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domingo, 12 de março de 2017

Meu Coração Está Com Pressa

Sei muito pouca coisa sobre a Cabala, uma delas é que, ao lado da Árvore da Vida há duas colunas: de um lado a Misericórdia, de outro o Rigor. A vida precisa dos dois princípios para evoluir, talvez por isso a Árvore da Vida fique exatamente no meio desses dois pilares. Não é fácil equilibrá-los, mas é mais difícil transformar quem sofre de excesso de Misericórdia do que de excesso de Rigor. As pessoas que se cristalizam na posição de dependência e autopiedade são muito difíceis de se mover do lugar. As pessoas que sofrem pelo perfeccionismo e autoexigência conseguem aprender a relativizar a própria dureza. Quem vive da própria moleza tem mais dificuldade de mudar de tendência.
Edward Edinger descreveu em um livro memorável o sonho de um paciente seu, que tratava de um mundo apocalíptico: o mundo tinha acabado e iria começar de novo. O paciente estava entre as pessoas que iriam herdar o mundo. Essas pessoas eram examinadas e só as pessoas com Pressão um pouco alta seriam escolhidas. As pessoas com Pressão muito alta ou muito baixa pereceriam.
Esse é um tipo de sonho que é maior do que as questões pessoais do paciente. São chamados sonhos arquetípicos ou coletivos, sonhos que trazem uma mensagem universal, sobre algo que afeta a mente do planeta. Parece um complemento do Apocalipse de São João, e certamente não foi descrito por um médico, senão só restariam na Terra as pessoas com níveis pressóricos e exames normais. No sonho em questão, as pessoas um pouco mais Yang sobreviveriam ao fim do mundo. Voltando aos posts anteriores, os tipos A e C radicais são sobreviveriam. Sobrariam os tipos B+, isto é, os tipos equilibrados, mas com um pouco mais de pimenta, ou de força. Uma ligeira pendência para o lado do Rigor, pode-se assim dizer.
Hoje em dia vemos uma multiplicação de cursos e técnicas de Meditação. Para nosso mundo com excesso de atividade mental, o relaxamento e a capacidade da Mente observar a si mesma e modular sua resposta afetiva parece um bom refresco. Observando o Ego medroso, podemos ampliar a Consciência e apaziguar a “Monkey Mind”, a mente que fica macaqueando preocupações, planos, apegos, desespero nesse infinito blá-bla-blá interior. Só há um problema: as pessoas tem uma imensa dificuldade em esfriar o sistema e observar a mente de macaco pulando de galho em galho. Muita gente reclama que meditar é muito chato e muito sem propósito. Nossas mentes ocidentais foram criadas para fazer tudo com um método e um objetivo. Sair disso é ficar no Vazio, e não gostamos de Vazio. Como nas academias a Yoga virou a Power Yoga, também gostaria de criar a Power Mindfulness, estados de Meditação mais intensificados e dinâmicos. Uma ferramenta para isso é a Respiração , que pode ampliar o Arousal, isto é, a capacidade de se estar ligado, com o giro alto, para estar presente em tudo, com um pouco mais de intensidade. Um jeito de estar presente com uma exclamação.
Tenho a impressão que o sonho do paciente de Edinger, que deve ter sido relatado nos anos sessenta, ainda fala muito sobre o nosso tempo. Quem é estressado demais e de menos está adoecendo. É preciso um pouco de Pressão, mas uma pressão equilibrada pela Atenção Plena.
Na entrega do Oscar, o cara que devia entregar o envelope com o melhor filme ficou muito ocupado tirando selfies e tuitando, o que gerou a entrega do envelope errado e o maior vexame da história da premiação. Uma desatenção que gerou um prejuízo para a sua empresa de alguns milhões de dólares, além dos danos irreparáveis em sua imagem. Vivemos num mundo de distraídos e autoindulgentes, que eu chamo nesse blog de Civilização Autoestima. Estamos atolados no pilar da Misericórdia, ou da Permissividade, e é por isso que graçam as seitas e os fundamentalistas querendo salvar o mundo com bombas e tiros.
Precisamos de Atenção e Rigor, para cuidar da Vida e do mundo ameaçado com o desequilíbrio.
Pode causar algum estranhamento aos leitores desse blog essa afirmação. Estou ok com isso. Precisamos de Atenção, de Intensidade e de Propósito. Dizia Renato Russo: “Meu coração está com pressa/Quando a Esperança anda dispersa/ Só a Verdade é que liberta/ Chega de maldade e ilusão”. Como dizia o poeta, venha que o que vem é Perfeição.

domingo, 5 de março de 2017

Paz Guerreira

Fiz uma certa questão de escrever sobre os tipos de Personalidade no último post para posicionar melhor o ponto de vista deste escriba que assina o blog. Para quem chegou agora e não quer ler o post anterior, há uma antiga classificação de tipos de Personalidade que divide as pessoas em três grupos: tipo A, B e C. Os tipo A são pessoas mais adrenadas, autoexigentes e perfeccionistas, apegadas a sucesso e aquisições. Tendem a valorizar mais as tarefas do que as pessoas. Os tipos C são pessoas mais passivas e dependentes, que tendem a seguir, não liderar, e muitas vezes tem dificuldades em manifestar ou lutar por suas vontades e desejos. São mais focadas em pessoas e cuidados, menos obcecadas por resultados. Borges escreveu em um texto que já publiquei aqui: “Bem aventurados os ricos sem arrogância e os pobres sem ressentimentos”. Estava falando da doença dos tipos A, que é a arrogância e o desprezo pelo Outro, ou mesmo do humano. Falava também da doença dos tipos C é o ressentimento e a inveja, sobretudo atribuir o sucesso alheio a roubo, trapaça, sorte. Os tipos B teriam características dos outros dois tipos. São mais equilibrados e podem usar as características positivas (ou negativas) dos outros tipos. Como o pensamento Junguiano entende que a saúde está no equilíbrio e não nos excessos, então buscamos, interna e externamente, ser mais B do que A ou C. Mas antes de tudo, que cada um seja o que é, ou que consegue ser.
Escrevo sobre isso porque quem ler atentamente os quase 600 posts desse blog vai achar o autor meio esquizofrênico, capaz de defender apaixonadamente posições tipo A ou tipo C, algumas vezes na mesma semana. Em outros posts, espero que os mais frequentes, a busca é sempre pelo equilíbrio e a união das tendências. A Alquimia chamava isso de “Coincidência de Opostos”; por exemplo no termo “Paz Guerreira”. Tem um TEDx no Youtube que a moça propõe um “Egoísmo Altruísta”. Não assisti à aula mas gostei da ideia. Tem a ver com a Coincidência, depois a União dos Opostos. Diziam os alquimistas que só podemos juntar o que podemos separar. Essa é uma tarefa dos terapeutas e da vida: buscar sempre o equilíbrio. Tentamos modular os excessos dos tipo A, ativar e acelerar os tipos C, ou tornar os tipo B mais completos. Uma das questões com relação às terapias é enfrentar uma das frases do Dr House: “People don’t change”, ou, em tradução livre: “As pessoas não mudam”. Isso quer dizer que as pessoas tem uma constituição, uma estrutura de personalidade que se mantém estáveis durante a vida. Tenho dois filhos e uma cachorrinha, e todos tem características de personalidade e temperamento que já apresentavam quando eram bebês. Isso não significa que não tenham que aprender ou desenvolver outras habilidades e trabalhar seus pontos fracos, mas a personalidade se estabelece de forma estrutural e muda a sua estrutura em situações limite, como tragédias ou lavagem cerebral (que ainda não tentamos, mas dá vontade às vezes).
Acho pessoalmente que vivemos uma época em que a Cultura estimula e premia os tipos A, mas cria diariamente milhões e milhões de tipos C, pessoas anestesiadas e paralisadas diante da vida e das telas de computadores, ou afogadas em mídias sociais que lhe subtraem a experiência do Real. O tipo C mais prevalente e perigoso é uma doença da modernidade, a alienação de Si e do Outro. Se alguém disser que o autor puxa mais a brasa para a sardinha do A do que do C, também estaria certo.
Sendo qual for o tipo de Personalidade, que o Taoísmo chama de Yin e Yang, os tipos A tem prevalência de Yang e C de Yin. Seja qual for a predominância de seu tipo, a busca é do equilíbrio das tendências e a participação no jogo da Vida. Talvez esse seja o grande tema desse blog, em tantos temas e textos diferentes.