Como eu sou um tanto lento com tecnologias, internet e provavelmente serei o último a ter Facebook neste planeta, virei um fã tardio dos TEDs, que descobri que é uma sigla de Tecnologia, Entretenimento e Design. Assistindo a uma de suas aulas, me deparei com o tema da Psicologia Positiva. A explanação do colega era consistente e bacana, mas tive ímpetos de pular para o próximo TED que explicava como as pessoas ficam dependentes de uma seita. A Psicologia dita Positiva (não que as outras Psicologias sejam Negativas, suponho) questiona a ênfase excessiva da Psicologia na visão da Doença; as pessoas se sentem desconfortáveis na presença de Psis em geral (psiquiatras e psicólogas, por exemplo) porque imaginam que eles tem uma espécie de visão de Raio X que vai detectar todas as taras e as loucuras que escondemos em nosso íntimo. A Psicologia Positiva não teria em seu foco deixar as pessoas menos infelizes, nem caçar traumas ou loucuras, mas ajudar o ser humano em sua busca incessante pela Felicidade. Pois é aí, justamente, que a porca torce o rabo.
Nossa busca incessante pela Felicidade é uma fonte permanente de Infelicidade. Os homens esperam a Felicidade no volante de uma Ferrari, as mulheres buscam por um Príncipe tão Encantado quanto descolado e muitos lenços de papel são gastos nessa busca incessante. Nada é mais falso do que a ideia de que somos criadores de nossa realidade. Por outro lado, nada me parece mais verdadeiro. Uma afirmação que pode ser absolutamente errada ou certa, sem dúvida está na fronteira do paradoxo. O Paradoxo, senhoras e senhores, é exatamente o ponto onde navegam muitas das psicoterapias bem feitas. A felicidade como busca, ou como exercício, pode ser o tanto o caminho ou a cenoura que faz os burros puxarem a carroça do Capitalismo e da Cultura de Massa.
Estranhamente podemos acabar defendendo o direito de todo ser humano à sua própria Miséria. A vida é feita de Mistério, e o Mistério está por traz de muitas de nossas buscas, como o de Conhecimento, Justiça, Sabedoria, Iluminação Espiritual ou Paz de Espírito. Talvez o sofrimento intrínseco à nossa vida consciente seja também um direito. A busca incessante de prazer como fonte de Felicidade já foi contraindicada por muitos sábios e iluminados, mas a Psicologia Positiva não se opõe à busca de Prazer como fonte de Felicidade. Eu, particularmente, não me oponho à experiência prazerosa da vida ou da passagem do tempo. Passamos metade da vida com medo de viver e a outra metade com medo de morrer. Medo da passagem do tempo, medo do que ele nos reserva. Medo da felicidade, ou da infelicidade. O prazer não reduz o medo. Muitas vezes, aumenta o medo de ter e de perder.
A excessiva ênfase em nosso tempo das autos: autoestima, autodesenvolvimento, autoexpressão, autoajuda e quantas autos quisermos acrescentar, não vem trazendo muita felicidade para quase ninguém, com exceção do autores de autoajuda. Nosso corpo, nossa psique, nossa felicidade é um reflexo do que fazemos com nossa vida e nossa Psique. Nossa tarefa é equilibrar saúde mental, econômica, afetiva, física e espiritual em apenas uma encarnação. Felicidade é um efeito colateral desta construção. Uma Psicologia que se entende como Positiva é a que ajuda o Sujeito não apenas a buscar, mas antes entender o equilíbrio delicado de todas essas saúdes. A Felicidade é uma vivência construída interna e externamente. Como já escrevi em outros posts, é afinar o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro (como a música já cantava).
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domingo, 30 de novembro de 2014
domingo, 8 de junho de 2014
Toque do Anjo
Gostaria de alertar os leitores desse blog que alguns trechos dos últimos posts foram profundamente inspirados pelo livro “Fé: Evidências Científicas” de George E. Vaillant, Editora Manole. É um livro encantador, que fortemente recomendo aos interessados, sobre um paralelo entre Emoções Positivas, Psiquiatria, Espiritualidade e nossa Evolução como espécie. Isso de um psiquiatra passado de seus setenta anos, com os olhos marejados de ter presenciado tudo o que mudou, nem sempre para melhor, em quase meio século de Psiquiatria. Espero chegar lá. Nesta semana, um paciente de mais de década olhou para mim no meio da consulta e, do nada, me falou que mesmo que eu ganhasse na Megasena continuaria fazendo aquilo que estava fazendo, todo dia. Tem toda razão. Diminuiria um pouco a carga horária, mas espero manchar os dedos nas tintas das canetas e carimbos por muitos anos, como o Dr Vaillant.
Um dos casos descritos nesse livro, tirado de sua longa jornada terapêutica é de Bill, um dos pacientes acompanhado em seu serviço por toda a sua vida, em grupo ligado à Universidade de Harvard. A sua história me fez lembrar a cena de “Uma Mente Brilhante”, onde o genial e esquizofrênico John Nash agradece, ao receber o prêmio Nobel, pela presença impressionante de sua esposa em sua vida, o que lhe ensinou o significado do amor. Ele não devia a ela apenas aquele prêmio, mas também estar vivo para recebê-lo.
Bill passou por coisa pior. Aos três anos de idade foi dado por sua mãe para adoção. O seu pai, algum tempo depois, foi internado em Hospital Estadual com uma psicose sifilítica. Ele nunca mais se recuperaria desse quadro. Bill foi levado a lares adotivos onde sofreu abusos físicos e psíquicos impressionantes, desde espancamentos regulares até fome e descuidos com o que seria básico para um ser humano poder crescer. Hoje ele seria um extraordinário candidato a psicopata ou abusador de crianças, o que, infelizmente, acaba acontecendo com muita gente que cresce nessas condições. Bill casou aos 25 anos com uma mulher boa e amorosa, que, como John Nash, ensinou a ele o significado do amor e de viver em família. Bill não era religioso e descobriu o poder superior em uma família amorosa, que também o achava o máximo.
Após 33 anos de casado, a esposa de Bill morreu tragicamente de Câncer. Aos 53 anos de idade, a sensação de que a vida tinha algum sentido se perdeu completamente para ele. Algumas de suas palavras: “Eu digo que perdi uma amiga, perdi uma amante, perdi uma mãe, perdi uma irmã, perdi uma médica, uma enfermeira, uma professora, uma lutadora”. A sua vida voltou para o escuro vazio de sentido que conhecera muito cedo. Alguns anos depois dessa perda, foi internado com uma profunda depressão; relatou que perdeu a esperança, sentia raiva, desespero e medo. Parecia que seu destino trágico tinha dado apenas uma trégua e agora voltava para cobrar seu tributo. Dez anos depois dessa avaliação, Bill compareceu à entrevista novamente transformado: um curador espiritual tirou a dor de suas costas e ele havia encontrado no ambiente acolhedor e profundamente amoroso da cura pela oração um novo significado para a sua vida. Bill descobriu que, curando o outro, curava a si mesmo. Mais uma vez, foi curado pelo amor desinteressado, com a vantagem que, agora, esse amor emanava dele, não de outra pessoa.
Em nossa vida, cruzamos por muitas pessoas sempre dispostas a reclamar da dureza do caminho, de como os seus desejos nunca são realizados e como o mundo é essencialmente injusto e mau. Acho que vou pensar, ouvindo isso, nas mãos de Bill passando energia e pedindo a cura para gente que teve uma vida infinitamente mais fácil que a dele próprio. Com certeza, vai ajudar a começar a nova semana de trabalho, no meio de passeatas, greves e Copas do Mundo.
Um dos casos descritos nesse livro, tirado de sua longa jornada terapêutica é de Bill, um dos pacientes acompanhado em seu serviço por toda a sua vida, em grupo ligado à Universidade de Harvard. A sua história me fez lembrar a cena de “Uma Mente Brilhante”, onde o genial e esquizofrênico John Nash agradece, ao receber o prêmio Nobel, pela presença impressionante de sua esposa em sua vida, o que lhe ensinou o significado do amor. Ele não devia a ela apenas aquele prêmio, mas também estar vivo para recebê-lo.
Bill passou por coisa pior. Aos três anos de idade foi dado por sua mãe para adoção. O seu pai, algum tempo depois, foi internado em Hospital Estadual com uma psicose sifilítica. Ele nunca mais se recuperaria desse quadro. Bill foi levado a lares adotivos onde sofreu abusos físicos e psíquicos impressionantes, desde espancamentos regulares até fome e descuidos com o que seria básico para um ser humano poder crescer. Hoje ele seria um extraordinário candidato a psicopata ou abusador de crianças, o que, infelizmente, acaba acontecendo com muita gente que cresce nessas condições. Bill casou aos 25 anos com uma mulher boa e amorosa, que, como John Nash, ensinou a ele o significado do amor e de viver em família. Bill não era religioso e descobriu o poder superior em uma família amorosa, que também o achava o máximo.
Após 33 anos de casado, a esposa de Bill morreu tragicamente de Câncer. Aos 53 anos de idade, a sensação de que a vida tinha algum sentido se perdeu completamente para ele. Algumas de suas palavras: “Eu digo que perdi uma amiga, perdi uma amante, perdi uma mãe, perdi uma irmã, perdi uma médica, uma enfermeira, uma professora, uma lutadora”. A sua vida voltou para o escuro vazio de sentido que conhecera muito cedo. Alguns anos depois dessa perda, foi internado com uma profunda depressão; relatou que perdeu a esperança, sentia raiva, desespero e medo. Parecia que seu destino trágico tinha dado apenas uma trégua e agora voltava para cobrar seu tributo. Dez anos depois dessa avaliação, Bill compareceu à entrevista novamente transformado: um curador espiritual tirou a dor de suas costas e ele havia encontrado no ambiente acolhedor e profundamente amoroso da cura pela oração um novo significado para a sua vida. Bill descobriu que, curando o outro, curava a si mesmo. Mais uma vez, foi curado pelo amor desinteressado, com a vantagem que, agora, esse amor emanava dele, não de outra pessoa.
Em nossa vida, cruzamos por muitas pessoas sempre dispostas a reclamar da dureza do caminho, de como os seus desejos nunca são realizados e como o mundo é essencialmente injusto e mau. Acho que vou pensar, ouvindo isso, nas mãos de Bill passando energia e pedindo a cura para gente que teve uma vida infinitamente mais fácil que a dele próprio. Com certeza, vai ajudar a começar a nova semana de trabalho, no meio de passeatas, greves e Copas do Mundo.
domingo, 1 de junho de 2014
Psicologia Positiva
Há alguns anos li uma entrevista na Veja de uma psicóloga que fazia uma reflexão sobre a terrificante experiência de passar pelo tratamento de um Câncer de Mama, incluindo Radio e Quimioterapia. Dentre as inúmeras dificuldades, ela se queixou da tirania do Pensamento Positivo. Não bastava dores, efeitos colaterais e o medo da doença, ela se via bombardeada pela contínua propaganda que, se mantivesse o Pensamento Positivo, tudo daria certo. Podemos concluir que, se as coisas dessem errado, seria obviamente por uma deficiência de Positividade de sua parte. A vantagem de ter espírito crítico e vivência clínica é que ela sabia que haveria dias e momentos de esperança e de angústia, de bons e de maus pensamentos, e que o tal do Pensamento Positivo não impediria complicações e efeitos colaterais.
Uma paciente de 30 anos se desesperava pelo fato de seu irmão caçula fracassar em concursos e entrevistas, quando sempre se apresenta com a mentalidade do “já ganhei”. O moleque entra “mentalizado” em seus pensamentos positivos, com uma fé inabalável em seu sucesso, o que resulta em repetidos fracassos. Ela também já ouviu falar nas virtudes da mentalização positiva, mas estudar para a prova e se preparar para a entrevista costuma dar mais resultados.
Há um movimento bastante consistente e em crescimento na Psicologia, autodenominada Psicologia Positiva. Acho o nome um pouco perigoso, porque vai ser facilmente confundido com o movimento pelo Pensamento Positivo. Elas podem parecer a mesma coisa, mas não são. Para a pessoa que está atravessando a difícil jornada de um tratamento para uma doença grave, ou para um jovem tentando entrar no mercado de trabalho, talvez mais importante do que ter um pensamento positivo com relação aos resultados de sua empreitada, seja bem melhor ter uma atitude paciente e amorosa consigo mesmo e com as pessoas envolvidas no processo. Li um livro de um médico que passou por um tratamento para doença Oncológica que desenvolveu uma atitude amorosa até para o aparelho de Radioterapia, que ele via como um canhão benigno, atacando as células inimigas. Mais do que um pensamento positivo, ele descobriu que uma atitude amorosa contava tanto em seu processo de cura como o de seus pacientes. O nome do livro, para quem se interessar, é “Memória das Células”.
Nossa evolução como espécie teve alguns passos fundamentais. Um deles foi descer das árvores e andar sobre dois pés, o bipedalismo, o que possibilitou o uso das mãos e o uso de instrumentos, com imensas vantagens evolutivas. Isso, entretanto, gerou dificuldades para o parto dos primeiros hominídeos, já que uma cabeça maior tinha que passar por um canal de parto menor. Os bebês humanos precisam de muito tempo de maturação, necessitando de alguns anos de cuidados. Para isso, foi necessário um vínculo mais forte e profundo com as mães e o estabelecimento de alianças entre os machos e as fêmeas para defender a sobrevivência de seu bando. Amor, cuidado e tolerância foi a marca distintiva do que nos torna humanos e nos salvou como espécie.
Como já foi colocado em posts anteriores, somos muito estimulados a viver numa sociedade darwiniana em que os mais aptos prosperam, os não tão aptos são marginalizados. Competir e vencer são marcas de nosso passado evolutivo, onde conquistar territórios fazia muita diferença para um grupo viver ou perecer. É uma bobagem fazer as pessoas viverem nessa selva Paleolítica. A Psicologia Positiva vem em boa hora se estimular a criação de alianças e zonas de comunicação entre nós, descendentes do Homo sapiens. Vivemos hoje oprimidos entre o medo de sermos atacados por nossos semelhantes e outros predadores e a necessidade de construção de alianças e de uma cultura de não agressão. Não vai ser nada fácil, com tanta ênfase e lucro da Cultura do Eu, que os sentimentos positivos prevaleçam. Podemos esperar muitas lágrimas no percurso.
Uma paciente de 30 anos se desesperava pelo fato de seu irmão caçula fracassar em concursos e entrevistas, quando sempre se apresenta com a mentalidade do “já ganhei”. O moleque entra “mentalizado” em seus pensamentos positivos, com uma fé inabalável em seu sucesso, o que resulta em repetidos fracassos. Ela também já ouviu falar nas virtudes da mentalização positiva, mas estudar para a prova e se preparar para a entrevista costuma dar mais resultados.
Há um movimento bastante consistente e em crescimento na Psicologia, autodenominada Psicologia Positiva. Acho o nome um pouco perigoso, porque vai ser facilmente confundido com o movimento pelo Pensamento Positivo. Elas podem parecer a mesma coisa, mas não são. Para a pessoa que está atravessando a difícil jornada de um tratamento para uma doença grave, ou para um jovem tentando entrar no mercado de trabalho, talvez mais importante do que ter um pensamento positivo com relação aos resultados de sua empreitada, seja bem melhor ter uma atitude paciente e amorosa consigo mesmo e com as pessoas envolvidas no processo. Li um livro de um médico que passou por um tratamento para doença Oncológica que desenvolveu uma atitude amorosa até para o aparelho de Radioterapia, que ele via como um canhão benigno, atacando as células inimigas. Mais do que um pensamento positivo, ele descobriu que uma atitude amorosa contava tanto em seu processo de cura como o de seus pacientes. O nome do livro, para quem se interessar, é “Memória das Células”.
Nossa evolução como espécie teve alguns passos fundamentais. Um deles foi descer das árvores e andar sobre dois pés, o bipedalismo, o que possibilitou o uso das mãos e o uso de instrumentos, com imensas vantagens evolutivas. Isso, entretanto, gerou dificuldades para o parto dos primeiros hominídeos, já que uma cabeça maior tinha que passar por um canal de parto menor. Os bebês humanos precisam de muito tempo de maturação, necessitando de alguns anos de cuidados. Para isso, foi necessário um vínculo mais forte e profundo com as mães e o estabelecimento de alianças entre os machos e as fêmeas para defender a sobrevivência de seu bando. Amor, cuidado e tolerância foi a marca distintiva do que nos torna humanos e nos salvou como espécie.
Como já foi colocado em posts anteriores, somos muito estimulados a viver numa sociedade darwiniana em que os mais aptos prosperam, os não tão aptos são marginalizados. Competir e vencer são marcas de nosso passado evolutivo, onde conquistar territórios fazia muita diferença para um grupo viver ou perecer. É uma bobagem fazer as pessoas viverem nessa selva Paleolítica. A Psicologia Positiva vem em boa hora se estimular a criação de alianças e zonas de comunicação entre nós, descendentes do Homo sapiens. Vivemos hoje oprimidos entre o medo de sermos atacados por nossos semelhantes e outros predadores e a necessidade de construção de alianças e de uma cultura de não agressão. Não vai ser nada fácil, com tanta ênfase e lucro da Cultura do Eu, que os sentimentos positivos prevaleçam. Podemos esperar muitas lágrimas no percurso.
domingo, 28 de julho de 2013
O Desejo e a Taça
A torcida do Galo, o Clube Atlético Mineiro é a que realmente merecia o título de Fiel. A única estrela de seu uniforme é do longínquo título brasileiro de 1971. Nesta semana essa estrela ganhou uma companheira, com a heróica conquista da Libertadores, contra o encardido time do Olímpia. Eu bem que tentei torcer contra, já que o início da jornada do Galo passou por pregar uns pregos no caixão do São Paulo, que, de fracasso em fracasso vem coletando os próprios cacos desde o início do ano. Mas, no final, estava secando os batedores paraguaios, até a bola explodir na trave e o grito de “É campeão!” ecoar depois de quarenta e tantos anos na garganta dos mineiros.
Um detalhe legal, que inspirou esse post, foi a entrevista do técnico do Galo, Cuca, ele também um colecionador de vicecampeonatos, como seu clube. Cuca, que não concatenava direito as ideias, mencionou que ele é tido como azarado, o Atlético Mineiro é chamado de azarado e, indo embora na direção dos abraços, virou para as câmeras e gritou: “Azarado porra nenhuma! Azarado porra nenhuma!”- e depois foi engolido pela floresta de campeões emocionados. Todo mundo que persegue um sonho há muito tempo e já experimentou todo tipo de decepção deveria dar uma boa gargalhada diante dessa cena. Explico.
Há uma história da Mitologia Grega que já foi citada neste blog há muito tempo: o mito de Tântalo. O cara era o cozinheiro dos deuses, servia as maiores iguarias do Monte Olimpo e se pudesse, estaria estreando um Reality Show tipo “O Néctar dos Deuses: a Cozinha Divina de Tântalo”. Mas isso não era suficiente para ele. Para virar um dos deuses do Olimpo, Tântalo matou e serviu o próprio filho em um banquete. Os deuses perceberam o golpe e não comeram da carne humana. Tântalo foi condenado à uma eternidade de fome e sede no calor dos infernos, e toda vez que estendia a mão para pegar os frutos de uma árvore frondosa, ao alcance de sua mão, os frutos sobiam e saíam do seu alcance. Tântalo vive a fome e a sede infinitas e sempre tem a riqueza bem perto, mas fora de seu alcance.
O mundo está cheio de Tântalos e Tântalas, pessoas que sempre vagam famintas pelo mundo, sempre tentando, tentando atingir os seus objetivos de qualquer jeito, mesmo que isso custe tudo o que há de mais caro e sagrado. Na hora H, os frutos ficam fora de seu alcance. Este parecia ser o destino de Cuca e do Galo. Ambos já perderam muita coisa, já passaram por muitas decepções e derrotas de última hora. No primeiro jogo da final, na arapuca do Defensores Del Chaco, o Galo viu uma bola entrar na sua gaveta no último minuto daquela batalha. Coisas que só acontecem com ele. Mas, ao contrário de Tântalo, não seria mais uma vez que a árvore se encolheria com seus frutos. O Atlético ganhou num jogo horrível, com a estratégia errada, que foi de ficar levantando a bola na área dos paraguaios o tempo todo para que a sua zaga alta e pesadona ficasse espanando a bola. Teve que contar com a grossura dos caras e as travessuras do Sobrenatural de Almeida para os homens perderem gols inacreditáveis. O time adotou a estratégia de martelar, martelar, até a bola entrar. Eu poderia estar escrevendo que foi uma estratégia ruim, e foi, mas ainda assim deu certo. Ganhou o time que transformou o próprio desejo em Desejo Inquebrantável. Esse é o preço de toda Psicologia Positiva, que passeia pelos livros de Autoajuda. Não adianta pensar positivo, fazer tudo com apuro e perfeição para atingir o seu objetivo. É preciso um desejo legítimo e uma mentalização absoluta para chegar lá, seja para conseguir uma promoção, encontrar um grande amor ou levantar a taça da Libertadores. Um desejo que não se dissolve nem no desespero nem no desânimo que estão, sempre, esperando em toda curva da jornada.
Um detalhe legal, que inspirou esse post, foi a entrevista do técnico do Galo, Cuca, ele também um colecionador de vicecampeonatos, como seu clube. Cuca, que não concatenava direito as ideias, mencionou que ele é tido como azarado, o Atlético Mineiro é chamado de azarado e, indo embora na direção dos abraços, virou para as câmeras e gritou: “Azarado porra nenhuma! Azarado porra nenhuma!”- e depois foi engolido pela floresta de campeões emocionados. Todo mundo que persegue um sonho há muito tempo e já experimentou todo tipo de decepção deveria dar uma boa gargalhada diante dessa cena. Explico.
Há uma história da Mitologia Grega que já foi citada neste blog há muito tempo: o mito de Tântalo. O cara era o cozinheiro dos deuses, servia as maiores iguarias do Monte Olimpo e se pudesse, estaria estreando um Reality Show tipo “O Néctar dos Deuses: a Cozinha Divina de Tântalo”. Mas isso não era suficiente para ele. Para virar um dos deuses do Olimpo, Tântalo matou e serviu o próprio filho em um banquete. Os deuses perceberam o golpe e não comeram da carne humana. Tântalo foi condenado à uma eternidade de fome e sede no calor dos infernos, e toda vez que estendia a mão para pegar os frutos de uma árvore frondosa, ao alcance de sua mão, os frutos sobiam e saíam do seu alcance. Tântalo vive a fome e a sede infinitas e sempre tem a riqueza bem perto, mas fora de seu alcance.
O mundo está cheio de Tântalos e Tântalas, pessoas que sempre vagam famintas pelo mundo, sempre tentando, tentando atingir os seus objetivos de qualquer jeito, mesmo que isso custe tudo o que há de mais caro e sagrado. Na hora H, os frutos ficam fora de seu alcance. Este parecia ser o destino de Cuca e do Galo. Ambos já perderam muita coisa, já passaram por muitas decepções e derrotas de última hora. No primeiro jogo da final, na arapuca do Defensores Del Chaco, o Galo viu uma bola entrar na sua gaveta no último minuto daquela batalha. Coisas que só acontecem com ele. Mas, ao contrário de Tântalo, não seria mais uma vez que a árvore se encolheria com seus frutos. O Atlético ganhou num jogo horrível, com a estratégia errada, que foi de ficar levantando a bola na área dos paraguaios o tempo todo para que a sua zaga alta e pesadona ficasse espanando a bola. Teve que contar com a grossura dos caras e as travessuras do Sobrenatural de Almeida para os homens perderem gols inacreditáveis. O time adotou a estratégia de martelar, martelar, até a bola entrar. Eu poderia estar escrevendo que foi uma estratégia ruim, e foi, mas ainda assim deu certo. Ganhou o time que transformou o próprio desejo em Desejo Inquebrantável. Esse é o preço de toda Psicologia Positiva, que passeia pelos livros de Autoajuda. Não adianta pensar positivo, fazer tudo com apuro e perfeição para atingir o seu objetivo. É preciso um desejo legítimo e uma mentalização absoluta para chegar lá, seja para conseguir uma promoção, encontrar um grande amor ou levantar a taça da Libertadores. Um desejo que não se dissolve nem no desespero nem no desânimo que estão, sempre, esperando em toda curva da jornada.
domingo, 29 de janeiro de 2012
Pensamento Positivo
Li uma entrevista nas páginas amarelas da Veja, há alguns anos, em alguma recepção de dentista. Uma psicóloga que passara por um dificílimo tratamento para o Câncer, com direito a Quimioterapia, e ficava sendo bombardeada por “estímulos” para manter uma “atitude positiva” diante da adversidade. Não podia ficar triste, nem desanimar em hipótese nenhuma. Já não bastava a dureza do diagnóstico e do tratamento em si, a moça sentiu na pressão pelo pensamento positivo uma espécie de preconceito oculto. Seria o doente oncológico uma vítima de seus maus pensamentos, ou de uma atitude depressiva, suposta causa oculta de sua doença? Não basta todo o sofrimento, ainda precisa aguentar os apelos para sorrir e cultivar bons pensamentos e sentimentos?
Acho que o mesmo sentimento acomete as pessoas que consomem livros de autoajuda ou de dietas milagrosas. Tudo sempre recheado de sorrisos e de bom senso. Tudo sempre muito fácil e acessível, bastando, apenas, transformar esses maus hábitos mentais em bons hábitos. As pessoas que tem acesso a esses textos tem uma adesão entusiasmada a princípio, para depois exagerar na comida no churrasco de fim de semana, ou continuar maldizendo a própria vida e sorte, muito longe de cultivar uma atitude “mais positiva”, ou “mais equilibrada”, como o guru de autoajuda preconiza. A estante ganha novos livros que vão juntar poeira e a pessoa ganha novos motivos para duvidar de si mesma.
Engraçado que muitos comentários sobre esse blog eu recebo por e-mail ou pessoalmente, de pessoas que se sentem inibidas de fazer comentários públicos. Outro dia recebi um apelo desesperado, justamente pela dificuldade que temos de modificar esses padrões negativos, tão incrustrados em nossas redes neurais. Ela descreveu, sem querer, uma grande questão: Como modificar esses padrões? Sem saber, ela tocou em uma questão muito antiga, a batalha entre nosso Cérebro Emocional, onde estão os imprintings profundos, gravados em nossas redes de memória desde a vida uterina, e o pobre Cérebro Racional, milhões e milhões de anos mais novo. Somos mais guiados e controlados por esses imprintings do que gostaríamos de acreditar. Mas isso quer dizer que é uma batalha perdida? Somos prisioneiros de nossos hábitos alimentares e emocionais, e nada podemos fazer quanto a isso, além de começarmos dietas que não vamos manter ou tentar largar de algo que não gostamos, mas não conseguimos nos afastar?
Um velho mestre falou em uma aula, antes de começarmos a atender em psicoterapia alguns dos pacientes mais graves que viríamos a atender, sem nenhum treinamento anterior. Era a nossa primeira semana de Residência e estávamos obviamente apavorados. O mestre nos deu uma ótima lição de que um processo de psicoterapia consiste em revelar para transformar. Ouvir um outro ser humano, que talvez nunca teve a oportunidade de ser ouvido com esse tempo e atenção, já é uma revelação. O simples fato de se ouvir a própria voz, olhar panoramicamente o próprio percurso, para, se tudo der certo, poder ouvir de si mesmo a própria história, já produz algumas microtransformações que podem virar uma bela transformação depois de um tempo. Parece estranho, mas funciona. Ele recomendou, então, que apurássemos os ouvidos e o olhar. Isso já era um começo de psicoterapia. O resto a gente iria aprendendo nas aulas e nas supervisões. Aquilo foi uma bela lição. As revelações que transformam aparecem em sentimentos profundos que surgem no processo terapêutico. Profundos como os falsos softwares que comandam a nossa vida.
Acho que o mesmo sentimento acomete as pessoas que consomem livros de autoajuda ou de dietas milagrosas. Tudo sempre recheado de sorrisos e de bom senso. Tudo sempre muito fácil e acessível, bastando, apenas, transformar esses maus hábitos mentais em bons hábitos. As pessoas que tem acesso a esses textos tem uma adesão entusiasmada a princípio, para depois exagerar na comida no churrasco de fim de semana, ou continuar maldizendo a própria vida e sorte, muito longe de cultivar uma atitude “mais positiva”, ou “mais equilibrada”, como o guru de autoajuda preconiza. A estante ganha novos livros que vão juntar poeira e a pessoa ganha novos motivos para duvidar de si mesma.
Engraçado que muitos comentários sobre esse blog eu recebo por e-mail ou pessoalmente, de pessoas que se sentem inibidas de fazer comentários públicos. Outro dia recebi um apelo desesperado, justamente pela dificuldade que temos de modificar esses padrões negativos, tão incrustrados em nossas redes neurais. Ela descreveu, sem querer, uma grande questão: Como modificar esses padrões? Sem saber, ela tocou em uma questão muito antiga, a batalha entre nosso Cérebro Emocional, onde estão os imprintings profundos, gravados em nossas redes de memória desde a vida uterina, e o pobre Cérebro Racional, milhões e milhões de anos mais novo. Somos mais guiados e controlados por esses imprintings do que gostaríamos de acreditar. Mas isso quer dizer que é uma batalha perdida? Somos prisioneiros de nossos hábitos alimentares e emocionais, e nada podemos fazer quanto a isso, além de começarmos dietas que não vamos manter ou tentar largar de algo que não gostamos, mas não conseguimos nos afastar?
Um velho mestre falou em uma aula, antes de começarmos a atender em psicoterapia alguns dos pacientes mais graves que viríamos a atender, sem nenhum treinamento anterior. Era a nossa primeira semana de Residência e estávamos obviamente apavorados. O mestre nos deu uma ótima lição de que um processo de psicoterapia consiste em revelar para transformar. Ouvir um outro ser humano, que talvez nunca teve a oportunidade de ser ouvido com esse tempo e atenção, já é uma revelação. O simples fato de se ouvir a própria voz, olhar panoramicamente o próprio percurso, para, se tudo der certo, poder ouvir de si mesmo a própria história, já produz algumas microtransformações que podem virar uma bela transformação depois de um tempo. Parece estranho, mas funciona. Ele recomendou, então, que apurássemos os ouvidos e o olhar. Isso já era um começo de psicoterapia. O resto a gente iria aprendendo nas aulas e nas supervisões. Aquilo foi uma bela lição. As revelações que transformam aparecem em sentimentos profundos que surgem no processo terapêutico. Profundos como os falsos softwares que comandam a nossa vida.
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