recusa essa ajuda. Jesus se volta a seus apóstolos e diz que "Em Verdade vos digo que há mais entre esse homem e Deus do que todos nós". Viu? Um paradoxo. O paradoxo da aceitação total e incondicional da totalidade da experiência da vida, que inclue toda a experiência da vida, que inclue Alegria, Tristeza, Dor , Gozo, Luz e Sombra. A aceitação, sobretudo, de nosso Aleijão.
Jung acreditava que a doença estava na unilateralidade, em acreditar apenas no Bem, tentando extirpar o Mal, como na tentativa obsessiva da Alegria tentando apagar todas as lembranças de Tristeza de Riley para construir uma Infância maravilhosa e sem dor, o que, sabemos, não é possível nem compatível com a vida. O aleijado da parábola, entretanto, fala de um degrau mais profundo de integração, que é a aceitação radical de nossa limitação e nosso destino. Isso não é para amadores.
domingo, 19 de julho de 2015
Divertida (?) Mente
Se você que está entrando nesse blog não assistiu o novo filme da Pixar, “Divertida Mente” (título em português novamente lamentável para o original, “Inside Out”), talvez seja melhor correr para algum cinema e vê-lo. Vou evitar alguns spoilers, mas outros não. Vamos lá.
Os antecessores dos psiquiatras e psicoterapeutas foram os xamãs, os curandeiros, os sacerdotes. Eles entendiam a Depressão como um estado de Perda da Alma e faziam seus rituais para trazer de volta a alma perdida. Muitas vezes, depois de um tempo de tratamento eu finalmente me apresento para a pessoa que, gradualmente, vai recuperando as suas próprias características, como se estivesse exilada de si própria e tivesse que fazer um longo caminho de volta para se reencontrar. Um caminho de volta que atribuímos aos medicamentos, mas que é muito mais que isso, na opinião desse escriba. Quando a doença começa a melhorar, finalmente eu tenho a impressão de receber a pessoa “de verdade”, não aquela que chegou ao consultório.
Eu seria capaz de jurar que algum roteirista de “Inside Out” passou por uma Depressão ou teve alguém muito próximo com a doença. De preferência, algum adolescente deprimido. A personagem principal do filme é uma garotinha, Riley, filha única de pais amorosos e de uma família tradicional, em que a mãe cuida dela full time e seu pai trabalha numa pequena cidade, em Connecticut. De uma maneira abrupta a família é obrigada a se mudar para uma nova vida em São Francisco (será que o pai perdeu seu emprego na crise de 2008?). As Emoções Primárias de Riley são representadas por cinco personagens que operam da Sala de Controle: Alegria, que parece uma fada, Tristeza, Medo, Raiva e Nojo. A nova casa é feia e antiga, a cidade é assustadora e, como em muitas situações de nossa vida, Riley experimenta um Ponto de Mutação, onde tudo vira de ponta cabeça: ela perde seu quintal, sua escola, sua melhor amiga e seu time de hockey sobre o gelo, de uma vez só. Alegria tenta coordenar todas as outras emoções primárias para ver o lado bom da situação e animar a menina. A maior dificuldade é manter sob controle a desajeitada Tristeza, que começa a contaminar toda a experiência de Riley. Durante uma briga pela Identidade fundamental da menina, Alegria e Tristeza são sugadas para dentro da Psique de Riley. Na Sala de Controle ficam Medo, Raiva e Nojo. Esse pedaço é muito legal. A Depressão em Adolescente muitas vezes não se manifesta com tristeza. O que aparece é uma irritabilidade profunda e constante, com variações e mudanças abruptas de Humor, explosões de raiva e aversão à tudo. A personagem chamada de Nojo, na verdade em Inglês se chama “Disgust”, que é Repulsa. No caso dos adolescentes, um Tédio profundo e constante, em todas situações.
Estou falando de uma situação extrema, que é a Depressão, mas a idade de Riley, doze anos, é bem a transição em que somos expulsos do paraíso da Infância e de repente lançados no labirinto das relações com o grupo, na necessidade de autonomia e no medo de não conseguir completar a travessia. Isso se dá na revolução da Pré Adolescência, que começa já entre os nove e dez anos. O referencial de Alegria e Tristeza se perdem nesse processo, e a antiga menina fofa e amorosa, que olha o mundo de maneira encantada se torna uma monstrinha irritável, entediada e perdida dentro dos seus medos de fracassar, não ser aceita e sofrer bullying de suas colegas. E olha que colocaram tudo isso no filme de maneira engraçada, mas a Mente de Riley nessa travessia pode ser tudo, menos Divertida.
O filme vai mostrar a jornada de volta para a Sala de Controle, da Alegria e da Tristeza. Tratar uma Depressão é exatamente isso, uma longa jornada de volta para casa. A Depressão de Riley dura alguns dias, mas, na vida real, essa jornada costuma durar muito mais tempo. Muito mais tempo. Os pais que o digam. Os que já passaram por isso que o digam.
Freud descobriu que a matriz de muitos sintomas psíquicos é um conflito de forças psíquicas antagônicas. No filme, o conflito permanente é entre Alegria e Tristeza. Alegria é uma fada bem intencionada, que quer prolongar ao máximo a infância de Riley. É um personagem bem atual, nesse tempo de infantilização coletiva. A Infância hoje em dia dura uns vinte e cinco anos e todos querem se divertir o tempo todo. Esse esforço de se manter alegre à qualquer custo leva Riley à Depressão. Dona Alegria, percebe, numa cena que marejou os meus olhos de lágrimas, que não há como atravessar aquele conflito sem manifestar a Tristeza. A desajeitada Tristeza assume o comando e Riley pode, finalmente, expressar o luto e a dor por tudo o que estava deixando para inciar a sua nova jornada, a Puberdade. Em nossa cultura de alegria de plástico e de redes sociais, não há como crescer sem integrar Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Tédio. Como dizia uma velha música de Cazuza: “A tristeza é uma maneira/ Da gente se salvar depois”...
Os antecessores dos psiquiatras e psicoterapeutas foram os xamãs, os curandeiros, os sacerdotes. Eles entendiam a Depressão como um estado de Perda da Alma e faziam seus rituais para trazer de volta a alma perdida. Muitas vezes, depois de um tempo de tratamento eu finalmente me apresento para a pessoa que, gradualmente, vai recuperando as suas próprias características, como se estivesse exilada de si própria e tivesse que fazer um longo caminho de volta para se reencontrar. Um caminho de volta que atribuímos aos medicamentos, mas que é muito mais que isso, na opinião desse escriba. Quando a doença começa a melhorar, finalmente eu tenho a impressão de receber a pessoa “de verdade”, não aquela que chegou ao consultório.
Eu seria capaz de jurar que algum roteirista de “Inside Out” passou por uma Depressão ou teve alguém muito próximo com a doença. De preferência, algum adolescente deprimido. A personagem principal do filme é uma garotinha, Riley, filha única de pais amorosos e de uma família tradicional, em que a mãe cuida dela full time e seu pai trabalha numa pequena cidade, em Connecticut. De uma maneira abrupta a família é obrigada a se mudar para uma nova vida em São Francisco (será que o pai perdeu seu emprego na crise de 2008?). As Emoções Primárias de Riley são representadas por cinco personagens que operam da Sala de Controle: Alegria, que parece uma fada, Tristeza, Medo, Raiva e Nojo. A nova casa é feia e antiga, a cidade é assustadora e, como em muitas situações de nossa vida, Riley experimenta um Ponto de Mutação, onde tudo vira de ponta cabeça: ela perde seu quintal, sua escola, sua melhor amiga e seu time de hockey sobre o gelo, de uma vez só. Alegria tenta coordenar todas as outras emoções primárias para ver o lado bom da situação e animar a menina. A maior dificuldade é manter sob controle a desajeitada Tristeza, que começa a contaminar toda a experiência de Riley. Durante uma briga pela Identidade fundamental da menina, Alegria e Tristeza são sugadas para dentro da Psique de Riley. Na Sala de Controle ficam Medo, Raiva e Nojo. Esse pedaço é muito legal. A Depressão em Adolescente muitas vezes não se manifesta com tristeza. O que aparece é uma irritabilidade profunda e constante, com variações e mudanças abruptas de Humor, explosões de raiva e aversão à tudo. A personagem chamada de Nojo, na verdade em Inglês se chama “Disgust”, que é Repulsa. No caso dos adolescentes, um Tédio profundo e constante, em todas situações.
Estou falando de uma situação extrema, que é a Depressão, mas a idade de Riley, doze anos, é bem a transição em que somos expulsos do paraíso da Infância e de repente lançados no labirinto das relações com o grupo, na necessidade de autonomia e no medo de não conseguir completar a travessia. Isso se dá na revolução da Pré Adolescência, que começa já entre os nove e dez anos. O referencial de Alegria e Tristeza se perdem nesse processo, e a antiga menina fofa e amorosa, que olha o mundo de maneira encantada se torna uma monstrinha irritável, entediada e perdida dentro dos seus medos de fracassar, não ser aceita e sofrer bullying de suas colegas. E olha que colocaram tudo isso no filme de maneira engraçada, mas a Mente de Riley nessa travessia pode ser tudo, menos Divertida.
O filme vai mostrar a jornada de volta para a Sala de Controle, da Alegria e da Tristeza. Tratar uma Depressão é exatamente isso, uma longa jornada de volta para casa. A Depressão de Riley dura alguns dias, mas, na vida real, essa jornada costuma durar muito mais tempo. Muito mais tempo. Os pais que o digam. Os que já passaram por isso que o digam.
Freud descobriu que a matriz de muitos sintomas psíquicos é um conflito de forças psíquicas antagônicas. No filme, o conflito permanente é entre Alegria e Tristeza. Alegria é uma fada bem intencionada, que quer prolongar ao máximo a infância de Riley. É um personagem bem atual, nesse tempo de infantilização coletiva. A Infância hoje em dia dura uns vinte e cinco anos e todos querem se divertir o tempo todo. Esse esforço de se manter alegre à qualquer custo leva Riley à Depressão. Dona Alegria, percebe, numa cena que marejou os meus olhos de lágrimas, que não há como atravessar aquele conflito sem manifestar a Tristeza. A desajeitada Tristeza assume o comando e Riley pode, finalmente, expressar o luto e a dor por tudo o que estava deixando para inciar a sua nova jornada, a Puberdade. Em nossa cultura de alegria de plástico e de redes sociais, não há como crescer sem integrar Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Tédio. Como dizia uma velha música de Cazuza: “A tristeza é uma maneira/ Da gente se salvar depois”...
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