O filme “To the Bone” (“O Mínimo Para Viver”), produção original do Netflix, serviu de base para esses quatro derradeiros posts, que vão encerrar esse blog. Quem não conseguiu vê-lo saiba que teremos alguns spoilers nesse texto, mas apenas o estritamente necessário. Espero não estragar o filme e, pelo contrário, aguçar a vontade de vê-lo nos visitantes desse Blog.
A parte final desse filme fala de uma questão muito cara a esse escriba que vos tecla. Ellen, que é rebatizada de Eli pelo psiquiatra que a acompanha em sua internação, recebe todas as orientações e estímulos, positivos e negativos, para começar a comer e participar de sua recuperação. Após um período de melhora e esperança, ocorre uma situação traumática com uma das pacientes, que Eli presencia com Luke, seu amigo apaixonado. Isso desencadeia uma completa regressão: ela para de comer e claramente deprime. Deprime para valer. Finalmente, rompe com o seu tratamento e foge para a casa de sua mãe. Dr Beckham fala para a sua madrasta e irmã: “Muitas vezes uma paciente como Eli precisa ir até o limite do fundo do poço para escolher entre a Vida e a Morte” (não foi essa a fala, mas é essa a tradução spinelliana da mesma). Aí temos uma grande, grande questão.
Freud formulou muitas teorias, algumas circulares e forçadas, destinadas a referendar o seu apego quase religioso à sua teoria da Origem Sexual de todas as neuroses. Não vamos discutir isso agora. Mas Freud formulou também constructos grandiosos que não cansamos de comprovar com o avanço da Neurociência. Um deles é a Teoria do Conflito. Quando existe um conflito, uma tensão entre a vontade de prosseguir e a vontade de recuar, aí temos um sintoma e, posteriormente, uma doença. Eli passa o tempo todo na Via Crucis do Conflito e da Dúvida. Uma parte dela quer melhorar e embarcar no fluxo da vida, outra continua deslizando gradualmente para a morte. Freud também falou dessas Pulsões, de Eros e Tânatos disputando a nossa Alma. Todo dia. Jung descreveu esse processo como Tensão dos Opostos, o que está no post anterior. A Tensão dos Opostos, levada ao extremo, vai determinar, ou não, a Transformação. Isso é o que está contido na fala do Dr Beckham. Eli vai ter que descer mais profundamente no Vale das Sombras para decidir o caminho da Vida ou da Morte. Para isso, ela vai precisar da mais misteriosa das capacidades psíquicas, que é o Perdão.
Agora teremos o spoiler: Eli vai para o rancho onde sua mãe vive com a companheira. Elas praticam uma espécie de terapia esotérica com cavalos. A mãe de Eli é uma pessoa claramente frágil e despedaçada, que se ampara numa companheira particularmente dura e pouco sintonizada com a situação gravíssima que está diante de seu nariz. Na hora de dormir, ela finalmente pode falar a partir de seu coração com a menina. Acho essa a cena mais bonita e reveladora do filme. Ela descreve mais uma vez para a filha a Depressão Pós Parto grave que a afastou de seu bebê, na época de seu nascimento. Reconheceu que isso tinha um papel na Anorexia Nervosa de Eli e pedia perdão por isso. Dr Beckham alertou-a que estava perto de perder a sua filha. Na nossa Ciência Psiquiátrica, essa é a hora de internar, passar um tubo pelo nariz da paciente para alimentá-la na marra, ou enfiar nutrientes pelas suas veias até sair da situação de risco. Se fosse minha paciente, é o que eu faria, aqui entre nós. A mãe de Eli pede seu perdão e se oferece para dar a ela uma mamadeira de leite de arroz. A menina acha a proposta estranha, mas acaba aceitando depois da mãe pronunciar a frase mais impressionante do filme: “Se a sua opção for morrer, eu vou aceitar e respeitar, mas saiba que eu te amo muito”. Talvez essa seja a forma mais radical e profunda de amor: respeitar uma decisão dessas. Acolher o Mistério onde nossa mente não consegue penetrar. Respeitar um dos direitos mais estranhos que nosso livre arbítrio nos concede, que é o direito de acolher a própria morte. Espero que isso não seja entendido como uma defesa do Suicídio. Dedico minha vida e minha prática clínica a evitar suicídios. Não concordo e não aceito, mas posso compreender a capacidade humana de consentir com a própria morte. E entendo o amor desesperado daquela mãe que pode aceitar a escolha de sua filha em atravessar, ou não, aquele Limiar.
Essa é a grande questão que foi descrita acima. Podemos usar remédios, terapias comportamentais, hipnose, meditação, internação, medicação e soros intavenosos e toda a parafernália que os quase duzentos anos de Psiquiatria e Psicologia nos legaram. Mas todo tratamento busca, de uma maneira mais ou menos profunda, o sacramento do Perdão. E perdão nasce do Entendimento e da Compreensão. Não é gratuito e, sobretudo, não pode ser concedido por decreto.Nem por técnicas terapêuticas.
Perdão é concedido a quem o pede, como a mãe de Eli pede perdão por ter sido devastada por vários colapsos depressivos e isso ter afetado a vida de sua filha no limiar da vida adulta. Eli pede perdão por não conseguir superar o medo e se deixar engolir pela doença. As duas se abraçam, num grande gesto de Perdão de Si e do Outro. Se Eli vai finalmente se entregar para a Morte ou vai iniciar a sua jornada de cura, o leitor vai ter que ver o filme para descobrir. O que eu posso dizer é que passamos, muitas vezes, por essa Jornada de Transformação em nossa vida. Passamos pela Perda, resistimos ao calor que aquece a nossa Pedra, temos que encontrar a Letra que indica o caminho de volta, mas só atravessamos a crise pelo caminho do Perdão. Um beijo a todos. Obrigado por tudo.
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quinta-feira, 12 de outubro de 2017
domingo, 9 de julho de 2017
Esperar no Silêncio
O menino segurava a mão de seu avô, no cenário chuvoso do funeral de sua mãe. Um cenário chuvoso é sempre mais adequado aos funerais. Pergunta ao seu avô, que era um Pediatra, por que não tinham conseguido tirar o tumor da cabeça de sua mãe. O avô explicou que o tumor estava espalhado e se interpenetrava nos tecidos do entorno, não dava para ser retirado. Não havia nada a fazer. O menino cresceu e virou um médico, com uma particular motivação em entender as situações em que, apesar de todos os conhecimentos e recursos, as vidas se vão e nada se pode fazer. Virou pesquisador não de Oncologia, mas de Choque Séptico, uma causa bastante importante de morte hospitalar, com o agravante de se dar algumas vezes de forma paradoxal, interrompendo uma curva de melhora clínica. Descobriu que essa entidade clínica, ao contrário do que se pensava quando me formei, está menos relacionada com atividade de bactérias resistentes ao tratamento do que a um estado de completo esgotamento do organismo em manter o próprio equilíbrio, gerando quedas abruptas de pressão arterial e parada cardíaca. Hoje está pesquisando as formas de evitar que esse estado de exaustão se estabeleça, antes que seja tarde. Como no romance de Mary Shelley, ele cria uma rixa com a Morte a partir da perda de sua mãe. Ao contrário do Dr Victor Frankenstein, ele não está criando monstros a partir de sua dor. Porque a dor pode criar monstros que nunca nos abandonam.
O Tao Te King, assim como o Taoísmo, usa um conceito muito difícil de apreensão pelas nossas mentes ocidentais, que é o Wu Wei, a “Ação pela Não Ação”. Conceito bem difícil para a Medicina. Tratamos a doença e a morte como predadores à espreita. Temos que antecipar seus ataques. Muito estrago se faz a partir dessa fantasia: procedimentos invasivos, caros, condutas e atitudes proativas que podem gerar outras complicações. Pois se toda ação gera uma reação, o que fazer pelo poder da Não Ação? A hora de maior aflição, que é a hora em que não se sabe mais o que fazer, talvez seja a hora de esperar na Não Ação?
O que eu consigo entender sobre a Não Ação é que ela não significa simplesmente cruzar os braços ou deitar as armas. Significa aquele momento de silêncio em que nada há a fazer senão esperar. Mas esperar à espreita; à espreita de algo que vá se manifestar. No filme Apollo 13, entrevistam a mãe de Jim Lovell, supostamente demenciada, sobre seu filho, preso dentro de uma espaçonave entre a Terra e a Lua. Ela se recorda de um episódio em que seu filho voava sobre a costa do Pacífico e seu jato teve uma pane elétrica. Jim perdeu todos os instrumentos de navegação e passou a voar às cegas, no meio da noite do outro lado do mundo. Em vez de se desesperar, o piloto entrou em perfeito Wu Wei, e esperou no meio do silêncio e do escuro, que parecia mortal, o que viria em seu auxílio. Foi quando notou que a Lua se refletia nas algas da costa, fazendo um rastro prateado. Isso serviu para a sua orientação e ele seguiu aquele rastro até achar as luzes das cidades e o caminho para a sua pista. Podemos chamar isso de sorte, ou de Mistério. Fica ao gosto do leitor. A velha senhora resumiu o que foi o resgate de seu filho: pode ser que ele não tenha achado um jeito ainda, mas vai achar.
Herdei de Jung (e Jung herdou do Taoísmo) o gosto pela ação médica que restaura o equilíbrio. A Ação delicada e, em algumas situações, a Ação pela Não Ação. Não que seja fácil e, muitas vezes, o terapeuta é confinado à Não Ação pela Defesa do próprio paciente. Acho que, como o colega cuja história descrevi acima, também tive uma pendenga com a Morte quando vi meu avô se esvaindo num Cãncer de Esôfago, lá pelos idos dos anos setenta. Não gosto das situações onde não há nada a fazer, mas imagino, como o piloto que perdeu os seus aparelhos, que sempre vai acontecer algo se eu esperar no Silêncio.
O Tao Te King, assim como o Taoísmo, usa um conceito muito difícil de apreensão pelas nossas mentes ocidentais, que é o Wu Wei, a “Ação pela Não Ação”. Conceito bem difícil para a Medicina. Tratamos a doença e a morte como predadores à espreita. Temos que antecipar seus ataques. Muito estrago se faz a partir dessa fantasia: procedimentos invasivos, caros, condutas e atitudes proativas que podem gerar outras complicações. Pois se toda ação gera uma reação, o que fazer pelo poder da Não Ação? A hora de maior aflição, que é a hora em que não se sabe mais o que fazer, talvez seja a hora de esperar na Não Ação?
O que eu consigo entender sobre a Não Ação é que ela não significa simplesmente cruzar os braços ou deitar as armas. Significa aquele momento de silêncio em que nada há a fazer senão esperar. Mas esperar à espreita; à espreita de algo que vá se manifestar. No filme Apollo 13, entrevistam a mãe de Jim Lovell, supostamente demenciada, sobre seu filho, preso dentro de uma espaçonave entre a Terra e a Lua. Ela se recorda de um episódio em que seu filho voava sobre a costa do Pacífico e seu jato teve uma pane elétrica. Jim perdeu todos os instrumentos de navegação e passou a voar às cegas, no meio da noite do outro lado do mundo. Em vez de se desesperar, o piloto entrou em perfeito Wu Wei, e esperou no meio do silêncio e do escuro, que parecia mortal, o que viria em seu auxílio. Foi quando notou que a Lua se refletia nas algas da costa, fazendo um rastro prateado. Isso serviu para a sua orientação e ele seguiu aquele rastro até achar as luzes das cidades e o caminho para a sua pista. Podemos chamar isso de sorte, ou de Mistério. Fica ao gosto do leitor. A velha senhora resumiu o que foi o resgate de seu filho: pode ser que ele não tenha achado um jeito ainda, mas vai achar.
Herdei de Jung (e Jung herdou do Taoísmo) o gosto pela ação médica que restaura o equilíbrio. A Ação delicada e, em algumas situações, a Ação pela Não Ação. Não que seja fácil e, muitas vezes, o terapeuta é confinado à Não Ação pela Defesa do próprio paciente. Acho que, como o colega cuja história descrevi acima, também tive uma pendenga com a Morte quando vi meu avô se esvaindo num Cãncer de Esôfago, lá pelos idos dos anos setenta. Não gosto das situações onde não há nada a fazer, mas imagino, como o piloto que perdeu os seus aparelhos, que sempre vai acontecer algo se eu esperar no Silêncio.
segunda-feira, 26 de junho de 2017
O Som e a Cura
Não foi muito lido o post em que eu descrevo as formas de Reação ao Estresse e como a programação interna determina como vai ser o desempenho diante da situação difícil. A reação Fight or Flight, ou Bater ou Correr e o Congelamento, que são as reações mais comuns, ou a reação de Desafio, onde o sujeito se agiganta diante do medo. Usei exemplos de futebol, como o timeco (des)montado por Rogério Ceni, que se congela quando toma gol. Não vou repetir o erro e falar de futebol de novo. Acho que vou fazer um blog só para isso.
A Reação de Desafio se manifesta quando uma pessoa se enfurece e se expande diante de uma dificuldade, ao contrário da reação natural, que é o medo e o encolhimento. No laboratório, os pesquisadores chamam a Reação de Desamparo Aprendido, quando um camundongo desiste de enfrentar uma situação adversa e se entrega para um predador ou para de nadar. Ratinhos mais valentes e medicados com alguns antidepressivos se mantém ativos por mais tempo.
Está chegando uma nova indústria farmacêutica no Brasil, e ela trouxe como cartão de visita um aplicativo chamado Parkinsounds, voltado para a DP, Doença de Parkinson. Essa doença degenerativa compromete algumas capacidades neurais, mas seu principal achado é a dificuldade motora, com tremores, lentificação e perda da capacidade de andar e se movimentar adequadamente. O aplicativo foi concebido para usar as músicas que o paciente gosta e adaptar o seu ritmo para acompanhar outro ritmo, o da marcha do doente. Enquanto ele faz seu trabalho de fisioterapia, seus passos tentam acompanhar o ritmo da música, como um marca passo musical e interno reorientando os movimentos. As melhoras depois de alguns meses são impressionantes. A música recria a musicalidade dos movimentos.
Li uma matéria sobre Michael Phelps, o maior medalhista olímpico e maior nadador de todos os tempos, e alguém perguntou o que tocava em seus fones de ouvido antes da prova. Ele respondeu que era uma música forte e pauleira, mas hoje eu me pergunto se ele também não encontrou um aplicativo onde a música ditava o ritmo de suas braçadas, criando um monstro dentro da piscina, que se expande e se agiganta diante do medo. Ou que ele aprendeu a colocar a música nas braçadas, ficando invencível.
Vivemos uma época de hiperestímulo, e um desses estímulos é o de prevalecer numa selva darwiniana de competições invisíveis. O medo de ficar para trás, ficar obsoleto ou, em última análise, ficar inteiramente só em meio à balbúrdia das pressões do Mercado cria também uma multidão de camundongos humanos congelados em seus pensamentos, até chegar ao estado de desamparo clínico, que chamamos de Depressão. Como no caso desse aplicativo Parkinsounds, posso imaginar que ele possa ser o início do fim da era medicamentosa em Neurociência. Em algumas décadas, os psiquiatras poderão ser substituídos por aplicativos que vão produzir ondas de pulso em áreas afetadas pela Depressão e Ansiedade, para restaurar a função perdida ou simplesmente recuperar a neurotransmissão após um dia difícil no trabalho. Em vez de temer que a Psiquiatria vire uma empresa de taxi em meio aos carros do Uber, gosto de imaginar que as doenças que são tratadas no dia a dia são na verdade doenças de áreas desativadas ou pouco ativadas no Cérebro que provocam nas pessoas dores psíquicas profundas. As técnicas meditativas são um aplicativo milenar, disponível para todos, para mandar ondas de estímulo para todas as áreas pouco ativas do Cérebro. Manda pulsos de serenidade e a sensação de expansão do que está contraído pelo medo. E é gratuito.
As doenças mentais podem se manifestar quando o Cérebro perde seu estímulo e sua Música. Um bom terapeuta busca recuperar as harmonias perdidas, e isso não vai poder ser substituído por um smartphone.
A Reação de Desafio se manifesta quando uma pessoa se enfurece e se expande diante de uma dificuldade, ao contrário da reação natural, que é o medo e o encolhimento. No laboratório, os pesquisadores chamam a Reação de Desamparo Aprendido, quando um camundongo desiste de enfrentar uma situação adversa e se entrega para um predador ou para de nadar. Ratinhos mais valentes e medicados com alguns antidepressivos se mantém ativos por mais tempo.
Está chegando uma nova indústria farmacêutica no Brasil, e ela trouxe como cartão de visita um aplicativo chamado Parkinsounds, voltado para a DP, Doença de Parkinson. Essa doença degenerativa compromete algumas capacidades neurais, mas seu principal achado é a dificuldade motora, com tremores, lentificação e perda da capacidade de andar e se movimentar adequadamente. O aplicativo foi concebido para usar as músicas que o paciente gosta e adaptar o seu ritmo para acompanhar outro ritmo, o da marcha do doente. Enquanto ele faz seu trabalho de fisioterapia, seus passos tentam acompanhar o ritmo da música, como um marca passo musical e interno reorientando os movimentos. As melhoras depois de alguns meses são impressionantes. A música recria a musicalidade dos movimentos.
Li uma matéria sobre Michael Phelps, o maior medalhista olímpico e maior nadador de todos os tempos, e alguém perguntou o que tocava em seus fones de ouvido antes da prova. Ele respondeu que era uma música forte e pauleira, mas hoje eu me pergunto se ele também não encontrou um aplicativo onde a música ditava o ritmo de suas braçadas, criando um monstro dentro da piscina, que se expande e se agiganta diante do medo. Ou que ele aprendeu a colocar a música nas braçadas, ficando invencível.
Vivemos uma época de hiperestímulo, e um desses estímulos é o de prevalecer numa selva darwiniana de competições invisíveis. O medo de ficar para trás, ficar obsoleto ou, em última análise, ficar inteiramente só em meio à balbúrdia das pressões do Mercado cria também uma multidão de camundongos humanos congelados em seus pensamentos, até chegar ao estado de desamparo clínico, que chamamos de Depressão. Como no caso desse aplicativo Parkinsounds, posso imaginar que ele possa ser o início do fim da era medicamentosa em Neurociência. Em algumas décadas, os psiquiatras poderão ser substituídos por aplicativos que vão produzir ondas de pulso em áreas afetadas pela Depressão e Ansiedade, para restaurar a função perdida ou simplesmente recuperar a neurotransmissão após um dia difícil no trabalho. Em vez de temer que a Psiquiatria vire uma empresa de taxi em meio aos carros do Uber, gosto de imaginar que as doenças que são tratadas no dia a dia são na verdade doenças de áreas desativadas ou pouco ativadas no Cérebro que provocam nas pessoas dores psíquicas profundas. As técnicas meditativas são um aplicativo milenar, disponível para todos, para mandar ondas de estímulo para todas as áreas pouco ativas do Cérebro. Manda pulsos de serenidade e a sensação de expansão do que está contraído pelo medo. E é gratuito.
As doenças mentais podem se manifestar quando o Cérebro perde seu estímulo e sua Música. Um bom terapeuta busca recuperar as harmonias perdidas, e isso não vai poder ser substituído por um smartphone.
domingo, 29 de janeiro de 2017
Consciência Unitiva
Um homem estava deitado sobre uma maca, com o corpo coberto de feridas. O seu rosto traduzia o maior dos sofrimentos. Jesus e seus apóstolos se apiedaram daquela dor e ofereceram ao homem a cura, como já ocorrera com tantos cegos, mancos e leprosos. O homem delicadamente recusou a oferta, dizendo que não precisava daquilo. Os apóstolos ficaram atônitos com a recusa, mas Jesus falou: “Em verdade vos digo que há mais entre esse homem e Deus do que todos nós aqui reunidos”. A pequena parábola está contida em um livro de Bert Hallinger, criador das Constelações Familiares. Como muitas de suas pequenas histórias, causam um pequeno desconforto, como se alguma coisa fugisse à nossa percepção. Outra coisa seria a abertura para qualquer ângulo de interpretação. Donald Trump diria que trata-se de um vagabundo que não quer parar de depender da caridade e ganhar a própria vida. O corpo coberto de feridas seria seu ganha pão miserável. Outra pessoa diria que é uma parábola que enobrece e estimula o sofrimento humano, como um hino ao masoquismo.
Como a interpretação é livre, eu diria que essa pequena parábola seria o maior mistério da vida e a resolução do pensamento dualista. Talvez um dos maiores mistérios, que é aceitar profundamente a própria ferida e os estranhos caminhos do destino. No livro de José Saramago, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, Jesus impõe a mão sobre os doentes e os livra de suas dores, mas volta aos seus discípulos entristecido de saber que logo aquelas pessoas vão cometer os mesmos erros e logo voltarão com as mesmas doenças que Ele acabara de curar. Um correspondente moderno dessa história são os estudos que demonstram que os pacientes revascularizados, que recebem quase que um novo Coração após diagnóstico de doenças coronarianas graves, tem uma evolução muito diferente se conseguem ou não mudar sua vida e hábitos. A grosso modo, esses estudos demonstram que as pessoas que permanecem com os mesmo hábitos alimentares, de estresses ou de falta de exercícios físicos vão ter uma sobrevivẽncia bem menor do que aqueles que percebem a doença como um alerta e modificam seus hábitos e seus estressores. O leitor atento deste texto poderia questionar a contradição entre as parábolas: devemos aceitar incondicionalmente nossas feridas e destino ou cuidar melhor delas para evitar a morte prematura?
Como o Jesus de Saramago, não adianta nada curar a doença sem um entendimento profundo de seu Significado e o que vai precisar mudar em nossa vida a partir disso. Não acho que o leproso que recusa a cura mágica seja a representação da resignação, pura e simples, diante de nossas feridas. As feridas nos convidam à ação, e não à inércia. Quando Jesus afirma que “há mais entre aquele homem e Deus que todos nós”, não acho que seja o elogio da resignação. Em termos junguianos, eu diria que representa a Coniunctio. Um palavrão alquímico que representa a união de opostos. Para nosso pensamento dualista, sempre vai existir o certo e o errado, o preto e o branco com poucos tons de cinza. Somos todos compostos de nossas feridas, e procuramos todos os dias a melhor forma de nos livrarmos delas. A tentativa de suicídio em muitos casos é uma tentativa de acabar com a dor que não quer passar. Está muito longe da nossa consciência a gratidão pela dor. A dor é um erro e deve ser retirada cirurgicamente.
Uma vez pediram uma interconsulta para uma paciente que estava com uma doença oncológica avançada, sem possibilidade de tratamento, e parecia completamente alheia ao que acontecia. O colega temia que ela estivesse deprimida ou em Negação. A paciente, como o homem coberto de feridas da parábola, estava iluminada de uma consciência que já havia ultrapassado a vida e a morte. Estava muito longe da Negação. Ela teve uma vida plena e aceitava também plenamente o fim de sua jornada. Era impressionante a ausência de dor física, dada a sua condição clínica. Fiquei com vontade de dizer ao meu colega que, em verdade, havia muito mais entre aquela mulher e Deus do que entre todos nós. Ela estava em Coniunctio, o que poderia chamar de Consciência Unitiva. Seus olhos estavam brilhantes de amor e ausência de medo. Naquele dia, foi ela que me tratou e não o contrário.
Como a interpretação é livre, eu diria que essa pequena parábola seria o maior mistério da vida e a resolução do pensamento dualista. Talvez um dos maiores mistérios, que é aceitar profundamente a própria ferida e os estranhos caminhos do destino. No livro de José Saramago, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, Jesus impõe a mão sobre os doentes e os livra de suas dores, mas volta aos seus discípulos entristecido de saber que logo aquelas pessoas vão cometer os mesmos erros e logo voltarão com as mesmas doenças que Ele acabara de curar. Um correspondente moderno dessa história são os estudos que demonstram que os pacientes revascularizados, que recebem quase que um novo Coração após diagnóstico de doenças coronarianas graves, tem uma evolução muito diferente se conseguem ou não mudar sua vida e hábitos. A grosso modo, esses estudos demonstram que as pessoas que permanecem com os mesmo hábitos alimentares, de estresses ou de falta de exercícios físicos vão ter uma sobrevivẽncia bem menor do que aqueles que percebem a doença como um alerta e modificam seus hábitos e seus estressores. O leitor atento deste texto poderia questionar a contradição entre as parábolas: devemos aceitar incondicionalmente nossas feridas e destino ou cuidar melhor delas para evitar a morte prematura?
Como o Jesus de Saramago, não adianta nada curar a doença sem um entendimento profundo de seu Significado e o que vai precisar mudar em nossa vida a partir disso. Não acho que o leproso que recusa a cura mágica seja a representação da resignação, pura e simples, diante de nossas feridas. As feridas nos convidam à ação, e não à inércia. Quando Jesus afirma que “há mais entre aquele homem e Deus que todos nós”, não acho que seja o elogio da resignação. Em termos junguianos, eu diria que representa a Coniunctio. Um palavrão alquímico que representa a união de opostos. Para nosso pensamento dualista, sempre vai existir o certo e o errado, o preto e o branco com poucos tons de cinza. Somos todos compostos de nossas feridas, e procuramos todos os dias a melhor forma de nos livrarmos delas. A tentativa de suicídio em muitos casos é uma tentativa de acabar com a dor que não quer passar. Está muito longe da nossa consciência a gratidão pela dor. A dor é um erro e deve ser retirada cirurgicamente.
Uma vez pediram uma interconsulta para uma paciente que estava com uma doença oncológica avançada, sem possibilidade de tratamento, e parecia completamente alheia ao que acontecia. O colega temia que ela estivesse deprimida ou em Negação. A paciente, como o homem coberto de feridas da parábola, estava iluminada de uma consciência que já havia ultrapassado a vida e a morte. Estava muito longe da Negação. Ela teve uma vida plena e aceitava também plenamente o fim de sua jornada. Era impressionante a ausência de dor física, dada a sua condição clínica. Fiquei com vontade de dizer ao meu colega que, em verdade, havia muito mais entre aquela mulher e Deus do que entre todos nós. Ela estava em Coniunctio, o que poderia chamar de Consciência Unitiva. Seus olhos estavam brilhantes de amor e ausência de medo. Naquele dia, foi ela que me tratou e não o contrário.
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
Sobre Levantar e Andar
Estava vendo um vídeo sobre treinamento dos Seals, grupo de elite da Marinha Americana que se tornou notório após a operação que culminou com a morte de Osama Bin Laden. Os Seals são treinados para atingir o melhor desempenho em situações de caos e onde tudo está dando errado. Improviso, tolerância a frustração, adaptabilidade. Mas o que mais me impressionou foi o sistema de micro aquisições que preparam a pessoa para realizações maiores. Os Navy Seals são treinados a realizar micro tarefas diariamente para criar o método e o hábito de terminar o que começaram e ganhar confiança para executar tarefas mais complexas e difíceis. É claro que os caras podem ficar adictos com o jogo de se propor desafios toda hora e perderem a dimensão do Significado que toda essa malhação e gritaria deveriam trazer, mas a divisão das tarefas em microtarefas, a sensação de conseguir terminar e passar para a próxima fase, a ampliação de repertórios de aprendizado, bem, isso não difere muito do que deveria ser uma psicoterapia.
Existem entidades fantasma na Medicina que muito vem aumentando em frequência e importância, mas pela ausência de lesões anatômicas claras ficam numa espécie de limbo terapêutico. A Síndrome da Fadiga Crônica e a Fibromialgia estão entre essas entidades fantasmagóricas. As duas são na realidade muito parecidas e eu chego a arriscar que são na verdade a mesma doença, com nomes diferentes. As duas se caracterizam por um cansaço crônico e progressivo, dores generalizadas pelo corpo, tanto em grupos musculares como em articulações, uma sensação meio tóxica de desânimo e falta de iniciativa, com dificuldade para iniciar e manter tarefas ou mesmo qualquer tipo de movimento. Tudo parece convidar a pessoa a ficar parada no lugar com medo da dor, com medo de sair ou de se arriscar no mundo exterior. Um tratamento que começou a dar resultado nesses casos foi justamente fazer microtarefas físicas, como andar alguns metros dentro de casa, fazer alongamentos e mover pequenos pesos. Claro que essas microtarefas são cercadas de medo e da exacerbação das dores no início, e é esse começo difícil que precisa ser enfrentado para se criar um sistema de aprendizado muscular, mas, sobretudo, de um aprendizado cerebral de que aquele cansaço e aquela dor não são tão “reais” como possam parecer. Esse foi um grande insight para o tratamento dessa e de outras doenças que dependem do sistema de crenças entranhado nas redes neurais. Os portadores da Síndrome da Fadiga Crônica e da Fibromialgia tem uma impressão Central de que podem morrer de dor ou de cansaço se iniciarem qualquer tipo de movimento. Mudar esses pensamentos ajuda a mudar os sentimentos envolvidos. É bom lembrar que os sentimentos são profundos e entranhados, e que questioná-los de cara gera resistência de quem aprendeu, no decorrer de anos ou até décadas, a se enxergar como doente ou pautar sua identidade pela sensação de dor e limitação.
O trabalho das terapias, eu diria até, de todas as terapias que se pretendam curativas, é de desafiar esse sistema de crenças e estabelecer microtarefas e pequenos sucessos para contrapor ao medo e à paralisia. Nem todo mundo quer deixar esse lugar aquecido de que “sou doente e preciso de ajuda”. Mas o mundo está cada vez menos acolhedor para quem se ancora nessa posição. Uma das leis de Spinelli, talvez a 54 (os números são aleatórios), diz que na vida, ou vamos para frente ou vamos para trás. Parado ninguém fica, embora muita gente tente. A natureza pede pelo aprendizado e pela evolução, e essa é uma de nossas tarefas na vida. Como os grandalhões dos Seals, temos que jogar o jogo com as armas e as circunstâncias que estão lá, à disposição. Isso elimina uma série de quandos: quando eu tiver aquele diploma, quando encontrar amor verdadeiro, quando entrar aquela grana que estou esperando. Já dizia Jesus: “Levanta-te e anda”. Mesmo que andar, sem dúvida, traga dor nos primeiros passos.
Existem entidades fantasma na Medicina que muito vem aumentando em frequência e importância, mas pela ausência de lesões anatômicas claras ficam numa espécie de limbo terapêutico. A Síndrome da Fadiga Crônica e a Fibromialgia estão entre essas entidades fantasmagóricas. As duas são na realidade muito parecidas e eu chego a arriscar que são na verdade a mesma doença, com nomes diferentes. As duas se caracterizam por um cansaço crônico e progressivo, dores generalizadas pelo corpo, tanto em grupos musculares como em articulações, uma sensação meio tóxica de desânimo e falta de iniciativa, com dificuldade para iniciar e manter tarefas ou mesmo qualquer tipo de movimento. Tudo parece convidar a pessoa a ficar parada no lugar com medo da dor, com medo de sair ou de se arriscar no mundo exterior. Um tratamento que começou a dar resultado nesses casos foi justamente fazer microtarefas físicas, como andar alguns metros dentro de casa, fazer alongamentos e mover pequenos pesos. Claro que essas microtarefas são cercadas de medo e da exacerbação das dores no início, e é esse começo difícil que precisa ser enfrentado para se criar um sistema de aprendizado muscular, mas, sobretudo, de um aprendizado cerebral de que aquele cansaço e aquela dor não são tão “reais” como possam parecer. Esse foi um grande insight para o tratamento dessa e de outras doenças que dependem do sistema de crenças entranhado nas redes neurais. Os portadores da Síndrome da Fadiga Crônica e da Fibromialgia tem uma impressão Central de que podem morrer de dor ou de cansaço se iniciarem qualquer tipo de movimento. Mudar esses pensamentos ajuda a mudar os sentimentos envolvidos. É bom lembrar que os sentimentos são profundos e entranhados, e que questioná-los de cara gera resistência de quem aprendeu, no decorrer de anos ou até décadas, a se enxergar como doente ou pautar sua identidade pela sensação de dor e limitação.
O trabalho das terapias, eu diria até, de todas as terapias que se pretendam curativas, é de desafiar esse sistema de crenças e estabelecer microtarefas e pequenos sucessos para contrapor ao medo e à paralisia. Nem todo mundo quer deixar esse lugar aquecido de que “sou doente e preciso de ajuda”. Mas o mundo está cada vez menos acolhedor para quem se ancora nessa posição. Uma das leis de Spinelli, talvez a 54 (os números são aleatórios), diz que na vida, ou vamos para frente ou vamos para trás. Parado ninguém fica, embora muita gente tente. A natureza pede pelo aprendizado e pela evolução, e essa é uma de nossas tarefas na vida. Como os grandalhões dos Seals, temos que jogar o jogo com as armas e as circunstâncias que estão lá, à disposição. Isso elimina uma série de quandos: quando eu tiver aquele diploma, quando encontrar amor verdadeiro, quando entrar aquela grana que estou esperando. Já dizia Jesus: “Levanta-te e anda”. Mesmo que andar, sem dúvida, traga dor nos primeiros passos.
sábado, 27 de agosto de 2016
Nise
Uma leitora desse blog, Luana, deu a dica que eu pedi no post de 24 de Julho. O episódio de House em que ele investiga uma professora de alunos especiais que é apaixonada pelo seu ofício e por seus alunos é “Big Baby”, o décimo terceiro episódio da quinta temporada. House imagina que o estado de imensa alegria da professora em contato com alunos tão irritantes pode ser um sintoma da doença que fez a moça tossir sangue dentro da sala, na frente de seus alunos queridos. O animado Kutner, um dos médicos da equipe, fica particularmente ofendido com a visão cínica e desapaixonada do Dr House, sempre pronto a desmascarar milagres ou atos de fé. A professora é torturada por toda sorte de procedimentos diagnósticos esdrúxulos e num deles fica numa banheira gelada para ver se vai ter uma parada cardíaca induzida pelo frio. Enquanto treme debaixo dos cubos de gelo, Kutner puxa assunto para distraí-la, ela começa a contar de um aluno que gostava de tocar em jornais. Não chegava a ler nenhum deles, mas tocava as folhas gostando da textura. Ela pensou que talvez pudesse criar o que se chama de Objeto Intermediário com Papel Maché, para criar um sistema de comunicação e ter acesso ao mundo interno do menino. Deu certo, e foi um longo encontro afetivo no meio do papel de jornal molhado. House fez cara de nojo, perguntando quanto tempo faltava para a Parada Cardíaca.
Eu não tinha conseguido ver o filme – “Nise: O Coração da Loucura” no cinema. Agora chegou em DVD e pude assistí-lo, finalmente. O filme fala sobre o trabalho pioneiro da psiquiatra Nise da Silveira no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, em meados do século passado. Quando Nise morreu, eu estava internado por uma Apendicite Supurada. Lembro de ter chorado muito, não pela sua morte em si, pois felizmente ela foi muito longeva e morreu pacificamente e cheia de aniversários para contar. O meu choro se deu pela nota curta do jornal que falava de seu trabalho pioneiro de recuperação dos pacientes através das artes como pintura e escultura, que deu origem ao Museu “Imagens do Inconsciente”, e da obra grandiosa dessa mulher, que em tudo estava à frente de seu tempo. Fiquei com pena de um país que dedicava tão pouca atenção à uma brasileira de tamanha envergadura e importância. Aquela psiquiatra e terapeuta espetacular mereceu apenas algumas poucas linhas de obituário. Agora, felizmente, está retratada em um filme.
Na época também tinha ocorrido um atentado em que um jovem estudante de Medicina disparou uma metralhadora num cinema. O rapaz era um paciente psiquiátrico e está preso até hoje. Foi uma triste sincronicidade a morte da mulher que ouviu a alma da doença mental armada de pinceis e tintas, com um rapaz vivendo em isolamento dentro de seus demônios, que ninguém conseguiu fazer pontes de papel maché para conseguir escutá-lo. Nise foi uma das introdutoras do pensamento de Carl Jung no Brasil, e levou ao mestre as pinturas de seus pacientes tidos como incuráveis. Jung ficou impressionado e grato com o trabalho da pequena grande psiquiatra brasileira, que coletou mais material que qualquer um de seus seguidores.
Nise, como a professorinha do episódio de House, encontrou um caminho para chegar na psique soterrada pela doença. Uma paciente querida me contou que, quando estava em estado catatônico, ouvia as vozes das pessoas longe, como se estivesse em outro planeta. Ela tentava responder ao que lhe falavam, mas sua voz não saía, como em nossos piores pesadelos. Ela lembrava de meus esforços para fazer contato e da tristeza de não conseguir responder. Mas acabamos achando o caminho. Ë disso que se trata todo gesto terapêutico, toda tentativa de tratamento: achar o caminho, restabelecer a comunicação, recuperar a capacidade do paciente de lidar com a sua doença e transformá-la em outra coisa. No caso dos loucos de Nise, transformaram a sua dor em arte. Jung chamaria isso de Função Transcendente.
Já escrevi em outro post que compaixão não é pena. Compaixão é se apaixonar junto. É conexão com o outro que sofre ou que ri. Nessa época em que as pessoas vivem com o nariz enterrado em seus celulares e que compaixão se mede pelo número de “Likes” nas redes sociais é um alento trazer as pessoas de volta para o bom e velho encontro presencial. Aquele que pavimentamos com camadas de lágrimas e de olhares atentos. E é um prazer lembrar de Nise da Silveira.
Eu não tinha conseguido ver o filme – “Nise: O Coração da Loucura” no cinema. Agora chegou em DVD e pude assistí-lo, finalmente. O filme fala sobre o trabalho pioneiro da psiquiatra Nise da Silveira no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, em meados do século passado. Quando Nise morreu, eu estava internado por uma Apendicite Supurada. Lembro de ter chorado muito, não pela sua morte em si, pois felizmente ela foi muito longeva e morreu pacificamente e cheia de aniversários para contar. O meu choro se deu pela nota curta do jornal que falava de seu trabalho pioneiro de recuperação dos pacientes através das artes como pintura e escultura, que deu origem ao Museu “Imagens do Inconsciente”, e da obra grandiosa dessa mulher, que em tudo estava à frente de seu tempo. Fiquei com pena de um país que dedicava tão pouca atenção à uma brasileira de tamanha envergadura e importância. Aquela psiquiatra e terapeuta espetacular mereceu apenas algumas poucas linhas de obituário. Agora, felizmente, está retratada em um filme.
Na época também tinha ocorrido um atentado em que um jovem estudante de Medicina disparou uma metralhadora num cinema. O rapaz era um paciente psiquiátrico e está preso até hoje. Foi uma triste sincronicidade a morte da mulher que ouviu a alma da doença mental armada de pinceis e tintas, com um rapaz vivendo em isolamento dentro de seus demônios, que ninguém conseguiu fazer pontes de papel maché para conseguir escutá-lo. Nise foi uma das introdutoras do pensamento de Carl Jung no Brasil, e levou ao mestre as pinturas de seus pacientes tidos como incuráveis. Jung ficou impressionado e grato com o trabalho da pequena grande psiquiatra brasileira, que coletou mais material que qualquer um de seus seguidores.
Nise, como a professorinha do episódio de House, encontrou um caminho para chegar na psique soterrada pela doença. Uma paciente querida me contou que, quando estava em estado catatônico, ouvia as vozes das pessoas longe, como se estivesse em outro planeta. Ela tentava responder ao que lhe falavam, mas sua voz não saía, como em nossos piores pesadelos. Ela lembrava de meus esforços para fazer contato e da tristeza de não conseguir responder. Mas acabamos achando o caminho. Ë disso que se trata todo gesto terapêutico, toda tentativa de tratamento: achar o caminho, restabelecer a comunicação, recuperar a capacidade do paciente de lidar com a sua doença e transformá-la em outra coisa. No caso dos loucos de Nise, transformaram a sua dor em arte. Jung chamaria isso de Função Transcendente.
Já escrevi em outro post que compaixão não é pena. Compaixão é se apaixonar junto. É conexão com o outro que sofre ou que ri. Nessa época em que as pessoas vivem com o nariz enterrado em seus celulares e que compaixão se mede pelo número de “Likes” nas redes sociais é um alento trazer as pessoas de volta para o bom e velho encontro presencial. Aquele que pavimentamos com camadas de lágrimas e de olhares atentos. E é um prazer lembrar de Nise da Silveira.
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