Já escrevi nesse blog sobre a minha afinidade com o Dr House, série estrelada por Hugh Laurie durante oito temporadas. Apesar de completamente delirantes do ponto de vista médico, os episódios eram divertidos, instigantes e a capacidade do Dr House de ficar girando o caso em todas as direções até encontrar um salto de entendimento onde um diagnóstico explicava tudo o que estava acontecendo, era muito legal. Em um dos episódios, não lembro em qual temporada, House e sua equipe investigam uma paciente com um traço característico e raro: ela é uma mnemonista, uma pessoa que lembra de detalhes de tudo o que aconteceu em sua vida. A mnemonista em questão estava rompida com toda a sua família, pois lembrava de cada briga, cada frase injusta, cada cena de maus tratos que os pais e sua irmã tinham praticado em sua vida. Sendo uma pessoa com Memória absoluta, ela poderia citar uma briga que tiveram no dia 7 de Outubro de 1996 que terminou com alguma frase muito ofensiva. É lógico que a sua irmã não tinha nenhum traço de memória dessa briga.
Tão importante quanto a nossa capacidade de recordar é a capacidade ainda maior de esquecer, colocar em algum canto esquecido de nossas redes neurais alguns fatos, lembranças que não vem ao caso ou que é melhor deixar de lado. Freud descobriu o efeito destruidor de algumas memórias reprimidas que exerciam um efeito tóxico em nosso comportamento, como um vírus em nossos softwares mentais. Jung agrupou essas memórias em Complexos e descreveu o efeito parasitário desses complexos em nossa vida. As psicoterapias são muitas vezes formas de desenterrar esses softwares defeituosos e construir outros, melhores, mais calcados no aqui/agora, menos relacionados a brigas que tivemos há algumas décadas.
A moça do episódio de House padece do defeito oposto às amnésias neuróticas. Ela não pode se relacionar com ninguém pela sua incapacidade em colocar de lado todas as besteiras, injustiças e impropriedades que cometemos com nós mesmos e com quem vivemos e amamos. A equipe de House vasculha o Cérebro e as suas áreas da Memória para entender se um tumor ou uma cicatriz de alguma infecção estava criando aquela super memória. Não encontram nada. No final do episódio, a sua doença não tem nada a ver com a sua capacidade de memória. A sua capacidade infinita de Memória tem a ver com um quadro obsessivo grave, que a faz ficar revendo, repetindo, reeditando todas as lembranças desagradáveis de sua vida. Um TOC da Memória. House a encaminha para a Psiquiatria, para receber medicamentos para desacelerar esses circuitos neurais reverberantes. A sua Memória deixaria de ser perfeita, mas ela talvez voltasse a se relacionar com seus injustos semelhantes.
Nessas décadas todas de Psiquiatria eu me pergunto como, a despeito de termos avançado uns cinquenta anos em vinte, com um entendimento inimaginável quando eu me formei sobre o Cérebro, os Neurotransmissores, a Psicofarmacologia. Apesar de todas esses recursos e capacidades de intervenção, as pessoas estão cada vez mais loucas, mais aceleradas, mais ansiosas e deprimidas. É como ter uma Ferrari no trânsito de São Paulo. Com certeza, um dos culpados são esses circuitos reverberantes, onde as pessoas passam muito tempo remoendo, reverberando e ruminando os mesmos e disfuncionais pensamentos. Como a personagem de House, a constante repetição desses pensamentos criam pessoas aceleradas, ressentidas, e o que é pior, infelizes em meio a uma farmacopeia rica para aliviar esses sintomas. Como essa personagem temos que dar o passo de deixar para traz esses pensamentos reverberantes. Do contrário, ficamos presos dentro deles, por muitos anos.
Mostrando postagens com marcador Pensamentos Obsessivos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pensamentos Obsessivos. Mostrar todas as postagens
domingo, 17 de março de 2013
Assinar:
Postagens (Atom)
