Estava vendo no Youtube um vídeo do (infelizmente) falecido escritor e dramaturgo Ariano Suassuna, autor do “Auto da Compadecida”. O homem era demais. Sobretudo como contador de “causos”. Tinha um amigo que não era ateu. Acreditava em Deus, mas não simpatizava com Ele. A mulher, pelo contrário, vivia com o terço na mão e era daquelas carolas de ir em duas três missas ao dia. Uma seca terrível atacava a região, a vaca seca de leite e de água. A senhora com o terço na mão pedido misericórdia, ele blasfemando que diacho de Deus era Aquele para deixar tanta desgraceira. A velha avisa para o marido que agora daria certo, fizera uma promessa para o menino Jesus de Praga. O velho deu de ombros. Durante a mesma noite caiu uma tempestade que quase trouxe abaixo a sua casa. A senhora exultava em sinais da cruz. O velho não se fazia de rogado. Ao amanhecer a enxurrada tinha levado seu estábulo e matado seus bichos. Olha a praga que seu santo fez!, gritou o velho, mais ainda antipatizado com o Criador.
A pequena historieta pode ou não ter alguma origem na realidade, provavelmente pouca. Mas representa duas atitudes opostas e estranhamente semelhantes com a vida e o destino. A atitude passiva da senhora, que empunha o terço e pede ajuda a todos os santos, e o ceticismo estéril do velho, que não acredita em nada e blasfema contra a vida. A seca está ruim, a chuva está pior. Nada nunca está bom.
Acredito que o Bolsa Família tenha mérito como programa de renda mínima e erradicação da fome. Já dizem nas redes sociais que, com a aparência do novo presidente, vai se chamar Bolsa Família Addams. Ele daria um bom marido da Mortícia, sem dúvida. O que o programa tem de muito perigoso é criar duas ou três gerações de brasileiros inaptos à sobrevivência. Como os dois velhos, que em vez de cavar uma cisterna ou tentar irrigar sua terra passavam o tempo implorando ou blasfemando contra Deus, criam-se famílias que acreditam num Estado Mãe que sempre terá leite e dinheiro público esguichando de suas tetas. Essa fantasia levou ao colapso do ciclo petista. Não o Bolsa Família, mas a ideia mágica de um Estado Deus que conhece o milagre da multiplicação das verbas, jogadas no ralo da incompetência e da cleptocracia. O dinheiro acaba, a paciência de quem paga a conta, também.
Já falei em outros posts que alguns dos casos mais difíceis de se tratar é de pessoas presas em um comportamento dependente. Alguém vai precisar resolver o problema que não seja o sujeito. Uma variante é o paciente que espera que algum remédio vai despertar magicamente o interesse pela vida, ou, mais do que isso, pela Busca. Uma das tragédias do Espectro do Autismo é que as crianças portadoras não tem comportamento exploratório e não brincam. A exploração do ambiente e as brincadeiras que produzem o aprendizado e as capacidades operativas vão possibilitar a sobrevivência. Quem se cristaliza na Dependência não consegue explorar, nem buscar, nem aprender.
Das muitas desgraças de estar na América católica, talvez uma das piores seja a confusão cultural entre Compaixão e Complacência. A Compaixão transforma, a Complacência envenena. A Compaixão permite que as pessoas se movam para ajudar. A Complacência distribui benesses que não vão gerar desenvolvimento, só mais imobilidade.
O propósito de todo processo de aprendizagem e desenvolvimento é explorar, criar, botar o pé na estrada de novos conteúdos e áreas desconhecidas do saber. A vida digital dá as pessoas a impressão que tudo está à distância de um click, não precisa de um caminho dentro do aprendizado. O Assistencialismo gera nas pessoas a impressão que a ajuda vem de uma maneira mágica. Quem não aprende a procurar, não vai aprender a achar. Não adianta ficar com o terço na mão nem blasfemando contra o tal do Golpe.
Mostrando postagens com marcador Processo de Aprendizagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Processo de Aprendizagem. Mostrar todas as postagens
domingo, 15 de maio de 2016
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Aprendizagem e Repetição
No livro "O Gênio em Todos Nós", de David Shenk, há uma citação de Einstein, que disse: "A questão não é que eu seja muito inteligente. Eu simplesmente me detenho por mais tempo nos problemas". Seria um ato de falsa modéstia de um dos maiores gênios que já passaram por esse planeta? Acho que não.
Vários estudos demonstram que se atinge a excelência em alguma atividade com uma mistura de repetição, persistência e adiamento de recompensa. Crianças com essas características tendem a apresentar, no futuro, melhores resultados acadêmicos. A pichação nas paredes de cursinho: "Mate um japonês e entre na USP" é a manifestação desbocada dessa constatação. A cultura oriental favorece a repetição obstinada, a escassez de recompensa e a ênfase nos resultados. Nosso culto à autoestima das crianças produz um excesso de recompensa por gota de suor nos resultados. Podemos observar a nossa autocomplacência nas eliminações olímpicas.
Comecei esse post nesse tom porque estava ouvindo na rádio que o Senado sancionou lei que vai criar um sistema de cotas para as Universidades Públicas. Metade das vagas serão destinadas a alunos que fizeram o Ensino Médio em Escolas Públicas. Já consigo ver os pais com seus carros do ano pegando os filhos na Escola Estadual, olhando horrorizados para os manos que são os coleguinhas dos filhinhos. Fica fácil, então. Você matricula o seu filho na escola estadual, ele vai lá passar de ano sem aulas e sem professores, e depois o Jarbas leva os moleques para um Cursinho, onde eles vão realmente aprender. Depois é só passar com o sistema de cotas.
A Educação nesse país foi devastada nas últimas décadas por paternalismos e comiseração. Pelo visto, nosso esporte, também. Rios de dinheiro foram despejados na formação de atletas e olha os resultados. Era melhor mandar todo mundo treinar no Cazaquistão.
A excelência depende de repetição, aprendizado e tolerância ao erro. Está na hora de ensinar as nossas crianças a amar o processo de tentativa e erro que precede todo tipo de aprendizagem. Pessoas que desanimam diante da derrota não vão muito longe. Isso tem que ser implantado desde o Ensino Fundamental. Não adianta oferecer uma escola pública que, fora as ilhas de excelência, oferece um ensino de baixo nível, com professores e alunos desmotivados e morrendo de pena de si mesmos. O Estado não dá conta de educar as nossas crianças. Facilitar a entrada na Universidade de quem teve uma base ruim não vai resolver o problema, vai antes agravá-lo.
Einstein, que foi um aluno abaixo do medíocre, mudou o rumo do pensamento humano estudando e aprendendo sozinho, apenas levantando questões que ninguém prestava muita atenção. Ele se dedicou profundamente a essas questões até publicar, trabalhando em uma repartição pública, dois artigos que mudaram o rumo da Ciência, com a Teoria da Relatividade. Ele disse que conseguiu isso apenas se dedicando e errando milhares de vezes. A Lei que passou no Senado e deve ser sancionada pela presidente Dilma provavelmente teria desestimulado seu esforço.
Vários estudos demonstram que se atinge a excelência em alguma atividade com uma mistura de repetição, persistência e adiamento de recompensa. Crianças com essas características tendem a apresentar, no futuro, melhores resultados acadêmicos. A pichação nas paredes de cursinho: "Mate um japonês e entre na USP" é a manifestação desbocada dessa constatação. A cultura oriental favorece a repetição obstinada, a escassez de recompensa e a ênfase nos resultados. Nosso culto à autoestima das crianças produz um excesso de recompensa por gota de suor nos resultados. Podemos observar a nossa autocomplacência nas eliminações olímpicas.
Comecei esse post nesse tom porque estava ouvindo na rádio que o Senado sancionou lei que vai criar um sistema de cotas para as Universidades Públicas. Metade das vagas serão destinadas a alunos que fizeram o Ensino Médio em Escolas Públicas. Já consigo ver os pais com seus carros do ano pegando os filhos na Escola Estadual, olhando horrorizados para os manos que são os coleguinhas dos filhinhos. Fica fácil, então. Você matricula o seu filho na escola estadual, ele vai lá passar de ano sem aulas e sem professores, e depois o Jarbas leva os moleques para um Cursinho, onde eles vão realmente aprender. Depois é só passar com o sistema de cotas.
A Educação nesse país foi devastada nas últimas décadas por paternalismos e comiseração. Pelo visto, nosso esporte, também. Rios de dinheiro foram despejados na formação de atletas e olha os resultados. Era melhor mandar todo mundo treinar no Cazaquistão.
A excelência depende de repetição, aprendizado e tolerância ao erro. Está na hora de ensinar as nossas crianças a amar o processo de tentativa e erro que precede todo tipo de aprendizagem. Pessoas que desanimam diante da derrota não vão muito longe. Isso tem que ser implantado desde o Ensino Fundamental. Não adianta oferecer uma escola pública que, fora as ilhas de excelência, oferece um ensino de baixo nível, com professores e alunos desmotivados e morrendo de pena de si mesmos. O Estado não dá conta de educar as nossas crianças. Facilitar a entrada na Universidade de quem teve uma base ruim não vai resolver o problema, vai antes agravá-lo.
Einstein, que foi um aluno abaixo do medíocre, mudou o rumo do pensamento humano estudando e aprendendo sozinho, apenas levantando questões que ninguém prestava muita atenção. Ele se dedicou profundamente a essas questões até publicar, trabalhando em uma repartição pública, dois artigos que mudaram o rumo da Ciência, com a Teoria da Relatividade. Ele disse que conseguiu isso apenas se dedicando e errando milhares de vezes. A Lei que passou no Senado e deve ser sancionada pela presidente Dilma provavelmente teria desestimulado seu esforço.
Assinar:
Comentários (Atom)
