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domingo, 14 de agosto de 2016

Tente Outra Vez

Estava revendo um texto de Agosto de 2012, desse blog, sobre a derrota da judoca Rafaela Silva na Olimpíada de Londres. Estava bem treinada e era superior à adversária, quando pegou a perna da mesma no chão. O golpe era irregular e isso determinou a eliminação de Rafaela, que ficou pregada no tatame, em prantos, sem acreditar que tudo se perdeu de maneira tão definitiva numa fração de segundo. Depois da derrota, ainda chorando muito, lembrou de uma passagem da sua infância que acabou inspirando o meu post: Rafaela viveu uma infância muito pobre na favela da Rocinha. Ganhou de seu pai um par de sandálias e foi brincar. Com medo de gastá-los, deixou-os de lado. Quando voltou, eles não estavam mais lá. O pai falou que nunca mais ela iria ganhar outras. Certamente imaginou que a menina não dera valor ao presente, comprado com seu dinheiro suado. Rafaela Silva, em Agosto de 2012, sentiu que tinha perdido de novo as suas havaianas. Eu acabei o post, em tom profético, dizendo que no Rio em 2016 o povo brasileiro daria para ela um par de havaianas de ouro. Quatro anos depois, Agosto de 2016, e Rafaela foi buscar a única medalha de ouro do Brasil até agora nessa Olimpíada que é mais uma cagada do Lula que temos que limpar.
Na Copa do Mundo, em 2014, a seleção brasileira dava sinais muito cedo de seu estado de nervos. Chorava no hino, chorava nos (poucos) gols, chorava no túnel, no aquecimento. O capitão Tiago Silva caiu em desgraça quando ficou à beira do campo, aos prantos, enquanto o Brasil decidia nos pênaltis a sua sorte contra o Chile. Lugar de Capitão do time era com os colegas, acalmando, incentivando, passando confiança. Para ficar chorando na beira do campo sentado na bola eu poderia fazer por muito menos dinheiro. Nessa Olimpíada vejo atletas brasileiros saindo das derrotas se descabelando de chorar, ou comemorando de maneira enlouquecida vitórias em fases classificatórias que, diga-se, servem para classificação. Vivemos há muitas décadas numa sociedade de espetáculos e todo mundo quer virar um trend topic por algumas horas. Fico imaginando se essa choradeira é para sair nas fotos das agências ou faz parte da nossa querida companheira de jornada histórica, a autoindulgência. Fico com muita inveja de ver esses monstros, como Michael Phelps ou Simone Biles, olhando a subida já algo rotineira da bandeira e do hino sem choradeira nem descabelamento. O olhar é de absoluta serenidade. Uma alegre e contida serenidade de quem sabe que fez o que se preparou longamente para fazer. Nada mais do que isso. Simone Biles, a pituca de 1,45m que está ganhando tudo e pulverizando recordes na Ginástica Olímpica, chegou a afirmar que sente que está mostrando com alegria para as pessoas aquilo que ensaiou. Como se fosse uma competição estudantil, não o maior evento esportivo do planeta.
Escrevi um post recente sobre a função estruturante da tristeza e agora estou implicando com a choradeira de nossos atletas olímpicos? Quem escreve esse blog? Numa semana é o Médico, na outra é o Monstro?
Vou responder com Rafaela Silva. A sua dor em 2012 foi legítima e intensa. E serviu para ela concentrar toda a dor e, sobretudo, toda a sua raiva em quatro anos de treinos e dedicação, com a medalha de ouro na cabeça. Antes da luta ela entrava no tatame gritando e esmurrando o peito, como se dissesse: agora é minha vez, não tem para ninguém. E saiu com a medalha de ouro, falando impropérios para quem a linchou nas redes sociais 4 anos atrás.
Fico feliz de estar escrevendo esse post agora à noite, porque se fosse cedo também iria desancar o Diego Hypólito, que também teve um ataque quando conseguiu completar a sua série há dois dias sem cair de cabeça ou de bunda, como nas Olimpíadas anteriores. Iria incluí-lo na lista da choradeira irritante da derrota. Hoje ele ganhou uma bela e inesperada medalha de prata, e citou, em sua entrevista, que já caiu de bunda, já capotou de cabeça e agora caiu em pé com uma medalha no peito. Nessa sarabanda de derrotas e decepções chorosas que tem sido várias modalidades da Rio 2016, Diego venceu quando já é um atleta bem pior do que nas outras edições, mas dessa vez estava inteiro em cada movimento.
Rafaela e Diego canalizaram toda a frustração e derrota na vontade de escrever outra história para eles. Nisso, podem ser um alento para esse país que anda tão derrotado.
Como na música de Raul Seixas: “Basta ser sincero e desejar profundo\ Você será capaz de sacudir o mundo\ Tente outra vez.”

domingo, 20 de maio de 2012

O Cisne e o Fluxo

Estava vendo a final da Champions League ontem na TV com meu filho. Bom programa para uma tarde fria de Outono, debaixo do edredon. Mais uma vez pude notar como faz falta uma boa Psicologia Esportiva no mundo. O Bayern de Munique estava com a faca e o queijo nas mãos: jogava em casa, diante de sua torcida, depois de ter eliminado na raça um time muito melhor, o Real Madrid, na semifinal. O seu adversário, o Chelsea, é um time envelhecido e perto do desmanche, que chegou na final meio por acaso. O Bayern teve o jogo na mão várias vezes. Marcou um gol no final do segundo tempo. A alegria dos jogadores demonstrava que eles sentiam naquele gol que eram campeões. Conseguiram tomar o empate cinco minutos depois. Foi para a prorrogação, teve um pênalti logo no início. Robben perdeu. Depois, na disputa de pênaltis, saíram na frente e perderam os últimos dois pênaltis, os decisivos. Outro fator estranho é a quantidade de pênaltis que os craques do time perderam nessa fase final: Messi, Cristiano Ronaldo, Robben, os craques, os caras idolatrados e de quem todos esperam, erraram cobranças decisivas. Já mencionei isso em outros posts: onde está a maior expectativa, lá estará a tremedeira. É uma coisa a se pensar a dois anos da Copa do Mundo, que será realizada no Brasil. Mas como enfrentar os estados de congelamento que acometem as pessoas na pior hora? O filme que deu o Oscar para Natalie Portman, Cisne Negro mostra esse processo massacrante de expectativas, levando a personagem principal a uma quebra psicótica. Tudo pressiona uma jovem bailarina que vai dançar os dois papéis principais do "Lago dos Cisnes": a mãe invasiva, que "abandonou tudo pela carreira de sua filha", o diretor do balé, que "apostou tudo na jovem e inexperiente bailarina", além de molestá-la sexualmente entre um e outro movimento. A ambiciosa colega, que a trata com amizade mas se prepara para substituí-la em caso de tremedeira. A dúvida e o medo vão dissolvendo a fronteira da realidade e da alucinação, a bailarina vai sendo torturada pelas expectativas e a ameaça de substituição até a hora da apresentação, quando ela assume a sua posição meio na marra. Após o início hesitante, com erros graves e uma queda, a personagem, quando faz a parte do Cisne Negro, entra num estado de quase possessão. Ela incorpora a personagem e atinge o estado de perfeição que, conscientemente ou não, sempre buscamos. É um estado que a Neurociência chama de "Estados de Fluxo", um momento em que o Cérebro atinge um estado de absoluta concentração, como se nada existisse à sua volta, apenas o objeto dessa concentração. A cena final do Cisne Negro mostra a jovem bailarina entrando em Fluxo com a dança e incorporando completamente a personagem, até o final trágico, meio forçado. Atenção, senhores psicólogos do esporte e psicoterapeutas em geral: o contrário do medo e do estresse não é o relaxamento, nem a supressão dos sintomas. Devemos pesquisar e ampliar nas tarefas que exigem bom desempenho e superar a dúvida e a sensação de desmerecimento com os estados de concentração intensa e compartilhada nas tarefas. Isso deve ajudar muito na hora de bater os pênaltis da vida. O contrário do Medo é a Concentração. Se possível, uma hiperconcentração, em Fluxo.