Ontem a Folha Equilíbrio trouxe uma matéria sobre a Psicanálise, com metade do caderno composta por psicanalistas defendendo o método e a outra metade dizendo que a Psicanálise já era, é uma religião, a Neurociência que é legal, etc, etc, etc. Um artigo de Suzana Herculano Houzel, uma autora que eu costumo curtir e uma pesquisadora bacana, descartou completamente a tal da Neuropsicanálise. Disse que a Psicanálise não precisa da Neurociência e vice versa. Pior ainda, colocou de novo a psicoterapia como instrumento para o autoconhecimento, sem finalidade ou vínculo terapêutico. Para completar a ironia, ao seu lado na mesma página, há o relato de uma jovem advogada, que após um processo de quatro anos de análise, melhorou de vários problemas clinicos, como Endometriose e Tumores de Fígado (!). Os cientistas diriam que a moça melhorou porque seguiu o seu tratamento médico e atribuiu a melhora ao terapeuta, como um índio atribuiria uma melhora espontânea às artes de um pagé. Já os psicanalistas alfinetam a Psiquiatria comparando os colegas a fascistas da medicação, tacando remédios em sentimentos normais, como a tristeza, que é diferente da Depressão. Não briguem, crianças, não briguem.
Eu, que como um mutante, faço as duas coisas, fico um pouco desalentado com essas alfinetadas. É como levar porrada de dois briguentos quando tentamos separar a briga.
A moça, jovem advogada, faz um relato de sua dificuldade em engravidar, por conta da Endometriose. Suprema heresia, afirma que a sua doença tinha uma origem psicossomática. Traduzindo em bom Português, como se houvesse um fantasma na máquina de seu corpo, produzindo uma doença orgânica. Uma frase bonita de seu relato: "A análise desautorizou o meu sofrimento e me fez responsável pela minha vida, minha dor. Tirei a muleta". Não é engraçado que os detratores sempre afirmem que a análise é exatamente uma muleta para os inseguros diante da solidão da vida? A moça tirou a muleta de atribuir ao Outro a responsabilidade por sua dor. Passou a andar com as suas pernas, passo a passo. O fantasma do medo saiu de dentro da máquina, ou virou o Gasparzinho, o fantasma camarada.
O processo analítico traz à tona o relacionamento de um sujeito com seus estressores, reais e sobretudo imaginados. Dá a pessoa uma capacidade de olhar em perspectiva para velhas e novas feridas e, acima de tudo, como a jovem paciente descreveu lindamente, tira das feridas o estatuto de prisão, de mordaça. O efeito é uma diminuição progressiva das angústias e uma resiliência maior aos estressores diários de nossa vida. Diminuindo o Estresse e os estressores, as doenças que dependem dos mesmos (quase todas) também evoluem melhor. Por isso que a análise ajudou no controle da Endometriose e na diminuição dos tumores de Fígado. A Medicina tradicional também contribiui para a melhora? É óbvio que sim.
Imagino que vai demorar algumas décadas para que os analistas e os neurocientistas trabalhem conjuntamente, aproximando os constructos, alinhando hipóteses, compartilhando os saberes. Dr Freud e Dr Jung, hoje em dia, prescreveriam os medicamentos disponíveis com muita alegria.
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quarta-feira, 28 de setembro de 2011
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