Perto de meu consultório tem uma padoca que faz a melhor Média com Pão na Chapa da região. Há outra que a média é melhor, o café é mais forte, mais encorpado e o gosto do café com leite, muito melhor. Mas o Pão na Chapa dessa padaria é um lixo. O chapeiro chega a deixar o pão sem manteiga em vários pontos. Portanto, se considerarmos o conjunto da obra, a padoca A tem uma Média pior, mas um Pão na Chapa incomparavelmente melhor do que a padoca B. Se os visitantes desse blog imaginam que essa será uma coluna de gastronomia de padarias, se enganam. Falaremos sobre a Neurociência dos garçons. Especificamente dos problemas neuropsicológicos que parecem afetar os garçons de padarias e de outros estabelecimentos, sobretudo os mais cheios. Onde eu estava mesmo? Ah, sim, na padoca A. Peço religiosamente a minha Média com Pão na Chapa. Só há uma ressalva. O pão na chapa não pode vir prensado. As padarias adotaram a moda lamentável de colocar o pão com manteiga, verdadeiro ícone de nosso imaginário brasileiro (basta lembrar da música de Noel Rosa, em que pede “Uma boa Média que não seja requentada/ Um pão com manteiga à beça...”). O que diria Noel Rosa, com seu proverbial mau humor, desses pães descaracterizados na prensa, onde o pão e a manteiga perdem o seu gosto, completamente? Triste é o país que abandona sua identidade cultural. Mas é óbvio que eu não falo nada disso para a garçonete que me olha com aquele olho de sono de quem já está lá há muito tempo e não quer ouvir sobre a importância de não amassar o Pão na Chapa. O fato é que, mais de uma vez, faço o meu pedido de forma didática: “Por favor, uma Média e um Pão na Chapa sem prensar”. Observe que eu não aumento a complexidade do pedido, solicitando uma Média mais forte, com mais café, por exemplo. Isso poderia congestionar as redes neurais da moça. Peço, apenas e tão somente, para ela não prensar o puto do pão com manteiga. A minha mente científica consegue catalogar uma incidência de quase 100 por cento de erro na primeira tentativa. Quando a moça aparece com aquele pão que o diabo amassou eu observo que pedira sem prensar. Elas me olham com aquela cara de que vai cuspir em todo o meu pão não prensado e me punem com alguns minutos de atraso, o que esfria a minha Média. Nas outras vezes (porque eu volto a essa padoca, na semana seguinte), quando eu falo para fazer um Pão na Chapa Sem Prensar, Porra, a moça já lembra do estimulo aversivo da devolução e, dessa vez, acerta. O problema é que na outra semana terei que repeti o processo de aprendizagem com outra garçonete, pois a anterior já deve ter tido um ataque de nervos e deixou o emprego. Não por minha culpa, eu espero.
Qual a origem da Amnésia dos Garçons? Observem que eu não vou nem abordar o Transtorno de Déficit de Atenção dos Garçons. Você pode acenar, gritar, convulsionar na mesa que o cara continua olhando para um ponto perdido no infinito, apenas para não fazer contato visual com o freguês. Mas não. Vou falar do problema específico de Memória dessa valorosa categoria profissional. Quando queremos guardar uma nova memória, temos mecanismos de Memória Rápida e Ultrarrápida. Quando precisamos discar um número novo de telefone, guardamos esse número em nossas redes neurais por alguns segundos, esquecendo do mesmo logo depois de discá-lo. É a Memória de Trabalho, ou Working Memory. Para transformá-la em Memória Declarativa, ou Memória mais permanente, é preciso uma Atenção mais detida. Um revólver apontado à cabeça do garçon pode ser um mecanismo motivacional que aumente a sua capacidade de retenção. Pensando bem, o excesso de tensão ansiosa pode prejudicar a formação de Memória. Plantar bananeira na mesa ou pegá-lo pelo colarinho pode melhorar o seu quociente atencional, melhorando a formação de novas memórias.
O fato é que a Memória de Trabalho, se não for bem treinada, vai se desmanchar rapidamente entre a mesa e o balcão do chapeiro. E notem que a padoca B já forneceu tablets para o garçon digitar o pedido, criando uma memória digital para ele. Mas o Pão na Chapa da padoca A vale o risco neuropsicológico.
Mostrando postagens com marcador Amnésia de Garçonete. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Amnésia de Garçonete. Mostrar todas as postagens
sábado, 20 de outubro de 2012
Assinar:
Comentários (Atom)
