Estava vendo um vídeo sobre treinamento dos Seals, grupo de elite da Marinha Americana que se tornou notório após a operação que culminou com a morte de Osama Bin Laden. Os Seals são treinados para atingir o melhor desempenho em situações de caos e onde tudo está dando errado. Improviso, tolerância a frustração, adaptabilidade. Mas o que mais me impressionou foi o sistema de micro aquisições que preparam a pessoa para realizações maiores. Os Navy Seals são treinados a realizar micro tarefas diariamente para criar o método e o hábito de terminar o que começaram e ganhar confiança para executar tarefas mais complexas e difíceis. É claro que os caras podem ficar adictos com o jogo de se propor desafios toda hora e perderem a dimensão do Significado que toda essa malhação e gritaria deveriam trazer, mas a divisão das tarefas em microtarefas, a sensação de conseguir terminar e passar para a próxima fase, a ampliação de repertórios de aprendizado, bem, isso não difere muito do que deveria ser uma psicoterapia.
Existem entidades fantasma na Medicina que muito vem aumentando em frequência e importância, mas pela ausência de lesões anatômicas claras ficam numa espécie de limbo terapêutico. A Síndrome da Fadiga Crônica e a Fibromialgia estão entre essas entidades fantasmagóricas. As duas são na realidade muito parecidas e eu chego a arriscar que são na verdade a mesma doença, com nomes diferentes. As duas se caracterizam por um cansaço crônico e progressivo, dores generalizadas pelo corpo, tanto em grupos musculares como em articulações, uma sensação meio tóxica de desânimo e falta de iniciativa, com dificuldade para iniciar e manter tarefas ou mesmo qualquer tipo de movimento. Tudo parece convidar a pessoa a ficar parada no lugar com medo da dor, com medo de sair ou de se arriscar no mundo exterior. Um tratamento que começou a dar resultado nesses casos foi justamente fazer microtarefas físicas, como andar alguns metros dentro de casa, fazer alongamentos e mover pequenos pesos. Claro que essas microtarefas são cercadas de medo e da exacerbação das dores no início, e é esse começo difícil que precisa ser enfrentado para se criar um sistema de aprendizado muscular, mas, sobretudo, de um aprendizado cerebral de que aquele cansaço e aquela dor não são tão “reais” como possam parecer. Esse foi um grande insight para o tratamento dessa e de outras doenças que dependem do sistema de crenças entranhado nas redes neurais. Os portadores da Síndrome da Fadiga Crônica e da Fibromialgia tem uma impressão Central de que podem morrer de dor ou de cansaço se iniciarem qualquer tipo de movimento. Mudar esses pensamentos ajuda a mudar os sentimentos envolvidos. É bom lembrar que os sentimentos são profundos e entranhados, e que questioná-los de cara gera resistência de quem aprendeu, no decorrer de anos ou até décadas, a se enxergar como doente ou pautar sua identidade pela sensação de dor e limitação.
O trabalho das terapias, eu diria até, de todas as terapias que se pretendam curativas, é de desafiar esse sistema de crenças e estabelecer microtarefas e pequenos sucessos para contrapor ao medo e à paralisia. Nem todo mundo quer deixar esse lugar aquecido de que “sou doente e preciso de ajuda”. Mas o mundo está cada vez menos acolhedor para quem se ancora nessa posição. Uma das leis de Spinelli, talvez a 54 (os números são aleatórios), diz que na vida, ou vamos para frente ou vamos para trás. Parado ninguém fica, embora muita gente tente. A natureza pede pelo aprendizado e pela evolução, e essa é uma de nossas tarefas na vida. Como os grandalhões dos Seals, temos que jogar o jogo com as armas e as circunstâncias que estão lá, à disposição. Isso elimina uma série de quandos: quando eu tiver aquele diploma, quando encontrar amor verdadeiro, quando entrar aquela grana que estou esperando. Já dizia Jesus: “Levanta-te e anda”. Mesmo que andar, sem dúvida, traga dor nos primeiros passos.
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segunda-feira, 3 de outubro de 2016
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