Outro dia recebi uma questão interessante de uma leitora desse blog, que preferiu se manifestar no meu e-mail. Ela questionava o tal do Pensamento Positivo e como desenvolvê-lo sem tentar se fazer de boba. Dizia que não era assim otimista, pelo contrário, tendia sempre a ser um pouco pessimista e esperar pelo pior das pessoas e dos acontecimentos. Como desenvolver um otimismo que não seja tolo e não ignore a Realidade?
Não sei se a minha resposta foi animadora. Nosso Cérebro foi projetado pela Evolução para ser antes pessimista do que otimista; valorizar antes as experiências negativas do que as positivas. As lembranças mais facilmente fixadas em nossas redes de Memória são as cercadas de forte emoção, por isso lembramos mais das situações de risco, medo, tristeza e trauma. Uma das espetaculares intuições de Freud foi justamente correlacionar esses fragmentos de Memória traumática com a origem de comportamentos estranhos, neuróticos e medos tão profundos quanto irracionais que se originam dessas memórias profundas. Essa descoberta teve uma profunda influência em todos os tipos de Psicoterapia: recuperar essas memórias e, sobretudo, ressignificá-las (gosto muito dessa palavra) é uma tarefa que produz cura e transformação. O que Freud teria dificuldade hoje de aplicar o seu método seria para pacientes desse século que não são, apenas, prisioneiros do Passado: hoje temos pacientes completamente escravizados e paralisados pelo Futuro.
Nosso Cérebro tem a obrigação evolutiva de ser pessimista. Temos que estar preparados o tempo todo para situações de risco ou dificuldades que podem estar esperando por nós. No filme “As Aventuras de Pi”, o personagem principal sobrevive a sete meses de naufrágio, à deriva nas correntes do Pacífico, dividindo o bote salvavidas com um tigre chamado Richard Parker. Quando finalmente encontram terra firme, Richard Parker vai embora sem olhar para o homem que pescou e o manteve vivo no naufrágio, para sua grande mágoa. O que ele acaba compreendendo é que esse tigre, real ou imaginário, foi seu estado de extrema Prontidão e Atenção Plena diante das dificuldades e riscos diários à sobrevivência. Richard Parker representa esse estado mental não de otimismo nem pessimismo, mas de prontidão meticulosa diante do que a vida pode, ou não, trazer de bom ou de ruim.
Nosso Cérebro também conseguiu compreender a natureza do tempo e, portanto, conseguiu de forma mais complexa que qualquer outra forma de vida, planejar o futuro. Fui a um simpósio no ano passado em que um colega do Reino Unido relatou um achado bem diferente das descobertas de Freud: em vez de procurar pelos Flash Backs de experiências traumáticas, o seu grupo pesquisou os Flash Fowards, a antecipação de cenas terríveis que acometiam os pacientes como se estivessem num cinema gigante, assistindo um filme de terror da própria vida. Eram experiências em que os pacientes faziam o que fazemos todo dia, ficar projetando cenários de desgraça, fracasso para o futuro. Os pacientes que apresentavam esses Flashes Foward tinham uma evolução pior, necessitavam de mais medicamentos e tinham mais recaídas do que o resto do grupo em seguimento. Isso quer dizer que as pessoas que ficam projetando em sua tela mental imagens de cenas horríveis, como desemprego, doença, abandono ou, pior que tudo, não encontrar um bom namorado e ficar para titia, essas pessoas vão adoecer mais e ter respostas mais modestas ao tratamento.
Posso dizer para a leitora que perguntou sobre o Pensamento Positivo, é que acredito mais em atitudes do que pensamentos. Uma atitude de prontidão e abertura diante do futuro é o melhor pensamento positivo que posso desejar. Mas hoje em dia, não ficar projetando imagens de desgraça para o próprio futuro é um cuidado que nosso Cérebro Pessimista deveria sempre ter.
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sexta-feira, 5 de abril de 2013
sábado, 16 de fevereiro de 2013
"É Psicológico"
Já mencionei em outro post que a Medicina encontrou um novo fantasma na máquina nos últimos anos. Aliás, dois: Stress e Virose. Sempre que os sintomas tem origem e curso obscuros e o médico faz pouca ou nenhuma ideia do que se trata, lá vem a hipótese: “É Stress”; “Deve ser uma virose”. O paciente vai para casa com alguma receita inócua e cara de paisagem. O tal do Stress substituiu um antecessor, mais psicanalítico e mais ofensivo, que é o “É psicológico”. Esse era ainda mais fantasmagórico. Significava que o sintoma era uma espécie de invenção inexistente desse território pouco explorado do “Psicológico”. Era um encaminhamento clássico: “Os seus exames estão normais. Você não tem nada. Vai para o psiquiatra”. Não era propriamente um encaminhamento, era quase uma acusação velada: “Você está aqui de frescura enquanto eu estou querendo curar as pessoas que estão realmente doentes. Vai procurar um médico de mentirinha para tratar sua doença de mentirinha”. Lembro nos longínquos anos 90, quando fui em missão de paz implantar um serviço de Psiquiatria de Interconsulta no Hospital Universitário. Digo missão de paz porque a Psiquiatria e as outras artes Psi não eram muito bem vistas pela direção. Logo de cara um colega da Cirurgia veio observar que meu crachá estava errado, porque estava escrito “Médico” na parte de cima. Piadinha entre especialidades. Tive vontade de falar que o psiquiatra abandonava a Medicina para tratar das esposas dos cirurgiões, mas, veja bem, eu estava em missão de paz. Quebrar a cara de um colega logo na primeira semana não seria um bom começo. Ri amarelo da piadinha. Alguns meses depois, o mesmo simpático colega veio me pedir para ver um amigo dele, que estava no Pronto Socorro em Abstinência Alcoólica. Caso complicado de estabilizar e mais complicado ainda de se ver numa pessoa querida. Acabei, depois de algumas horas, diminuindo a sua agitação psicomotora. O meu colega me olhava sem graça, mas evidentemente com uma gratidão comovida. Era a Psiquiatria desbravando a terra de Marlboro.
Apesar dos pesares, há uma grande evolução conceitual do “É Psicológico” para o “Deve ser por Stress”. Não parece, mas tem. O “É psicológico” é de um freudismo primitivo. O “Stress” já é mais neurofisiológico.
Freud descreveu o Inconsciente nos final do século XIX. Pela primeira vez há História foi proposto que fatores de origem mental, ou psicológica, poderiam gerar sintomas físicos. Emoções e instintos reprimidos por nossa civilização neurótica podiam causar sintomas sem base orgânica, como desmaios, paralisias e até cegueira. Memórias traumáticas, ódios reprimidos e taras ocultas poderiam causar sintomas de evolução e curso imprevisíveis, insondáveis. Imagino que muito da antipatia que ainda existe pelos psiquiatras e pelos “psis” em geral deriva dessa fantasia que os profissionais dessa área tem uma espécie de visão de raio X para identificar as neuroses ocultas debaixo do nosso verniz de civilização. Mas esse é outro assunto. O fato é que o tal “Psicológico” também repousava nesse conceito de uma motivação inconsciente para os sintomas. Algo como: “Não é que você tenha uma palpitação ou uma sensação de aperto no peito, mas isso deve derivar de uma causa psicológica reprimida”. Para o paciente que sentia o coração saindo pela boca, não era muito confortadora a ideia de passar anos no divã para descobrir a causa daquilo. Nessa semana um cliente novo perguntou umas 3 vezes na consulta se o tratamento seria prolongado. Falei que iria tratar o seu quadro clínico e quando melhorasse faríamos um seguimento de alguns meses, depois ele teria alta e um abraço. Não precisaríamos buscar suas motivações edípicas se ele não quisesse. Mas poderíamos trabalhar os seus estressores, que estão pesados demais. Percebem a evolução? Se a Psique são várias camadas de uma cebola, podemos tratar as camadas de cima e as mais profundas, mas devemos começas pela casca.
O problema de se falar “É stress” para o paciente é que os colegas não tem noção que devem procurar não pelo stress, mas pelos estressores e a forma de lidar e equacionar os mesmos. Mas o termo dá ao paciente a noção de que há uma sobrecarga e ela deve ser tratada. É uma evolução. Modesta, mas é uma evolução.
Apesar dos pesares, há uma grande evolução conceitual do “É Psicológico” para o “Deve ser por Stress”. Não parece, mas tem. O “É psicológico” é de um freudismo primitivo. O “Stress” já é mais neurofisiológico.
Freud descreveu o Inconsciente nos final do século XIX. Pela primeira vez há História foi proposto que fatores de origem mental, ou psicológica, poderiam gerar sintomas físicos. Emoções e instintos reprimidos por nossa civilização neurótica podiam causar sintomas sem base orgânica, como desmaios, paralisias e até cegueira. Memórias traumáticas, ódios reprimidos e taras ocultas poderiam causar sintomas de evolução e curso imprevisíveis, insondáveis. Imagino que muito da antipatia que ainda existe pelos psiquiatras e pelos “psis” em geral deriva dessa fantasia que os profissionais dessa área tem uma espécie de visão de raio X para identificar as neuroses ocultas debaixo do nosso verniz de civilização. Mas esse é outro assunto. O fato é que o tal “Psicológico” também repousava nesse conceito de uma motivação inconsciente para os sintomas. Algo como: “Não é que você tenha uma palpitação ou uma sensação de aperto no peito, mas isso deve derivar de uma causa psicológica reprimida”. Para o paciente que sentia o coração saindo pela boca, não era muito confortadora a ideia de passar anos no divã para descobrir a causa daquilo. Nessa semana um cliente novo perguntou umas 3 vezes na consulta se o tratamento seria prolongado. Falei que iria tratar o seu quadro clínico e quando melhorasse faríamos um seguimento de alguns meses, depois ele teria alta e um abraço. Não precisaríamos buscar suas motivações edípicas se ele não quisesse. Mas poderíamos trabalhar os seus estressores, que estão pesados demais. Percebem a evolução? Se a Psique são várias camadas de uma cebola, podemos tratar as camadas de cima e as mais profundas, mas devemos começas pela casca.
O problema de se falar “É stress” para o paciente é que os colegas não tem noção que devem procurar não pelo stress, mas pelos estressores e a forma de lidar e equacionar os mesmos. Mas o termo dá ao paciente a noção de que há uma sobrecarga e ela deve ser tratada. É uma evolução. Modesta, mas é uma evolução.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Fantasma na Máquina
Ontem a Folha Equilíbrio trouxe uma matéria sobre a Psicanálise, com metade do caderno composta por psicanalistas defendendo o método e a outra metade dizendo que a Psicanálise já era, é uma religião, a Neurociência que é legal, etc, etc, etc. Um artigo de Suzana Herculano Houzel, uma autora que eu costumo curtir e uma pesquisadora bacana, descartou completamente a tal da Neuropsicanálise. Disse que a Psicanálise não precisa da Neurociência e vice versa. Pior ainda, colocou de novo a psicoterapia como instrumento para o autoconhecimento, sem finalidade ou vínculo terapêutico. Para completar a ironia, ao seu lado na mesma página, há o relato de uma jovem advogada, que após um processo de quatro anos de análise, melhorou de vários problemas clinicos, como Endometriose e Tumores de Fígado (!). Os cientistas diriam que a moça melhorou porque seguiu o seu tratamento médico e atribuiu a melhora ao terapeuta, como um índio atribuiria uma melhora espontânea às artes de um pagé. Já os psicanalistas alfinetam a Psiquiatria comparando os colegas a fascistas da medicação, tacando remédios em sentimentos normais, como a tristeza, que é diferente da Depressão. Não briguem, crianças, não briguem.
Eu, que como um mutante, faço as duas coisas, fico um pouco desalentado com essas alfinetadas. É como levar porrada de dois briguentos quando tentamos separar a briga.
A moça, jovem advogada, faz um relato de sua dificuldade em engravidar, por conta da Endometriose. Suprema heresia, afirma que a sua doença tinha uma origem psicossomática. Traduzindo em bom Português, como se houvesse um fantasma na máquina de seu corpo, produzindo uma doença orgânica. Uma frase bonita de seu relato: "A análise desautorizou o meu sofrimento e me fez responsável pela minha vida, minha dor. Tirei a muleta". Não é engraçado que os detratores sempre afirmem que a análise é exatamente uma muleta para os inseguros diante da solidão da vida? A moça tirou a muleta de atribuir ao Outro a responsabilidade por sua dor. Passou a andar com as suas pernas, passo a passo. O fantasma do medo saiu de dentro da máquina, ou virou o Gasparzinho, o fantasma camarada.
O processo analítico traz à tona o relacionamento de um sujeito com seus estressores, reais e sobretudo imaginados. Dá a pessoa uma capacidade de olhar em perspectiva para velhas e novas feridas e, acima de tudo, como a jovem paciente descreveu lindamente, tira das feridas o estatuto de prisão, de mordaça. O efeito é uma diminuição progressiva das angústias e uma resiliência maior aos estressores diários de nossa vida. Diminuindo o Estresse e os estressores, as doenças que dependem dos mesmos (quase todas) também evoluem melhor. Por isso que a análise ajudou no controle da Endometriose e na diminuição dos tumores de Fígado. A Medicina tradicional também contribiui para a melhora? É óbvio que sim.
Imagino que vai demorar algumas décadas para que os analistas e os neurocientistas trabalhem conjuntamente, aproximando os constructos, alinhando hipóteses, compartilhando os saberes. Dr Freud e Dr Jung, hoje em dia, prescreveriam os medicamentos disponíveis com muita alegria.
Eu, que como um mutante, faço as duas coisas, fico um pouco desalentado com essas alfinetadas. É como levar porrada de dois briguentos quando tentamos separar a briga.
A moça, jovem advogada, faz um relato de sua dificuldade em engravidar, por conta da Endometriose. Suprema heresia, afirma que a sua doença tinha uma origem psicossomática. Traduzindo em bom Português, como se houvesse um fantasma na máquina de seu corpo, produzindo uma doença orgânica. Uma frase bonita de seu relato: "A análise desautorizou o meu sofrimento e me fez responsável pela minha vida, minha dor. Tirei a muleta". Não é engraçado que os detratores sempre afirmem que a análise é exatamente uma muleta para os inseguros diante da solidão da vida? A moça tirou a muleta de atribuir ao Outro a responsabilidade por sua dor. Passou a andar com as suas pernas, passo a passo. O fantasma do medo saiu de dentro da máquina, ou virou o Gasparzinho, o fantasma camarada.
O processo analítico traz à tona o relacionamento de um sujeito com seus estressores, reais e sobretudo imaginados. Dá a pessoa uma capacidade de olhar em perspectiva para velhas e novas feridas e, acima de tudo, como a jovem paciente descreveu lindamente, tira das feridas o estatuto de prisão, de mordaça. O efeito é uma diminuição progressiva das angústias e uma resiliência maior aos estressores diários de nossa vida. Diminuindo o Estresse e os estressores, as doenças que dependem dos mesmos (quase todas) também evoluem melhor. Por isso que a análise ajudou no controle da Endometriose e na diminuição dos tumores de Fígado. A Medicina tradicional também contribiui para a melhora? É óbvio que sim.
Imagino que vai demorar algumas décadas para que os analistas e os neurocientistas trabalhem conjuntamente, aproximando os constructos, alinhando hipóteses, compartilhando os saberes. Dr Freud e Dr Jung, hoje em dia, prescreveriam os medicamentos disponíveis com muita alegria.
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