Uma das imagens doídas dessa Olimpíada foi a eliminação de uma promissora judoca brasileira, Rafaela Silva. Ela dominava a sua luta contra uma bonita oponente, se não me engano uma húngara, quando deu um golpe no chão que foi interpretado como um Wasari. Lembrando de meus tempos de judô no Tênis Clube, eu sabia que esse golpe praticamente definia a luta a favor da brasileira. Inesperadamente, o juiz chamou as duas lutadoras ao meio do tatame, tirou os pontos de Rafaela e a eliminou da luta. Ela deitou-se aos prantos e ninguém conseguia retirá-la de lá. O japa bem que tentou e eu bem imagino o que ela deve ter sussurrado para ele em bom Português. Só quando a sua adversária atravessou o tatame e tomou-a pela mão, com aquele afeto travado de Leste Europeu, que Rafaela finalmente levantou e se retirou, sempre chorando. Sabíamos que a jovem tinha virado atleta olímpica graças a projeto de incentivo ao esporte implantado na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Rafaela foi eliminada pela aplicação de uma nova regra, que proibia o golpe nas pernas. O replay, implacável, demonstrava que a nossa judoca realmente deu o golpe irregular. No calor da luta, ela cometeu esse ato falho, catando a perna da adversária como fizera nos tatames da Rocinha.
Freud foi um dos maiores e valentes pensadores da alma humana. A sua obra foi sendo colocada em descrédito da metade do século passado para cá, com as descobertas da Neurociência e Psicofarmacologia. Outro dia a Folha publicou um caderno em que metade dele era ocupada por psicanalistas ironizando a ingenuidade onipotente nos Neurocientistas e na outra metade os cientistas refutavam a teoria freudiana como uma colagem de mitologias e teorias tresloucadas, sem base científica. Infelizmente não havia ninguém nas páginas centrais tentando aproximar os dois lados. Quando eu chamo o golpe de Rafaela Silva de Ato Falho, estou usando um conceito freudiano. Freud tentou criar uma teoria abrangente demais, mas vários de seus conceitos são validados em nossa prática clínica. O Ato Falho de Rafaela é uma dessas manifestações.
Ouvi no rádio uma matéria sobre Rafaela Silva, no dia seguinte da traumática eliminação. Ela chorou ao lembrar de uma passagem de sua infância. Ela queria muito um par de chinelos, que o seu pai julgava muito caros. Relutou, mas como um bom pai, deixou de comprar carne no dia e comprou os tais chinelos. Ela foi brincar, radiante com seus chinelos novos, tirou-os para não gastá-los, deixou-os num canto. Quando voltou para pegá-los, não estavam mais lá. Aquela mulata alta e fortíssima se desmanchou em lágrimas quando relembrou a cena de seu pai batendo e jurando nunca mais gastar esse dinheiro com ela. Na hora que o juiz detonou com um movimento de braços o seu sonho olímpico, Rafaela viu mais uma vez os seus chinelos roubados.
As nossas memórias traumáticas criam uma espécie de software defeituoso em nosso Sistema de Crenças e processamentos inconscientes, gerando a repetição, também inconsciente, de cenas e situações semelhantes. Rafaela chorou como a menina que perdeu os chinelos.
A Psicoterapia, freudiana ou não, permite a rememoração da memória dolorosa, em ambiente ameno e acolhedor. A estimulação repetitiva, o relaxamento, a recontextualização madura do evento permitem a construção de novos caminhos neurais para aquela memória, que deixa de exercer os seus efeitos destruidores. Dentro de uma sala de psicoterapia, Rafaela poderia compreender a angústia e o amor de um homem pobre que imagina que a sua menina não deu valor a seu sacrifício. Por que será que é tão difícil para certo establishment científico perceber esse trabalho paciente, amoroso, que se faz nos consultórios como evidentemente curativo e transformador?
Rafaela, espero ver em 2016 um par de havaianas de ouro penduradas no teu peito.
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domingo, 5 de agosto de 2012
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