O menino segurava a mão de seu avô, no cenário chuvoso do funeral de sua mãe. Um cenário chuvoso é sempre mais adequado aos funerais. Pergunta ao seu avô, que era um Pediatra, por que não tinham conseguido tirar o tumor da cabeça de sua mãe. O avô explicou que o tumor estava espalhado e se interpenetrava nos tecidos do entorno, não dava para ser retirado. Não havia nada a fazer. O menino cresceu e virou um médico, com uma particular motivação em entender as situações em que, apesar de todos os conhecimentos e recursos, as vidas se vão e nada se pode fazer. Virou pesquisador não de Oncologia, mas de Choque Séptico, uma causa bastante importante de morte hospitalar, com o agravante de se dar algumas vezes de forma paradoxal, interrompendo uma curva de melhora clínica. Descobriu que essa entidade clínica, ao contrário do que se pensava quando me formei, está menos relacionada com atividade de bactérias resistentes ao tratamento do que a um estado de completo esgotamento do organismo em manter o próprio equilíbrio, gerando quedas abruptas de pressão arterial e parada cardíaca. Hoje está pesquisando as formas de evitar que esse estado de exaustão se estabeleça, antes que seja tarde. Como no romance de Mary Shelley, ele cria uma rixa com a Morte a partir da perda de sua mãe. Ao contrário do Dr Victor Frankenstein, ele não está criando monstros a partir de sua dor. Porque a dor pode criar monstros que nunca nos abandonam.
O Tao Te King, assim como o Taoísmo, usa um conceito muito difícil de apreensão pelas nossas mentes ocidentais, que é o Wu Wei, a “Ação pela Não Ação”. Conceito bem difícil para a Medicina. Tratamos a doença e a morte como predadores à espreita. Temos que antecipar seus ataques. Muito estrago se faz a partir dessa fantasia: procedimentos invasivos, caros, condutas e atitudes proativas que podem gerar outras complicações. Pois se toda ação gera uma reação, o que fazer pelo poder da Não Ação? A hora de maior aflição, que é a hora em que não se sabe mais o que fazer, talvez seja a hora de esperar na Não Ação?
O que eu consigo entender sobre a Não Ação é que ela não significa simplesmente cruzar os braços ou deitar as armas. Significa aquele momento de silêncio em que nada há a fazer senão esperar. Mas esperar à espreita; à espreita de algo que vá se manifestar. No filme Apollo 13, entrevistam a mãe de Jim Lovell, supostamente demenciada, sobre seu filho, preso dentro de uma espaçonave entre a Terra e a Lua. Ela se recorda de um episódio em que seu filho voava sobre a costa do Pacífico e seu jato teve uma pane elétrica. Jim perdeu todos os instrumentos de navegação e passou a voar às cegas, no meio da noite do outro lado do mundo. Em vez de se desesperar, o piloto entrou em perfeito Wu Wei, e esperou no meio do silêncio e do escuro, que parecia mortal, o que viria em seu auxílio. Foi quando notou que a Lua se refletia nas algas da costa, fazendo um rastro prateado. Isso serviu para a sua orientação e ele seguiu aquele rastro até achar as luzes das cidades e o caminho para a sua pista. Podemos chamar isso de sorte, ou de Mistério. Fica ao gosto do leitor. A velha senhora resumiu o que foi o resgate de seu filho: pode ser que ele não tenha achado um jeito ainda, mas vai achar.
Herdei de Jung (e Jung herdou do Taoísmo) o gosto pela ação médica que restaura o equilíbrio. A Ação delicada e, em algumas situações, a Ação pela Não Ação. Não que seja fácil e, muitas vezes, o terapeuta é confinado à Não Ação pela Defesa do próprio paciente. Acho que, como o colega cuja história descrevi acima, também tive uma pendenga com a Morte quando vi meu avô se esvaindo num Cãncer de Esôfago, lá pelos idos dos anos setenta. Não gosto das situações onde não há nada a fazer, mas imagino, como o piloto que perdeu os seus aparelhos, que sempre vai acontecer algo se eu esperar no Silêncio.
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domingo, 9 de julho de 2017
domingo, 5 de março de 2017
Paz Guerreira
Fiz uma certa questão de escrever sobre os tipos de Personalidade no último post para posicionar melhor o ponto de vista deste escriba que assina o blog. Para quem chegou agora e não quer ler o post anterior, há uma antiga classificação de tipos de Personalidade que divide as pessoas em três grupos: tipo A, B e C. Os tipo A são pessoas mais adrenadas, autoexigentes e perfeccionistas, apegadas a sucesso e aquisições. Tendem a valorizar mais as tarefas do que as pessoas. Os tipos C são pessoas mais passivas e dependentes, que tendem a seguir, não liderar, e muitas vezes tem dificuldades em manifestar ou lutar por suas vontades e desejos. São mais focadas em pessoas e cuidados, menos obcecadas por resultados. Borges escreveu em um texto que já publiquei aqui: “Bem aventurados os ricos sem arrogância e os pobres sem ressentimentos”. Estava falando da doença dos tipos A, que é a arrogância e o desprezo pelo Outro, ou mesmo do humano. Falava também da doença dos tipos C é o ressentimento e a inveja, sobretudo atribuir o sucesso alheio a roubo, trapaça, sorte. Os tipos B teriam características dos outros dois tipos. São mais equilibrados e podem usar as características positivas (ou negativas) dos outros tipos. Como o pensamento Junguiano entende que a saúde está no equilíbrio e não nos excessos, então buscamos, interna e externamente, ser mais B do que A ou C. Mas antes de tudo, que cada um seja o que é, ou que consegue ser.
Escrevo sobre isso porque quem ler atentamente os quase 600 posts desse blog vai achar o autor meio esquizofrênico, capaz de defender apaixonadamente posições tipo A ou tipo C, algumas vezes na mesma semana. Em outros posts, espero que os mais frequentes, a busca é sempre pelo equilíbrio e a união das tendências. A Alquimia chamava isso de “Coincidência de Opostos”; por exemplo no termo “Paz Guerreira”. Tem um TEDx no Youtube que a moça propõe um “Egoísmo Altruísta”. Não assisti à aula mas gostei da ideia. Tem a ver com a Coincidência, depois a União dos Opostos. Diziam os alquimistas que só podemos juntar o que podemos separar. Essa é uma tarefa dos terapeutas e da vida: buscar sempre o equilíbrio. Tentamos modular os excessos dos tipo A, ativar e acelerar os tipos C, ou tornar os tipo B mais completos. Uma das questões com relação às terapias é enfrentar uma das frases do Dr House: “People don’t change”, ou, em tradução livre: “As pessoas não mudam”. Isso quer dizer que as pessoas tem uma constituição, uma estrutura de personalidade que se mantém estáveis durante a vida. Tenho dois filhos e uma cachorrinha, e todos tem características de personalidade e temperamento que já apresentavam quando eram bebês. Isso não significa que não tenham que aprender ou desenvolver outras habilidades e trabalhar seus pontos fracos, mas a personalidade se estabelece de forma estrutural e muda a sua estrutura em situações limite, como tragédias ou lavagem cerebral (que ainda não tentamos, mas dá vontade às vezes).
Acho pessoalmente que vivemos uma época em que a Cultura estimula e premia os tipos A, mas cria diariamente milhões e milhões de tipos C, pessoas anestesiadas e paralisadas diante da vida e das telas de computadores, ou afogadas em mídias sociais que lhe subtraem a experiência do Real. O tipo C mais prevalente e perigoso é uma doença da modernidade, a alienação de Si e do Outro. Se alguém disser que o autor puxa mais a brasa para a sardinha do A do que do C, também estaria certo.
Sendo qual for o tipo de Personalidade, que o Taoísmo chama de Yin e Yang, os tipos A tem prevalência de Yang e C de Yin. Seja qual for a predominância de seu tipo, a busca é do equilíbrio das tendências e a participação no jogo da Vida. Talvez esse seja o grande tema desse blog, em tantos temas e textos diferentes.
Escrevo sobre isso porque quem ler atentamente os quase 600 posts desse blog vai achar o autor meio esquizofrênico, capaz de defender apaixonadamente posições tipo A ou tipo C, algumas vezes na mesma semana. Em outros posts, espero que os mais frequentes, a busca é sempre pelo equilíbrio e a união das tendências. A Alquimia chamava isso de “Coincidência de Opostos”; por exemplo no termo “Paz Guerreira”. Tem um TEDx no Youtube que a moça propõe um “Egoísmo Altruísta”. Não assisti à aula mas gostei da ideia. Tem a ver com a Coincidência, depois a União dos Opostos. Diziam os alquimistas que só podemos juntar o que podemos separar. Essa é uma tarefa dos terapeutas e da vida: buscar sempre o equilíbrio. Tentamos modular os excessos dos tipo A, ativar e acelerar os tipos C, ou tornar os tipo B mais completos. Uma das questões com relação às terapias é enfrentar uma das frases do Dr House: “People don’t change”, ou, em tradução livre: “As pessoas não mudam”. Isso quer dizer que as pessoas tem uma constituição, uma estrutura de personalidade que se mantém estáveis durante a vida. Tenho dois filhos e uma cachorrinha, e todos tem características de personalidade e temperamento que já apresentavam quando eram bebês. Isso não significa que não tenham que aprender ou desenvolver outras habilidades e trabalhar seus pontos fracos, mas a personalidade se estabelece de forma estrutural e muda a sua estrutura em situações limite, como tragédias ou lavagem cerebral (que ainda não tentamos, mas dá vontade às vezes).
Acho pessoalmente que vivemos uma época em que a Cultura estimula e premia os tipos A, mas cria diariamente milhões e milhões de tipos C, pessoas anestesiadas e paralisadas diante da vida e das telas de computadores, ou afogadas em mídias sociais que lhe subtraem a experiência do Real. O tipo C mais prevalente e perigoso é uma doença da modernidade, a alienação de Si e do Outro. Se alguém disser que o autor puxa mais a brasa para a sardinha do A do que do C, também estaria certo.
Sendo qual for o tipo de Personalidade, que o Taoísmo chama de Yin e Yang, os tipos A tem prevalência de Yang e C de Yin. Seja qual for a predominância de seu tipo, a busca é do equilíbrio das tendências e a participação no jogo da Vida. Talvez esse seja o grande tema desse blog, em tantos temas e textos diferentes.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Uma Casa, Muitas Moradas
Tem um velho conto taoísta que eu gosto muito. Havia um mestre que recebia visitantes de todo mundo procurando por sua sabedoria. Era acompanhado por um fiel ajudante, que não conseguia evitar de ouvir algumas de suas conversas. Um belo dia ele foi consultado por três homens diferentes, que fizeram a mesma pergunta. Para um ele respondeu sim, para o segundo, não, para o terceiro, talvez. O seu fiel ajudante não aguentou e perguntou, finalmente, como podia dar tantas respostas diferentes para a mesma pergunta. O mestre, inabalável, falou que a resposta era menos importante do que o perguntador: o primeiro deveria seguir o caminho afirmativo, o segundo o caminho negativo, o terceiro o caminho da dúvida. Essa história está no livro “Psicoterapia e Taoísmo”. Gosto muito dela, por diversos motivos. Um deles é a causa da dificuldade de se replicar cientificamente uma Psicoterapia de base analítica. A mesma questão pode ter uma resposta positiva, negativa ou de mais dúvida, para pessoas diferentes.
Essa pequena parábola também fala da diversidade de métodos. Dentro das Psicoterapias temos também os que optam pelo caminho do Positivo, do Negativo e da Dúvida. É claro que hoje o mais popular é o da Psicologia Positiva: desde os gurus de autoajuda até os terapeutas cognitivos, todos querem enfiar alguma idéia positiva na sua cabeça. E funciona? Com certeza, funciona. Nos anos 90 eu tinha um consultório no Itaim, com uma equipe muito legal de funcionários. Tinha um deles, o Toninho, que era um rapaz bacana, bem apessoado, mas sempre mal humorado, macambúzio, que vira e mexe soltava alguma frase do tipo: comigo acontece de tudo. E acontecia, mesmo. Um dia o prédio foi assaltado, e quem levou a coronhada? O Toninho. O elevador quebrava com quem dentro? Ele mesmo. Toninho se converteu, passou a louvar o Criador e a vida, namorou e casou. Deixou de ser um chato pessimista e passou a ser um chato otimista, erguendo louvores e pregando no elevador. Foi um bom negócio? Foi. As coisas melhoraram para ele, mas não para quem subia no elevador.
A Psicologia da Dúvida é mais difícil e cada vez menos popular. Implica em se fazer perguntas que abram novos caminhos. Eu gosto mais dessa. Ela parte do princípio que o único jeito de continuar crescendo é fazendo perguntas, levantando questões, ampliando consciências. Isso tem o seu custo, o principal é a própria dúvida. Tem também uma doença, que é a dúvida estéril, que é o duvidar pelo gosto de duvidar. Ainda assim, vale a pena.
A Psicologia Negativa pode ser creditada ao Materialismo, por exemplo. Não existe nada que não seja a matéria, não há continuidade da do Ser depois da morte, tudo é regido pelo acaso e pelas leis da Matéria. Mas não fica só nisso, não. O Zen Budismo é uma forma de Psicologia Negativa. Negativa não significa ruim, ou pessimista, como o nome sugere. Pode até acontecer da Psicologia Negativa cair na Negação de tudo, o que desemboca na questão do suicídio. Albert Camus, escritor e filósofo, dizia que a única questão filosófica importante é o suicídio. O século passado foi dedicado a essa sensação do Negativo como falta de sentido, e os consultórios estão sempre cheios de quem sofre no meio da Dúvida e da Negação. Mas pode ser que, se mergulharmos bem profundamente no Vazio, vamos encontrar o coração das coisas, onde existe o Riso.
Talvez não exista no mundo nenhum purista nesses caminhos. Podemos seguir o caminho do Positivo para muitas coisas, o da Dúvida para tantas outras e do Negativo quando desistimos de tudo. Jesus disse que a casa do Pai tem muitas moradas. E muitos caminhos.
Essa pequena parábola também fala da diversidade de métodos. Dentro das Psicoterapias temos também os que optam pelo caminho do Positivo, do Negativo e da Dúvida. É claro que hoje o mais popular é o da Psicologia Positiva: desde os gurus de autoajuda até os terapeutas cognitivos, todos querem enfiar alguma idéia positiva na sua cabeça. E funciona? Com certeza, funciona. Nos anos 90 eu tinha um consultório no Itaim, com uma equipe muito legal de funcionários. Tinha um deles, o Toninho, que era um rapaz bacana, bem apessoado, mas sempre mal humorado, macambúzio, que vira e mexe soltava alguma frase do tipo: comigo acontece de tudo. E acontecia, mesmo. Um dia o prédio foi assaltado, e quem levou a coronhada? O Toninho. O elevador quebrava com quem dentro? Ele mesmo. Toninho se converteu, passou a louvar o Criador e a vida, namorou e casou. Deixou de ser um chato pessimista e passou a ser um chato otimista, erguendo louvores e pregando no elevador. Foi um bom negócio? Foi. As coisas melhoraram para ele, mas não para quem subia no elevador.
A Psicologia da Dúvida é mais difícil e cada vez menos popular. Implica em se fazer perguntas que abram novos caminhos. Eu gosto mais dessa. Ela parte do princípio que o único jeito de continuar crescendo é fazendo perguntas, levantando questões, ampliando consciências. Isso tem o seu custo, o principal é a própria dúvida. Tem também uma doença, que é a dúvida estéril, que é o duvidar pelo gosto de duvidar. Ainda assim, vale a pena.
A Psicologia Negativa pode ser creditada ao Materialismo, por exemplo. Não existe nada que não seja a matéria, não há continuidade da do Ser depois da morte, tudo é regido pelo acaso e pelas leis da Matéria. Mas não fica só nisso, não. O Zen Budismo é uma forma de Psicologia Negativa. Negativa não significa ruim, ou pessimista, como o nome sugere. Pode até acontecer da Psicologia Negativa cair na Negação de tudo, o que desemboca na questão do suicídio. Albert Camus, escritor e filósofo, dizia que a única questão filosófica importante é o suicídio. O século passado foi dedicado a essa sensação do Negativo como falta de sentido, e os consultórios estão sempre cheios de quem sofre no meio da Dúvida e da Negação. Mas pode ser que, se mergulharmos bem profundamente no Vazio, vamos encontrar o coração das coisas, onde existe o Riso.
Talvez não exista no mundo nenhum purista nesses caminhos. Podemos seguir o caminho do Positivo para muitas coisas, o da Dúvida para tantas outras e do Negativo quando desistimos de tudo. Jesus disse que a casa do Pai tem muitas moradas. E muitos caminhos.
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