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domingo, 15 de maio de 2016

Compaixão ou Complacência

Estava vendo no Youtube um vídeo do (infelizmente) falecido escritor e dramaturgo Ariano Suassuna, autor do “Auto da Compadecida”. O homem era demais. Sobretudo como contador de “causos”. Tinha um amigo que não era ateu. Acreditava em Deus, mas não simpatizava com Ele. A mulher, pelo contrário, vivia com o terço na mão e era daquelas carolas de ir em duas três missas ao dia. Uma seca terrível atacava a região, a vaca seca de leite e de água. A senhora com o terço na mão pedido misericórdia, ele blasfemando que diacho de Deus era Aquele para deixar tanta desgraceira. A velha avisa para o marido que agora daria certo, fizera uma promessa para o menino Jesus de Praga. O velho deu de ombros. Durante a mesma noite caiu uma tempestade que quase trouxe abaixo a sua casa. A senhora exultava em sinais da cruz. O velho não se fazia de rogado. Ao amanhecer a enxurrada tinha levado seu estábulo e matado seus bichos. Olha a praga que seu santo fez!, gritou o velho, mais ainda antipatizado com o Criador.
A pequena historieta pode ou não ter alguma origem na realidade, provavelmente pouca. Mas representa duas atitudes opostas e estranhamente semelhantes com a vida e o destino. A atitude passiva da senhora, que empunha o terço e pede ajuda a todos os santos, e o ceticismo estéril do velho, que não acredita em nada e blasfema contra a vida. A seca está ruim, a chuva está pior. Nada nunca está bom.
Acredito que o Bolsa Família tenha mérito como programa de renda mínima e erradicação da fome. Já dizem nas redes sociais que, com a aparência do novo presidente, vai se chamar Bolsa Família Addams. Ele daria um bom marido da Mortícia, sem dúvida. O que o programa tem de muito perigoso é criar duas ou três gerações de brasileiros inaptos à sobrevivência. Como os dois velhos, que em vez de cavar uma cisterna ou tentar irrigar sua terra passavam o tempo implorando ou blasfemando contra Deus, criam-se famílias que acreditam num Estado Mãe que sempre terá leite e dinheiro público esguichando de suas tetas. Essa fantasia levou ao colapso do ciclo petista. Não o Bolsa Família, mas a ideia mágica de um Estado Deus que conhece o milagre da multiplicação das verbas, jogadas no ralo da incompetência e da cleptocracia. O dinheiro acaba, a paciência de quem paga a conta, também.
Já falei em outros posts que alguns dos casos mais difíceis de se tratar é de pessoas presas em um comportamento dependente. Alguém vai precisar resolver o problema que não seja o sujeito. Uma variante é o paciente que espera que algum remédio vai despertar magicamente o interesse pela vida, ou, mais do que isso, pela Busca. Uma das tragédias do Espectro do Autismo é que as crianças portadoras não tem comportamento exploratório e não brincam. A exploração do ambiente e as brincadeiras que produzem o aprendizado e as capacidades operativas vão possibilitar a sobrevivência. Quem se cristaliza na Dependência não consegue explorar, nem buscar, nem aprender.
Das muitas desgraças de estar na América católica, talvez uma das piores seja a confusão cultural entre Compaixão e Complacência. A Compaixão transforma, a Complacência envenena. A Compaixão permite que as pessoas se movam para ajudar. A Complacência distribui benesses que não vão gerar desenvolvimento, só mais imobilidade.
O propósito de todo processo de aprendizagem e desenvolvimento é explorar, criar, botar o pé na estrada de novos conteúdos e áreas desconhecidas do saber. A vida digital dá as pessoas a impressão que tudo está à distância de um click, não precisa de um caminho dentro do aprendizado. O Assistencialismo gera nas pessoas a impressão que a ajuda vem de uma maneira mágica. Quem não aprende a procurar, não vai aprender a achar. Não adianta ficar com o terço na mão nem blasfemando contra o tal do Golpe.